Archives for posts with tag: João C. Reis
Extraído da p. 8 do semanário “A Província“ de Montijo I-3 de de 17 de Março de 1955 (1)

Álvaro Borges Leitão”, autor de dois livros publicados em Macau: “Se Até o Fumo Sobe”, e “Passagem”, expedicionário (tenente) adaptou-se bem à vida de Macau, tornando-se um animador do movimento literário da geração de 50. “ (2)

Sócio fundador do «Círculo Cultural de Macau», e membro vogal do Conselho Fiscal, participou no dia 16 de Setembro de 1950, no Teatro D. Pedro V, numa conferência-recital, integrada no plano de conferências para a 1.ª temporada. (3) Colaborador da revista «Mosaico»

Uma das “Três Canções” da sua autoria, publicada no «Mosaico» Vol I – n.º 5 Janeiro de 1951 pp.562 e no «O Clarim» em 1951.

(1)

(2) REIS, João C. – Trovas Macaenses, 1992, pp. 269 e 276

(3) nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alvaro-leitao/    

DIÁLOGO ENTRE JOSÉ FAGOTE E PANCHA GUDUM, AMBOS VELHOS

FAGOTE
Bons dias senhora Pancha!
Minha musa encantadora!
Quer bocê casar comigo?
Diga já, já, sem demora!

PANCHA
Cusa? Sium na sium sua terra
Sã assim pidi cazá?
Ung-a ome assim vêlo
Inda num sabe falá.

FAGOTE
Oh2 Minha querida flôr,
Não se zangue por tão pouco!
Dê-me essa mão de esposa,
Quando não eu mouro louco!

PANCHA
Tirá mão daqui galego!
Vai casá cô moça, moça!
Nom basta vêlo franzido
E sem sápeca na borça.

FAGOTE
Eu já sei que não és moça,
És uma velha coruja!
Com os cabelos já brancos,
E com a bôca toda suja!

PANCHA
Sai! Lagarto sem vergonha!
Já depressa vai s´imbora!
Si non quero eu logo
Fazê corê com vaçora!.

FAGOTE
Boça mercê não me insulte!
Tome cuidado comigo!
Nunca vi uma pantera
Com tanta sanha consigo!

PANCHA
Azinha trezé vaçóra!
Dáli, pinchá na rua
Para este porco sem vergonha,
Déçá ele mulá com chúa!

FAGOTE
Oh! Não, não, eu já me vou!
Nada faço com esta gente.
Que um raio abraza esta casa
Junto com esta serpente!.

José Baptista de Miranda e Lima (1)

(1) José Baptista de Miranda e Lima (Macau, na rua hoje chamada Central, 10-11-1782- Macau na mesma casa, 22-01.1848; sepultado no Cemitério de S. Paulo), benemérito da instrução e hábil educador, se não foi o primeiro, tornou-se seguramente o mais importante poeta macaense (compunha em português e em patuá num estilo marcado pela literatura neoclássica). Professor régio desde 1804, até a sua morte da cadeira de Gramática Latina e de Português no Real Colégio de S. José, de Macau. José Baptista de Miranda e Lima era grande adepto de Miguel de Arriaga Brum da Silveira (a quem dedicou em 1810 uma poesia cantando as virtudes deste ao vencer o pirata Cam Pau Sai), e em 1822, dirigiu em nome dos constitucionais de Macau uma representação ao Rei e à Cortes, declarou-se a favor do novo rei D. Miguel, em 1829 e por isso foi suspenso do seu lugar de professor. Foi reintegrado, anos mais tarde.
Filho de José dos Santos Baptista e Lima, (natural de Lila de Alpedriz-Leiria, veio para Macau onde casou em 23 de Janeiro de 1782, grande educador e professor régio das línguas portuguesa e latina em 1775 – primeira cadeira de Instrucção publica criada em Macau depois da reforma de Estudos pelo Ministério Pombalino.
Família de beneméritos da instrução já que a sua irmã Maria Izabel Baptista de Miranda e Lima (1785-????) foi Mestra de Escola Publica de Caridade desta cidade-para os Bairros da Sé e Santo António.(2)
(1) Poéma retirado de REIS, João C. – Trovas Macaenses. Mar-Oceano Editora, Macau, 1992, 485 p.
(2) «MBI» I.6 de 31 de Outubro de 1950.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-baptista-de-miranda-e-lima/

Nos enleios subtis de fantasia,
Florido é o jardim da vida bela!
Quantos há que, sonhando, vivem nela
De doces ilusões em prenhe orgia!
 
Por longes terras, leda correria,
Libando em cada flor, em cada estrela,
Não temem o perigo de perdê-la.
Que ditoso sonhar, doce magia!
Mas não é de sensatos tal viver,
Pois a vida não é flor, é amargura
E a ilusão do  prazer mui pouco dura.
 
Na vida é mor fortuna mais sofrer;
Ter espinhos, martírios suportar.
Que prazeres e gozo é vão sonhar!

Rolando das Chagas Alves (1)
O Clarim“, 1950

(1) Poema de Rolando das Chagas Alves incluído nas duas antologias : “Trovas Macaenses” (1992), p. 163 e “Antologia de Poetas de Macau” (1999), p. 93.
Rolando das Chagas Alves, nasceu em Macau em 1923. Foi funcionário dos Serviços de Saúde e do Banco Nacional Ultramarino em Macau. Um dos fundadores do jornal «O Clarim» (2) e colaborador em vários jornais de Macau, nomeadamente «O Clarim», «Notícias de Macau» e «Gazeta Macaense»
É seguramente, um dos melhores poetas da sua geração e de até ao tempo actual, nada justificando o semi-anonimato em que permanece a sua poética, de tão impressiva como genuína qualidade.
Poeta de grande sensibilidade e de observação impressionista, tem-se por grande pesar não haver ainda publicado em forma de livro, o melhor da sua poesia“(REIS, João C. – Trovas Macaenses, 1992.)
(2) O jornal “O Clarim” que iniciou como semanário, a sua publicação em 2 de Maio de 1948 , só apareceu quando um grupo de jovens católicos (composto por José Patrício Guterres, Herculano Estorninho, José Silveira Machado, Abílio Rosa, Gastão de Barros, José de Carvalho e Rego, Rui da Graça Andrade e Rolando das Chagas Alves) apresentou aos padres Fernando Leal Maciel e Júlio Augusto Massa a ideia de publicarem um jornal.
https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Clarim_(Macau)
Anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/rolando-das-chagas-alves/

MOSAICO I-6 FEV 1951 SALVE MACAU (I)Intitulado “Salvè, Macau !”, seis sonetos de Hernâni Anjos publicados na revista «Mosaico», n.º 6, de 1951. (1). Cada soneto é dedicado a uma ou duas personalidades do seu tempo, alguns deles companheiros do Círculo Cultural de Macau.
Um dos sonetos  é dedicado ao Dr. Pedro José Lobo, então Presidente da Direcção do Círculo Cultural de Macau (2)

MOSAICO I-6 FEV 1951 SALVE MACAU (I) AO Pedro J. LoboAo Dr. Pedro J. Lobo

Gota de água do mar da nossa crença,
Que Deus cristalizou ao Sul da China,
Tu és, Macau,  o tema que domina
Hoje a atenção do português que pensa.
 
Guarda-avançada dessa frente imensa
Onde o homem que é livre se confina,
Eu te bendigo a ti que nem na ruína
Dum mundo ateu te rendes à descrença!
 
Ou tu não foras o padrão mais belo
E o mais remoto, neste Extremo-Oriente,
Da Fé que os teus maiores cá deixaram!
 
A mesma Fé que foi o santo selo
Que há séculos selou, eternamente,
O abraço de dois mundos que se acharam!
Hernâni Anjos

Hernâni Noel Tamm Pereira da Silva Anjos – tenente de Infantaria Em 1950 Comandante (interino) da Companhia Indígena de Caçadores e Defensor Oficioso do Tribunal Militar Territorial.
” Expedicionário em Macau em 1947, tornou-se popular sobretudo pelas gazetilhas de sabor local que passou a publicar no “Clarim” .Manejava o verso com bastante facilidade e em muitas ocasiões atingiu genuína virtude.” (3)
Hernâni Anjos, foi um dos sócios fundadores do “Círculo Cultural de Macau” e pertencia à Direcção dos “Corpos Gerentes para o ano de 1950” (posse em Setembro de 1950) como secretário-geral.
(1) MOSAICO, órgão do Círculo Cultural de Macau, Vol. I, n.º 6, Fevereiro de 1951.
MOSAICO I-6 FEV 1951 CAPAAnteriores referências a esta revista:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/mosaico-circulo-cultural-de-macau/
(2) Anteriores referências ao Dr. Pedro José Lobo em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/pedro-jose-lobo/
(3) REIS, João C. – Trovas Macaenses. Mar/Oceano, Macau, 1992, 485 p. + 9 p. Índice

Cabelos que se tornam sempre escuros,
Olhos chineses e nariz ariano,
Costas orientais, e peito lusitano,
Braços e pernas finos mas seguros.

Mentalidade mista. Tem dextreza
No manejo de objectos não pesados,
Tem gosto por Pop Songs mas ouve fados;
Coração chinês e alma portuguesa.

Casa com a chinesa por instinto,
Vive de arroz e come bacalhau,
Bebe café, não chá e vinho tinto.

É muito bondoso quando não é mau,
Por interesse escolhe o seu recinto
Eis o autêntico filho de Macau

Leonel Alves
in ” Por Caminhos Solidários”  (1)

(1) in  p. 153 de REIS, João C. – Trovas Macaenses, 1992.
João Reis refere na biografia do poeta: “Deixa a ideia de ter chegado à poesia tarde na vida – havendo nos seus trabalhos passagens de saudosa evocação,  e de expressiva inspiração
NOTA: “Nasceu em Macau a 27 de Janeiro de 1921 e aqui faleceu a 10 de Outubro de 1982. Funcionário dos Serviços de Saúde. Colaborou em vários jornais de Macau com poesia e charadas. Frequentou o Liceu, tendo ganho o 1.º prémio de poesia num dos muitos concursos literários promovidos pelo professor Lara Reis. Em edição póstuma foi dado à estampa um livro que reuniu a sua poesia intitulado “Por Caminhos Solitários” (Macau, edição de autor, 1983, 113 p.) in Antologia de Poeta de Macau – sel. e org. Jorge Arrimar e Yao Jingming, 1999.
Aconselho leitura do artigo de António Aresta “Leonel Alves (pai)” no Jornal Tribuna de Macau de 2015:
http://jtm.com.mo/opiniao/leonel-alves-pai/

Hoje 25 de Agosto de 1849, regista-se a tomada da fortaleza de Passaleão/Baishaling (1)

TA SSI YANG KUO Passaleão I O COMBATE DE PASSALEÃO (2)

 PASSALEÂO

Vinte e cinco de Agosto,
Mesquita
E trinta e dois Bravos
e fitam
A Pátria imorredoura.

Macau periga.
Quem vive?
– grita o sangue do Mártir
(Ferreira do Amaral)

Mesquita vela e sonha
-na mão a espada
a seiva de Viriato

E num golpe audaz,
fulgurante,
dispersa
a turba-multa dos chins
desordenados,
espavoridos
ante o milagre
do Heroísmo Português.

TA SSI YANG KUO Passaleão IIO COMBATE DE PASSALEÃO (2)

Porta do Cerco é padrão
Da lusa Soberania
(ergueram-no
braços possantes
de portugueses de antanho
e cimentaram-no
o sangue de Mártir
e o rasgo do Idólatra

E Passaleão simboliza
brônzeas estrofes
dum novo canto
de “Os Lusíadas”.

Elói Ribeiro In Clarim – 1950 (3)
(pseudónimo literário de Patrício Guterres, jornalista)

(1) 白沙嶺  – mandarim pinyin: bái shà líng; cantonense jyutping: baakl6 saa1 leng5 – tradução literal Pico da Areia Branca.
O macaense, 2.º tenente de Artilharia, Vicente Nicolau de Mesquita, à frente de 32 homens, tomou aos chineses o forte de Passaleão, fronteira às Portas do Cerco, vingando desta forma o traiçoeiro assassinato de João Maria Ferreira do Amaral e livrando a cidade do ataque projectado por milhares de chineses que a bloqueavam do lado do istmo (GOMES, L. G. – Efemérides da História de Macau).
Pedro Paulo do Rosário, soldado cafre, barbeiro do seu batalhão e Vitorino do Rosário foram os primeiros soldados a escalar o Forte de Passaleão, tomado por Vicente Nicolau de Mesquita em 25-08-1849. Quando viram um soldado preto no muro, os chineses fugiram espavoridos crendo ser o demónio.
Mais referências  a este incidente, ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/vicente-nicolau-de-mesquita/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/15/panoramas-de-macau-de-189/  
(2) Os dois quadros foram retirados de “Ta-Ssi-Yang-Kuo, Vol. I”.
São fotogravuras de P. Marinho de “ Fac-simile muto reduzido de quadros em aguarela do Barão do Cercal”
(3) Retirado de REIS, João C. – Trovas Macaenses. Macau 1992, 485 p + |9!

BGC n. 53 JUNCO I

Da cor do lírio, triste, amargurada
A tarde, brandamente, vem tombando…
E os “juncos”, em fileira, vão entrando,
Como as aves em busca da pousada …

 BGC n. 53 1929 JUNCO II

Sobre a água do mar, quente e parada,
Nesta tarde de Julho, está boiando
Uma “lorcha”, que ali ficou sonhando
E vendo a sua imagem retratada…

BGC n. 53 1929 JUNCO III

No poente pairam nuvens cor de sangue,
A dizer-nos que o dia está exangue,
E tudo é paz e doce quietação…

Nesta hora serena, de beleza,
Por que sinto em mim tanta tristeza?
Por que sinto chorar o coração ?

Soneto de Rita Margarida Rodrigues, esposa do Governador Rodrigo José Rodrigues ( em Macau de 1924 a 1926) publicado no “Notícias de Macau” em 1961 (1)
Fotos do Boletim Geral das Colónias, 1929

(1) Reproduzido em REIS, João C. – Trovas Macaenses. Macau, 1992, 485 + |10|

“Falecimento do professor José Baptista de Miranda e Lima, que nascera em Macau em 10 de Novembro de 1782. Foi filho de José Santos Baptista e Lima, natural da villa de Alpedriz, e da sua mulher D. Anna Pereira de Miranda, nascida em Macau – Nunca saiu d´esta cidade, e o seu nome é justamente havido por uma das glórias d´ella” (1)

José Baptista Miranda e Lima foi um poeta macaense (1782-1848) que compunha em português e em patuá num estilo marcado pela literatura neoclássica. Foi professor Régio de Gramática Portuguesa e Latina do Real Colégio de S. José (2) e Benemérito da instrução da Cidade. Autor dos poemas «Philomena Invicta», «Eustáquio Magnânimo», «Desengano», «Alectorea»  ou «Poema das Gallinhas» e outras produções” 
Segundo João Reis (3): “Se não foi o primeiro, tornou-se, seguramente o mais importante poeta macaense, não só pela temática substantiva dos seus trabalhos, como pela qualidade literária de uma escrita que se distinguia tanto pela fluência de um estilo incisivo, e não raro brilhante, como pela sua formação académica, da qual o léxico erudito e versátil não constitui único apanágio

Alectorea ou Poema das Galinhas (4)
(Reprodução das 5 primeiras estâncias)

CANTO PRIMEIRO
I
A Mantuana lyra harmoniosa,
Que ainda soa a prol da Agricultura,
Entro agora a pulsar, querida Esposa,
Sentado junto a ti nesta espessura:
E vou cantar-te o gallo e o povo alado
Sobre o qual elle impera deslevado

II
Mas ainda que eu, à sombra de loureiros
Bebendo da Beotica Hippocrene,
Em vez d´esta que d´entre estes pinheiros
Da rocha fiz brotar lynfa perenne,
Com os seus doces haustos me embriagara,
A ponto que o seu Pegaso cantara

III
Cantasse o grypho, monstro fabulado,
Águia-leão com cauda de serpente,
Por guarda dos thesouros celebrado
Dos frios Seythas contra extranha gente,
Alada fera, mais sanguinolenta
Do que a Lybica yiena truculenta.

IV
Certo ao Rei das serpentes venenosas,
Que mata e morre, dizem, de quebranto,
Não darião suas asas fabulosas
Lugar entre os objectos d´este canto;
Embora filho o finjão ser do gallo,
Qual de Medusa, o aligero cavalo.

V
Dos numes vãos a sordida manada
A prol do canto meu invoco agora?
Servil imitação! Que podem? Nada,
Vénus, Dryades, Baccho, Pan, e Flora.
Invoco sim da paz o bafo ameno,
Que os versos nascem de ânimo sereno. (5)

Ver outro poema deste autor, em patuá em “POÉMA- DIÁLOGO ENTRE DOIS PACATOS NA RUA DIREITA NA NOITE DE 13 DE MAIO”
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-baptista-de-miranda-e-lima/

(1) PEREIRA, António Feliciano Marques – Ephemerides Commemorativas da História de Macau.
(2) Foi suspenso do lugar por suspeita de ser miguelista e quando depois de alguns anos foi reintegrado, os desgostos já tinham minado a sua saúde, e morreu pouco depois.
(3) REIS, João C. – Trovas Macaenses. Mar-Oceano Editora, Macau, 1992, 485 p. + |9 |
(4) “Alectorea” é uma palavra derivada das palavras gregas Alector e Alectoris, que significam galo e galinha. Este poema consta de 4 cantos, tendo 233 estâncias e 14 folhas de anotações.
(5) TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX. Macau, 1942, 659 p.