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CAPA

13 de Junho de 1888, data de nascimento do poeta e escritor Fernando Pessoa. Para recordá-lo nada melhor do que a leitura do livro de poesia “MENSAGEM”, traduzido para chinês por Jin Guo Ping, (1) edição do Instituto Cultural de Macau, “Em homenagem do 50º aniversário da morte de Fernando Pessoa e aos meus amigos que ficaram e que choraram quando eu parti.

Introdução “Elóquio” de António Manuel Couto Viana

Um dos mais conhecidos poemas do poeta:

(1) PESSOA, Fernando Pessoa – Mensagem. Tradução de Jin Guo Ping. Instituto Cultural de Macau, 1986, 133 p.

Auto de notícia de 26 de Maio de 1877 da Polícia do Porto de Macau enviado à Procuratura dos Negócios Sínicos para resolução acerca de uma queixa, no dia 24 de Maio, de falta de pagamento (175 taeis) pelo transporte após salvamento de 33 homens, tripulação duma embarcação que se afundou perto da Ilha do Ladrão.
Extraído de «B.P,M.T.» , 1877, Vol XXIII – 21.
Jin Guo Ping no seu trabalho “O valor documental da Peregrinação — Contributo para a história da presença portuguesa na China e da fundação de Macau”, (recomendo a leitura), a propósito da passagem de Fernão Mendes Pinto por Macau, p. 781/782 (1), localiza assim a Ilha dos Ladrões.
O episódio de “Como nos perdemos na Ilha dos Ladrões (Capítulo LIII)” confirma as andanças do autor em Macau nos primórdios do seu estabelecimento. Na geografia marítima, a “Ilha dos Ladrões” é um nome bem conhecido. No entanto, neste caso, seria identificável com Laowanshan (Ilha do Velho Wan). Wan foi um pirata famoso no mar e no delta do Rio das Pérolas. Era em Laowanshan que o pirata procurava refúgio. Em português, a ilha é ainda hoje conhecida pelo nome de “Ilha dos Ladrões”. Fica a sudeste de Macau. “Saindo pelo Canal da Taipa, chega-se a Laowanshan, que é o ponto de referência para os barcos oceânicos e os barcos bárbaros”. Sabe-se, através dos roteiros chineses, que era um lugar de passagem para os barcos que circulavam entre o litoral chinês a leste de Hong Kong e a Cidade de Cantão. Para os barcos que vinham de Malaca pela “rota de fora”, era o primeiro ponto de chegada.
Até ao século XVII, os barcos que saiam de Macau ainda o usavam como ponto de partida.
(1) Jin Guo Ping – O valor documental da Peregrinação — Contributo para a história da presença portuguesa na China e da fundação de Macau”, in Administração n.º 72, vol. XIX, 2006-2.º, 771-783, disponível em:
http://www.safp.gov.mo/safppt/download/WCM_004481

Faz precisamente hoje, 500 anos, o início da aventura desafortunada de Tomé Pires como 1.º embaixador enviado à China e que só terminaria com a sua morte em 1524 (1) (2)
Em 17 de Junho de 1517, saiu de Malaca com destino à China a frota de Fernão Peres de Andrade enviada pelo Governador da Índia Lopo Soares de Albergaria, transportando o boticário e naturalista Tomé Pires como embaixador e o já experiente Jorge Álvares. (3) A frota chegaria a Tamão /Tamau (Lintin, Ilha de Lingding / 內伶仃㠀) a 15-08-1517, onde se encontrava Duarte Coelho que a procedera, e, em fins de Setembro, a Cantão. Tendo conseguido permissão para Tomé Pires seguir para Pequim, Fernão Peres de Andrade fez-se de vela de regresso a Malaca, em fins de Setembro de 1518. Tomé Pires aguardou viagem em Lantao (Ilha de Lantau /大嶼山)

https://en.wikipedia.org/wiki/Zhengde_Emperor

Devido as delongas do cerimonial chinês, Tomé Pires parte de Cantão e depois de demorada estadia em Nanquim, chega a Pequim em 11 de Janeiro de 1521. Com a morte do Imperador Zhengde / 正德  (1506-1521) a embaixada de Tomé Pires foi convidada a sair de Pequim para Cantão onde as autoridades locais já tinham recebido ordens para prenderem todos os membros da mal-aventurada embaixada devido aos desacatos praticados por Simão Peres de Andrade, na Ilha de Tamau. Chegou a Cantão, a 22-09-1521 e como os portugueses não quisessem obedecer à ordem de abandonar o Império Chinês foram roubados e presos Tomé Pires, Vasco Calvo e António de Almeida, tendo este morrido à entrada da cadeia, devido aos tormentos das algumas e outras torturas. Tomé Pires morreria em 1524 na China. (4)
(1) A embaixada de Tomé Pires não é considerada por alguns autores como a 1.ª por ter sido enviada de Goa. A 1.ª embaixada enviada pelo Rei D. Manuel (que morreu em 1521) e relatada por João de Barros e Fr. Luís de Sousa, teve como embaixador, Martim Afonso de Melo Coutinho que saiu de Malaca a 10 de Julho de 1522 com 300 homens em 6 navios. Também esta embaixada foi mal sucedida não tendo Martim Afonso passado para além de Tamão, onde foram mal recebidos pelos chineses com uma batalha naval. Perdeu-se dois navios portugueses e 42 homens foram capturados. Martim Afonso voltou para Malaca em Outubro de 1522 e chegou a Lisboa em 1525. Ver anteriores referências a Tomé Pires em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/tome-pires/
Sobre esta matéria sugiro leitura de
* Jin Guo Ping e Wu ZhiliangUma Embaixada com Dois Embaixadores – Novos Dados Orientais Sobre Tomé Pire se Hoja Yasan,” publicada na Revista Administração n.º 60, vol. XVI, 2003-2.º, 685-716, disponível em:
file:///C:/Users/ASUS/Downloads/Uma%20Embaixada%20com%20dois%20Embaixadores%20%E2%80%94%20Novos%20dados%20orientais%20sobre%20Tom%C3%A9%20Pires%20e%20Hoja%20Yasan.pdf
* “As Navegações Chinesas e Portuguesas; A Presença Portuguesa em Macau”
http://www.macaudata.com/macaubook/book091/html/0021001.htm#0021005
(2) Segundo Armando Cortesão morreu cerca de 1540 deixando uma filha, Inês de Leiria. Tomé Pires nasceu cerca de 1465. Foi autor da Suma Oriental (1515) a primeira descrição europeia da Malásia e a mais antiga e extensa descrição portuguesa do Oriente.
(3) Jorge Álvares foi mandado de Malaca à China em 1513. Levantou o Padrão do seu Rei na Ilha de Tamão (hoje Lintin) e, como o filho lhe morreu durante essa visita, sepultou os seus restos mortais junto do padrão. Em 7 de Janeiro de 1514, Tomé Pires escreveu de Malaca comunicando ao Rei de Portugal, que um junco de Sua Majestade, comandado por Jorge Álvares, que seguiu com outro para a China, a fim de buscar mercadorias, tendo regressado a Malaca entre Abril e Maio de 1514. Jorge Álvares após essa deslocação de 1517, ainda regressaria à China em 1521 falecendo a 8 de Junho de 1521 sendo sepultado junto do filho em Tamão.
Ver anteriores referências de Jorge Álvares em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jorge-alvares/
(4) Informações colhidas de GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954 e SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 1997.

VERSOS SOBRE S. PAULO

Os que chegam, pela primeira vez, a uma terra estranha, procuram, infalivelmente novidades.
Encontrarão assim pessoas que usam fatos curtos e coletes compridos.
O corpo é tatuado. As pessoas que se encontram na encruzilhada.
São do templo de S. Paulo.
Os seus chapéus feitos de folhas de bambu são superiores aos tuduns (1)
Os gradeados palanquins são melhores que os carros.
Aos nossos compatriotas já não lhes interessam as nossas cousas. Preferem os estrangeiros que são mais fervorosos.
Volto a elogiar os pigmeus.

Sêk-Tchêk-Tch´ák  (2)

Estes versos sobre “o Templo de S. Paulo” (muito possivelmente se referia à Igreja da Madre de Deus e ao Colégio de S. Paulo que estava adjacente) do livro: 澳門 (Ào mén jì lüè) (3) são tradução de Luís Gonzaga Gomes (4).

Ruínas S. Paulo 1900FRONTESPÍCIO DA EGREJA DE S. PAULO EM MACAU (1900)

Outra versão, tradução de Jin Guo Ping em (5)

SANBASI
Para os recém-chegados, tudo é novidade
De fatos curtos, capa comprida e corpo tatuado…
Os que se encontram pelos cruzamentos
São de Sanbasi
As folhas de bambu fazem toldos,
As carroças quando saem, saem com rodas vermelhas, (6) competindo em luxo.
Há uns anos as ruas eram desérticas,
Que inveja das frequentes missas dominicais em línguas estranhas.

Shi Jinzhong (2)

CHINNERY Ruínas S. Paulo 1834Desenho de George Chinnery (1834)

A igreja principal é a de Sám-Pá (São Paulo), (7) que fica a nordeste de Macau, encostada a uma montanha e tendo de altura vários tch´âm (2,64 metros). Na parte lateral do edifício, abrem-se portas, feitas com estreitas e compridas pedras esculpidas e incrustadas com ouro azulado, que brilham fulgurantes. A parte superior parece-se com um docel voltado. Os lados são rendilhados, encontrando-se espelhados neles admiráveis jaspes. Aquela que dizem ser a Mãe do Céu chama-se Maria. A sua figura é de uma jovem abraçando uma criancinha que se chama jesus Senhor do Céu. O fato não é cosido e cobre todo o corpo que, desde a cabeça é revestido duma simples pintura e dum véu esmaltado. Em se olhando para ela, dir-se-ia que foi moldada. Ao lado, encontram-se trinta figuras. A sua mão esquerda segura a esfera armilar. Os quatro dedos da direita fazem lembrar o gesto de quem discursa. Os cabelos e as sobrancelhas são caracterizadas por pesados lóbulos; o nariz alto; os olhos como se estivessem a comtemplar qualquer cousa distante; a boca, com a atitude de quem quer falar.” (4)

(1) Nome que em Macau se dá aos enormes chapéus chineses de abas larguíssimas, terminando em bico, sendo feitos de hastilhas de bambu entrelaçadas e usados, indiferentemente, por homens ou mulheres do povo.
(2) Sêk-Tchêk-Tch´ák  – tradução em «Ou-Mun Kei-Leok»  (3) ou Shi Jinzhong – tradução em «Breve Monografia de Macau» (4)
(3) 澳門 (mandarin pinyin: Ào mén jì lüè; cantonense jyutping: Ou3 mun4 gei3 loek6) – Breve Monografia de Macau foi escrita por dois magistrados, letrados, poetas chineses do antigo distrito de Xiangshan (hoje com o nome de Zhongshan  中山) que prestavam serviço na região de Guangdong 廣東,  entre 1744 -1746, período de Qianlong: 印光任 (Yin Guangren /Ian-Kuong-Iâm) que iniciou a monografia e depois completada por 汝霖 (Zhang Rulin/Tcheong-U-Lam). Terá sido concluída em 1751, com aparição da primeira edição xilogravada depois 1751 e antes de 1757. Dividida em dois capítulos, a segunda é dedicada ao estabelecimento dos portugueses em Macau: “Crónica dos Bárbaros de Macau” (5)
(4) OU-MUN KEI-LÉOK Monografia de Macau por Tcheong-U-Lam e Ian-Kuong-Iâm. Tradução do chinês por Luís G. Gomes. Editada pela Repartição Central dos Serviços Económicos- Secção de Publicidade e Turismo, Macau. Imprensa Nacional, 1950, 252 p.
(5) YIN Guangren; ZHANG Rulin – Breve Monografia de Macau. Tradução e notas de Jin Guo Ping. Instituto Cultural do Governo da R.A.E. de Macau, 2009, 485 p., ISBN 978-99937-0-11-6 (6)
(6) NT: alusão aos carros de luxo
(7)  As Ruínas de S. Paulo, em chinês: 大三巴牌坊 (mandarim pinyin: dà sàn bā pái fāng; cantonense jyutping: daai6 saam1 baa1 paai4 fong1).

O firmamento não voga à força das águas.
Na atmosfera, o Sol ambiciona o espaço.
O fundeadouro dos barcos fica ao largo de S. Paulo.
A porta dos marés encontra-se no meio de Sâp-Tchi (Canal da Taipa).
Os peixes voam encobrindo o desordenado fogo.
O arco-íris rompe, penetrando através da barreira das nuvens.
Chegam mercadorias estrangeiras vindas de Leste e Oeste.
Os veleiros singram dez mil lei, arrastados pelo vento.

Sêk Kâm Tchông (1)

Fortaleza Guia década 60Fortaleza da Guia – década de 60

Estes versos sobre a Fortaleza da Guia, tradução de Luís Gonzaga Gomes (1) tem outra versão, tradução de Jin Guo Ping em (2) (o tópico não é a fortaleza mas um miradouro do mar, aliás, tradução mais adequada)

VERSOS DO MIRADOURO DO MAR

Não é pela força das águas  que se sustenta o firmamento,
Por onde está o Sol sabe-se que está enevoado.
Os ancoradouros ficam fora de Sanba, (S. Paulo)
As marés vêm pela Shizimen. (3)
Peixes saltam para fora da água, agitando as ondas que parecem chamas,
Com a quebra do arco-íris, o céu livrou-se de nuvens pestilenciais,
Chegam mercadorias bárbaras vindas de leste e de oeste.
Os barcos à vela percorrem 10 000 li a favor do vento

Shi Jinzhong (2)
 
(1) OU-MUN KEI-LÉOK Monografia de Macau por Tcheong-U-Lam e Ian-Kuong-Iâm. Tradução do chinês por Luís G. Gomes. Editada pela Repartição Central dos Serviços Económicos- Secção de Publicidade e Turismo, Macau. Imprensa Nacional, 1950, 252 p.
(2) YIN Guangren; ZHANG Rulin – Breve Monografia de Macau. Tradução de Jin Guo Ping. Instituto Cultural do Governo da R.A.E. de Macau, 2009, 485 p., ISBN 978-99937-0-11-6
(3) “A baía de Haojing encontra-se registada na Mingshi (História Oficial dos Ming) com o nome de Aomen. Pelo facto de existirem ao sul desta baía quatro ilhas, que surgem do mar separadas umas das outras, levando a água a distribuir-se de uma forma semelhante ao carácter dez, deu-se a este lugar o nome de Shizimen (2)
Anteriores referências ao livro:
LEITURA – OU MUN KEI LEOK – MONOGRAFIA DE MACAU
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/09/leitura-ou-mun-kei-leok-monografia-de-macau/
POESIA – VERSOS SOBRE O FAROL DA GUIA
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/02/poesia-versos-sobre-o-farol-da-guia/