Archives for posts with tag: Jorge Graça

Hoje, 17-04-2020, o «Jornal Tribuna de Macau» noticia(1) que “O Corpo de Polícia de Segurança Pública encontrou uma réplica de canhão numa obra de canalização, no Porto Interior. A obra já foi suspensa. Funcionários dos Serviços de Alfândega, Instituto para os Assuntos Municipais e Instituto Cultural já estiveram no local para avaliar a situação.”

De Macau, informam-me que o “achado” foi localizado na Zona do Patane. O canhão estará relacionado com o Forte do Patane (também conhecido como Palanchica) ? E/ou às docas de embarcações que existiram nessa zona? (2)

Pormenor de Mapa de Macau Vista da Lapa de «Ou-Mun Ke- Leok, 1979» p.97

O forte estaria situado perto da Calçada da Palanchica, (3) na pequena elevação do Patane, junto à capela dedicada a Sto. António? (Igreja de N.S. do Amparo?)  e tinha como “missão” proteger a cidade de uma invasão do Continente. Segundo Jorge Graça (4), o forte tinha “3 plataformas, cada qual provida de uma peça de artilharia. O acesso à esplanada superior era efectuado por meio de uma escada que a ligava com a de baixo. Estava ligado à fortaleza de S. Paulo (5) por uma secção da muralha Nordeste da cidade, na encosta ocidental da colina de S. Paulo e ao Porto Interior por outra secção desta muralha. Não é conhecida a data certa da sua construção, mas parece ser a mais antiga das fortificações do Macau primitivo. Estava provido com peças de artilharia retiradas dos barcos de comércio do Japão. Foi demolida juntamente com a muralha da cidade que ligava a fortaleza de S. Paulo ao Porto Interior em 1640 por exigência chinesa.

Segundo Padre Teixeira, o chamado Forte da Palanchica sobre o montículo de Patane não tem História, “ porque os únicos documentos que encontrou sobre Patane: ambos afirmam que se construiu um muro que ia desde S. Paulo a Patane e se tentou construir um forte neste lugar, mas gorou-se esta tentativa devido à oposição chinesa.”(6) Esta também foi a opinião do historiador Ljungstedt: (7) «Parece que em 1925 se tentou construir um forte num lugar chamado Patane a fim de ligá-lo por meio duma cortina com o Monte. Mas os chinas fizeram um tal resistência que se abandonou a obra, e a cortina mudou-se em muro do Jardim, que se estende até um braço do Porto Interior»

Era nessa zona designada por Patane ou Chão do Campo dos Patanes ou Campos de Patane que “corria um importante veio de água potável (Ribeira do Patane), suficiente não só para dessedentar a povoação mas ainda para o fornecimento da aguada aos juncos e mais barcos de cabotagem que já concorriam ao porto. Era por isso a zona que servia não só para abrigo e aguada, mas também servia de doca para reparação das naus da carreira do Japão, ou naus da prata, enquanto aguardavam a monção para prosseguir viagem. A Ribeira do Patane veio com o andar do tempo, após o inquinamento completo das suas águas pelas várzeas que o foram marginando, a converter-se num colector de esgoto que ainda não há muitos anos se via a descoberto e que era conhecido pelo canal de San Kiu” (6)

Planta de Macau, anónimo, Pedro Barreto de Resende no Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidade e Povoações do Estado da Índia Oriental de António Bocarro, c 1635

(1) https://jtm.com.mo/local/breves-1220/

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ribeira-de-patane/

(3) As obras efectuadas na zona do Patane e Tarrafeiro em 1868 acabaram com o labirinto de becos e travessinhas da Palanchica. https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/travessa-da-palanchica/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/palanchica/

(4) GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau, Concepção e História. ICM, 1985, p.99

(5) “D. Francisco Mascarenhas, governador de Macau (1623-1626) mandou construir uma muralha de 500 barças, que se estendia desde a Fortaleza de S. Paulo ao Patane. Os Chineses objectavam que, estando esta muralha voltada para a China, era contra eles que se dirigia e não contra os inimigos de fora, e, por isso, exigiram a sua demolição. Mascarenhas opôs-se, mas o Senado cedeu às exigências chinesas e revoltou-se contra o governador em Outubro de 1624 e demoliu essas 500 barças de muro em Março de 1625. D. Francisco Mascarenhas, para evitar efusão de sangue, engoliu em seco esta amarga pílula” (6)

(6) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM, 1997, pp. 36-37

(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/andrew-ljungstedt/

Consta que neste dia he o de S.mo João Baptista alcançou esta cidade a maior victória que se pode considerar pelas circunstâncias em que estava naqueles lastimosos tempos” (1)

Fortaleza do Monte – 1985
Foto de Tang Hin Hei

Esta fortaleza “Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de S. Paulo) (2) teve um papel decisivo no repelir do ataque holandês de 24 de Junho de 1622, pois foi a sua artilharia que fez explodir as reservas invasoras quando desembarcaram na Praia de Cacilhas e já estavam “«muy cerca de la ermida de nuestra Senora del monte de S. Paulo» (3)
Foram três os tiros que partiram do Monte e o terceiro atingiu o “paiol” que os holandeses traziam.
Segundo Padre Teixeira, foram dois os padres jesuítas responsáveis por este feito. Os padres italianos Burri (depois aportuguesado para Bruno) e Giacomo (Jerónimo) Rho. (4)
“Sabemos que merecimentos teve o Padre Bruno. Ao outro caberia merecimento de ter apontado e disparado os canhões”. (1)

A TRADIÇÃO DO OVO DE S. JOÃO BAPTISTA
A propósito deste dia, vou falar de uma recordação de infância que partilho com a minha irmã. Neste dia de S. João Baptista, em conjunto com a minha mãe, costumavamos partir um ovo para dentro de um copo transparente e ao meio dia em ponto, pegávamos o copo e virando-o para o sol, tentávamos ver no ovo, a figura de S. João Baptista num barco (alegoria da chegada do Santo para salvar Macau). Embora nunca conseguíssemos ver essa figura, o costume mantinha-se anualmente.

(1) TEIXEIRA, P. Manuel – Os Militares em Macau, 1975, p. 211)
(2) Parece ter sido desenhada de acordo com os planos de Francisco Lopes Carrasco, um homem com grande experiência militar adquirida em África e na Índia que foi nomeado ouvidor e capitão de guerra, em Macau, mas caiu em desgraça devido às inúmeras queixas contra o seu comportamento e em poucos meses depois de tomar posse, terá partido para Goa em 1617. O melhoramento e aperfeiçoamento das muralhas, terá sido de D. Francisco Mascarenhas, com conclusão do quarto e último baluarte em 1626, data esta que aparece na pedra da fortaleza. (1)
GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau: Concepção e História. ICM, 1985.
(3) BOXER, C. R. – Boletim E. D. de Macau, Agosto, 1938  in (1)
(4) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/giacomo-rho/

Nesta data, 2 de Novembro de 1835, o procurador da Cidade Francisco António Pereira da Silveira oficiou ao mandarim da Casa Branca dizendo que pela frequente ida e vinda de soldados para a Fortaleza da Barra, se tornava necessário construir uma estrada de 10 côvagos de largura desde o Pagode até à Fortaleza.

postal-templo-de-a-maPOSTAL: Templo de A-Ma – Porta da Entrada –
A-Ma Temple – Entrance Gate
媽閣廟入口大門
Direcção dos Serviços de Turismo de Macau
LITO: Imprensa Nacional de Macau

Mas como esse lugar estava repleto de barracas, «que os chincheus diariamente fazem, formando-se becos, ficando por isso intransitável», pedia ao mandarim que mandasse desmanchar as barracas dos chineses existentes entre o templo e a fortaleza da Barra, permitindo assim aos obreiros chineses que construíssem a estrada. (1) (2)
A 1 de Dezembro de 1940, foi aberta a Estrada da Barra. (3)
mapa-da-barra(1 GOMES, L. G. –Efemérides da História de Macau, 1954
(2) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997.
Embora nesta obra, esteja referido «Estrada da Barra», aberta a 1 de Dezembro de 1940, esta designação não consta no cadastro de Macau. Com a «Barra» está associado a Rua da Barra, a Travessa da Barra, o Beco da Barra, o Pátio da Barra, a Calçada da Barra, o Largo do Pagode da Barra, e a Rampa da Barra.
A Rampa da Barra que começa no início da Calçada da Barra/ fim da Rua da Barra “sobe” em direcção á encosta da Colina da Barra mas conforme mapa actualizado não tem saída. (?).  Esta última via é a única que não consta nos Anuários de Macau até 1940. Assim também a designação da ligação actual do Largo do Pagode da Barra (媽閣廟前地) para a Fortaleza da Barra/ Pousada de Santiago que se faz através da Rua de S. Tiago da Barra (3) que em chinês 媽閣上街 se denomina «Rua acima da Barra». Possivelmente será esta a Estrada mencionada.
(3) “A Fortaleza de S. Tiago da Barra que era do tamanho de uma pequena aldeia, embora muito mais pequena em área, no presente, sofreu muitas alterações tanto na sua traça como no tamanho. O aparecimento da Rua de S. Tiago provocou a maior parte das suas mutilações e, como resultado, muitos dos seus elementos principais e históricos desapareceram.
GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau. Concepção e História. I.C.M., 1985
Ver anteriores referências a esta Fortaleza, hoje Pousada em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fortaleza-de-s-tiago-ou-da-barra/
 
Rua S. Tiago da Barra – 媽閣上街mandarim pīnyīn: mā gé shàng jiē; cantonense jyutping: maa1 gok3 soeng3 gaai1 (rua acima da Barra)
Largo Do Pagode Da Barra – 媽閣廟前地mandarim pīnyīn: mā gé qián shàng dì,  cantonense jyutping: maa1 gok3 miu6 cin4 dei6 (terreiro à frente do templo de Á Má/Barra)
Rua da Barra – 媽閣街mandarim pīnyīn: mā gé jiē; cantonense jyutping: maa1 gok3 gaai1 (rua da Barra)
Calçada da Barra – 媽閣斜巷mandarim pīnyīn: mā gé xié hàng; cantonense jyutping: maa1 gok3 ce3 hong6 (via inclinada da Barra).

Fortaleza da Guia -1885Fortaleza da Guia em 1885

“01-09-1637 – Principiou a construção da Fortaleza de Nossa Senhora da Guia tendo terminado um ano depois.” (1)
A fortaleza encontra-se no mesmo sítio onde havia uma bateria pois  desde 1622 (2) foram feitos reparos defensivos a um “rudimentar sistema anterior” (bateria), junto da ermida. (3) A fortaleza sofreu várias alterações ao longo do tempo tendo sido ampliada e prolongada dando origem à actual fortaleza.

Planta de Macau final s. XVII chinês - pormenor fortalezasPormenor da Planta de Macau em finais do século XVII
pertencente ao Arquivo Nacional n.º1 da China,  onde se vê três fortalezas,
a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia (no topo, com dois canhões),
a Fortaleza do Monte (à esquerda, com 11 canhões) e
a Fortaleza de S. Francisco (à direita, com 4 canhões)

Esta Fortaleza de Nossa Senhora da Guia ou Fortaleza da Guia encontra-se  a Nordeste da Fortaleza de S. Paulo do Monte, e está situada na colina de Nossa Senhora da Guia, com uma altitude de 94 metros, o ponto mais alto da Península de Macau. As cartas desta parte da costa da China indicam que o farol (4) existentes no seu recinto tem as coordenadas de 22° 11´ 51´´ de latitude Norte e 113° 32´48´´.
Esta fortaleza colocada fora das muralhas defensivas da cidade antiga mas em situação dominante foi edificada como defesa contra a ameaça do continente Chinês. Funcionava também como aviso e posto de observação (5) tem um sino (6) que tocava sempre que se avistava um navio ou  se esperava um tufão“. (7)
ESQUEMA Fortaleza da Guia

Compreende uma área de cerca 800 metros quadrados. O seu plano primitivo era mais regular, com a forma de trapézio de área ligeiramente inferior à presente. Possuía um quartel para uma companhia de soldados e uma cisterna de água assim como uma ermida dentro do seu recinto. O portão de entrada ficava na muralha Norte, com casa da guarda por cima. Tinha também armazéns para equipamento e pólvora e uma casa para o Comandante da guarnição. Tinha de início quatro pequenas torres mas restam apenas duas. A torre no cato Norte não é original, é de construção recente em cimento armado.(7)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954
(2) A  laje de pedra encaixada sobre o portão de entrada da fortaleza tem gravada uma inscrição que regista que a fortaleza foi erigida e concluída nos anos de 1637-1638.

Fortaleza da Guia - Laje portãoESTE FORTE MANDOV FAZER A CIDADE A SVA
CYSTA PELO CAPITAO DA ARTILHARIA ANT RIBR
RAIA COMESOVSE EN SETEBRO DE 1637 ACABOVSE
EN MARÇO D 1638 SENDO GERAL DA CAMARA
DE NORONHA

A fortaleza de N.ª Senhora da Guia teve princípio em Setembro de 1637 e terminou em Março de 1638. (PEREIRA, J. F. Marques – Ta-Ssi-Yang-Kuo, 1984.)
Padre Manuel Teixeira refere que “vários historiadores, que se limitam a copiar Marques Pereira, afirmam erradamente que a fortaleza da Guia foi construída em 1637 mas afirma que segundo documentos de Bocarro (8) ” Manuel da Câmara Noronha, Capitão-Geral de Macau (1631-1636), demoliu o forte mas, em 1636, foi substituído no governo por seu irmão Domingos da Câmara Noronha, que tinha ideias muito diferentes; este reconstruiu-o com maior perímetro em 1637- 1638, segundo reza a inscrição da fortaleza.” (TEIXEIRA, P.e Manuel – Os Militares e Macau, 1975)
Domingos da Câmara de Noronha foi Capitão-geral de Macau de 1636 a 1638.
(3) No relato da invasão dos holandeses em 22 de Junho de 1622 … Tendo pois o inimigo de passar ao lado d´este bambual, temeu alguma emboscada, e pelo facto de não ver pessoa alguma e estar soffrendo não só os tiros do Monte como tambem descargas successivas do lado da Guia; assim mudou de plano, e diligenciou subir ao alto do oiteiro, sobre o qual já existia uma ermida… (Boletim do Governo de Macau, n.º 30 de 28-06-1862).
(4) O farol é posterior, foi construída por ordem do Governador José Rodrigues Coelho do Amaral em 1864/1865. Acendeu-se pela primeira vez a 24 de Setembro de 1865.
(5) A fortaleza da Guia (e antes a Ermida da Guia) servia durante o dia de guia para os navios  que se dirigiam para Macau e Cantão. Quando aparecia um navio um navio, o governador era avisado da sua aproximação por sinais, e quando se descobre a bandeira, o comandante participava-o por escrito. Se era um a navio português, tocava-se o sino.
(6) O sino que se encontra ao lado da Capela, (mas ali colocada somente em 1707), tem a seguinte inscrição:

ESTE SINO
FOI FEITO PARA UZO DE
STA ERMIDA DE N.S DA GUIA
EM O ANO DE 1707 SENDO
PREZIDENTE DELLA E CAPI
TÃO GERAL DESTA CIDADE
DIOGO DO PINHO TEIXEIRA
Fortaleza da Guia - SINO - 1998Foto de 1998

O italiano Marco d´Avalo diz na «Descrição da Cidade de Macau»: ” Deste último forte recebe a cidade aviso dos navios que se avistam no mar, quer venham do Norte ou do Sul, do Japão ou de Manila, para entrar no seu porto. Logo que se avista qualquer , toca-se o sino na montanha e, segundo as maneiras como for tocado, indica de qual lado eles apparecem”  in  (Ta-Ssi-Yang-Kuo, Vol II).
(7) GRAÇA, Jorge –Fortificações de Macau.
(8) Manuel Tavares Bocarro que possuía uma fundição de canhões em Macau de 1625 a 1664,  informava que em 1635, o baluarte da Guia tinha 5 peças, i. é, uma colubrina, um pedreiro e 3 sagres, todas de metal; Marco d´Avalo afirmava que, em 1638, tinha 4 ou 5 peças.
Anteriores referência à Fortaleza da Guia em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fortaleza-da-guia/page/4/

19-02-1852 – Concluído o fortim novo, sobranceiro à Praia de Cacilhas, tomou este o nome de D. Maria II, (1) segundo a «Ordem à Força Armada n.º 9» que por este motivo, ordenou o desmantelamento do Forte de Mong-Há, por se encontrar em ruínas e desnecessário, em virtude da construção do novo fortim.” (2)
No entanto, o Forte de Mong Há foi reconstruído e reactivado mais tarde. (3)

Ta-Ssi Yang-Kuo Fortim de D. Maria II (1899)FORTALEZA DE D. MARIA 2.ª E LAZARETO
Photograv. de P. Marinho, segundo uma photographia do sr. Carlos Cabral (1899)
(Ta-Ssi Yang-Kuo, Vol. I/II)

De acordo com a ordem n.º 19 do quartel General Militar, de 17 de Fevereiro de 1852, este forte foi ocupado militarmente, nessa data com a intenção de substituir o forte de Mong-Ha, apesar da localização deste último ser de longe superior. Foi edificado sob a direcção do oficial engenheiro Major António de Azevedo e Cunha. (1)
Em 1872, na Fortaleza de D. Maria 2.ª, «fizeram-se nesta fortaleza todos os concertos e reparos de que precizamos; nas muralhas, no terrapleno; no quartel do destacamento; no paiol; e na ponte levadiça junto da entrada, fazendo-se de novo para esta, um molinete» (4)

FORTIM DE D. MARIA II 2015Portal da entrada do Forte de D.Maria II /馬交石炮台 como está actualmente, vendo-se o local onde estava a ponte levadiça. Observar o parapeito saliente, onde se encontram ameias que serviam para o defesa do portal de entrada.
(Foto de https://pt.wikipedia.org/wiki/Fortifica%C3%A7%C3%B5es_de_Macau)

O forte de D. Maria II, bem como o de Mong Há e o  da Taipa são as últimas fortalezas  construídas pelos portugueses em Macau (todas já do século XIX) e têm uma função  diferente das primitivas Já não serviam para se defenderem dos ataques dos estrangeiros e piratas mas para defenderem de eventuais ataques vindas do continente chinês, após o trágico assassinato de Ferreira de Amaral
A casamata deste forte foi destruída por uma bomba durante o bombardeamento americano a Macau em 16 de Janeiro de 1943. (5)

MACAU PASSADO E PRESENTE 1907-1999 Colina , Forte de D. Maria IIFORTE DE D. MARIA II no topo,  o LAZARETO mais abaixo e a antiga Estrada de D. Maria II.
Foto de Man Fook (1907) (6)

O Fortim está classificada como património arquitectónico, paisagístico e cultural desde 1984 e mantido sempre este estatuto nas sucessivas revogações, a última em 2013 (Lei n.º 11/2013 da RAEM de 22 de Agosto – Lei de Salvaguarda do Património Cultural).
Hoje recuperado, no entanto, não é visitável o seu interior; o parque que o rodeia é um lugar aprazível com uma boa vista para o reservatório  e o Porto Exterior.
馬交石炮台- mandarim pinyn: mǎ jiāo dàn bāo tái; cantonense jyutping: maa5 gaau1 daam3 baau1 toi4.
(1) “Este forte está localizado no cume da colina de D. Maria II, com uma altitude de 47 metros, a dominar a baía de Cacilhas e o Istmo da Península de Macau. Objectivo: apesar da sua posição estratégica ser inferior, foi construído para substituir o forte de Mong-Ha. Mais tarde  a sua missão principal foi a de reforçar e fornecer fogo de cobertura ao forte de Mong-Ha e, assim, funcionava como posição auxiliar. Tinha também a função de cobrir a Baía de Cacilhas afim de proteger as suas margens. Por isso, a sua única arma era rotativa num arco de 360.º. Apesar de tudo, este forte nunca deve ter sido muito eficiente.”
GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau , Concepção e História, 198?
(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(3) “Os trabalhos de fortificações na colina de Mong-Ha foram iniciados pelo Governador Ferreira do Amaral em 1849 como uma medida preventiva de defesa contra uma temida invasão chinesa, mas não foram concluídas devido ao seu assassinato.”  Foram retomados em 1850, mas em 1852 estavam praticamente reduzidas a ruínas. Em 1864  foi reconstruído o forte  por ordem do Governador Coelho do Amaral e ficou concluído em 1866.”(1)
Carlos José Caldeira a propósito da visita do Governador Francisco António Gonçalves Cardoso (chegou a Macau 26-01-1851 e tomada de posse a 3-02-1851) às fortalezas de Macau: « Em todas as fortalezas poucas peças estavam em estado de fazer fogo e não continuado; no já quasi desmoronado forte de Mohá (feito haveria pouco mais de um anno) n´um dos canhões principais, dirigido sobre a Porta do Cerco, no ouvido faziam as lagartixas seu sossegado ninho; as poucas munições estavam fechadas num caixão do qual se perdera a chave havia tempos, etc, etc, etc… Sirva isto só de dar idêa de todas outras misérias. E, no entanto que faziam os governadores de fortalezas, e o major de engenheiros, todos com denominações alti-sonantes, e bons soldos gratificações?. Tratavam das suas hortas, ou passavam vida airada e folgasã…
O major  de engenheiros, mandado de Portugal pelo Egipto com avultada despesa, recebia mensalmente em Macau 116 patacas»
CALDEIRA, Carlos José – Apontamentos d´uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa , 1852.
(4) Relatório o Director das Obras Públicas, Ten-Cor. Francisco Jerónimo Luna, relativo a 1871-1872 in TEIXEIRA, Pe. Manuel – Os Militares em Macau, 1975.
(5) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/01/16/noticia-de-16-de-janeiro-de-1945-bombarde-amentos-em-macau/
(6) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/05/01/noticia-de-1-de-maio-de-1911-epidemia-de-peste-bubonica/
Referências anteriores a este fortim:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fortaleza-de-d-maria-ii/

Ao longo dos anos, a insígnia de Macau e concomitantemente a do Leal Senado foi variando, algumas por imposição legal, outras por opções estéticas.
Assim começando pelo mais antigo.

Insígnias da cidade 1626 Forte do MonteO emblema granítico da Fortaleza de S. Paulo do Monte está datado

ANNO DNI 1626

O mais antigo brasão de Armas de Macau conhecido é o que está esculpido em granito e colocado sobre a Entrada da Fortaleza de S. Paulo do Monte (originalmente chamada de Nossa Senhora do Monte). (1) Está datado de 1626, ano da conclusão das obras da Fortaleza.
“Por cima do portão de entrada da muralha Sul desta fortaleza havia uma pedra esculpida com 1 metro quadrado de área e um frontão triangular em cima, mas esta laje foi retirada e está, presentemente, na muralha interior virada para o portão da rampa de acesso à esplanada superior. Os pregos utilizados para sustentar a laje ainda se podem ver por cima do portão” (2)
O frontão triangular tem esculpida a figura de S. Paulo, Patrono da fortaleza.
A pedra rectangular que está por baixo consiste essencialmente de um escudo de Portugal, encimado por uma coroa rematada com cruz. O escudo é flanqueado por dois querubins de pé, vestidos apenas de uma faixa esvoaçante, assente em cavalete, O anjo do lado esquerdo ostenta sobre a levíssima redouça a Cruz de Cristo, e, simetricamente, o anjo da direita equilibra a esfera armilar rematada por uma estrela.
Em 1654, o título de Leal foi conferido ao Senado de Macau por D. João IV. E em nome de El-Rei, o Capitão Geral João de Souza Pereira mandou pôr no letreiro a nova dignidade, à entrada do Leal Senado.

Insígnias da cidade 1961 Portaria“A tradicional representação heráldica da cidade de Macau: o escudo de armas de Portugal sobrepujado da antiga coroa real aberta e amparado por dois anjos de joelhos, vestidos de prata e realçados de ouro, nimbados de uma cruz de Cristo, de vermelho – o da dextra, e de uma esfera armilar, de ouro – o da sinistra -; listel branco tendo inscritos em caracteres negros nos dizeres «Cidade do Nome de Deus não há outra mais leal» ” (3)
NOTA: Sobre este assunto, aconselho o trabalho de investigação da Dra. Beatriz B. da Silva em
         SILVA, Beatriz Basto da – Estudo-Insígnias de Macau. Edição do Leal Senado,1986, 83 p.
(1) Fortaleza que cresceu lentamente e irregularmente ao longo dos anos. Terá começado a 1617, em 1623 tornou-se residência governamental de D. Francisco de Mascarenhas, primeiro Capitão-General (posse a 17 de Julho 1623). Referências anteriores sobre a Fortaleza do Monte em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fortaleza-do-monte/
(2) GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau, concepção e história. 19 – – (?)
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/16/leitura-comemora-coes-em-macau-do-v-centenario-da-morte-do-infante-d-henrique-ii/
(3) Portaria n.º 18 626 do Ministério do Ultramar de 27-07-1961 (publicado no B. O. n.º 32 de Macau)

“No topo da colina da Penha existia outrora um forte que é anterior a 1623, (1) como se prova dum documento relativo a D. Francisco Mascarenhas, governador de Macau (1623-1626). A 1 de Fevereiro de 1625, este governador requereu ao ouvidor António Camelo Serrão que fizesse um inquérito judicial sobre os seguintes pontos:

«que vindo a esta cidade para Capitão geral com gente nella e ordem para a por em toda a boa defenção e desciplina, ordenou três Companhias na melhor forma que lhe foy possível. E tanto que o teve feito loguo os seus soldados occuparão os postos e forão fazer vegia na barra, no forte de São Francisco e no de Penha de França» (2)

 Não há dúvida da existência deste forte em Macau. Montalto de Jesus (3), cita um velho manuscrito francês un petit lieu ao bord de la mer au pied d´une  montagneoù autrefois les Portugais ont eu une forteresse mesmes qu´il y en a beaucoup  qui y habitente”.
Este forte estava ligado à fortaleza de Nossa Senhora de Bomparto/Bomporto  por uma muralha “Do Bomporto estendia-se uma muralha que ultrapassava a elevação da Penha”.  (3)

Forte da Penha LJUNGSTETNesta velha estampa, vê-se a muralha que ligava a Fortaleza de
Nossa Senhora da Penha à Fortaleza de Bomparto, s/ data (4)

O forte foi demolido devido às suspeições chinesas que receavam a fortificação e a construção de muralhas à volta da “cidadela”. A sua reconstrução foi depois do ataque holandês de 1622,  (5) atribuído a D. Francisco de Mascarenhas, o primeiro Governador de Macau. A fortificação de Macau, a “cidadela” foi completada em 1626. Este forte foi demolido em 1892.(6)

Forte da Penha Chinnery 1837

“Vista da Igreja da Penha”, Chinnery . c. 1837
A Ermida da Penha dentro do forte e a muralha que ligava à Fortaleza de Bomparto.

O Forte de Nossa Senhora da Penha de França estava situado no cimo da colina da Penha, onde se encontra presentemente a Ermida da Penha.

O seu objectivo principal era a defesa contra as invasões navais e por isso, apesar de não estar próximo do litoral, era considerado uma fortificação costeira. Além disso, as suas armas podiam ser apontadas formando um arco completo sobre toda a cidade. Infelizmente não há conhecimento de desenho, plantas ou descrições deste forte que tenham sobrevivido. (4)

Forte da Penha BORGET 1838“O Forte da Penha de França”, Auguste Borget – c. 1838
O Forte da Penha está à esquerda e a Fortaleza de Bomparto
no sopé da colina e ligando as duas fortificações, a muralha

(1) Não se sabe a data de construção do forte mas foi um dos primeiros de Macau. Por esta notícia, já existia o forte da Penha aquando da chegada de D. Francisco, a 7 de Julho de 1623.
(2) TEIXEIRA, Pe. Manuel – Os Militares em Macau.1976
(3) JESUS, C. A. Montalto de – Macau Histórico. Livros do Oriente, 1990
(4) “Fort Bomparto –“baluarte de Nossa Senhora de Bomparto” – anciently denominated with greater propriety Baluarte do Bomporto. From this fort a Wall ascends south-west the Hill, on the top of wich is seated the hermitage of Penha de França”
LJUNGSTEDT, Andrew – An Historial Sketch of the Portuguese Settlements in China ando of the Roman Catholic Chirch and Mission in China”. Boston, 1836.Ver em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/23/noticia-de-23-de-marco-de-1759-nascimento-de-andrew-ljungstedt/
Poderá ler este livro em:
http://books.google.pt/books/about/An_Historical_Sketch_of_the_Portuguese_S.html?id=Q7gNAAAAIAAJ&redir_esc=y
(5) Ou-Mun Kei-Leok relata que, para protecção contra os ataques holandeses, os portugueses construíram um forte semelhante a um antigo que tinha sido demolido.
Tcheong-U-Lâm; Ian-Kuong-Iâm- Ou-Mun Kei-Leok, Monografia de Macau, 1751, traduzida por Luís Gonzaga Gomes. Quinzena de Macau, 1979.
(6) GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau; concepção e história. Instituto Cultural de Macau.

“25-09-1828 – Os Chineses de Mong-há foram proibidos, por edital do mandarim da Casa Branca, de atirar pedras às casas vizinhas e ao Forte de Sto António e de cometer distúrbios para exigirem a abertura das Portas do Campo, antes do tempo determinado, as quais há mais de dois séculos, eram abertas às 5.00 horas da manhã e fechadas às 20.00 horas, conservando-se as chaves em poder do Governo.” (1) 
«tendo vós já cometido hum semelhante atentado; os cabeças das ruas, terão todo o cuidado de prender os infractores desta minha ordem, e remeter ao Mandarim. Cso-Tam, para os castigar: os cabeças das ruas, q. forem cúmplices neste crime, serão tbm rigorosamente castigados; e os soldados, q. estiverem de vigia às Portas, não poderão motivar desordem, q. deverão então ser castigados » (Arquivo da Procuratura)» (2)
(1) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau.
(2) TEIXEIRA,, Pe. Manuel – Toponímia de Macau,  Volume I.
O objectivo das muralhas da cidade, que quase circundavam a primitiva cidade, tinham como função principal proporcionar forças defensivas com capacidade de resistir a um assalto directo da infantaria inimiga. Também protegiam a cidade durante a noite, oferecendo segurança contra os piratas e bandos de assaltantes que infestavam os arredores de Macau.
Estas muralhas estavam fornecidas de duas portas.
A do lado Nascente, perto da actual Igreja de Sto. António, chamava.se porta de Sto. António ou Sto. Antão, enquanto que a de Sudeste, perto da Igreja de S. Lázaro, era conhecida por porta do Campo. Estas portas estavam fechadas à noite, abrindo-se e fechando-se às mesmas horas. Na porta de Sto. António existia um posto alfandegário.”
GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau. Concepção e História.

Todo o visitante que viajava, no século passado, nos barcos de carreira, ao curvar a Barra para entrar no Porto Interior, deparava com a Fortaleza de S. Tiago, encostada nos rochedos que se erguiam pela colina da Barra.

Fortaleza de S. Tiago 1899Fortaleza de S. Tiago da Barra
Photograv. De P. Marinho, segundo uma photographia do sr. Carlos Cabral (1899) (1)

A Fortaleza está situada na ponta Sul da península de Macau, à entrada do Porto Interior. Esta importante fortaleza era essencial e indispensável à defesa de Macau por proteger o Porto Interior. Em 1638, Marco D´Avalo descrevia “ Todos os navios e juncos que desejam entrar esta barra ou pôrto têm necessariamente que passar dentro de 3 ou 4 alabardas de distância do forte porque (cerca de 6 a 7 metros) os portugueses  bloquearam a restante parte do canal a fim de protegerem melhor o local.” (2)

Fortaleza da Barra 1775Fortaleza de S. Tiago, ou da Barra.
Planta aguarelada, autor desconhecido, s.d. (século XVIII) (provável: 1775) (3)

A artilharia estava orientada e apontava directamente para este único meio de acesso ao Porto Interior e o canal entre as ilhas da Taipa e de D. João (4)

Dentro da Fortaleza de S. Tigo1888Bateria da Fortaleza de S. Tiago da Barra
Photograv. De P. Marinho, segundo uma photographia de 188? (1)

A fortaleza estava a Sudeste da Fortaleza de Bomparto e em frente à Ilha da Lapa (4)
A construção da Fortaleza (Forte da Barra) iniciou-se em 1616 e ficou concluía em 1629 no local de uma primitiva bateria de canhões, com a função de defesa do ancoradouro interior. A sua importância estratégica para a defesa de Macau era de tal ordem que nos séculos XVII e XVIII “o capitão deste baluarte é nomeado directamente pelo rei ou em seu nome e o capitão geral da cidade não pode substitui-lo por outro, excepto em caso de negligência manifesta ou então, provisoriamente até que seja recebida a aprovação do Rei” (2)

Mapa Macau dps 1622Macau no século XVII (depois de 1622)
Estampa publicada por Manuel de Faria e Souza no tomo 3.º da Asia portuguesa (1)

Quando se deram os combates contra os holandeses, em 1622, a primitiva bateria era apenas uma bateria montada mas prestou uma valiosa defesa. O local tinha características de boa defesa militar e ainda mais na defesa costeira, como auxiliar dos outros fortes que serviam a costa exterior.
O proprietário do forte era um homem robusto chamado João Soares Vivas.
Em regime de propriedade privada era contudo de utilidade na defesa, e mantinha ao seu serviço bom número de homens, pois esse valoroso capitão marchou com 160 homens para a elevação da Guia para a defender dos ataques que nessa altura os holandeses vibravam contra esta possessão.
A sua situação estratégica foi depois aproveitada, após a derrota dos holandeses, para resistir a futuras investidas. Assim, foi dotada de 14 canhões de grosso calibre, alguns de 50 libras de bala. Estes últimos eram feitos de bronze, mas estava guarnecida de material, tanto de ferro como de bronze, em parte fabricado nas fundições do Chunambeiro. (5)
NOTA: A fortaleza sofreu muitas alterações quer na traça quer no tamanho ao longo dos anos principalmente no alargamento dos arruamentos (ex: Rua de São Tiago).
Baluarte de Santiago de la Barra, por onde os navios passam e que é muito bom e forte dando a aparência de ser por si uma pequena cidade quando visto à distância devido às grandes construções e aquartelamento existentes no seu circuito. Existe um reduto no tôpo da montanha que serve de refúgio, aonde há 16 peças pesadas 4 das quais têm bôcas largas para tiros de pedras, enquanto as restantes são de calibre para bala de ferro de 24 libras. Dentro dêste referido baluarte há um outro baluarte mais alto, provido de seis canhões, como os referidos, que têm um alcance muito longo” (2)

(1) PEREIRA, J. F. Marques – Ta-Ssi-Yang-Kuo, Vol II. Antiga Casa Bertrand – José Bastos, 1899-1900, 812 p.
(2) “Descrição da cidade de MACAOU ou, MACCAUW, com as suas fortalezas, peças, negocio e costumes dos habitantes”, escrita por MARCO D´AVALO, italiano, em 1638 in BOXER, Charles Ralph – Macau na Época da Restauração (Macao Three Hundred Years Ago). Fundação Oriente, Lisboa, 1993,2 31 p.
(3) http://fortalezas.org/?ct=fortaleza&id_fortaleza=1313&muda_idioma=PT
(4) A Fortaleza “está mesmo à frente da aldeia conhecida antigamente por «Ribeira Grande», na Ilha de Lapa.
GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau Concepção e História. Instituto Cultural de Macau, 1.ª edição em português, s/ data, 144 p.
(5) Macau Boletim Informativo n.º 48 de 1955 e n.º 72 de 1956.