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Extraído da «Revista Colonial», Anno IX- 2, 1921.

Eudore de Colomban Busto de Camões 1927José Inácio de Andrade, em “Cartas escriptas das Índia e da China“, (1), escreve:
 «Existe em Macao, no téso de uma quinta, na freguesia de Santo António, um alpendre sôbre columnas, ao qual uns chamam pagode outros gruta de Camões.
Foi erigido há séculos, em comemoração de ter composto alli a sua epopéa, os Lusíadas.. (…)
Compoe-se de três grandes penedos facetados, levantados pelas mãos da Natureza, a poucos passos do alpendre: dois a prumo, e o terceiro horizontal, servindo de tecto à lapida, onde o meu excelente amigo Manoel Pereira mandou exculpir , em bronze , os versos de Camões proprios a enriquecer aquele veneravel monumento»

Eudore de Colomban Monumento de Vasco da Gama 1927O monumento de Vasco da Gama  que se planeava levantar no centro da Avenida Vasco da Gama, em 1898, foi inaugurado a 31 de Janeiro de 1911, tendo as obras começado em 1907. O escultor foi Tomás da Costa A parte central do jardim onde está o monumento fazia parte da extinta Avenida de Vasco da Gama (abrangia as áreas ocupadas pelas antigas instalações das Escolas Primárias Oficiais Luso-Chineses «Sir Robert Ho Tung», Hotel Estoril, Escola Primária Oficial «Pedro Nolasco da Silva», e Comando da Polícia de Segurança Pública. Foi rasgada em 1898 pelo Eng. Augusto César d´Abreu Nunes para comemorar o IV Centenário da Descoberta da Índia por Vasco da Gama. Media 500 metros na sua maior extensão tendo a largura média de 65 m. (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997)
Fotos retirados de COLOMBAN, Eudore de – Resumo da História de Macau, 1927
(1) ANDRADE, José Inácio de (1780-1863) – Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835. Macau, Livros do Oriente, 1998.

Quero referir-me à esquecida batalha naval de Lantau, (1) travada a poucas milhas de Macau, em 21 de Janeiro de 1810, contra o temido chefe Cam-Pao-Sai (2) que reunia nas suas lorchas uns 20.000 homens, da qual saímos vencedores, conquistando, assim, a liberdade para a navegação nos mares do Sul da China, vitória esta para o bom êxito da qual se cita que contribuiu o afundamento dum precioso pagode flutuante que sempre acompanhara Cam-Pao-Sai nas suas lutas e cujo desaparecimento foi tomado como mau agouro, abreviando a derrota dos piratas.” (3)

Em 21 de Janeiro de 1810, (data que os oráculos indicavam aos piratas como sendo inexcedivelmente auspiciosa, para enfrentar a frota macaense) o Capitão de Artilharia José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa, comandando seis navios sendo o maior de quatrocentas toneladas (26 peças com 160 homens) e o mais pequeno de 120 (16 peças e 100 homens), perfazendo ao todo uma força naval com 118 peças de artilharia e 730 homens e ajudado por alguns brigues ingleses, também eles interessados na operação, (4) desbaratou o poderio do célebre pirata Cam-Pau- Sai na «Boca do Tigre». Este, confiando no crédito e influência do Ouvidor Miguel Arriaga Brum da Silveira, (5) entregou-se com toda a sua esquadra, que consistia em mais de 300 juncos de guerra, com 1500 peças de artilharia, e mais de 20.000 homens aguerridos. (6)

Foi neste mesmo ano, que a 13 de Maio (1810), D. João VI concedeu o título de «Leal» ao Senado de Macau, em recompensa dos esforços envidados para repelir os piratas que ameaçavam o território.

Boca do Tigre(1) Mais conhecido pela Batalha Naval da «Boca do Tigre», local onde se deu a último combate naval (outros combates anteriores, no ano de 1809) entre navios portugueses e a armada de piratas chineses. Como se vê no mapa «Boca do Tigre» não fica perto da Ilha da Lantau (Hong Kong).
(2) O mesmo pirata é referenciado com outros nomes como Kam Pao Sai, Cang-Pau-Sai, Chang-Pau Sai, Cam-Pao-Tsai, Cam-Po-Sai, Apo-Sai, Apochai, Cam-Pau- Sai, Cam-Apó-Chá ou Quan Apon Chay.
Cam-Pau-Sai rende-se nesta batalha e negoceia a sua liberdade, abandonando a pirataria, conseguindo posteriormente ser nomeado conselheiro do Estado (segundo outras fontes: almirante-mor da armada chinesa) em Pequim, pelo Imperador da China.
(3) INSO, Jaime do – Quadros de Macau in Fausto Sampaio pintor do Ultramar Português. Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1942, 182 p.
(4) Os chineses comprometeram-se a também enviar uma esquadra, mas não o fizeram e o capitão de Artilharia José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa enfrenta os piratas sem esse auxílio, obtendo uma retumbante vitória. O capitão foi recompensado com o cargo de Governador e Capitão Geral das Ilhas de Solor e Timor.
(5) “23-11-1809 – Acordo entre o Ouvidor Miguel de Arriaga Brum da Silveira e o Procurador José Joaquim de Barros com os mandarins Shing Kei Chi de Nám-Hói, Pom de Hèong-Sán e Chu da Casa Branca para o apresto duma esquadra luso-chinesa, (7) para atacar os piratas de Cam-Pau-Sai. Arriaga exauriu os cofres do Senado e tomando emprestado a seu crédito avultadíssimas somas com os negociantes de Macau, especialmente com F. A. P. Tovar e Felix José Coimbra conseguiu equipar uma esquadra que alcançou uma retumbante vitória”. (GOMES, LG-Efemérides da História de Macau)
(6) GOMES, Luís Gonzaga – A destruição da esquadra de Kam Pau Sai in Páginas da História de Macau.
(7) “O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:
1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.
2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.
3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptará [46] com brevidade os quatro restantes.
4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.
5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos.
6.º Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.
7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes.
Macáo 23 de Novembro de 1809.

Shou-Key-chi.—Arriaga.
Pom.—Chu—Barros. “

(Andrade, José Ignácio de – Memórias dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macao. Lisboa , 2.ª edição, Typografia Lisbonense, 1835.).
http://www.gutenberg.org/files/36163/36163-h/36163-h.htm 

MEMORIA

DOS

FEITOS MACAENSES

CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:

E DA

ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES

NA CIDADE DE MACÁO:

AUCTOR
JOSÉ IGNACIO ANDRADE.


SEGUNDA EDIÇÃO.


LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.
Largo de S. Roque N. 12
A C. Dias
.

 
Continuação do anterior post “MEMÓRIA DOS FEITOS MACAENSES CONTRA OS PIRATAS DA CHINA: E DA ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES NA CIDADE DE MACAO (I)”, onde foi feita uma leitura da parte introdutória. (1)
 
PRIMEIRA PARTE DO LIVRO
Descreve duma maneira épica, as batalhas travadas pelo portugueses e macaenses contra os piratas.
Depois que no seculo XVI os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram seu numero e força de modo, que em 1805 estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira e mais possante coube ao celebre Apócha, que depois se chamou Cam-pau-sai, e onde sempre residio a viuva.  Apau-tai foi commandar a segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de Cantão, e fez-se a convenção seguinte:
 O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim  ás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:
1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, combinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.
2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.
3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.
4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.
5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos.
6.º Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.
7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes.

Macáo 23 de Novembro de 1809.

Shou-Key-chi.—Arriaga.
Pom.—Chu—Barros.

SEGUNDA PARTE DO LIVRO:
Descreve a invasão das tropas inglesas a Macau e sua retirada.
Resposta Senado de Macau aquando do conhecimento desta obra:
“O Senado recebeo com satisfação a vossa memoria, por ver nella immortalisados os feitos macaenses, na estincção dos piratas, que infestavam o nosso arquipelago. Em verdade vós ornasteis o vosso e o nosso quadro com as flores e bellesas de Camões e dos Andrades. O Senado não perderá occasião, em que vos possa ser util em reconhecimento de tão precioso presente.
Cartorio do Senado, 16 de Novembro de 1826″

 
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/27/leitura-memoria-dos-feitos-macaenses-contra-os-piratas-da-china-i/  
(2)ANDRADE, José Ignacio – Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macao. Lisboa: Tipografia Lisbonense 1835, segunda edição.
Este livro está disponível no The Project Gutenberg EBook (Data de lançamento: 17 de Maio de 2011 (EBook #36163); ISO-8859-1 e poderá ser descarregado do seguinte endereço electrónico:
http://www.gutenberg.org/files/36163/36163-h/36163-h.htm

MEMORIA

DOS

FEITOS MACAENSES

CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:

E DA

ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES

NA CIDADE DE MACÁO:

AUCTOR

JOSÉ IGNACIO ANDRADE.


SEGUNDA EDIÇÃO.


LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.
Largo de S. Roque N. 12
A C. Dias
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Da INTRODUÇÂO, (1) alguns parágrafos interessantes sobre a China e os chineses:
“Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador tem uma só mulher legitima, mas póde segundo as leis do Imperio ter grande numero de amasias. A sorte destas é triste, por viverem encerradas. Pagam com a privação em que vivem da sociedade, a honra de satisfazer ao imperante, a qual devem á formosura, e não ao nascimento, que os Chinezes desapreciam, quando não é accompanhado da virtude”
Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados no imperio do que os militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a côrte. O coláo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para todos os empregos superiores, e os manda punir se não cumprem com o seu dever; o segundo cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; o terceiro é o Ministro da Justiça; o quarto administra a fazenda; o quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando é preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas.
O governo não é despotico como se pensa. Os mandarins oppõem-se aos seus decretos, quando são contrarios ás leis do Estado. Querendo certo Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo seguinte:
—Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, mas devo preferir a morte á perda da honra: não posso deixar de vos advertir, que o máo exemplo dado por vós ao Imperio nos lança a todos no abysmo.
—O Imperador foi generoso para não se agravar, mas não o foi para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião para lhe mostrar serem dos sentimentos do primeiro”
 
Da mesma INTRODUÇÃO, sobre Macau e os Macaenses:
“Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do pirata Chang-Silau.
Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo.  Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos foros se confirmaram em 1709. Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os restantes fugiram largando em [18] nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens. Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a ambição dos inglezes.
Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para entrar e sair. Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo:
—Tributamos tão grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu costume; e presamos tanto a V. S.a, que para não o ferir a vara da Justiça mandamo-la segurar “

continua…………………….   
 
(1) ANDRADE, José Ignacio – Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macao. Lisboa: Tipografia Lisbonense 1835, segunda edição.
Recomendo porque é um texto que vale a pena ler.
Este livro está disponível no The Project Gutenberg EBook  (Data de lançamento: 17 de Maio de 2011 (EBook #36163); ISO-8859-1e poderá ser descarregado do seguinte endereço electrónico:
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