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Continuação da leitura da carta escrita (minha postagem de 22-04-2014 ) (1) pelo capitão Joseph Fry, oficial do barco «Plymouth» quando esteve em Macau , Abril de 1853, para a esposa.
Nós éramos assaltados por tantas com estes gritos, e o clamor era tal, que, para nos defendermos, tivemos  de escolher um barco e partir. As raparigas, mencionadas em primeiro lugar, devido à sua beleza, ganharam a maioria, e o seu barco era limpo e bem equipado, e isto vai além do que se podia dizer de muitos deles. Notei o olhar de desapontamento que passou pelas faces da rapariga que acabo de descrever, o qual me persegue ainda agora. Se bem que pareçam ninharias para nós, estas cenas constituem grandes acontecimentos nas suas pobres existências, e estes triunfos ou derrotas são para elas de grande importância.
Depois de entrar no barco tanká, (2) notámos que a mãe destas raparigas e a criança estavam tipicamente vestidas. A criança era filha da mais bonita das raparigas, cujo marido andava ausente na faina da pesca. A velha era muito palradora e deu-nos de facto muitas notícias!.

CHINNERY Sampana com tancareira 1834Sampana (com tancareiras)
Aguarela sobre papel de George Chinnery (1834)

Tinham um templo em miniatura na proa do barco, com um ídolo sentado, de pernas cruzadas, mostrando-se muito gordo, muito vermelho e muito estúpido. Diante dele havia uma oferta de dois pêssegos, mas o ídolo não se dignava olhar para eles e parece que não tinha apetite. No entanto, senti um profundo respeito para com os sentimentos devotos destes pobres idólatras, reconhecendo ainda aqui o instinto universal que ensina que há Deus.

CHINNERY Tancareira num barco 1830Tancareira num barco
Desenho a lápis sobre papel de George Chinnery (1830)

Visitei o comodoro, que me recebeu com grande cortesia e me deu um relato interessante da viagem, via das Ilhas Maurícias, do «Susquehanna”, (3) para cujo serviço eu recebi a minha primeira nomeação. Ele (o navio) partiu para Amoy.
Conheci uma família portuguesa, chamada Lurero (4). As raparigas tinham uma educação completa, falando francês, espanhol, italiano, mas não o inglês. Elas desceram para receber a visita do nosso cônsul (5) e esposa, que foram a casa delas quando eu ali estava. O sr. Lurero deu-me alguns exemplares de soap-fruit (fruta-sabão) (6) e mostrou-me  a árvore. O fruto é um sabão magnífico, que, sem preparação alguma, é usado para os artigos mais elegantes.” (7)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/04/22/noticia-de-22-de-abril-de-1853-o-plymouth-em-macau/
(2) Tanká ( 蛋  家mandarim pinyin: dàn jiá; cantonense jyutping: daan2 gaat1 – casa do ovo), também chamado “t´eang-chai”, é uma pequena embarcação, comum nos portos da China, pelo menos no Sul e muito usada em Macau, no transporte de passageiros dentro do porto. Quase sempre tripulada por mulheres a que em Macau chamam «tancareiras»
(3)O “Susquehanna” era o navio principal da expedição diplomática  americana à China por indicação do Comodoro Matthew C. Perry (comandante das expedições ao Japão entre 1852 e 1954) que esteve em Macau e Hong Kong de 4 a 17 de Abril) a bordo da fragata “Mississipi“. Os outros navios da expedição à China foram o “Plymouth” (onde estava Joseph Fry),  o “Saratoga” e o “Supply” (navio de abastecimento).
(4) Segundo Padre Teixeira, tratava-se de Pedro José da Silva Loureiro, capitão do porto de Macau desde 1847 até à sua morte ocorrida a 12-09-1855. Casou com Ana Rosa Inocência de Almeida  (neta paterna do Barão de S. José de Porto Alegre e materna do Conselheiro Manuel Pereira e Ana Pereira Viana. Pedro Loureiro teve de Ana de Almeida 10 filhos.
Nesse tempo o francês prevalecia sobre o inglês, que pouca gente aprendia; por isso as filhas de Pedro Loureiro, conheciam a primeira, mas não a segunda língua.”
Foi sob a direcção de Pedro Loureiro que foi construído em 1847 o forte na Taipa sendo ele louvado, em 14-01-1848, pelo Governador João Maria Ferreira do Amaral.(7)
(5) Robert P. De Silver era o  Vice-cônsul dos E. U. A. em Macau, nesse ano.
(6) É a árvore sapindus , em chinês môk wan sue (木患樹) , árvore que atinge até 15 e 18 metros de altura; fácil de identificar pelos seus frutos: uma drupa carnuda, oleosa, quase transparente, com um ou dois carpelos na base, dando ao fruto um aspecto assimétrico.. Os chineses empregavam o fruto como sabão para a lavagem da seda preta, devido à grande percentagem da saponina contida na polpa oleosa.(7)
木 患樹mandarim pīnyīn: mù huàn shù; cantonense jyutping: muk6 waan6 syu6.
Sapindus” derivado do latim que significa “sapo” = sabão e “indicus” = índia
Joseph Fry . Plymouth(7) Transcrito das pp. 45-46 de TEIXEIRA, P. Manuel – Macau Através dos Séculos. Macau, 1977.
Para quem estiver interessado poderá ler o original em inglês ” Life of Captain Joseph Fry – The Cuban Martyr” em
http://www.latinamericanstudies.org/book/Joseph_Fry.pdf

Carta do Capitão Joseph Fry, oficial do barco «Plymouth» (1) para a esposa, datada de Abril de 1853.

Chegámos aqui no dia 22 e despachámos imediatamente um barco para a praia par a as cartas. Recebi três ou quatro daquelas lindas e largas cartas, que são a inveja de todos os que as vêem, e que se distinguem logo pelo seu tamanho e pelo belo estilo com que são escritas. E agora, quanto a Macau, e o que é que vi, senti e fiz. Sabes provavelmente que uma população chinesa muito numerosa vive inteiramente nos barcos; alguns destes são tão pequeno as que nós temos dó dos pobres infelizes que vivem assim. Eles nascem, crescem, casam e criam os filhos nestes barcos. Ficarias admirada ao ver as mães com as crianças ao peito (2), manobrando as velas, os remos e o leme do barco com tanta perícia como qualquer marinheiro.

Joseph Fryhttp://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e6/Joseph_Fry.jpg

O tanká (3) é de calado muito leve e como só ele se pode aproximar da praia, é usado para transportar os passageiros dos barcos maiores. Quando nos aproximámos da praia, vimos que vários barcos pequenos se dirigiam a nós de todas as direcções. Logo a seguir, um barco, “manobrado” por duas raparigas realmente bonitas puxando os remos e uma terceira gingando, chegaram junto ao nosso, berrando insistentemente: «takee me boat!» «Takee me boat!». Tinham lindos dentes, brancos como marfim, olhos brilhantes, e as suas lindas faces, tão ansiosas e suplicantes, rasgaram-se em sorrisos quando lhes demos preferência, sobre outros que chegavam de todos os lados até nós, encostando-se aos lados do nosso grande barco e impedindo o nosso avanço. Os barqueiros procuravam afastá-los, mas em vão. Um bruto dum marinheiro encharcou várias vezes com água uma pobre rapariga, que, se bem que não bonita de todo, tinha um olhar tão profundo e uma expressão tão triste nos olhos e na face que me encantaram totalmente. Teria sido interessante para qualquer pessoa ouvir como ela resmungava e ver o flamejar dos seus olhos e a expressão vivida de cada uma das suas feições. Quando eu mostrei um rosto severo ao marinheiro, a mudança súbita da face dela da cólera para o sorriso, o ansioso clamor de «takee me boat», quando ela notou a minha simpatia, era bela…
……………………………………………………………………continua

NOTA: O Capitão Joseph Fry, graduado da Academia Naval americana, chefiava o «Plymouth» (4) navio integrado no esquadrão americano do Comodoro Matthew C. Perry, na sua primeira viagem para o Japão, em Julho de 1853.
Em Outubro de 1873 assume o comando navio «Virginius», sendo posteriormente executado pelos espanhóis, em Cuba, em 1873, acusado de contrabando de armas para os rebeldes cubanos (sobre este episódio diplomático – controle de Cuba – ocorrido de 1873 a 1875, entre ingleses, americanos e espanhóis, consultar:
http://en.wikipedia.org/wiki/Virginius_Affair
Não sabemos quantos dias esteve em Macau. O «Plymouth» partiu, via Hong Kong, para Amoy onde Joseph Fry escreve a próxima carta, datada de 22 de Junho.

(1) WALKER, Jeanie Mort – The Life of Captain Joseph Fry , The Cuban Martyr, 1875
Poderá consultar este livro em
http://www.latinamericanstudies.org/book/Joseph_Fry.pdf
(2) Segundo Padre Teixeira, “As chinesas não levam as crianças ao peito, mas às costas”
TEIXEIRA, P. Manuel – Macau Através dos Séculos. Macau, Imprensa Nacional, 1977, 87 p.
(3) Tanká (   mandarim pinyin dàn jiá; cantonense jyutping: daan2 gaat1 – casa do ovo), também chamado t´´eang-chai”, é uma pequena embarcação, comum nos portos da China, pelo menos no Sul e muito usada em Macau, no transporte de passageiros dentro do porto. Quase sempre tripulada por mulheres a que em Macau chamam «tancareiras».
Plymouth 1853

(4) «USS Plymouth» (1844) foi um navio de guerra (em inglês «sloop of war» – navio com os canhões dum lado do navio) construído em 1843, em Boston. Armada com 22 canhões e 450 homens , integrou a expedição do Comodoro Matthey C. Perry ao Japão – tentativa de forçar o Japão a abrir os portos ao comércio internacional. Ardeu em Abril de 1861 no porto de Norfolk.

http://en.wikipedia.org/wiki/USS_Plymouth_(1844)
http://www.baxleystamps.com/litho/ships.shtml