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No dia 8 de Março de 1828, faleceu na sua casa na Rua do Hospital, Marta da Silva Merop (Mierop) , (1) fazendo-lhe o enterro o Cura da Sé, Cónego António José Victor, que registou o seu assento de óbito no respectivo livro da Sé: «aos oito do mês de Março de 1828, nesta cidade, faleceu Martha da Silva Merop com todos os sacramentos, fez testamento e Codicilo »(2) (3) Foi sepultada na capela-mor da Igreja do Convento de S. Francisco.
“O seu marido era o inglês Tomas Merop, com quem casou religiosamente em Macau, (4) o qual no seu testamento declara: «A minha querida esposa, Marta da Silva , deixo a soma de dez mil libras e a minha casa da Rua do hospital e toda a mobília. Se ela mudar de ideias de passar toda a vida em Macau e vier para a Europa, deve receber mais três mil libras. É meu desejo que ela case após a minha morte, com uma condição: se ela casar com um português, receberá apenas cinco mil libras, quer venha para a Europa ou não. Se casar com um indivíduo doutra raça, receberá dez mil libras, e mais três mil libras se vier para Europa. Quer se conforme ou não com os meus desejos no respeitante ao casamento, deixo-lhes os meus livros e a mobília, a minha placa, relógio, anel, roupas, impressos, vinhos, instrumentos músicos e artigos curiosos, juntamente com a minha casa»
Marta não foi para Europa nem casou pela segunda vez; passou toda a vida em Macau” (1)
No  testamento que deixou, feito a 3 de Março de 1828, diz:
«Eu Martha da Silva Merop, viuva de Thomaz Merop, moradora n´esta cidade de Macau (…)  natural d´esta Cidade do santo Nome de Deus na China, filha de Pae e mai gentios (…) fui casada com Thomas Merop ora defundo in facie Ecclesiae segundo manda a  Santa Madre Igreja (…)  deste Matrimónio não tive filho algum (…) não tenho herdeiros descendentes nem ascendentes. (…) deixo por ora… (5)
Deixou o seguinte:
$ 1 000 para 1 000 missas por sua alma
$ 400 para ofícios solenes
$ 1 400 para pobres recolhidos
$ 400 para pobres de porta
$ 900 para fazer um depósito e com os juros celebrar festas anuais na Sé
$ 20 000 à Santa Casa de Misericórdia
$ 5 000 ao Mosteiro de Santa Clara
$ 5 000 ao Convento de S. Francisco
$ 20 000 às educandas do Recolhimento de S. Rosa de Lima devendo casa uma receber ainda $ 200 quando se casar
Deixou ainda várias somas às suas numerosas afilhadas e escravas que deveriam ficar livres após a sua morte. (1)
Marta MeropO seu retrato (6) em corpo inteiro pintado por volta de 1815, ocupa lugar de honra na galeria de benfeitores da Santa Casa de Misericórdia, na sala de Actos.
(1) Marta da Silva Van Mierop (1766 -1828), foi abandonada à nascença e recolhida pela Santa Casa da Misericórdia em meados do século XVIII. Casa com o inglês Thomas Kuyck Vam Mierop, sobrecarga da Companhia das Índias inglesa que lhe deixa em testamento parte da sua fortuna. Torna-se assim a mulher mais rica de Macau, famosa armadora e benfeitora da cidade.
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – Vultos Marcantes em Macau, 1982, pp. 103-104.
(3) Codicilo – alteração ou aditamento de um testamento (FIGUEIREDO, Cândido – Dicionário da Língua Portuguesa, Volume I, 1986.
(4) Afirmação do Padre Manuel Teixeira mas que não se encontra registo do casamento em Macau. Outros referem concubinato. (5)
(5) Para uma melhor compreensão da história de vida desta benfeitora , aconselho a leitura, disponível na net, de
PUGA, Rogério Miguel – A Vida e o Legado de Marta da Silva Van Mierop in Women, Marruiage and Family in Macao
http://www.academia.edu/3785773/A_Vida_e_o_Legado_de_Marta_da_Silva_Van_Mierop
(6) José Tomás de Aquino, (7) em carta endereçada à Santa Casa pedia desculpas «quanto à demora dos retratos de Francisco Xavier Roquete que legou $ 62 000 a essa Instituição e de Maria da Silva Merop; os quais foram executados pelo retratista china VÓ Qua, mas sob o meu contorno e direcção» (2)
(7) José Tomás de Aquino ( 1804-1852), educado no Real Colégio de S. José de Macau, partiu para Lisboa em 1819, por indicação do pai, para estudar  Medicina.  Estudou no Colégio Luso-Britânico e formou-se em »Matemática, Desenho e Comércio». Regressou a Macau em 1825. Além de proprietário de navios e negociante era também «arquitecto».  Dirigiu a construção de muitas residências e edifícios em Macau, reedificou, modificou, alterou muitos outro edifícios oficiais. Saliento a construção do Teatro Luso-Britânico (1839); reconstrução da Sé Catedral (concluída em 1850); reconstrução da igreja de S. Lourenço em 1847 (reedificada em 1898); construção do Palácio do Barão de Cercal na Praia Grande (posterior Palácio do Governo); construção do Palacete da Flora e a construção da casa do Barão de Cercal na Rua da  Prata n.º 4.
TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX, 1952.
NOTA : também Patrícia Lemos abordou este assunto na «Revista Macau», em 2014 : “De Marta a macaense”, disponível em:
http://www.revistamacau.com/2014/03/05/de-marta-a-macaense/

No dia 23-02-1837, tomou posse do cargo de Governador e Capitão-Geral de Macau,  o major de infantaria, Adrião Acácio da Silveira Pinto, nomeado em 4 de Março de 1836 (1) (2)
O Governador e Capitão-Geral Adrião Acácio da Silveira Pinto que governou Macau até 1843 (3) teve uma governação atribulada e difícil pois durante o seu governo, teve de lidar com o problema do ópio na China que já vinha desde 1832, com a proibição do ópio em Cantão (4), a proibição da importação e tráfico do ópio  pela China  em 1834 (5), a queima de ópio publicamente em Cantão em 1835 (6), a proibição do comércio do ópio pela China em 1838 (7), terminando com a chamada “I Guerra do Ópio”, em 1839.  (8)

Barrier Wall Macao 1844“Barrier Wall, Macao” (1844)
The barrier on the land bridge separating Macao from China is viewed here from a British encampment in Macao, with British warships to the left and Chinese war junks close to the barrier on the right.”
http://ocw.mit.edu/ans7870/21f/21f.027/opium_wars_01/ow1_essay03.html

A sua governação foi um constante equilíbrio diplomático entre a ingerência e imposição pela força dos ingleses em Macau (9), expulsão dos súbditos britânicos da China (10) e a necessidade de manter a neutralidade neste conflito com os mandarins de Cantão. (11) Em 1838, assiste-se em Macau ao enforcamento por ordem dos mandarins, do chinês Kuo Si Peng por ter sido apanhado em flagrante delito a vender ópio. (12)
Foi deste Governador a ideia de demolir o Convento e Igreja de S. Francisco, para edificar um palacete residencial para si, tendo o Leal Senado pronunciado contra essa ideia. (13)
Adrião Acácio da Silveira Pinto, após sido substituído por José Gregório Pegado foi por este indicado e depois nomeado em 10 de Outubro de 1843,  embaixador de Portugal para tratar com os plenipotenciários chineses sobre o estabelecimento de Macau. (14)
Faleceu em Lisboa a 23 de Março de 1868, no posto de marechal de campo. (1)

1840Macau vista de Praia Grande Museu PeabodyMacau, vista da Praia Grande, ca. 1840, guache em papel
Museu Peabody Essex  Foto de Jeffrey R. Dykes 2007
http://ocw.mit.edu/ans7870/21f/21f.027/rise_fall_canton_04/cw_gal_01_thumb.html

(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995).
(3) 03-10-1843 ou 04-10-1843 (autores consultados): “tomou posse do governo o Chefe da Divisão da Armada José Gregório Pegado, que foi nomeado, em 14 de Dezembro de 1843. Durante o seu governo, iniciou-se a ocupação da ilha da Taipa, depois de uma memorável visita de cortesia ao vice-rei Ki-Yin, alto comissário de Cantão que prometeu «fechar os olhos» ao nosso estabelecimento na mencionada ilha”. José Gregório Pegado faleceu em Aden no seu regresso a Portugal em 1846 tendo embarcado em Macau em 28 de Maio desse ano.” (1) (2)
(4) 09-02-1832 – Proibição de importação de ópio em Cantão.(2)
(5) 07-11-1834 – O Imperador Tou-Kuóng decretou a proibição do tráfico do ópio.(1)
(6) “1835- Queima de ópio, publicamente, em Cantão, em frente à feitoria europeia, como prova de desagrado da China. Mais tarde (1838-1839) são também ali executados contrabandistas de ópio chineses...”(2)
(7) 1838 – A China proíbe o comércio do ópio.(1)
(8) 03-11-1839 – Data geralmente apontada para o início da I Guerra do Ópio (1839-1842).(2)
(9) “12-07-1838Chegou a Macau num navio de guerra o Almirante Maitland com instruções para proteger o comércio inglês”. (2)
“28-04-1839 – Governador Silveira Pinto escreve ao Comandante Blake, agradecendo mas recusando a oferta inglesa de ajuda para defesa da cidade, proposta por ofício da véspera“. (2)
01-09-1839 – O capitão Charles Elliot que chega a Macau em 26-05-1839, propõe que os ingleses regressem a Macau, pondo à disposição do Governador Silveira Pinto o navio de guerra inglês «Volage» e mais de 800 homens para cooperarem na defesa da Cidade”.(2)
(10) “22-03-1839 o Capitão Elliot pede ao Governador de Macau protecção para os súbditos britânicos: o Governador Silveira Pinto consentiu mas exceptuou todos os que estivessem envolvidos no tráfico do ópio.”(2)
“13-04-1839 – O Superintendente do Comércio Britânico na China, Charles Elliot, perante a ordem de expulsão que recebeu, avisou os súbditos britânicos, em nome de Sua Majestade a Rainha de Inglaterra para, encontrando-se em águas chineses, se porem «imediatamente sob o comando de S. S.ª o Governador de Macau para a defesa dos Direitos de Sua Majestade Fidelíssima, e para a geral protecção das vidas, propriedades e liberdades de todos os súbditos dos Governos Cristãos que frequentam aquele Estabelecimento.”(2)
12-09-1839 – Elliot pede licença ao Governador Silveira Pinto para que os negociantes ingleses se refugiassem em Macau e propõe-lhe que este porto se tornasse no centro do comércio inglês, mas Pinto recusa.“(2)
23-01-1840 – Os súbitos britânicos expulsos da China desembarcam e passam a  viver em Macau, o que desencadeou a reacção das autoridades chinesas, que se apresentaram, na pessoa do Tou T´oi a 31 do mesmo mês, na cidade portuguesa, dando um prazo de 5 dias para a limpar dos ingleses. O Governador Adrião Acácio da Silveira Pinto reuniu com o Senado e, na sequência da correspondência trocada com o Comandante H. Smith, da corveta «Hyacinth», este acabou por retirar, o mesmo fazendo as forças chinesas estacionadas junto do Templo da Barra. Macau procurou, como em tantas outras vezes estribar-se na neutralidade ... “(2)

LAM QUA 1843 Praia Grande vista da Varanda de KinsmanA Praia Grande vista da varanda, residência do mercador  Nathan Kinsman
Quadro de Lamqua (1843)
Rise & Fall of the Canton Trade System Gallery: PLACES  http://ocw.mit.edu/ans7870/21f/21f.027/rise_fall_canton_04/cw_gal_01_thumb.html

(11) “09-03-1839 – Sessão do Leal Senado em que se publica um Edital suspendendo a introdução do ópio em Macau por depósito ou para consumo. Esse Edital determina que nenhum nacional ou estrangeiro dê asilo em suas casas a chineses que, de alguma forma, estejam envolvidos no tráfico do ópio.”(2)
“10-03-1839 – Violenta crise (sentida em Macau profundamente) do comércio do ópio com a China. Por trás o Delegado Imperial, Comissário  Lin, chegado a Cantão nesta data. No periódico «O Portuguez na China», publicado por Manuel Maria Dias Pegado, em Macau, iria verificar-se o claro elogio à defesa da China que Lin faria, na perspectiva evidente de se demarcar em relação aos ingleses.”(2)
“01-04-1839 – O Mandarim da Casa envia um ofício ao Procurador de Macau, José Baptista de Miranda e Lima, comunicando a ordem do delegado imperial para se entregar todo o ópio existente em Macau.”(2)
“27-04-1839 – O Mandarim da Casa Branca envia um ofício ao Procurador dando um prazo de três dias para lhe ser entregue o ópio existente nas casas dos Portugueses em Macau, pois, caso contrário o porto seria fechado” (2)
(12) “05-04-1838 – Foi enforcado em Macau por ordem dos mandarins o chinês Kuo Si Peng por ter sido apanhado em flagrante delito a vender ópio“(1)
(13)  “05-02-1842 – O Leal Senado reunido em sessão, pronuncia-se contra a ideia de demolir o Convento e Igreja de S. Francisco, que tem contígua a ela um «Campo Santo de Pública devoção. A demolição veio a fazer-se, mas não para edificar um palacete residencial para o Governador Adrião Acácio da Silveira Pinto, que andava desde 1839 a diligenciar nesse sentido.“(2)
(14) “27-10-1843 – O ex Governador Adrião Acácio da Silveira Pinto, que fora nomeado pelo Governador José Gregório Pegado, em sessão do Senado de 10 de Outubro, para tratar com os comissários chineses, no sentido de se melhorarem as condições da existência política deste estabelecimento, seguiu para Cantão no brigue de guerra Tejo, do comando do Capitão-Tenente Domingos Fortunato de Vale. Agregaram-se a esta missão o Procurador da Cidade João Damasceno Coelho dos Santos e o interprete interino José Martinho Marques.”(1)

A 19 de Dezembro de 1850, chegou a Macau a mala de Portugal do mês de Outubro, levando a notícia da nomeação do capitão-de-fragata Francisco António Gonçalves Cardoso para governador desta colónia. Tratou-se logo de preparar para o receber o palácio da residência dos governadores, e como ainda ali estivesse depositado na capela respectiva o cadáver do governador Amaral, o Conselho do Governo dispôs que os seus restos mortais fossem conduzidos para a capela de Nossa Senhora do Carmo, na Igreja de S. Francisco.

CHINNERY - Vista da Igreja de S. Francisco c. 1837Vista com a Igreja de S. Francisco, c. 1837 – George Chinnery

Abriu-se o féretro, porque dele correra algum líquido, o que dera muito que falar e temer aos supersticiosos chinas. Limpou-se o crânio e os ossos dos restos de cartilagens: eu tive nas mãos esse crânio nu, e dos golpes da barbaridade e da traição lhe vi os vestígios indeléveis, como o deveriam sempre ser em ânimos portugueses!
No dia 2 de Janeiro de 1851, às cinco horas da tarde, foi o ataúde conduzido aos ombros de seis marinheiros, e às pontas do pano mortuário que o cobria, pegaram o encarregado de Negócios de França na China, o cônsul dos Estados Unidos da América, e quatro funcionários superiores do Estabelecimento. Procedia o ataúde um destacamento do batalhão naval e outro da marinhagem das guarnições dos navios de guerra surtos no porto, e compunham o préstito fúnebre o Corpo Municipal, com o seu pendão em funeral, as autoridades civis e militares, a oficialidade da marinha e do batalhão provisório, o corpo diplomáticos e consular aqui residente, seus funcionários, numeroso séquito dos moradores de Macau e de portugueses e estrangeiros.
Fechava este respeitável e pomposo acompanhamento o batalhão de linha, com o seu tenente-coronel comandante à frente.
À porta da igreja de S. Francisco achava-se o presidente do Conselho, o bispo diocesano, rodeado de todo o seu clero, e acompanhando os restos mortais à destinada capela, ali lhes foi cantado o competente Memento. (1)

(1) CALDEIRA, Carlos José – Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, 1852/3

25NOV1974 Bicentenário Chinnery ENVELOPE+SELOEnvelope, selo com o valor de 30 avos e carimbo comemorativos do Bi-centenário (1774-1974) (1) do nascimento do pintor George Chinnery (2) emitidos pelos C.T.T. de Macau

25NOV1974 Bicentenário Chinnery SELOForam emitidos 5 milhões de selos postais (Portaria n.º 625/74), da taxa de 30 avos, com as dimensões de 30 mm x 40 mm, tendo como motivo o auto-retrato do pintor, impressos nas cores amarelo, vermelho, azul, preto, castanho e violeta.

25NOV1974 Bicentenário Chinnery PORTARIAQuatro pinturas de George Chinnery foram reproduzidas em selos (cada: 3,5 patacas), lançados posteriormente em 21-03-1994 com a descrição “Macau visto por George Chinnery”

Os quatro quadros reproduzidos são:

CHINNERY - Mosteiro e Fortaleza de S. FranciscoAguarela em papel (sem data) – Mosteiro e Fortaleza de S. Francisco. Ao longe as colinas do Monte e da Guia

CHINNERY - Forte e Igreja de S. Francisco do Fortim de S. PedroAguarela em papel (sem data) – Forte e Igreja de S. Francisco do Fortim de S. Pedro

CHINNERY - Praia Grande do Fortim de S. PedroAguarela sobre papel  (c. 1833-38) – Praia Grande do Fortim de S. Pedro. Ao longe, a colina da Penha

CHINNERY - Paisagem com sampana-habitaçãoAguarela sobre papel (c. 1833-38) – Paisagem com sampana-habitação. Ao longe a Ilha da Lapa

(1) “A Rua de George Chinnery começa na Rua de S. Lourenço entre a Rua de Inácio Baptista e o Pátio da Casa Forte, e termina na Rua do Bazarinho, entre os prédios n.º 24 e 28. Chamava-se antes Rua do Hospital dos Gatos, sendo este nome mudado para o de Chinnery em 1974, bicentenário do seu nascimento
Quando chegou a Macau a 29 de Setembro de 1825, viveu alguns meses na Rua do Hospital, numa casa de Christopher August Fearon, empregado da East India C.º, mas logo no  ano seguinte arrendou o prédio n.º 8 da Rua de Inácio Baptista e ali viveu até à morte, ocorrida a 30 de Maio de 1852″. (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau Volume II)
NOTA: Referências anteriores a este pintor em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/george-chinnery/

Neste dia desembarcou vindo de Goa no navio Stª Anna, Luíz Netto da Silveira por Juis Sendicante para faser ir o outro Manoel de Macedo Netto que havia ficado de invernada porque passava muito bem e tirava mtº fructo desta terra pelas suas ideias. Elle estava tão agradado desta Cidade que por mais deligencias que fes o Governador para o mandar para Goa não foi possível e se deixou ficar. Também veio com este novo Sendicante António Machado de Miranda o qual já aqui tinha servido de Ouvidor que o largou para entregar a António Moreira de Sousa o qual tinha sido preso pelo Sendicante com menos razão. Com a chegada do novo Sendicante Luís Netto da Silveira logo se forão omeziar em S.m Paulo os Moradores principaes a saber Manoel Vicente Roza, Vicente de Matta, Manuel Lopes, João da Cunha sogro de António de Miranda, Manoel Marim – mas a a Francisco Correa de Liger pelo acharem em Caza o prenderão por ordem do sindicante, mas pela infermidade de sua mulher a qual veio a morrer o deixarão ficar preso em Caza ate que ambos os Sendicantes forão para Goa, pois tinhão receio que os prendessem pelas suas boas obras. Neste anno mandou o Imperador de baixo de pena de morte, que todos os Bispos e Missionarios que se achassem no seu Imperio sahissem delle – Os Bispos que sahirão forão os seguintes – Fodesent Hespanhol que assistio em S.m Domingos, julgo que querião escrever isto – todos são Hespanhões – Frei Francisco da Purificação que falleceo nesta Cid.e e está enterrado em S.m  Agostinho por ser daquella Ordem ficou em S.m Francisco algum tempo, e foi para Lisboa com o Sr. D. Eugenio de Tregueiros – Os Missionários são tantos que cauzavão  enfado repeti-los, mas a maior parte estiveram nesta Cidade até se recolherem às suas terras e passavam de cem todos das 3 Religiões. (1)

(1) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado. Instituto Cultural de Macau, 1987, 78 p.

NOTA: Sindicante – o que sindica
Sindicar – tomar informações de alguma coisa; inquirir
(Dicionário de Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo)

“Falleceo neste dia Nicolão Feumes, e no outro dia foi enterrado em Sam Francisco na sepultura da sua primeira mulher Marcelina de Abreo que tinha fallecido em 3 de Junho de 1731 cujo enterro se fes com grande pompa e acompanhamento sendo Provedor da Misericórdia o Gov.or Cosme Damião Pereira Pinto.

Falleceo depois de 80 annos, de intrevado na cama tendo vivido com esta segunda mulher cinco annos e sette meses que viuva cazou-se depois com António José da Costa que os Jesuitas mandarão-no buscar, ficou a dita Viuva com mt.º Cabedal e poucos annos que teria vinte, o que tudo era necessário para achar hum sugeito para casar. Ella ficou por herdeira universal de quanto estava em Caza, tanto que as desposições da alma deixou elle defunto Feumes que se fisessem depois da chegada do seu navio St.º António, e do cabedal que nelle tinha, mas como succede quasi sempre o sermos enganados elle o experimentou (#) pois que o Navio se perdeo no mar da China escapando sòmente a gente que com tempo se aproveitou da lancha e do Escaler, indo aportar em Sanchuan, e vindo a esta Cidade por Cantão. Desta sorte ficou a Viuva com tudo e a Alma do dito defunto sem nada – quem sabe se não precizava” (1)

(#) Na margem anotada pelo anónimo autor: “boa maneira depois de morto

(1) Cosme Damião Pinto Pereira (1.º mandato) governador de 4 08-1735 a 27-08-1738.
Retirou-se entregando o governo a Manuel Pereira Coutinho, verificando-se que a posse, em Agosto anterior, não fora seguida de imediato exercício.”
Voltaria como Governador (2.º mandato) a 25-08-1743 e ficou até 29-08-1747.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5).
(2) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado. Redescoberta de A Colecção de varios factos acontecidos nesta mui nobre cidade de Macao. Instituto Cultural de Macau, 1987, 78 p.

O Leal Senado reunido em sessão no dia 5 de Fevereiro de 1842, pronunciou-se contra a ideia de demolir o Convento e Igreja de S. Francisco, que tinha contígua a ela o «Campo Santo de Pública Devoção». A ideia partiu do Governador Adrião Acácio da Silveira Pinto, (1) que já andava desde 1839 a diligenciar nesse sentido, para edificar aí o palacete residencial. (2)

No entanto, tal veio a acontecer,   com a autorização do Ministério da Marinha e Ultramar, a 30 de Março de 1861, iniciou-se a demolição do Convento, para no seu lugar, construir-se o quartel para o Batalhão de Macau (Forte de S. Francisco) finalizado só em 1866 (3)

Macau Cidade do Nome de Deus na China Franciscan Church MacaoFranciscan Church Macao” (4)

 (O convento/mosteiro de S. Francisco à esquerda e no fundo, os degraus para a igreja de S. Francisco)

Comparar com uma pintura (lápis sobre papel, sem data) de George Chinnery (1774 – 1852) que chegou a Macau em 1825.

IMAGENS DE CHINNERY - Igreja de S. Francisco

(1) O Major de Infantaria Adrião Acácio da Silveira Pinto foi Governador e Capitão Geral de Macau de 23-02-1837 a 02-10-1843. Em 10-10-1843 (já como conselheiro) foi nomeado Embaixador de Portugal, para tratar com os Plenipotenciários Chineses sobre a existência política de Macau. Partiu de Macau para Cantão a 27-10-1843 para negociar com os comissários chineses (Vice-Rei Ki-Yin). Faleceu em Lisboa, no posto de Marechal em Campo, aos 23 de Março de 1868.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9).
(3) Embora esteja referenciada por Luís Gonzaga Gomes no seu «Efemérides da História de Macau», a data de 30-03-1851 para a autorização da demolição do convento, Beatriz Basto da Silva na sua «Cronologia da História de Macau, 3.º Volume» tem duas entradas para a mesma notícia: 30-03-1851 e 30-03-1861. Esta última data será a mais correcta, pois é mencionado que o desenho do quartel e do forte de S. Francisco, no lugar do antigo edifício, é da autoria de José Rodrigues Coelho do Amaral (militar do ramo da engenharia – 1808-1873) e que também dirigiu as obras. O mesmo tinha sido Governador de Angola de 1854 a 1860 e foi depois Governador de Macau de 22-06-1863 a 25-10-1866.
Mais informações sobre o Convento/Igreja e o governador Coelho do Amaral em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-m-coelho-de-amaral/
(4) Publiquei este mesmo desenho, retirado do livro do Padre Teixeira em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/01/03/noticia-de-3-de-janeiro-de-1864-festejos-em-macau/
Esta retirei-a do livro de Eduardo Brazão; está referenciada como de 1831, da colecçção de Duarte de Sousa (ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/01/24/leitura-macau-cidade-do-nome-de-deus-na-china-nao-ha-outra-mais-leal/
A colecção do bibliófilo e livreiro António Alberto Marinho Duarte de Sousa (1896-1950) foi adquirida pelo Estado Português em 1951 e depositada, como património nacional, na antiga Biblioteca do Secretariado Nacional de Informação, no Palácio Foz (actualmente inactiva). Foi posteriormente transferida para a Biblioteca Nacional. É constituída por 2500 obras dos séculos XVI a XX.
(http://www.gmcs.pt/palaciofoz/pt/biblioteca).

Nesta data, depois de entregues pelas autoridades de Cantão, foram recebidas em Macau a cabeça e a mão do Governador João Maria Ferreira do Amaral, barbaramente trucidado pelos chineses, em 22 de Agosto de 1849 (1)

O Governador, Conselheiro Capitão de Mar-e-Guerra João Maria Ferreira do Amaral (até aí conhecido como «o herói de Itaparica») (2) que tinha chegado no dia 19 de Abril a Macau, tomou posse do Governo da Província de Macau, Timor e Solor no dia 21 de Abril de 1846.
Foi assassinado em 22-08-1849 por sete chineses que o acometeram repentinamente, e à traição, próximo das Portas o Cerco. Sucedeu-lhe, na administração da Colónia, o Conselho do Governo, composto pelo Bispo Jerónimo José da Mata, Juíz Joaquim António de Morais Carneiro, Ludgero Joaquim de Faria Neves, Miguel Pereira Simões, José Bernardo Goularte e Manuel Pereira. (1)
A transladação do corpo do Governador, do palácio do Governo para a capela de Nossa Senhora do Carmo da Igreja de S. Francisco onde foi sepultado, foi efectuada a 2 de Janeiro de 1851. (1)

Rotunda Ferreira do Amaral 1951 -Lei Iok Tin UNESCORotunda de Ferreira do Amaral (1951)

 Postal emitido pela Fundação Macau / Centro Unesco de Macau

Foto de Lei Iok Tin

 (1) GOMES, Luís Goonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(2) João Maria Ferreira do Amaral (1803-1849) distingiu-se pela sua bravura em combate, no dia 24 de Fevereiro de 1823, em Itaparica (Brasil) onde, na altura, ainda guarda- marinha, ferido no braço direito continuou a comandar os seus homens na carga, até ser recolhido ao hospital, onde lhe foi amputado o braço.

Sobre este Governador ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/joao-m-ferreira-do-amaral/
Sobre o fotógrafo Lei Iok Tin (Lee Yuk Tin) ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/lei-iok-tin/

16-07-1789 – Foi em casa do seu Marechal de Campo, Simão de Araújo Rosa que faleceu o Governador Francisco Xavier de Mendonça Corte Real (1) pelo que se tornou necessário fazer «vistoria ao cadaver»

«E Sendo presentes os oficiais de infantaria, logo o juiz chegou ao pé do cadáver sobre a cama, o chamou pelo seu nome três vezes, e como não lhe respondesse, sinal ja de falecido, ordenou ao cirurgião que, debaixo do juramento que lhe deferiu o dito juiz, fezesse exame no dito cadáver e dissesse de que o dito senhor veio a falecer, e logo o dito cirurgião foi satisfeito, e disse que morreu de uma disenteria, que padecia ha muito tempo, acompanhada de uma caquexia e não outra molestia alguma, nem de veneno» (2)

Foi sepultado na Igreja de S. Francisco.

(1) Posse em 21-07-1788.
Em 18-07-1790 tomaram posse como Governadores interinos,  Lázaro da Silva Ferreira (Desembargador) e Manuel António da Costa Ferreira )(Sargento-Mor) – saídos por via de sucessão, por morte de Xavier de Mendonça. (2)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2, Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5)

“28-04-1703 – Consta por memorias antigas que neste anno houve huma grande séca e que os mantimentos por este motivo sobirão a mui alto preço nesta Cidade.  Fez-se a primeira Procissão , no dia 28 d´Abril a noite por ser de penitência, e foi de S.m Francisco à Sé, a S.m Paulo, a S.m Domingos e a St.º Agostinho, cantando sempre o =Mizerere=.  Aos 30 do dito mes se fes outra Procissão de S.m Lourenço a Sé em que ia o mesmo St.º e ficou na Cathedral athé chover. Aos 3 de Maio quinta feira de noute se fes outra Procissão de S.m Lourenço a Sé em que foi a Sr.ª dos Remédios, cuja imagem levarão os Conegos com muitas luzes,  e athé o Sr. Bispo a acompanhou e ficou a Sr.ª na Sé, e se comessou huma novena no dia seguinte sexta feira em que choveo alguma couza, porem no dia Sabbado desempenhou a chover em grande quantidade e ficou a chover por varios dias como se desejava.”  (1)

No dia 3 de Maio de 1703 realizou-se a 3.ª Procissão de Penitência, com grande aparato de imagens e acompanhamento, devido à alta de preços dos géneros, motivada por uma grande seca em todas as vizinhanças de Macau. No dia 4 de Maio começou “a pingar” e no dia 5 de Maio choveu com grande abundância o que muito impressionou o gentio chinês. (2)

(1) BRAGA, Jack M. –  A Voz do Passado. Instituto Cultural de Macau, 1987, 78 p. , ISBN 972-35-0029-9.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5)

P/S: Os amigos telefonaram, outros enviaram “mails”, todos “alarmados” pela falta diária do meu blogue. Tudo bem, somente alguns dias de férias, longe dos meios informáticos. De qualquer forma, muito obrigado a todos pela preocupação.