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António Manuel Couto Viana, 17.07.1986 (1)

(1) In «Macau», suplemento da revista «Via Latina», Maio 1991, p. 60

Anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/antonio-couto-viana/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jorge-alvares/

Faz precisamente hoje, 500 anos, o início da aventura desafortunada de Tomé Pires como 1.º embaixador enviado à China e que só terminaria com a sua morte em 1524 (1) (2)
Em 17 de Junho de 1517, saiu de Malaca com destino à China a frota de Fernão Peres de Andrade enviada pelo Governador da Índia Lopo Soares de Albergaria, transportando o boticário e naturalista Tomé Pires como embaixador e o já experiente Jorge Álvares. (3) A frota chegaria a Tamão /Tamau (Lintin, Ilha de Lingding / 內伶仃㠀) a 15-08-1517, onde se encontrava Duarte Coelho que a procedera, e, em fins de Setembro, a Cantão. Tendo conseguido permissão para Tomé Pires seguir para Pequim, Fernão Peres de Andrade fez-se de vela de regresso a Malaca, em fins de Setembro de 1518. Tomé Pires aguardou viagem em Lantao (Ilha de Lantau /大嶼山)

https://en.wikipedia.org/wiki/Zhengde_Emperor

Devido as delongas do cerimonial chinês, Tomé Pires parte de Cantão e depois de demorada estadia em Nanquim, chega a Pequim em 11 de Janeiro de 1521. Com a morte do Imperador Zhengde / 正德  (1506-1521) a embaixada de Tomé Pires foi convidada a sair de Pequim para Cantão onde as autoridades locais já tinham recebido ordens para prenderem todos os membros da mal-aventurada embaixada devido aos desacatos praticados por Simão Peres de Andrade, na Ilha de Tamau. Chegou a Cantão, a 22-09-1521 e como os portugueses não quisessem obedecer à ordem de abandonar o Império Chinês foram roubados e presos Tomé Pires, Vasco Calvo e António de Almeida, tendo este morrido à entrada da cadeia, devido aos tormentos das algumas e outras torturas. Tomé Pires morreria em 1524 na China. (4)
(1) A embaixada de Tomé Pires não é considerada por alguns autores como a 1.ª por ter sido enviada de Goa. A 1.ª embaixada enviada pelo Rei D. Manuel (que morreu em 1521) e relatada por João de Barros e Fr. Luís de Sousa, teve como embaixador, Martim Afonso de Melo Coutinho que saiu de Malaca a 10 de Julho de 1522 com 300 homens em 6 navios. Também esta embaixada foi mal sucedida não tendo Martim Afonso passado para além de Tamão, onde foram mal recebidos pelos chineses com uma batalha naval. Perdeu-se dois navios portugueses e 42 homens foram capturados. Martim Afonso voltou para Malaca em Outubro de 1522 e chegou a Lisboa em 1525. Ver anteriores referências a Tomé Pires em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/tome-pires/
Sobre esta matéria sugiro leitura de
* Jin Guo Ping e Wu ZhiliangUma Embaixada com Dois Embaixadores – Novos Dados Orientais Sobre Tomé Pire se Hoja Yasan,” publicada na Revista Administração n.º 60, vol. XVI, 2003-2.º, 685-716, disponível em:
file:///C:/Users/ASUS/Downloads/Uma%20Embaixada%20com%20dois%20Embaixadores%20%E2%80%94%20Novos%20dados%20orientais%20sobre%20Tom%C3%A9%20Pires%20e%20Hoja%20Yasan.pdf
* “As Navegações Chinesas e Portuguesas; A Presença Portuguesa em Macau”
http://www.macaudata.com/macaubook/book091/html/0021001.htm#0021005
(2) Segundo Armando Cortesão morreu cerca de 1540 deixando uma filha, Inês de Leiria. Tomé Pires nasceu cerca de 1465. Foi autor da Suma Oriental (1515) a primeira descrição europeia da Malásia e a mais antiga e extensa descrição portuguesa do Oriente.
(3) Jorge Álvares foi mandado de Malaca à China em 1513. Levantou o Padrão do seu Rei na Ilha de Tamão (hoje Lintin) e, como o filho lhe morreu durante essa visita, sepultou os seus restos mortais junto do padrão. Em 7 de Janeiro de 1514, Tomé Pires escreveu de Malaca comunicando ao Rei de Portugal, que um junco de Sua Majestade, comandado por Jorge Álvares, que seguiu com outro para a China, a fim de buscar mercadorias, tendo regressado a Malaca entre Abril e Maio de 1514. Jorge Álvares após essa deslocação de 1517, ainda regressaria à China em 1521 falecendo a 8 de Junho de 1521 sendo sepultado junto do filho em Tamão.
Ver anteriores referências de Jorge Álvares em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jorge-alvares/
(4) Informações colhidas de GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954 e SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 1997.

PARECER

 ” A Commissão de Ultramar examinou o ofício do Secretario d´Estado dos negócios da fazenda, de 29 de Janeiro passado, em que remeteu um projecto para proteger na cidade de Macao o commercio do Anfião (1) com o imperio da China, (2) as actas do leal senado a este respeito, a opinião dos negociantes, o relatorio do procurador do senado, e a carta do interpetre china ao mesmo procurador. O objecto de todas estas representações he o seguinte: o anfião he rigorroso contrabando no imperio: ao mesmo tempo he a principal mercadoria do commercio de Macáo, e avidamente procurada pelos povos da China. A commissão não conhecendo os usos e leis daquelle imperio, não póde dar e este respeito opinião alguma; nem julga que se deva dar: está ordenado pelas leis deste reino, que o leal senado de Macáo, conserve illesas todas as relações politicas com o imperador da China, e que não comprometia jámais nem a existencia do estabelecimento , nem estas relações politicas. He só esta recomendação que a Commissão pensa que o Governo deve reiterar ao leal senado, e governança de Macáo, deixando o mais à sua prudencia, a circunspecção de que tantas provas tem dado neste arduo , e espinhoso negocio.
Paço das Cortes em 17 de Março de 1823 = Francisco Soares Franco; Manoel Patrício Correia de Castro; Joaquim Antonio Vieira Belford; Domingos da Conceição; Manoel Caetano Pimenta de Aguiar; Manoel Freitas Branco.
Venceu-se, que vá á Commissão do commercio.” (3)
PARECER Commissão do Ultramar 1823(1) Anfião – Nome que os mercadores davam ao ópio no Oriente.
(2) “1800 – O Imperador da China proibiu severamente que se continuasse a trocar o dinheiro por aquela «vil esterco» (o ópio). Publicam-se novos e severos decretos imperiais contra o ópio. Proibição do seu comércio.
1815- O Senado de Macau renovou a antiga restrição, impedindo os navios não portugueses de descarregar ópio em Macau Os ingleses vindos de Bengala com ópio procuraram então chegar a Whampoa e Cantão com navios seus, mas eram muitas vezes apanhados e só com fortes saguates conseguiam passar a carga. Esta situação foi a maior causa do seu desvio para Lintin, (1921) ilha na boca do rio, (4) muito mais segura onde armavam depósitos flutuantes para armazenarem o ópio vindo da Índia e em trânsito para a China.
1821 – A China ameaça bloqueio a Macau, por causa do comércio do ópio.
(SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995)
(3) Diário das Cortes da Nação Portugueza: .. anno de legislatura,  Volume 9. Lisboa, a Imprensa Nacional,  1823, p. 324.
https://books.google.pt/books?
(4) Ilha de Tamão, (Tumon segundo Tomé Pires), Tun-mên, “Tau Mun”, ou Lin Tin , também conhecida entre os portugueses pela Ilha da Viniaga, no delta do Rio das Pérolas. Actual,  Ilha de Lingding ou ilha de Nei Lingding 内伶仃岛.

07-01-1514 – Tomé Pires escreveu de Malaca comunicando ao Rei de Portugal que um junco da Sua Majestade, comandado por Jorge Álvares, seguiu com outros para China,  afim de buscar mercadorias, sendo as despesas compartilhadas, em partes iguais, entre El-Rei e Bemdara Nina Chatu  (1) O Capitão de Malaca, Rui de Brito Patalim escreveu também a D. Manuel, em carta datada do dia anterior (06-01-1514) sobre o envio de um junco, carregado de pimenta, na companhia de outros juncos chineses  e cinco portugueses (dos quais dois no junco pertencente ao Rei de Portugal). (1) Uma outra carta também dirigida a D. Manuel de Jorge de Albuquerque, datada de 8-01-1515, menciona o nome de Jorge Álvares nessa viagem. Jorge Álvares terá regressado da China aportando em Malaca entre Abril e Maio desse ano.

LUÍS KEIL - Jorge Álvares CAPACAPA: fotografia de Eduardo Tomé; arranjo gráfico de Gisela Viegas

A propósito de Jorge Álvares, apresento este livro : “Jorge Álvares o primeiro português que foi à China (1513)”, (2) que é uma reedição de um estudo de Luis Keil  editada em Lisboa, em 1933. Editada em 1990 pelo Instituto Cultural de Macau numa edição trilingue (em português pp. 7-19,  tradução para chinês de Qi Xin, pp. 23-34 e tradução para inglês de Marie Imelda  Macleod, pp. 37-51).
Foi Luís Keil (3), neste trabalho de 1933, quem pela primeira vez, chamou a atenção e  veio recordar, de forma definitiva, a primazia de Jorge Álvares, um português, em missão oficial, que chegou pela primeira vez à China e aí deixou um padrão do rei D. Manuel na Ilha de Tamão.
Durante muito tempo, esta glória era atribuída a Rafael Perestrelo que chegou a Cantão apenas em 1515; “este esquecimento a que o nome de Jorge Álvares foi votado é tanto mais de estranhar quanto João de Barros lhe promete uma glória imorredoira por este feito: “E pêro que aquella região de idolatria coma seu corpo, pois por honra de sua pátria em os fins da terra poz aquelle padrão de seus descobrimentos, não comerá a memoria de sua sepultura, emquanto esta nossa escritura durar… (4)
LUÍS KEIL - Jorge Álvares 1.ª páginaO Prefácio de João de Deus Ramos refere:
” …Terá também,  espera-se, a virtualidade de desfazer alguns equívocos entre o Jorge Álvares de 1513 e outras seus homónimos contemporâneos nas mesmas paragens. Finalmente , passa agora a dispor-se de um estudo difícil de encontrar em alfarrabistas e livreiros, não só pela sua raridade, mas também por ser frequentemente confundido com o livro de Artur Basílio de Sá sobre um dos “outros” Jorge Álvares….(…)
J. M. Braga escrevia, em 1955, no prefácio ao seu trabalho sobre o mesmo tema, China Landfall, 1513:for a long time, the voyage of Jorge Álvares to China in 1513 was forgotten We are indebted to Luis Keil for a excellent little study in Portuguese, published in 1933, clarifying the circumstances and pointing the way to the existence of a great deal of source material, which had to be suitably interpreted … (…)” (5)
LUÍS KEIL - Jorge Álvares Fragmento da cartaFragmento da carta de Jorge de Albuquerque, escrita de Malaca a 8 de Janeiro de 1515, dirigida ao Rei D. Manuel. Nela se lê a referência a Jorge Álvares junto à parte deteriorada ( Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Corpo Cronológico. Parte III. Maço 5, Doc. n.º 87) (2)

LUÍS KEIL - Jorge Álvares CAPA e CONTRACAPACAPA e CONTRACAPA

(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. 1954.
(2) KEIL, Luís – Jorge Álvares, o primeiro português que foi à China (1513). Edição do Instituto Cultural de Macau, trilingue (português, chinês e inglês), 1990, 51 p. ISBN972-35-0090-6; 26 cm x 18,5 cm.
(3) Luís Cristiano Cinatti Keil , (1881-1947), quarto filho de Alfredo Cristiano Keil,  (autor de “A Portuguesa” hino nacional em 1891 e aprovada em 1911), seguiu também na senda das artes tendo sido Conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, Director do Museu dos Coches e Vice-Presidente da Academia Nacional de Belas Artes. Morreu tragicamente com a mulher e a única filha num desastre de automóvel, em 1947.
(4) BARROS, João de – Da Asia,  Dec. 3, 6, 2. in TORRÃO, Manuel Nunes – A China na Obra de D. Jerónimo Osório
http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas43-44/27_Nunes_Torrao.pdf
(5) Também  Christina Miu Bing Cheng no seu livro  «Macau: a Cultural Janus», na página 18, sublinha a importância da obra de Luís Keil.
MACAU a Cultural Janus p. 18MACAU a Cultural Janus p. 18 IIMIU Bing Cheng, Christina – Macau: a cultural janus. Hong Kong University Press, 1999, 238 p.
Ver anteriores referências a Jorge Álvares em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jorge-alvares/

A frota de Martim Afonso de Melo (1) que saíra de Malaca, em 10 de Julho de 1522, (2) com 300 homens, comandando 6 navios dos quais eram capitães ele mesmo, seus irmãos Vasco Fernandes Coutinho e Diogo de Melo Coutinho, Pedro Homem, Duarte Coelho e Ambrósio do Rego,  foi atacada no dia 23 de Setembro de 1523, por uma poderosa esquadra chinesa, no porto de Tamão, (3) pois os chineses rejeitaram as propostas de comércio e amizade do enviado de D. Manuel. Dois navios portugueses foram capturados com 42 homens, morrendo uns de ferimentos, outros de fome ou de frio, e 23 foram executados, sendo cortados em sete pedaços cada um, no dia 23 de Setembro de 1523. Aos canhões e outras armas de fogo que foram tomados deram os chineses o nome de feringuis (4) e, enviados para a  corte, serviram de modelo para as armas que os chineses passaram a fabricar para o seu uso.” (5)

MAPA alemão sec XIX - Ilha de LintinMapa alemão do século XIX mostrando a Ilha de Lintin
no meio do estuário do Rio das Pérolas

“Esta expedição é considerada como a segunda embaixada de Portugal à China. Martim Afonso de Melo Coutinho tinha instruções de D. Manuel para conseguir a amizade do Rei da China e estabelecer em Tamão, ou noutro lugar mais conveniente, uma fortaleza. Os chineses, que se encontravam ainda excitados com a embaixada de Tomé Pires, receberam tão mal os portugueses que se travou uma rija batalha naval, de novo, no porto de Tamão, onde Martim Afonso «tinha entrado, descuidadamente, e donde conseguiu escapar, a coberta da luta sobre humana travada pelo barco de Pedro Homem que, obrando prodígios de incomparável valor, conseguiu atrair sobre si toda a atenção dos chineses» até ser derrubado por um tiro «pelejou de maneira, que se o não acabara um tiro de fogo contra quem não valem um exército inteiro» …!
Martim Afonso de Melo quis vingar-se da derrota que sofrera mas foi disso dissuadido pelos seus capitães, voltando assim, antes da execução dos seus companheiros, para Malaca, onde chegou em Outubro de 1522” (1)

(1) Em 1521, D Manuel ordena a Embaixada de Martim Afonso de Melo Coutinho, recomendando ao Vice-Rei da Índia, então já D. Duarte de Meneses, que o auxiliasse. A 5-04-1521, partiu de Lisboa a frota de Martim Afonso de Melo, que D. Manuel enviara como seu embaixador à China. A frota era composta de quatro navios comandados por Martim Afonso de Melo, Vasco Fernandes Coutinho, Diogo de Melo Coutinho e Pedro Homem. Em Malaca, juntar-se-lhes-iam os navios de Duarte Coelho (cfr. 1517-15-VIII) e Ambrósio do Rego (Cfr 1522-10-VII) (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 1997)
(2) Beatriz Basto da Silva refere na sua «Cronologia da História de Macau, Volume I» (1997) a data de 10 de Julho de 1522. Luís G. Gomes nas «Efemérides da História de Macau» (1954) refere a mesma notícia em duas datas: 10-06-1522 e 10-07-1522.
(3) Ilha de Tamão, (Tumon segundo Tomé Pires), Tun-mên, “Tau Mun”, ou Lin Tin , também conhecida entre os portugueses pela Ilha da Viniaga, no delta do Rio das Pérolas. Actual,  Ilha de Lingding ou ilha de Nei Lingding 内伶仃.
(4) “Assim como os nossos tiveram conhecimentos da precisa situação geográfica da China e dos seus principais portos de comércio, pelos chineses que frequentavam os numerosos interpostos comerciais da Ásia Meridional, também a novidade doaparecimento dos portugueses por essas paragens do Oriente deveria ter-se espalhado pela China, trazida por esses mesmos comerciantes e navegantes chineses, no regresso ao seu país, que adaptaram à sua língua a palavra feringue, já utilizada pelos mouros, indianos e malaios, para designar os mareantes portugueses… (…)
O termo fát-lóng-kei佛朗機, transliteração cantonense da palavra feringue, foi inicialmente, empregado para designar esse estranho espécime de gente nunca vista, de elevada estatura, costas largas, olhos profundos, nariz afilado, de barbas e cabelos compridos, louros ou acastanhados, e encaracolados, duma robustez física invulgar e de costumes diferentes dos povos que conheciam e que pretendia vir agora devassar os segredos do seu país…(…) (GOMES, Luís Gonzaga – Os Feringues in Páginas da História de Macau, 2010)
佛朗機mandarimpinyin: fó lǎngjī; cantonense jyutping: fat1 long5 gei1
(5) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954