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Após prolongado sofrimento que o trazia prostrado no leito há mais dum ano, faleceu, na sua residência n.º 71 da Rua da Praia Grande, vitimado por uma tuberculose pulmonar, no dia 6 do corrente, o Sr. Leôncio Alfredo Ferreira, com 69 anos de idade. O funeral realizou-se no dia seguinte, às 17 e meia horas”.(1)

Nascido em Macau a 15 de Maio de 1849, era filho de D. Maria Gualdina Gonçalves, natural de Macau, e de João Eleutério Ferreira, nascido em Portugal. (2) Fez os seus estudos na «Escola Macaense» e transitou para o Seminário de S. José, onde foi sempre aluno distintíssimo, distinguindo-se em todo o seu curso pela sua aplicação, aproveitamento e comportamento exemplar, ganhando inúmeros prémios e referências elogiosas da imprensa.

Terminado no Seminário de S. José, o seu curso com distinção, dirigiu-se para Goa a fim de estudar Jurisprudência, regressando a Macau depois de formado. Estudioso apaixonado da língua chinesa, conhecedor profundo da mentalidade e psicologia dos chineses, revelou-se não só um valoroso intérprete mas mais especialmente um medianeiro inteligente nas relações destes como nosso governo.

Casou na Sé Catedral de Macau em 27 de Setembro de 1881, com Maria José Pereira (1861-?). Segunda núpcias, em 20 de Dezembro de 1894, com sua tia por afinidade Ana Teresa Vieira Ribeiro (condessa viúva de de Senna Fernandes). Não deixou filhos.

Além de advogado de provisão, professor da Escola Municipal e jornalista, (3) desempenhou os altos cargos públicos, com distinção e aprumo moral que eram o timbre do seu carácter integérrimo, enumerando aqui alguns dos cargos: pela Portaria n.º 82 de 20 de Julho de 1825, foi nomeado Secretário da Comissão Administrativa da Santa Casa de Misericórdia; pela Portaria n.º 106, de 8 de Novembro de 1875, foi nomeado Delegado interino da Comarca de Macau de que, porem, se escusou, em 5 de Julho de 1876

«BPMT», XXII-28 de 8 de Julho de 1876, p. 114

Comentando este caso alguém escreveu no «Jornal de Macau» n.º 29 de 24 de Novembro de 1875: “O Senhor Leôncio Ferreira que exerceu com zello e intelligencia o lugar de procurador da coroa, d´esta vez entendeu que não devia aceitar semelhante cargo porque não quer aferir pela balança por onde são pezados os membros da exma. Junta, que estão no equilíbrio das ilegalidades, em quanto se não justificarem das acusações que lhe hão feito” (1)

Pela Portaria n.º 97, de 23 de Dezembro de 1876, foi nomeado Administrador interino do Concelho de Macau, cargo que anteriormente já vinha desempenhando; em 23 de Setembro de 1879 foi nomeado pela Portaria n.º 118, administrador efectivo.

«BPMT», XXII-52 de 23 de Dezembro de 1876

Pela Portaria n.º 67 de 27 de Julho de 1877, foi exonerado do cargo de secretário da Comissão Administrativa da Santa Casa sendo nomeado Pedro Nolasco da Silva para o substituir (Portaria n.º 75 de 3 de Agosto de 1877); pela Portaria n.º 53 de 14 de Agosto de 1878, foi nomeado Procurador interino dos Negócios Sínicos. Exonerado em Setembro de 1879, para tomar posse, em 23 de Setembro, (Portaria n.º 118) do cargo de Administrador efectivo do Concelho de Macau. (até 1881). (4)

No dia 17 de Maio de 1881, António Joaquim Bastos Junior foi demitido do cargo do procurador dos negócios sínicos, para que havia sido interinamente nomeado por portaria n.º 56. Leoncio Alfredo Ferreira foi nomeado para o mesmo cargo. (BGPMT n.º 21 de 21 de Maio de 1881); pela Portaria n.º 81, de 12 de Novembro de 1881, foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa de Misericórdia; pela Portaria n.º 117 de 27 de Outubro de 1883, foi nomeado cônsul de 1.ª classe, em Shanghai (1883-1884).

Pela sua diplomacia, inteligência e valor demonstrados no desempenho desta missão, foi condecorado pelo Governo Central de Lisboa com o Grau de Oficial da Torre e Espada por Diploma de 23 de Janeiro de 1896.

Pela Portaria n.º 22, de 1 de abril de 1885, foi nomeado vogal do Conselho Inspector de Instrução Pública.; pela Portaria n.º 144, de 20 de Dezembro de 1898, foi louvado pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, pela maneira como se houve durante a epidemia de petes bubónica que assolou Macau, de Fevereiro a Julho desse ano, no desempenho dos serviços de higiene e desinfecção; pela Portaria n.º 145, de 5 de Dezembro de 1902, foi nomeado Vogal do Conselho de Governo da Província.

Dados biográficos extraídos de : «Macau Boletim Informativo», II-27 de 15 de Setembro de 1954, pp. 11-12; FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses Volume I, pp. 1077-1078; e o livro referenciado em (1) 

(1) TEIXEIRA, P. Manuel- Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX, p. 449-497.

(2) João Eleutério Ferreira (c.1785 – 1872) nasceu em Coimbra, Portugal, vindo para Macau casou, nesta cidade, pela 1.ª vez em 1830 e pela 4.ª vez com Maria Galdina Fernandes, filha de Vicente José Fernandes e de Ricarda Constantina Fernandes e irmã de Bernardino de Sena Fernandes (1.º Barão, 1.º Visconde e 1.º Conde de Sena Fernandes), de quem teve apenas um filho, Leôncio Alfredo Ferreira.

(3) Em favor dos Jesuítas, expulsos de Macau publicou um opúsculo, intitulado: “Um brado pela verdade ou a questão dos Professores Jesuítas em Macao e a Instrução dos Macaenses, Macau, Tipographia Mercantil, 1872.

(4) Na sua qualidade de Administrador do Concelho fez o relatório sobre a morte trágica co coronel Mesquita. (1)

NOTA 1: A Câmara de Macau decidiu honrar a sua memória atribuindo o seu nome à «Rua Leôncio Ferreira» – começa na Avenida de Sidónio Pais, a entrada da Rua de Silva Mendes, e termina na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, entre os prédios n.ºs 58-H e 60.

NOTA 2 : Aconselho a leitura dos trabalhos de António Aresta, intitulados ” O Pensamento Moral de Leôncio Alfredo Ferreira, e “A Sinologia Portuguesa: um esboço breve” disponíveis para leitura em: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15959.pdf   e http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30032/1963

Anteriores referências neste blogue em: em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/leoncio-alfredo-ferreira/

TSYK I-30 de 28 de Abril de 1864,

A autora destes versos será provavelmente, Adelaide Clotilde Gonzaga (1839-1888), 2.ª filha de Guilherme Gonzaga (1) e Maria Bárbara Rangel (2). Professora de língua e literatura portuguesa na Escola do Governo, em S. Lourenço, nomeada em 2 de Janeiro de 1872. Sendo solteira, do seu cunhado 2.º Barão do Cercal, António Alexandrino de Melo (3) teve uma filha ilegítima, pelo que a criança nasceu no Hospital de S. José de Hong Kong a 16-10-1874 e foi baptizada, Adelaide Irene de Melo, na Catedral de Hong Kong. Parece que a mãe a confiou às madres, pedindo depois licença ao Governo para se ausentar para Lisboa durante um ano, mas nunca mais regressou. Em Lisboa foi professora e directora de uma escola de instrução primária.

O Boletim da Província de Macau e Timor n.º 19 de 06-05-1876 publicou a Portaria n.º 26 do Governador José Maria Lobo de Ávila (de 1874 a 1876) de 4-05-1876, exonerando-a, por abandono do lugar. Para este lugar foi nomeada D. Asteria Coelho dos Santos (4)

Extraído de «BPMT» XXII-nº 19 de 6 de Maio de 1876

(1) Guilherme Gonzaga, nascido na freguesia de S. Lourenço (c. 1810) comerciante em Macau, com negócios de fazendas, retrozarias e tabaco. Em 1844 era secretário da Associação do Montepio Geral de Macau. Casou em S. Lourenço a 22-06- 1836 com Maria Bárbara Rangel. Tiveram 4 filhas.

(2) Maria Bárbara Benedita Rangel (1813-1843), filha de Floriano António Rangel (1778-1843) e Ana Maria Antónia de Jesus Correia de Carvalho (1788-1843). Casou em 2.ª núpcias com Guilherme Gonzaga em 22-06-1836

(3) O 2.º Barão do Cercal, António Alexandrino de Melo (1837-1885) casou com a irmã Guilhermina Pamela Gonzaga (1841-1893), 3.ª filha do casal Guilherme Gonzaga/Maria Bárbara Rangel, na Igreja de S. Lourenço em 08-11-1858. Este casamento foi prejudicado pelas relações que o Barão mantinha com sua cunhada Adelaide, de quem viria a ter uma filha.

Informações de: FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volumes I. II e III, 1996 e http://pagfam.geneall.net/1020/pessoas.php?id=1072074

(4) 31-05-1876 – BPMT XXII- 26 de 24 de Junho de 1876

A 16 de Março de 1872, foi publicado no Suplemento ao n.º 11 do B. da Província de Macau e Timor (Vol XVIII) o Programa das formalidades na chegada do novo Governador e  do acto da posse do Visconde de S. Januário. (1)

Retrato de Januário Correia de Almeida, de autor não identificado, 1937.
http://actd.iict.pt/view/actd:AHUD21744

(1) Januário Corrêa de Almeida (1829-1901), Visconde de S. Januário, capitão de cavalaria e bacharel de matemática, tomou posse no dia 23 de Março de 1872 do cargo de Governador de Macau (para que tinha já sido nomeado em 19 de Janeiro anterior), governou até o dia 7 de Dezembro de 1874,data da posse do novo governador, José Maria Lobo d´Ávila. O Governador de Macau, Januário Correia de Almeida Visconde de S. Januário, fez a entrega do governo ao seu sucessor, no edifício do Leal Senado. À hora aprazada, dirigiu-se à Catedral a tomar o bastão do comando, depositado no altar de Nossa Senhora da Conceição, seguindo depois para os Paços do Concelho, onde procedeu à entrega do símbolo da autoridade (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995)
Anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/januario-correa-de-almeida-visconde-conde-de-s-januario/

Hoje, dia 23 de Agosto celebra-se a festa litúrgica de Santa Rosa de Lima. Amanhã dia 24, do ano de 1617, (precisamente 400 anos ) assinala a morte de Isabel Flores y Oliva, que ficou conhecida como Santa Rosa de Lima, mística da Ordem Terceira Dominicana,canonizada pelo Papa Clemente X em 1671 e a primeira santa nativa da América e padroeira do Peru. (1)

Painel numa coluna á entrada da Catedral Metropolitana de Buenos Aires, tirada em 2016

Em Macau, desde cedo o nome de Santa Rosa de Lima ficou ligada à educação principalmente para órfãs e meninas.
1.º Havia o Recolhimento de Santa Casa da Misericórdia cuja primeira referência aparece num termo do Senado de 26 de Dezembro de 1718 em que atribuía a este Recolhimento a sustentação das Meninas orphaans filhas de Portuguezes , q com o beneplácito do Procurador e mais Irmãons da casa, se fará nella hum recolhimento co mais huma S.ª grave p.r Mestra das Orphaans”
O Recolhimento foi fundado em 1726 sendo provedor de Santa Casa António Carneiro de Alcáçova; foi aprovado por João de Saldanha da Gama, vice-rei da Índia, “com a clausula de que haverá no d.º Recolhimento uma Mestra, que possa ensinar às Orfas as artes de que necessita uma mulher para governar a casa.”
Em 1737, a Santa Casa fechou o Recolhimento por falta de dinheiro. Em 1792, foi fundado por D. Marcelino José da Silva, bispo de Macau (1789-1808) um Recolhimento ou casa de educação para meninas órfãs”. Mais tarde esta Casa tomou o nome de Recolhimento de Santa Rosa de Lima. Em 1848, foi instalado na Casa das 16 colunas (posteriormente Instituto Salesiano) sob a direcção das filhas da Caridade de S. Vicente de Paulo, que no ano seguinte o transferiram para o extinto Convento de S. Agostinho; dali passou para o Mosteiro de S. Clara em 1857; mas em 1865, essas Irmãs saíram de Macau.
Em 1875 o governador José Maria Lobo d´Avila (portaria n.º 23 de 18-02-1875) determinou o seguinte: “ Tendo sua Majestade por decreto de 2 de Outubro de 1856 anexado o recolhimento de Santa Casa Rosa de Lima ao Mosteiro de Santa Clara, a fim de poder ali crear-se uma casa d´educação para o sexo feminino…(…)… Attendendo  a que é de toda a conveniência o acabar o estado excepcional em que ficou o recolhimento de Santa Rosa de Lima depois da extinção de mosteiro de Santa Clara, devendo segundo a letra do supracitado decreto crearse ali uma casa d´educação para o sexo feminino. “

Colégio de Santa Rosa de Lima anexo ao antigo Convento de Santa Clara em 1956

A direcção e administração directa do Colégio era exercida por uma comissão, mas a inspecção ficava a cargo do governo. O presidente era um prelado diocesano, sendo vice-presidente o juiz de direito, e os restantes membros: dois cidadãos nomeados pelo governador (sendo um deles tesoureiro) e um capelão que servia de secretário.
O ensino ministrado nesse colégio era o elementar, ou instrução secundária que compreendia: línguas, portuguesa, francesa e inglesa; história sagrada; desenho; música de canto e piano; educação física; higiene e economia doméstica.
A pedido do bispo D. António Joaquim de Medeiros ( bispo de 1884-1897),  as Irmãs Canossianas (Filhas Canossianas da Caridade) tomaram conta desse Colégio em 1889, dirigindo-o até 1903.
Em 17 de Novembro de 1903, as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria que haviam instalados em Macau, no Mosteiro de Santa Clara, em 1903 e começaram a desenvolver trabalho missionário ligado ao ensino passaram também a dirigir o Colégio por ordem do bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro (bispo de 1902-1918). Ambos os edifícios lhes foram cedidos pelo Governo juntamente com os bens do antigo Mosteiro e do antigo Recolhimento de Santa Rosa de Lima.
As Irmãs que chegaram a 27-1-1903 eram as seguintes:
Benedicta de S. Joaquim, Superiora (moreu em Tsingtao, 15-11-1921)
Leona du Sacre Coeur (moreu em Macau, 16-03-1956)
Antoine de Brive (moreu em Chefoo)
Edeltrud (morreu  em Macau)
Ambrosina (morreu em Macau, Fevereiro de 1953)
Zélia (morreu  em França)
Mais tarde chegaram as Irmãs Clotilde, M. da Apresentação, M. Chiara, M. Leónia e M. Dismas.
A 30 de Novembro de 1910, (I República Portuguesa) o Governo ordenou a saída das Franciscanas (o Colégio, nesse ano, tinha 130 alunas de diferentes nacionalidades, sendo muitas delas internas) e a escola foi confiada a pessoal leigo a 7 de Janeiro de 1911, ficando reduzida a 40 alunas.(2)
As Franciscanas só voltaram a dirigir o Colégio em 1932.

Pormenor do mesmo painel (2016)

(1) Rosa de Lima (1586 – 1617), nome de baptismo: Isabel Flores y Oliva, beatificada a 15 de abril de 1668 por Papa Clemente IX e canonizada a 2 de abril de 1671, por Papa Clemente X. A Festa litúrgica é no dia 23 de agosto (Calendário Romano) embora seja comemorada a 30 de agosto em Peru. É também padroeira das Filipinas.
Santa Rosa de Lima era muita devota de Santa Catarina de Sena, um dos padroeiros de Macau (declarado pela Vereação do Senado a 2 de Maio de 1646)  e venerada na Igreja de S. Domingos.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_de_Lima
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau, 1982.
Ver mais informações sobre o Recolhimento e Colégio de Santa Rosa de Lima em anteriores postagens:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/colegio-de-santa-rosa-de-lima/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/casas-de-recolhimento-de-santa-rosa-de-lima/

Duas notícias do dia 8 de Novembro referentes ao Colégio de Santa Rosa de Lima:
A primeira, do dia 8 de Novembro de 1846, data em foi reorganizado o Colégio de Santa Rosa de Lima para educação de meninas (1)
A segunda, do dia 8 de Novembro de 1876, por Decreto, o governo da Metrópole com os rendimentos do recolhimento de S. Rosa e do Mosteiro de S. Clara constitui uma doação para o Colégio de S. Rosa de Lima, que tinha o valor aproximado de cem mil patacas, incluindo todos os edifícios, propriedades, foros e capitais, que foram destinados à sustentação do colégio (2)
No ano anterior (1875), o Convento de Santa Clara (onde funcionava desde 1857 o Recolhimento de Santa Rosa) fundiu-se com o Recolhimento de Santa Rosa, com o nome de Colégio de Santa Rosa de Lima.

colegio-de-s-rosa-de-lima-1907-man-fookColégio de Santa Rosa de Lima em 1907
Atribuída ao fotógrafo Man Fook

Entre estas duas datas, alguns apontamentos mais importantes:
21-12-1848 – As Filhas de Caridade de S. Vicente de Paula, que se estabeleceram em Macau devido aos esforços do Bispo D. Jerónimo José da Mata, assumiram a direcção do Recolhimento de Santa Rosa de Lima, destinado à educação de meninas. O recolhimento funciona a partir de 1849 até 1857 no extinto Convento de Santo Agostinho, sob a direcção do Prelado da Diocese. (1)
02-10-1856 – Foi ordenado por decreto que o recolhimento para a educação das pessoas do sexo feminino, denominado de Santa Rosa de Lima e estabelecido no edifício do extinto convento de Santo Agostinho fosse anexado ao Mosteiro de Santa Clara. (1)
22-01-1857 – Provisão do Bispo D. Jerónimo José da Mata reorganizando o Recolhimento de Santa Rosa de Lima para a educação de meninas pobres anexando-o ao Mosteiro de Santa Clara de acordo com o Decreto anterior. (1)
06-07-1857 – Tendo sido transferido para o Convento de Sta Clara a escola de meninas que funcionava no convento de S. Agostinho, foi este transformado em Hospital Militar até 1872, ano em que foi construído o Hospital Conde de S. Januário. O convento foi depois comprado por Artur Basto que o transformou em sua residência. Com a morte foi adquirido pela Companhia de Jesus e, sob o nome de Residência de Nossa Senhora de Fátima serve de casa de repouso aos jesuítas. (1)
30-1-1875 – A Portaria Provincial n.º 19 desta data determina a incorporação na Fazenda, segundo a lei dos bens móveis e imóveis do Convento de Sta Clara, por ter falecido a última religiosa. (3)
Os Estatutos do Colégio foram publicados em Fevereiro de 1875 e em 4-03-1875 foi nomeada regente do colégio D. Theresa da Annunciação Danemberg, senhora de esmerada educação e muitas virtudes e para professoras sras. D. Lydia Francisca da Santa Cruz e D. Leonidia Maria da Conceição. Estas três senhoras residiam há muitos anos no convento e viram-se sem amparo com a morte da última freira. (2)

colegio-de-s-rosa-de-lima-directoria-1934O Colégio de Santa Rosa de Lima, em 1934

(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau, 1982.
(3)  Por Portaria Provincial n.º 19 de 30 de Janeiro de 1875, o governador José Maia Lobo d´Ávila determinou o seguinte:
Tendo falecido a ultima religiosa do convento de Santa Clara, (4) e devendo pelas leis em vigor serem incorporadas na fazenda todos os bens pertencentes ao mesmo convento, e sendo necessário proceder a um inventário geral dos mesmos bens: hei por conveniente nomear para este efeito uma comissão composta do secretário da Junta de Fazenda João Correa Paes d´Assompção, do delegado interino do Procurador da Coroa e Fazenda, o advogado Albino António Pacheco e o P. Capelão Vicente Victor Rodrigues Esta Comissão em 15 de Março de 1875 tomou posse de todos os bens móveis e de raiz, e da administração do mesmo extinto convento num valor total de $ 77.983,25.”
(4) Em 1834, pelo decreto de Joaquim António de Aguiar, foram extintos os conventos em Portugal . Esta lei teve a sua repercussão no ano seguinte em Macau, em 1835, mas o governo local continuou a respeitar a existência das Claristas, mantendo-as no seu convento de Sta. Clara até à morte da última religiosa que faleceu a 18 de Fevereiro de 1875.

Artur Lobo de Ávila (1) relata o tufão de 31 de Maio de 1875:
O Governador, Visconde de S. Januário, (2) aconselhara a família do seu sucessor, a transferir-se para a ala direita do palácio, (3) por ter sido a menos batida pelo tufão.
Assim fizemos , mas com resultado exactamente negativo, pois foi essa ala a que ruiu com a nova tormenta de Maio de 1875.
O tufão começou, como de costume, por uma lestada. E quando da Secretaria da junta  (4) , quis regressar a casa, já os cules não puderam trazer-me na cadeira; e, de gatas, tive de atravessar o jardim na parte posterior do palácio para entrar em casa.
Os tufões ficam assinalados com os nomes dos governadores. No de S. Januário, o barómetro desceu tanto, que acabou por estoirar a coluna de mercúrio, a ponto de o oficial às ordens – 1.º tenente Júlio Elbão de Sampaio – dizer ao Governador, que a agulha doidejava, marcando o nome do fabricante.
Durante essas tormentas, os telhados são descosidos e, em pedaços, voam pelos ares. Quem se arrisca a sair, corre perigo de vida, mesmo resguardado com um tundum, espécie de capacete de duríssimo bambu. . . .
António de Azevedo e Cunha defendeu o palácio, enquanto foi possível. As janelas foram interiormente, revestidas com taipans de madeira e escoras.
mas, mesmo assim, o mar, rugindo furiosamente, despedaçou as da secretaria, instalada no rés-do-chão.
Foi neste momento que o Cunha, o ajudante do Governador, a ordenança Carlos, – filho de macaístas – eu, alguns soldados e operários, descemos ao referido andar, onde a tremenda inundação começava a causar terríveis e trágicos efeitos.
O Cunha, que empunhava uma pequena lanterna, vendo os da frente atingidos por uma derrocadas, gritou aos que o seguiam:
– Para trás, rapazes. . .
Quinze pessoas, entre europeus e chinas, ficaram soterrados nos escombros negros e tristes.
Quando foi possível, à luz de archotes desenterrámos o ajudante-de-ordens do Governador, Alferes Caetano Deniz Junior, que tinha ficado entre as ruínas, a sua figura era confrangedora e arrepiante.
Tinha perdido os sentidos e ao recobrá-los todo ensanguentado e de olhos esbugalhados, muito a custo, disse-nos:
– Lembrei-me de meu pai . . . Vi-o . . .  Foi ele que me salvou . . .
Depois foram desenterrados e socorridos, como era possível, os demais sinistrados, que, entre ais e gemidos, aflitivamente, pediam que os salvassem.
A ordenança de cavalaria, Carlos de Manila, achou-se também às portas da morte; o china, Paulo, morreu.
Um pesado banco chinês, revestido de mármore, depois de despedaçadas as janelas, deslocou-se com o furacão e veio bater nas pernas do Governador, meu pai, ferindo-o profundamente. Este desastre, porém, evitou que ele caísse do primeiro andar para o montão de ruínas que aumentava no pavimento inferior.
Até ao amanhecer, os que escaparam aos horrores desta tragédia e os feridos, estiveram refugiados num godão – pequena arrecadação, semi-subterrânea, em que entrava a água do amor, depois de ter galgado as ruínas do aterro da Paria Grande – sobre feixes de lenha.
A população de Macau, passada a tormenta, julgou que no palácio só havia cadáveres…
E pela tarde, uma proclamação do Governador terminava assim:
“Macaenses – A cidade de Macau, que ia ressurgindo das ruínas do terrível tufão do ano passado, foi novamente experimentada por idêntico flagelo.
Peço-vos serenidade, conformidade e trabalho, para vencermos esta nova crise, pois que, como vosso Governador, velarei por vós, assim como convosco partilhei os horrores do cataclismo que, como é notório, esteve a ponto de deixar sem família: . . .
(1) Artur Lobo de Ávila (1855-1945),  romancista (dedicou-se mais ao romance histórico), ensaísta e dramaturgo, é filho de José Maria Lobo de Ávila (1817-1889)  que tomou posse como governador de Macau em 7 de Dezembro de 1874 (governou até 30 de Dezembro de 1876), sucedendo ao Visconde de S. Januário, Januário Correia de Almeida (governador entre  1872-74).
Publicou “Memórias de  Artur Lobo d´Ávila“, 1945, cujas páginas 43-47 estão transcritas (de onde retirei) em TEIXEIRA, Padre Manuel – Residência dos Governadores de Macau, pp.14-15.
Sobre  Artur Eugénio Lobo de Ávila, ver anterior referência em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/06/13/macau-apontamentos-historicos-a-incuria-portugueza-nas-relacoes-com-a-china/
(2) O maior tufão de Macau foi a 22 e 23 de Setembro de 1874 (era governador de Macau, o Visconde de S. Januário).
O director das Obras Públicas relata os danos causados ao Palácio do Governo: ” Os danos que sofreu este palácio, foram causados pelo tufão e pela grande enchente da Praia Grande. Com o tufão, sofreram todos os telhados, foi arrombada uma janela e houveram mais alguns pequenos estragos nos estuques.
Com a enchente, sofreram as casas do pavimento inferior, nos sobrados, portas e janelas; – a escada de cantaria da entrada principal foi deslocada completamente, saindo do seu lugar todos os degraus e alguns levados pela força das vagas para a grande distância – a balaustrada que a guarnecia foi completamente destruída também pela força das vagas”.
(3) O Palácio referido estava instalado num edifício da Praia Grande, em frente do fortim de S. Pedro. O Palácio foi construído pelo Governador Isidoro Francisco Guimarães (1851-1863) , Visconde Praia Grande. Mais tarde, em 1884, a sede do governo passou para o Palácio do Visconde Cercal, onde continua hoje como sede do Governo da RAEM.
Ver em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/12/10/noticia-de-10-de-dezembro-de-1862-visconde-da-praia-grande/
(4) Artur Lobo de Ávila que acompanhou o seu pai enquanto governador de Macau, trabalhou como escriturário da Secretaria da Junta da Fazenda, recebendo 60 patacas mensais.

Projectada a Igreja de N.ª S.ra do Carmo na Ilha da Taipa, apesar de concluída só em 1885. A ideia foi do Tenente João Procópio Martins Madeira, Comandante Militar da Taipa, que expôs ao Governador José Maria Lobo d´Ávila (1874-1876) em seu ofício n.º 85 de 8 de Dezembro de 1875, a necessidade de uma capela na Taipa e outra em Coloane. O Governador entregou o ofício ao Governador do Bispado de Macau e Deão da Sé, Manuel Lourenço de Gouveia. (1)
ROTEIRO DAS ILHAS TAIPA Igreja N. S. CarmoOfício de 8-12-1875 do Comandante Militar da Taipa ao Governo de Macau:
Sendo certo o que a história nos mostra que os nossos antepassados percorreram o mundo atravessando mares, arriscando a vida e os haveres para engrandecer a nossa Pátria com novas descobertas, e a religião de nosso Redemptor com maior numero de fieis, sendo tambem certo que onde fluctua a bandeira das quinas está arvorada a cruz de Christo, symbolo da mesma, é de estranhar que havendo ha muito tempo duas povoações  portuguesas importantes, Taipa e Coloane, tam proximas de um estabelecimento de missões, destinado à conversão de gentios e com fundos e elementos bastantes à sua disposição, para engrandecimento da Relegião Catholica Apostolica Romana , não haja uma unica Capella n´estas povoações onde ao menos os christãos aqui residentes possam cumprir os preceitos da religião do Estado e que seus paes lhes ensinaram. ..(…)
…As razões acima erão já bastantes, ainda que não houvessem, como ha maior numero de ellas para eu pedir a Sua Exa, digo a V. Sa. que leve ao conhecimento de Sua Exa. o Snr. Governador  estas considerações afim do mesmo Snr, servindo-se tomal-as em consideração propor ao Revdo. Snr Governador do Bispado para fazer duas capellas n ´estas Povoações, sendo uma na Taipa e outra em Coloane, formando assim duas freguesias“.

ROTEIRO DAS ILHAS TAIPA Igreja N. S. Carmo 1996

FOTO de 1996

Embora a ideia do Tenente Madeira fosse aprovada pelo Governador Lobo de Ávila e pelo Deão Lourenço de Gouveia, Governador do Bispado, (2) e depois retomada e reforçada pelo bispo D. Manuel Bernardo de Sousa Enes e secundada pelo Governador Joaquim José da Graça (1879-1883), somente foi concluída  em 1885, durante o episcopado de D. António Joaquim de Medeiros (1883-1897).
A 29 de Agosto de 1882, o director das Obras Públicas, Eng. Constantino José de Brito apresentava ao Governador o orçamento para a construção da igreja na Taipa, dizendo: “Existem naquela ilha, segundo a estatística de 1880, 3.230 habitantes, dos quaes são apenas 35 christãos…”
O terreno em que se projecta a Igreja fica num monte sobranceiro à povoação  e próximo dela, para o qual se sobe por uma calçada denominada do Carmo, motivo para a invocação de Nossa Senhora do Monte do Carmo.
O orçamento era inicial de 10.800.00 patacas (custou mais pelo atraso da construção) e estava prevista a conclusão em 10 meses. A pedra da igreja veio da pedreira de Hapui Van na Taipa (frente à pedreira de Seac Pai Van, de Coloane)
Quando em 1883 se tratou da construção da igreja de N. Sra. do Carmo, pretenderam as Obras Públicas aproveitar-se das pedras da colina Lon-Van, mas os habitantes da povoação opuseram-se e houve que desistir (episódio que narrarei numa próxima postagem acerca do “Fong Soi” da Ilha).
ROTEIRO DAS ILHAS TAIPA Igreja N. S. Carmo 1996 IIEste edifício de formas e linhas sóbrias, e de cor amarela no exterior, tem três pisos , com 29 metros de comprimento e 9 metros de largura. Na fachada principal tem uma torre sineira. O coro está bem projectado, permitindo, deste modo, um bom aproveitamento acústico do interior da igreja. As janelas permitem uma maior recepção da luz do Sol. Para além do altar-mor, tem ainda um pequeno altar no lado esquerdo da entrada, ambos dedicados a Nossa Senhora do Carmo. Ao lado direito do altar-mor vê-se uma imagem de S. José e do lado esquerdo uma imagem do sagrado Coração de Jesus.” (3)
Foi seu primeiro pároco-missionário o P. José Vicente Costa, nomeado em 16 de Setembro de 1885.
(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(2) “09-02-1876 – Construção de uma Capela na Vila da Taipa. O assunto é levantado de novo”.
“01-04-1876 – Pela Portaria n.º 20, publicado em B. O., desta data, é aprovado o projecto e orçamento da construção de uma Ermida na Taipa”
(3) Roteiro da Ilhas – Ilha da Taipa. Câmara Municipal das Ilhas, 1996

ANO III- 60 1956 Colégio S. R. Lima “O «COLÈGIO DE SANTA ROSA DE LIMA» anexo ao antigo Convento de Santa Clara e a cargo das Franciscanas Missionárias de Maria, é um dos modelares estabelecimentos de ensino da Província.” (1956) (1)

Os estatutos e regulamento para o Colégio de Santa Rosa de Lima como casa de educação para o sexo feminino, foram publicados em 1875 pelo governador José Maria Lobo d´Ávila (portaria n.º 23 de 18-02-1875) após a extinção do mosteiro de Santa Clara.
O ensino ministrado nesse colégio era o elementar, ou instrução secundária que compreendia: línguas portuguesa, francesa e inglesa; história sagrada; desenho; música de canto e piano; educação física; higiene e economia doméstica.
A pedido do bispo D. António Joaquim de Medeiros, as Irmãs Canossianas tomaram conta desse Colégio em 1889, dirigindo-o até 1903.
Convidadas pelo bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, as Franciscanas chegaram a Macau a 17 de Novembro de 1903, instalando-se no Mosteiro de Santa Clara e tomando a direcção do Colégio. Ambos os edifícios lhes foram cedidos pelo Governo juntamente com os bens do antigo Mosteiro e do antigo Recolhimento de S. Rosa de Lima (o recolhimento fechou em 1875 após o falecimento da última clarissa)
A 30 de Novembro de 1910, o Governo ordenou a saída das Franciscanas do Colégio, o qual era então frequentado por 130 alunas de diferentes nacionalidades, sendo muito delas internas. A escola foi confiada a pessoal leigo a 7 de Janeiro de 1911, ficando reduzida a 40 alunas.
A 10 de Dezembro de 1911, foi arrendado o edifício do antigo Mosteiro de Santa Clara para aquartelamento e tropas expedicionárias, determinando-se que o Colégio de S. Rosa de Lima passasse para outro edifício particular; felizmente esta medida não pegou, continuando o colégio sob a direcção de pessoal leigo.
Em 1932, voltaram as Franciscanas a dirigir o Colégio. A secção chinesa iniciou-se em 1933. (3)
Em Setembro de 1975, o curso de inglês deste colégio, passou para a Escola Matutina (2) e o curso chinês desta passou para o Colégio de S. Rosa (Rua de Santa Clara). A Instrução Primária portuguesa no Colégio funcionou até 1999, permanecendo aí a secção chinesa.

ANO III - 62 1956 Colégio D. Bosco“O COLÉGIO D. BOSCO, de linhas modernas e airosas, é um dos mais modernos estabelecimentos de ensino da Província. “ (1956) (1)

 “ A 24 de Julho de 1941, a Santa Casa da Misericórdia entregou ao Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, o seu Asilo dos Órfãos, com os seus 30 rapazes e a 15 de Agosto desse ano foi confiado aos Salesianos. Enquanto se não levantava edifício próprio, os órfãos portugueses ficaram instalados no Orfanato da Imaculada Conceição juntamente com os chineses.
Em 1940, o Governo concedeu um terreno em Mong Há e a 10 de Novembro de 1941, fez-se a inauguração do aterro para os futuros pátios do colégio.
A 6 de Fevereiro de 1949, foi lançada nesse terreno a primeira pedra dum edifício que se chamou “ COLÉGIO D. BOSCO”, de Artes e Ofícios, destinado ao Ensino Técnico e Profissional, sendo seu primeiro Director, o Pe. António Giacomino.  António Bastos foi o arquitecto que preparou todos os planos”  (3)
(1) MACAU Boletim Informativo, Ano III, 1956
(2) Na Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, edifício que foi demolido em 1998 para construir no mesmo lugar o actual “Colégio de Santa Rosa de Lima English Secondary” (Av. Dr.Rodrigo Rodrigues, n.º 367).
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1981, 423 p.

“Corria, suavemente, o Outono, em Macau, no ano de 1872, Outubro……(…)…
Vivia-se assim, despreocupadamente, pensando cada um em divertir-se da melhor forma que pudesse, sem precisar de pensar no dia de amanhã, pois o próspero negócio da emigração (1) dava para que toda a gente andasse ocupada e passasse os dias sem problemas económicos que a atribulassem.
Surtos no porto, viam-se três barcos de guerra nacionais, a corveta a vapor «Duque de Palmela»(2), a escuna de guerra «Príncipe Carlos » (3) e o vapor de guerra «Camões», além dos navios mercantes como a galera «Viajante» do comando de Francisco Jerónimo de Mendonça; a barca « Cecília» comandada por H. Mesquita e o brigue «Concórdia». Naves doutras nações demandavam também o nosso porto, como o vapor italiano «Glensannox», o vapor espanhol «Buenaventura», que sairia no dia 30, com destino a Havana, levando a bordo 84 colonos chineses, a galera da mesma nacionalidade «Alaveza», as barcas francesas «Blanche Marie» e «Veloce», os brigues «Maggie» e «Water Lily» e a galera «Star of China», que navegavam sob bandeira inglesa, a barca da confederação germânica «Vidal» e os vapores de guerra chineses «An-Lan», «Chien-Jui» e «Ngan-Tien»….
As disponibilidades que abarrotavam os cofres do tesouro público foram, no entanto, bem aproveitadas, pelo inteligente governador, Visconde de S. Januário, de nome, Januário Correia de Almeida (4), bacharel formado em Matemática, que chegara a Macau, com o posto de capitão do Estado-maior, tendo exercido, anteriormente, o cargo de governador geral da Índia. Assim grandes melhoramentos se efectuaram, no seu áureo governo, como:

  • a construção da estrada da Barra, até aos depósitos de lixo que existiam por aquelas bandas, saneando um local que constituía um foco de infecção, obra dispendiosa, pois muita rocha nos sopés das colinas de Penha e de Barra teve de ser arrebentada para se poder abrir esta via pública; (5)
  • a estrada de D. Maria II;
  • os trabalhos de pesquisa de água com a abertura duma mina na parte posterior do jardim da Flora;
  • a bateria rasante na ponta da praia em S. Francisco; (5)
  • uma nova casa para a guarda principal na Praia Grande (as outras foram construídas no campal das Portas do Cerco, no campo de Santo António, no largo de Matapau e na Flora, respectivamente, as duas primeiras em 1863, e as duas restantes em 1866 e 1869;(5)
  • uma carreira de tiro no campo da VItória;
  • ao alargamento do aterro marginal do porto interior; (5)
  • à canalização geral das ruas, próximas do bazar e teatro chinês; (5)
  • à construção de um quartel, destinado a uma bateria de artilharia, na fortaleza do Monte;
  • ao aterro marginal e construção da muralha da Praia Grande para o lado sul, (5) e
  • de muitos outros melhoramentos, mas nenhum sobrelevou ao da construção do hospital, que veio a ter o seu nome….

………………………………………………………………………………continua………

GOMES, Luís Gonzaga – Macau Factos e Lendas, páginas escolhidas. Edição da Quinzena de Macau, 1979, 152 p.

MACAU, 1870 – FOTO de JOHN THOMSON (8)

(1) Sobre o negócio e a emigração de Cules, aconselho a leitura do livro de
SILVA, Beatriz Basto da – Emigração de Cules Dossier Macau 1851-1894. Fundação Oriente, 1994, ISBN-972-9440-35-2.

O último Regulamento do Governo de Macau sobre Cules foi promulgado a 28 de Maio de 1872 (estabelecia a liberdade de emigrar e de ser repatriado no caso de mudar de intenções), embora posteriormente tivesse surgido acrescentos a este regulamento.
(2) “8 de Novembro de 1871 – Uma força composta de 60 praças de marinhagem da corveta «Duque de Palmela», com dois guarda-marinhas, 18 soldados da polícia do porto e de loucanes (marujos chineses) da guarnição dos escaleres, transportados, na lancha a vapor Sergio, em dois escaleres da polícia do porto levados a reboque e na lancha da corveta, desembarcaram em Uong-K´am (Ilha da Montanha), sob o comando do 2.º Tenente Vicente Silveira Maciel da lorcha Amazona, e conseguiram destruir um couto de piratas”
Em 2 de Setembro desse ano, a corveta «Duque de  Palmela» tinha sofrido grandes avarias, em consequência dos embates com os barcos chineses, por causa de um tufão.
 (3) “No dia 20 de Novembro de 1873, pelas 19.00 horas, o 1.º Tenente da Armada Vicente Silveira Maciel, comandante da escuna «Príncipe Carlos», acompanhado do guarda-marinha Caminha e do capitão de Infantaria Caetano Gomes da Silva, que jantara a bordo, quando seguiam numa baleeira para terra, veio um “fai-ai”, com uma equipagem de 60 a 70 homens, «abalroou premeditadamente contra a baleeira» ficando atravessada na proa do barco chinês, que mudou de rumo para a Lapa. Tendo conseguido trepar até ao “fai-ai”, os oficiais e dois ou três marinheiros que iam na baleeira travaram rijo combate com os chineses, caindo o Tenente Maciel ao mar; mas foi salvo por um marinheiro, agarrando-se ambos a um bambu. Salvaram-se também o guarda-marinha Caminha e um marinheiro. O capitão Silva e outros marinheiros foram considerados como desaparecidos” (7)
 (4) “23 de Março de 1872 – Januário Corrêa de Almeida, Visconde de S. Januário, capitão de cavalaria e bacharel de matemática, toma posse do cargo de Governador de Macau (para que tinha sido nomeado em 19 de Janeiro anterior)”. O Visconde fez entrega do governo ao seu sucessor em 7 de Dezembro de 1874, José Maria Lobo d´Ávila (tinha sido nomeado em 7 de Maio de 1874) (7)
(5) “17 de Janeiro de 1873 – O Governador ordenou a execução da primeira fase do alargamento do aterro marginal do Porto Interior e simultânea regularização do regime da corrente do rio, numa extenção de 160 metros desde a Fortaleza da Barra até à Doca de Uong-Tch´oi, a canalização geral das ruas próximas do novo bazar e teatro china, junto da doca, que acabava de ser aterrada, denominada de Manuel Pereira, construção de um edifício destinado a quartel de uma bateria de artilharia, na Fortaleza do Monte; e a continuação da muralha e aterro marginal no Chunambeiro, próximo da Fortaleza do Bom Parto até à chácara de Maximiano António dos Remédios (antigo Hotel Bela Vista)” (7)
(6) Há duas informações sobre S. Francisco:
“26 de Julho de 1872 – A portaria Provincial n.º 48 determina a construção de uma bateria «em forma de luneta» na ponta da praia de S. Francisco para as peças de grosso calibre”
e outra
“1 de Dezembro de 1872 – Lançamento da primeira pedra para a construção da Bateria Rasante 1.º Dezembro. A planta é do capitão de engenharia Dias de Carvalho e do Barão de Cercal, macaense e vice-presidente da Câmara
Para esta última bateria foi necessário fazer o corte do “Outeiro de S. Francisco
(7) SILVA, Beatriz Basto da –Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p., ISBN 972-8091-10-9
(8) http://images.wellcome.ac.uk/indexplus/image/L0055556.html

“…Mas prosigamos, que a via dolorosa das nossas relações  com o Império do meio tem ainda outros marcos milliarios a attestarem o inqualificável desleixo e o abastardamento da passada energia dos governos portuguezes.
               Mais tarde um outro governador de Macau, Izidoro Guimarães, tambem official superior da marinha, conseguiu negociar um tratado com a China, em que era reconhecida a nacionalidade portugueza de Macau. N´um dos artigos dizia-se expressamente: Macau antigamente (jadis) na província de Cantão.
               Dois annos depois, ao fazer-se a troca dos exemplares do tratado para a sua ratificação, o novo governador de Macau e ministro penipotenciario de Portugal, o coronel de engenharia José Maria Coelho do Amaral passou por novo desaire.
               Salvo erro, as ratificações trocavam-se em Pekim; era secretário da  missão o fallecido publicista Marques Pereira, a quem já me referi, e de memoria cito o que a tal respeito se encontra na sua obra.
               Ao confrontarem-se as copias, notou Coelho do Amaral que no documento assignado pelo imperador da China faltava, na versão franceza authenticada pelos sinologos a palavra jadis.
               Reclamou immediata e energicamente, e após os rodeios, as hesitações, as condolencias suaves, em que a diplomacia celeste é mestra, o plenipotenciario china acabou por declarar que Macau, não podia ser considerado portuguez.
               Coelho do Amaral, erguendo-se arrebatadamente, exclamou indignado:
               – Pois se não é portuguez, vão lá conquista-lo!
               E abandonou o pavilhão em que se achavam.” (1)
 
(1) D´AVILA, Arthur  Lobo – MACAU. Revista Serões, n.º 60, Junho, 1916, pp.458-464

Artur Eugénio Lobo d´Ávila (Lisboa 1855-Lisboa 1945) (ou Arthur Lobo d’Ávila, como assinava) é filho de José Maria Lobo d´Ávila (1817-1889) que foi governador de Macau e ministro plenipotenciário na China de 7 de Dezembro de 1874 a 30 de Dezembro de 1876,  tendo acompanhado o pai  em Macau. Regressando a Portugal, matriculou-se no curso superior de Letras, sendo classificado com distinção nas cadeiras de história, literatura e filosofia. Trabalhou como primeiro escriturário da Caixa Económica Portuguesa, aposentando-se em Maio de 1896. Foi romancista, ensaísta e dramaturgo. Ocupou cargos diplomáticos até 1877.
Foi um intenso colaborador em diversos periódicos.  A sua actividade como dramaturgo e romancista intensificou-se na primeira década do século XX. Obras:
1898 – A Descoberta e Conquista da Índia pelos Portugueses
1902 – O Reinado Venturoso
1902 – Os Caramurús
1904 – Os Amores do Príncipe Perfeito (inicialmente saiu em folhetins no Diário de Noticias em 1901 e 1902
1911  – As Loucuras de D. João V, publicado originalmente em folhetins no Diário de Notícias no início de 1920 com o título «O Rei Magnífico»
1926 – A Verdadeira Paixão de Bocage, em parceria com Fernando Mendes
Esta biografia foi compilada dos apontamentos  de
http://pedroalmeidavieira.com/?p/785/1089//A/1670/
Sobre o valor literário de Lobo d´Àvila , sugiro leitura de “Arthur Eugénio Lobo de Ávila ou o romance ao serviço da história” por José Adriano de Freitas Carvalho (Univ. do Porto) em
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6793.pdf