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Continuação do poéma de José dos Santos Ferreira “Gazeta Macaense”, cuja 1.ª parte foi postada em 30 de Setembro de 2021, (1)e publicada no jornal «O Clarim» em 7 de Outubro de 1963. (2)

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2021/09/30/noticia-de-30-de-setembro-de-1963-poema-gazeta-macaense-i/

(2) FERREIRA, José dos Santos – Macau Sã Assi, 1967, pp. 68.

No dia 30 de Setembro de 1963, teve início o periódico semanário «Gazeta Macaense». Director Damião Rodrigues; proprietário e administrador – Leonel Borralho. Saia à 2.ª Feira. No primeiro número, dava notícia da inauguração das instalações do canídromo de Macau, e de que até ao fim do ano, deveria chegar a Macau o primeiro hidroplanador para carreira entre Macau e Hong Kong. A Gazeta Macaense foi semanário de 1963 a 1966; bissemanário de 1966 a 1971; diário a partir de 1971, ano em que passa a dispor de versão em língua inglesa. Interrompido entre 1979- 1981. Renovado. Interrompido em 1995. (1)

José dos Santos Ferreira deu as boas vindas ao Neco Borralho, dedicando-lhe o poéma “Gazeta Macaense”, que foi publicado no jornal «O Clarim» de 7 de Outubro de 1963. (2)

   . . .  continua

(1) “10-07-1979 – Início do periódico «Diário de Macau», que substitui temporariamente a Gazeta Macaense e que tem um suplemento em língua inglesa (houve outra publicação periódica com este nome no ano de 1925). Este jornal editou o seu último número em 12 de Setembro de 1981.” (3)

(2) FERREIRA, José dos Santos – Macau Sã Assi, 1967, pp. 67.

(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, pp 412 e  347

Continuação da leitura do artigo “Resenha Histórica do Hóquei Clube de Macau”, que José dos Santos Ferreira (Adé) publicou em 1972, na revista «MACAU, Boletim de Informação e Turismo» (1) (2)

“… O primeiro «interport» contra Hong Kong efectuou-se em 1934, tendo terminado com um empate 1-1. A série dos «interports» anuais entre as selecções de Macau e Hong Kong prosseguiu, ininterruptamente até 1941, ano em que romperam as hostilidades no Pacífico. Entretanto, em 1939, o tenente Filipe O´Costa havia regressado à Metrópole. Porém, em Macau, ficaram bem vincados, entre os adeptos de várias modalidades desportivas, e quiçá para sempre, o seu nome e a sua obra, aliados à noção mais viva dos princípios do desportivismo, amor e dedicação ao desporto. É que Filipe O´Costa pugnou sempre, não apenas pela modalidade e clube que aqui havia criado, mas também pelo desenvolvimento de outras actividades desportivas nomeadamente o ténis e o atletismo.

Por ironia das circunstâncias, nunca o desporto em Macau teve tantos adeptos e tão vasta actividade como nos anos cruciantes da guerra no Pacífico. O hóquei, como não podia deixar de ser, teve o seu grande quinhão de benefício. Longe de se manter inerte, bem pelo contrário a actividade que se desenvolveu no seu único campo – o da Caixa Escolar – foi extraordinariamente intensa e profícua. Toda a promoção em prol do hóquei foi possível na medida em que os numerosos hoquistas de Hong Kong aqui refugiados quiseram e bem souberam cooperar com os elementos locais no prosseguimento da prática e tradição da modalidade.

Disputaram-se, então, torneios e campeonatos, uns após outros com a participação de dez grupos, no mínimo, de homens, e de outros tantos de meninas e de estudantes. A febre do hóquei só abrandou quando terminada a guerra, os milhares de refugiados regressaram às suas terras.

O Hóquei Clube de Macau adquiriu personalidade jurídica em 1944, com a publicação dos seus estatutos, aprovados pela Portaria n.º 3: 658 de 21 de Outubro desse mesmo ano. A série dos «interports» com Hong Kong retomou o seu prosseguimento em 1949, com a realização do 9.º encontro anual e não mais sofreu interrupção até ao ano presente (1972), em que os seleccionados de Macau, tendo-se deslocado a Hong Kong, dali regressaram com a vitória de 1 a 0. “.

A representação do País em certamente internacional foi, desde há muito, «sonho doirado» do Hóquei Clube de Macau. O clube macaense tudo fizera para estar presente nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, e de 1956, em representação de Portugal. Mas circunstâncias adversas impediram que tão grande aspiração e honrosa representação se transformassem em realidade.” (1)

(1) FERREIRA, José dos Santos – «MBIT», VIII-3/4 de Maio/Junho de 1972, pp.2-3

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2021/09/11/leitura-resenha-historica-do-hoquei-clube-de-macau-i/

“Resenha Histórica do Hóquei Clube de Macau”, escrita por José dos Santos Ferreira (Adé) e publicada em 1972, na revista «MACAU, Boletim de Informação e Turismo » (1) 

 “Naquela tarde de Outono de 1926, um jovem oficial do Exército, meses antes chegado à Província, reunia à sua volta no campo desportivo da Caixa Escolar cerca de uma dúzia de atletas, uns ainda rapazes e outros homens já feitos, a quem falou animadamente do hóquei em campo, em todos incutindo o gosto e o interesse pela modalidade. Desportista em toda a acepção do termo e entusiasta de hóquei como nunca houve outro igual, Filipe Augusto O´Costa – assim se chama o jovem tenente de Infantaria – acabava, naquela tarde, de lançar a semente que viria a produzir tantos e tão benéficos frutos em proveito do desporto português nestas paragens do Oriente, Filipe O´Costa tinha feito escola de hóquei na Alemanha e Inglaterra. Ali aprendera a jogar a li colhera sãos ensinamentos sobre o desportivismo, o espírito de «fair play» e a essência do amadorismo no desporto, única forma em que o hóquei em campo é aceitável.

O primeiro grupo de hóquei de Macau formou-se umas semanas após aquela reunião, dele fazendo parte estudantes, militares e cadetes ingleses. Filipe O`Costa era médio-centro, o capitão, o chefe, mestre, treinador e a alma do grupo. Mercê de muita tenacidade e valiosos ensinamentos, sem mais tardar, viu os seus discípulos e companheiros da equipa predicados que bem valiam ser aproveitados, a par dum entusiasmo e dedicação a toda a prova. Aos primeiros elementos, outros se juntaram e no ano seguinte já mais de duas dezenas d adeptos sabiam manejar o «stick», revelando, porém, sem grande surpresa para o mestre, decidida inclinação para a modalidade.

Naquele tempo, em Hong Kong, dada a existência de muitos esportistas britânicos e ainda por influência da Índia, já o nível do hóquei se situava em escala bastante elevada. Vários eram os agrupamentos e centenas os jogadores de diferentes nacionalidades que praticavam com regularidade este desporto. Era, pois, imperioso promover contactos. Não hesitou o tenente Filipe O´Costa em proporcionar aos seus discípulos o gosto de participar em pugnas, convidando para Macau quantas equipas quisessem aqui vir a disputar encontros amigáveis com o primeiro e o único grupo de hóquei de Macau.

Os primeiros resultados foram inteiramente desfavoráveis; derrotas após derrotas, algumas delas copiosas, assinalaram as duas épocas iniciais do hóquei de Macau. Tais resultados, se foram desastrosos, não chegaram, com certeza, a ser desmoralizadores. Bem antes pelo contrário, constituíram, de certo modo para estímulo e levaram os nossos hoquistas a encher-se de brio, convencendo-se de que era preciso trabalhar mais e aprender melhor. Assim, de facto, aconteceu, e os resultados positivos do seu trabalho aturado, persistência e redobrada dedicação não se fizeram esperara partir d terceira época, já muitos encontros terminavam a favor de Macau. Não mais de havia registado outra derrota pesada. A turma macaense havia crescido e já se sabia impor aos grupos de Hong Kong, muito jogados e experientes. O nome do Hóquei Clube de Macau estava feito.

Durante cerca de uma década, vitórias após vitórias marcaram o período áureo do clube macaense, já então cognominado o «invencível» pela massa desportiva e Imprensa de Macau e Hong Kong. Os adversários já não eram apenas os modestos clubes de hóquei de Hong Kong, com também agrupamentos mistos e seleções da colónia britânica, grupos e selecções de Singapura, universitários do Japão e ainda uma selecção de Cantão, formada, na sua maioria, por elementos da comunidade alemã estabelecida em Shameen.

Identificação dos jogadores (data ?; local ?)
1.ª plano (sentados): Henrique Nolasco da Silva; Fernando Marques; Lourenço Ritchie; Alexandre Airosa(?) ; Albertino Almeida
2.º plano (de joelhos): Herculano da Rocha (Josico); ???; Humberto Rodrigues.
3.º plano (de pé): João do Santos Ferreira; José dos Santos Ferreira; César Capitulé (guarda redes) ; Armando Basto.

Poéma/letra de José dos Santos Ferreira (Adé) publicado no jornal «O Clarim» de 30 de Agosto de 1953, (1), adaptação da canção «Anniversary Song» (2) que mereceu uma nota do autor:

“Si sã querê cantá, non mestê fazê cerimónia: busca música de «Anniversary Song», chapá estunga quanto palavra”

(1) FERREIRA, José dos Santos – Macau sã Assi. Tipografia da Missão do Padroado, 1967, pp. 46-46

(2) «Anniversary Song» é baseado na canção/valsa de 1820, “The Waves of the Danube,” composto pelo compositor romeno Ion Ivanovici. Al Jolson e o letrista Saul Chaplin adaptaram-no para o filme “ The Jolson Story” (musical de 1946, filme biográfico do cantor e actor Al Jolson).

https://genius.com/Al-jolson-anniversary-song-lyrics https://www.youtube.com/watch?v=3VcQVNw2w78 https://www.imdb.com/title/tt0038661/

NOTA: O cantor Andy Williams no seu álbum “Call Me Irresponsible” gravou a sua versão desta canção. https://www.bellandcomusic.com/anniversary-song.html

Já não se ouve hoje em dia, mas em pequeno, ainda ouvia os mais velhos a empregar estes termos maquistas:

FERÁ CÁM com o sentido “pregar calote” (1) (2)

FERÁ – enrascar; pregar

CÁM – cão. Significa também calote. Cám-china: cão que ladra mas não morde; cobarde. (o cão chinês, normalmente, ladra muito mas foge quando se aproximam dele). Ferá cám: pregar calote. (1)

BAGATE

Bagate – fascinação; encanto; coisa que enfeitiça (1)

Bagate – mal provocado por mando de alguém, por via duma mulher de virtude que serve de intermediária”; (bagata s. f. do hindust.; bagata – feitiço, bruxaria” e bagata s. m. – homem que tem trato como demónio) (3)

Bagateá – enfeitiçar; sujeitar à acção do feitiço ou de certo chá que se dá a beber, para cativar (1)

“Perguntando-se a qualquer senhora macaense o que é bagate, com santo respeito, no caso de serem idosas, dirão que é um “mal provocado por mando de alguém, por via duma mulher de virtude que serve de intermediária”. Esta mulher é a man héong pó (問香) – feiticeira; ou algumas pai san pó(拜神婆) – simples benzedeiras. O bagate é muito temido porque só pode ser anulado por práticas da mesma pessoa que o desencadeou ou de outra com mais poder. As senhoras portuguesas de Macau, mesmo de famílias de elevado nível social, acreditam no bagate e temem esta forma de fazer mal, que pode provocar doenças e outras infelicidades aos inimigos ou pessoas que se invejam ou caíram em desagrado.” (3)

(1) FERREIRA, José dos Santos – Macau Sã Assi, 1967/68, p. https://nenotavaiconta.wordpress.com/2020/06/21/leitura-macau-sa-assi/

(2) Dívida que não foi paga por falta de vontade ou por má-fé. (do francês culotte – perda importante no jogo ou nos negócios. (https://dicionario.priberam.org/calote).

(3) AMARO, Ana Maria – Bagate, RC n.º 11/12 de 1990, p. 99-110.

問香mandarim pīnyīn – wèn xiāng pó; cantonense jyutping: man6 hoeng1 po4

拜神婆mandarim pīnyīn – bài shēn pó; cantonense jyutping: baai1 san1 po4

Neste dia de 2 de Maio de 1954, (1) o periódico «O Clarim» festejava o seu sétimo aniversário. José dos Santos Ferreira (2) que colaborava no jornal, apresentou um poéma, «“CLARIM” FICHÁ ANO», publicado no jornal desse dia. (3).

VOCABULÁRIO DE ALGUNS TERMOS DO POÉMA: (3)

Boboriça – tolices; coisas próprias de bobos.

Bulí – mexer; meter-se; provocar.

Cholido – intrometido; diz-se da pessoa que costuma meter-se com os outros.

Diabo-cacinha – maldoso; provocador.

Dios – Deus.

Fólia – folha; significa também jornal.

Guelá – gritar; desatar aos gritos (provém de «goela»).

Mordecim – enfado; incómodo.

Ôlo – olho; olhos.

Parabiça – tolice; disparate; coisa sem nexo.

Quiança – criança. Quiança-quiança: crianças.

Rósca – pão.

Sapéca – moeda ínfima de cobre, usada, noutros tempos, na China. Significa também, no dialecto macaense, dinheiro.

Sium – senhor; patrão.

Tudúm – chapéu chinês, de aba muito larga, feito de verga com borda de rota. O tudúm tanto serve para resguardar do sol como da chuva.

(1) “2-05-1948 – Início do periódico O Clarim administrado pela Diocese de Macau. Semanal de 1948 a 1952.bissemanal de 1952 a 1983, semanal de novo a partir de 1983(e em curso em 1997). Teve como suplemento O Clarim, revista mensal. Foi interrompido entre Junho de 1955 e Janeiro de 1956 (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p. 287)

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-dos-santos-ferreira/

(3) FERREIRA, José dos Santos – Macau Sã Assi, 1967, pp. 57-58

Hoje, 21 de Março, é “Dia Mundial da Poesia”. Nunca é demais aproveitando a data da sua publicação, divulgar mais um “poéma maquista” do saudoso Adé dos Santos Ferreira.

Poesia de José dos Santos Ferreira, publicada no semanário «O Clarim» de 21 de Março de 1954. Posteriormente inserida no livro «Macau sã assim», do mesmo autor, de 1967, pp. 55-56.

NOTA I: este “poéma” é dedicado ao “Ministro”, alcunha carinhoso como era tratado o o empresário macaense, Alberto Dias Ferreira que viria mais tarde a fundar um grande grupo empresarial “Aldifera Grupo Empresarial“, com ligações aos meios, comercial (“Agência Comercial Aldifera“), industrial (“Aldifera Têxteis, Limitada“, uma unidade inovadora, na altura, pela tecnologia moderna aplicada) e financeiro (“Aldifera, Casa de Câmbios, Limtada”). Membro de muitas associações de carácter cívico e desportivo (creio que está ligado ao início -1953 – e depois foi seu presidente, da Associação de Futebol em Miniatura de Macau, vulgo bolinha). Foi deputado à Assembleia Legislativa, curador da Fundação Macau e nomeado Comendador. Anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alberto-dias-ferreira/

NOTA II: A data do «Dia Mundial da Poesia» foi criada na 30ª Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999.

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/11/29/noticia-de-29-de-novembro-de-1953-xavier-cugat-em-macau/ (2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/10/noticias-de-janeiro-de-1954-espectaculos-de-variedades/

Termo ainda hoje, embora pouco, empregado na comunidade macaense: mão-tanto

Mám mão.

Mám-tanto  – aquele ou aquele que mexe em coisas que não lhe competem

O vocábulo mám é empregado em certas frases, em vez de braço. Estendê mám: estender o braço.

Outros termos «maquista» referentes à mão:

Mám cumprido: pessoa que costuma estender o braço para praticar roubo; mão ligeira, mão que rouba. Diz-se por exemplo, dos criados que furtam pequenas coisas aos patrões (1) «Ela mám cumprido » (linguagem corrente) (2)

Mám fichado – avarento, que não abre a mão para dar ou gastar dinheiro

«Ah , minha Siára num sabe

Man fichado qui fechado!

Ôvo de sua galinha

Guardá muto bem guardado.

Ajuste de casamento, em T.S. Y. K, I Volume

Mám fichado qui fichado: mão sempre muito fechado¸ diz-se de pessoa avara; mesquinha.

Mám p´ra trás – mãos ociosas, atrás das costas – Por extensão: indivíduo ocioso, preguiçoso.

Mám-cuti– maçaneta do fecho de uma porta ?:

«quebrá porta de despensa puçá (puxar) na mám-cuti ….»

de Tia Pacoela, em Renascimento I, n.º 2, p. 137.

“Não encontrei quem conhecesse o termo. Poderia ser a mãozinha que se usava antigamente para bater à porta da casa, junto ao fecho” (2)

Mão-de-buda – espécie de cidra:

 « ….as líchias, que aumentam a inteligência, as mãos de Buda, que tranquilizam o espírito, e a raiz de trate, estimulante afrodisíaco…» (3)

A cidra, ou tangerinas mãos de buda, que é o que significa o seu nome chinês fát-sân-kâm. Esta última é considerada fruta sagrada, sendo frequente representar-se o Buda com uma cidra na mão. Porém, ela só é comestível depois de preparada em doce, sendo o seu suco empregado na lavagem de tecidos delicados e valiosos …” (4)  

(1) FERREIRA, José dos Santos – Macau Sã Assi, 1967/68 https://nenotavaiconta.wordpress.com/2020/06/21/leitura-macau-sa-assi/

(2) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1988, p. 214.

(3) BRUNO, Emílio de San – O Caso da Rua Volong, p.10, nota

(4) GOMES, Luís G. – Chinesises. VII-Colecção Notícias de Macau. 1952, p.101