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A “Revista Colonial” (1) apresentava no seu número de Junho de 1914, na sua primeira página, um artigo sobre a “Bravura de portuguez”. É relatado a acção de valentia de dois portugueses, guardas do barco “Tai On” que fazia a carreira de Hong Kong para a China e que foi assaltado no dia 27 de Abril de 1914, no Rio Oeste, por piratas. Os guardas foram o macaense Leocádio Jorge da Silva e o antigo soldado da campanha dos cuamatos (2), António Dias.
(1) «Revista Colonial» ano II, n.º 18, 25 de Junho de 1914.
(2) Capitão José A. Alves Roçadas (1865-1926) que foi Governador de Macau (1908-1909), tendo sido nomeado governador do distrito de Huíla no Sul de Angola (1905) iniciou as operações militares de ocupação das terras do povo cuamato (no sul do distrito) onde fundou o Forte Roçadas.

Em 2 de Agosto de 1908, teve-se conhecimento que  os primeiros socorros pelas casas de beneficência  de Cantão aos sinistrado das cheias do Rio d´Oeste (1) não chegaram ao seu destino. Foram apresadas, em trânsito, por uma quadrilha de malfeitores chamados os «Gatunos do Rio». O afamado e terrível chefe da principal quadrilha de piratas da Província de Guangdong,(2)  por nome Lok-Lan-Cheng, ficou muito indignado com o procedimento da gatunagem! Receoso de que o roubo fosse imputado à sua gente e no intuito de dar testemunho público de que os piratas não são alheios ao infortúnio e à caridade, pois se é certo que roubam aos ricos nunca o fazem aos pobres, praticou actos de socorro de verdadeiro arrojo. Perseguiu os gatunos com a sua gente e conseguiu haver de volta grande parte dos géneros roubados, que ele próprio quis entregar aos desalojados. Apresentou-se ainda em pessoa em todas as casas dos principais lavradores de Cantão, intimandoos a reduzir o preço de arroz sob  pena de lançar fogo a todos os celeiros. A intimação foi «religiosamente acatada»” (3)
A Repartição do Expediente Sínico fez em 10 de Agosto de 1908, tardiamente, a tradução desta  notícia vinda a lume no início de Agosto, nos jornais de Cantão e Hong Kong. A notícia sobre uma catástrofe natural, desencadeou em Macau uma onde de solidariedade. Abordaremos primeiro   a notícia. O Rio d´Oeste há mais de 30 anos que não subia, como desta vez, a 40 e 45 pés (…). A fome apertou de tal forma esses desgraçados que as mães impossibilitadas de fornecer alimento aos seus filhinhos, viram-se na dura necessidade de os amarrar a taboinhas (sic)  ou baldes de madeira e de lançá-los ao rio à mercê da corrente. Estas infelizes criancinhas só por milagre poderiam salvar-se. Para se calcular o número delas, basta dizer que na cidade de Cantão – terminus do rio – apareceram mais de 30 crianças assim abandonadas à mercê da sorte! Entre estas, umas chegaram mortas e outras vivas  mas todas traziam atado ao pescoço um embrulho cujo conteúdo consistia em uma jóia de ouro ou prata e um pano do a seguinte súplica « Receba este meu filho. Se chegar vivo, adopte-o; se chegar morto, utilize o produto da jóia para o enterrar!». Casas de beneficência e particulares de Cantão cumpriram fielmente a vontade dos pais daquelas crianças, algumas das quais lograram chegar vivas depois de ter atravessado mais de 200 milhas. Também Macau  não quis «desmentir os seus créditos de cidade filantrópica» organizando um bazar para obter dinheiro que pôs à disposição dos infelizes, além de outras verbas doadas por particulares e entidades oficiais. O Hospital Kiang Wu convocou uma reunião magna, para organização do Bazar «quermesse». (4) É que, além dos bebés, havia que atender à fome dos inundados , ao abrigo dos desalojados. Logo nessa 1.ª reunião os donativos atingiram patacas $ 9 500,00. A quermesse  foi organizada pela comunidade chinesa, mas os bilhetes de entrada eram de 50 avos/pessoa, pelo que a população ali acorreu (3)

MAPA do Sul da Província de Guangdong 1950 (ANUÁRIO 50)MAPA DO MAR DA CHINA  – SUL DA PROVÍNCIA DE GUANGDONG /CANTÃO (1950)

(1) 西江 -Xi jiang (em cantonense: sai1 gong1) –  também conhecido por  Hsi Chiang, Si-Kiang, Siquião ou do Oeste.
(2) 廣東 -Guangdong / Kuangtung ou província de Cantão cuja capital é 廣州 – Guangzhou / Cantão / Kwangchow.
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4, 1997.
(4) A inauguração do Bazar a favor dos sinistrados das cheias do Rio d´Oeste, no Campo Coronel Mesquita foi a 16 de Agosto de 1908.  Presidiu à inauguração o Governador Interino, «Madame Sá» e o ajudante de Campo. O Hino Nacional foi executado pela Banda dos alunos chineses  da Escola Salesiana. O discurso inaugural foi feito por Chan-Chek-I. Na quermesse havia uma barraca de Auto China, sendo a primeira vez que em Macau se apresentaram em cena jornalistas e filhos de família abastadas, nas representações teatrais (Na China tradicional, os actores eram considerados gente de baixa categoria. (3)
Neste preciso dia em que se inaugurava em Macau a quermesse a favor dos inundados do Rio d´Oeste, o pirata Lok-Lan-Cheng apresentou-se no 1.º Hospital de Cantão, declarou o seu nome de guerra e em seguida entregou um donativo de patacas $ 10.000,00, retirando-se depois, calmamente, numa cadeirinha conduzida por oito chineses. As autoridades de Cantão só tiveram conhecimento do sucedido algumas horas depois a saída do «bom pirata» da cidade, provavelmente porque a população receosa (e também agradecida) não o denunciou. (3)
 José A. Alves Roçadas 1907NOTA: Logo à noite seguinte à tomada de posse (a 18 de Agosto de 1908) como novo Governador, José Augusto Alves Roçadas  (na foto, cerca de 1907) visitou a quermesse, com a esposa e filha. No certame havia «animatographo» que rendeu patacas $ 5 000,00 (3)

O funeral do 1.º cabo de infantaria, António Maria d´Oliveira Leite que faleceu em combate com os piratas em Coloane em 1910, realizou-se na quarta-feira, 13 de Julho, saindo do Hospital Militar para o Cemitério de S. Miguel.
Incorporaram-se no préstito fúnebre o governador Eduardo Marques, com o seu ajudante, tenente João Pedro Ruela, o Chefe de Estado-maior, Cor. Fernando José Rodrigues, vários oficiais e soldados.
O extinto era primo do 1.º sargento Manuel d´Oliveira Leite que tomou parte no combate do Cuamato (1) e que esteve em Macau no tempo do governador José Augusto Alves Roçadas (1908-1909)

O governador Eduardo Augusto Marques ordenou ao tenente Albino Ribas da Silva nomeado interinamente comandante da Taipa e Coloane e administrador das mesmas ilhas (com residência no comando da Taipa) que fosse a Coloane capturar os piratas e libertar os reféns. Para esse efeito, partiu de Macau, às 2h. a. m. do dia 12, o tenente Aguiar com um reforço de 45 soldados de infantaria; ambas as forças desembarcaram em Coloane às 4 h a. m.
Há duas versões sobre a morte do cabo relatados nos jornais.
A do jornal “A Verdade” do dia 14 de Julho de 1910:
Depois do desembarque em Coloane, as forças de Ribas e Aguiar dirigiram-se a uma povoação, onde, segundo as informações prestadas, estavam os reféns, ou parte deles, mas encontraram-na quase deserta pois ali estavam, ao que nos contam, apenas um homem e uma mulher china com duas crianças. Como esse homem lhes dissesse que os piratas se haviam refugiado numa das colinas, para lá se dirigiram; mas, ao passar a certa distância de um buraco que parecia indicar a existência dalgum covil, e querendo um cabo aproximar-se para o examinar, partiu dali uma detonação, e pobre cabo recebeu num dos lados uma bala que se lhe internou nos rins, vindo a falecer à noite no Hospital de S. Januário…

Outra versão do jornal ”Vida Nova” de 17 de Julho de 1910, o tiro que matou o 1.º cabo de infantaria António Maria d´Oliveira Leite partiu dum buraco duma casa da povoação. Relata este jornal “Por denúncia certamente de algum partidário dos piratas, estes souberam da aproximação das nossas tropas, e tanto que evacuaram, aparentemente, a vila, a ponto de não se ter encontrado senão um velho, uma mulher e uma criança, chinas, por ventura sentinelas postas pelos próprios piratas. Como não vissem ninguém, as nossa tropas foram avançando em reconhecimento, mas, dados que foram alguns passos além da rua que fica por detrás da casa de fantan, d´um buraco d´um dos pardieiros d´aquele sítio partiu um tiro de espingarda que atingiu o abdómen, um cabo d´infantaria por nome Leite, que pesquisava o local, vindo o desditoso moço a falecer em Macau, no Hospital de S. Januário para onde fôra transportado...”

(1) Os cuamatos são indígenas que habitam o sul da República de Angola. As chamadas campanhas do Cuamato foram acções desenvolvidas (denominadas Pacificação do Sul de Angola) pelos militares portugueses no ano de 1907.

Informações recolhidas de TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume II – Ruas com Nomes de Pessoas. Instituto Cultural de Macau, 1997, 560 p., ISBN-972-35-0244-5

Sobre os acontecimentos decorridos na Ilha de Coloane no combate à pirataria, ver anteriores “posts”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/06/21/noticia-de-21-de-junho-de-1952-visita-a-ilha-de-coloane-pelo-ministro-do-ultramar/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/07/19/noticia-de-19-de-julho-de-1954-comemora-cao-em-coloane/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/05/05/noticias-5-de-maio-de-1910/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/09/historia-de-piratas-i-ilhas-de-piratas/