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Ainda a propósito da notícia de inauguração do Hospital Militar Sam Januário, do mesmo impresso “120 anos de História” (1), retiro o seguinte:

Prospecto 120 anos - CAPA“Um dos documentos mais antigos sobre a história da assistência médica em Macau remonta a 1575. É uma carta da autoria de D. Melchior Carneiro, jesuíta e primeiro Bispo de Macau, dirigida ao Padre Geral da Companhia de Jesus que refere:
Mal cheguei, abri um hospital, onde se admitem tantos cristãos como pagãos…
É esta obra religiosa que se ficam a dever os primeiros passos no campo assistencial e a D. Melchior Carneiro, em especial, a instituição do sistema da Misericórdia semelhante ao modelo instituído pela Rainha D. Leonor; o Hospital dos Pobres, como era conhecido o Hospital da Misericórdia baptizado anos mais tarde com o nome de S. Rafael (patrono dos doentes), e o primeiro serviço de apoio aos leprosos, criado aquando da sua fundação, são marcos importantes do esforço empreendido.
Já no Século XVII chegam-nos as primeiras notícias de uma enfermaria no Colégio de S. Paulo. Com capacidade para albergar 60 doentes a assistência era prestada pelos boticários Jesuítas daquele Colégio que ao mesmo davam também apoio ao Hospital da Misericórdia.
A Botica do Colégio S. Paulo ficou famosa pelas suas mezinhas e pelo contributo que prestou à introdução da Medicina Ocidental em Macau.
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/01/06/noticia-de-6-de-janeiro-de-1874-hospital-militar-de-s-januario/

1969 IV Centenário SCM Envelope

16 de Outubro de 1969: 1.º Dia de circulação do selo comemorativo do  IV Centenário da Fundação da Santa Casa da Misericórdia de Macau 1569-1969 , com carimbo e  envelope comemorativo.

Portaria n.º 24331 (D G 232/69 Serie I de 3-10-1969):
Manda emitir e pôr em circulação na província de Macau selos postais, da taxa de 50 avos, comemorativos do 4.º centenário da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Macau.”

1969 IV Centenário SCM SELOSDois selos da minha “colecção” (1), um obliterado com carimbo de 1971 e outro virgem.

D. Belchior Carneiro SCM década de 60A Santa Casa da Misericórdia de Macau (década de 60-Século XX)

Em 1569, D. Melchior Miguel Nunes Carneiro Leitão (1516-1583) que chegara a Macau em Junho de 1568, fundou a Santa Casa da Misericórdia, de que foi o primeiro provedor, e um hospital para cristãos e pagãos.

D. Belchior Carneiro SCM RETRATOQuadro a óleo de D. Melchior Carneiro, existente no salão principal da Santa Casa.

Segundo ele informava, em 1575, em carta para o Geral da Companhia:
– «Quando cheguei ao porto de Macau chamado do Nome de Deus, havia aqui mui poucas habitações de portugueses e algumas casas de cristãos do país…(…)
… Apenas cheguei abri um hospital, onde se admitem tanto cristãos como pagãos. Criei também uma Confraria de Misericórdia, semelhante à Associação de caridade de Roma: ela tem providenciado às necessidades, de todos os pobres envergonhados e dos necessitados»

D. Belchior Carneiro SCM Hospital S. Rafael década de 50O Hospital S. Rafael (década de 50 – século XX)

O hospital denominado Hospital dos Pobres, posteriormente, recebeu o nome de S. Rafael.
TEIXEIRA, Pe. Manuel – D. Melchior Carneiro, 1968, 117 p.

(1) “colecção” está entre aspas porque «colecção de selos» é um hobby de colecionar selos o que não é o meu caso;  ao longo de alguns anos da juventude limitei-me a juntar uns selos de Macau, tirados das cartas da correspondência aérea.

Portugal no Extremo Oriente VIIcontinuação de (1) e (2)

O DOMINIO PORTUGUEZ   ῼ  CAMÔES BATALHADOR  ῼ  A PORTA DO CERCO

Portugal no Extremo Oriente IXGrémio Militar

“É crível que um pequeno tubo, com o seu deposito de metal, onde a agua côa o opio gere um domínio, mas não se concebe que ao cabo da tradição extranha dos Portuguezes o Filho do Céu, esse imperador de tres annos (3) seja o senhor da Monaco Oriental por direito de conquista. Se d´essa tentação do sonho, d´essa loucura do opio, o portuguez se livra mais do que outro qualquer europeu, das tricas chinezas ou das suas armas, elle, o heroe de sempre, saber-se-ha defender melhor. Macau não é esse territorio chinez que se julga apenas concedido com clausulas, é antes o territorio onde as mercadores portuguezes fundaram Santo Nome de Deus de Macau quando o imperador Chetseug (4) lh´o doou após uma batida homerica  da nossa gente no pirata Chau-silau (5), que singrava com mas suas fustas nos rios azues de cantão. Em todo o caso o governo da Índia só para ali enviava funcionarios que pelo seu porte eram difficilmente contidos na colonia então bem prospera.

 Portugal no Extremo Oriente XA Gruta de Camões

Camões era um dos insubordinados, um d´esses homens que mal se aturavam na séde do governo e d´ahi o enviaram-no com Fernão Martins para Macau, onde depois de batalhar, devia buscar o repouso amigo, no fundo fresco d´uma gruta, deante do mar calmo, repassado de tristezas, desolado, evocar além toda a epopeia d´uma patria ingrata e distante, e, feito provedor de defuntos, escrever a epopeia heroica d´uma grande vida nacional, sonhando, talvez, com delicias de fumador d´opio, nos seus amores infelizes. Dia a dia, Macau tornou-se um emporio, que os japoneses cobiçavam e que João Pereira, um simples negociante defendia.

 Portugal no Extremo Oriente XIPorto Interior (Largo da Caldeira)

Depois os chinezes, falando de extorções no seu solo, limitaram o que nos pertencia; ergueram a porta de Kuan Chap (6) ou de limite , por nós chamada a porta do Cerco. Em 1583 estabelecia-se o governo municipal (7), fundava-se a Mizericordia (8 ) e os hospitaes de S. Raphael e de S. Lazaro (9) e em 1586 davam-se à cidade regalias eguaes às de Évora.” (10)

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/04/15/leitura-portugal-no-extremo-oriente-macau-i/
(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/05/05/leitura-portugal-no-extremo-oriente-macau-ii/
(3) Deverá estar a referir-se ao último imperador da China (12.º imperador da dinastia Qing) de 1908 a 1912, quando foi forçado a abdicar –  Pu Yi ( 溥儀, pǔyí) (7 de Fevereiro de 1906 -17 de Outubro de 1967
(4) “Chetseug” – Chin-Tsoung ou Sân-Tchông mais conhecido pelo seu título de reinado por Imperador Wanli (萬曆) (4 de  Setembro de 1563 – 18 de Agosto de 1620),  foi um Imperador da China do período da Dinastia Ming (governou durante 48 anos – o reinado mais longo da Dinastia Ming de 1572 à 1620)
(5) “Chau-silau” – Pirata Chan-Si-Lau (suicidou-se em 1557 após a derrota dos piratas no Rio das Pérolas, com o auxílio dos portugueses). Em princípio esta é a data (1557) aceite  para  a fundação  de Macau.
(6) “Kuan chap” (關 閘 – mandarim pinyin: guan  zhá; cantonense jyutping: gwaan1 zaap6) literalmente porta da fronteira) – Porta do Cerco
(7)  Criado o (Leal) Senado de Macau, pelos bons ofícios de D. Belchior Carneiro (11)
(8) 1569 – Fundação da Sta Casa da Misericórdia, por Belchior Carneiro (11)
(9) 1569 – Fundação do Hospital de S. Rafael  onde foram introduzidas as primeiras vacinas na China e do Hospital de S. Lázaro. Macau teria então já cerca de 5 a 6 mil «almas cristãs» (11)
(10) artigo e fotos retirados da “Ilustração Portugueza”, 1908.
(11) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Séculos XVI-XVII, Volume 1. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997198 p (ISBN 972-8091-08-7)

Reuniram-se em assembleia vários moradores de Macau que elegeram uma comissão, composta de João Damasceno Coelho dos Santos, coronel João Ferreira Mendes, José Bernardo Goularte, José Maria da Fonseca, Francisco Justiniano de Sousa Alvim, Pedro Marques e José Joaquim Rodrigues Ferreira, para organizar uma sociedade de subscritores para a construção de um teatro. Até então todos os espectáculos de realizavam em «vistosos teatrinhos» (1) que se armavam na encosta de Mato-Mofino, que deita  sobre a Rua da Praínha; na porção do terreno da Praia do Manduco, depois ocupada pelo jardim do Barão de S. José de Portalegre; na Assembleia Filarmónica, (2)  que existia no largo de Santo António; no edifício do Hospital da Misericórdia; na residência do Juiz de Direito Sequeira Pinto; no «retiro campestre» de Santa Sancha, etc. teatrinhos esses que eram desarmados, uma vez dissolvidos os grupos de amadores que os animavam. Pensou-se, primeiramente, em instalar o teatro no edifício do Hospital S. Rafael. Tal ideia foi logo abandonada, pedindo a comissão ao governo o terreno do campo de S. Francisco, junto da rampa que conduz à entrada do quartel, pretensão esta que foi indeferida, sendo oferecida a cerca do extinto convento de S. Domingos. A Comissão, não gostando do local, requereu e obteve a 2 de Abril, o terreno do largo de S.º Agostinho (3). Correndo imediatamente a subscrição, em Macau e Hong Kong, o edifício do Clube e do Teatro D. Pedro V ficou quase concluído em Março de 1858, devido aos esforços do Cirurgião-Mor da Província, António Luís Pereira Crespo, Pedro Marques e Francisco Justiniano de Sousa Alvim. O risco e a direcção das obras foram da autoria do macaense Pedro Germano Marques (4) (5).

Teatro D. Pedro V 1907Fachada do Teatro D. Pedro V em 1907  (Foto de Man Fook)

Ao edifício delineado por Pedro Marques foi dado o nome de Teatro D. Pedro V, soberano então reinante; mas a actual fachada foi delineada pelo Barão de Cercal em 1873  (6) e restaurada em 1918 por José Francisco da Silva.
Situado no Largo de Santo Agostinho, em Macau, é um dos primeiros teatros de estilo ocidental na China.
Os Estatutos da Sociedade do Teatro D. Pedro V, foram aprovados a 20 de Abril de 1859 pelo Governador Isidoro Francisco Guimarães (o projecto de Estatuto apresentado pelo Secretário da Comissão Directora, Francisco Justiniano de Sousa Alvim tinha já sido publicado no Boletim Oficial de 6 de Novembro de 1858 ) (7) 
Em 2005, o teatro tornou-se um dos locais do Centro Histórico de Macau a figurar na Lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO.

Teatro D. Pedro V 1999Teatro D. Pedro V (伯多祿五世劇院) em 1999 (8)

(1) Em 1839, foi construído o teatro luso-britânico pelo arquitecto macaense José Tomás de Aquino.
(2) A 30 de Junho de 1853, deu-se uma récita nas casas da Filarmónica, em favor dos Expostos deste cidade.
(3) “26-11-1860 – Por Portaria Régia desta  data foi confirmada a concessão feita pelo governo provincial do terreno onde se edificou o Teatro D. Pedro  V. ” (7)
(4) Nasceu em 1799, exerceu o cargo de escrivão da Câmara (não era arquitecto nem engenheiro, mas tinha engenho e arte) e faleceu viúvo, a 15 de Dezembro de 1874, com 75 anos. Está  sepultado na Igreja de S. Agostinho (7)
(5) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(6) “17-03-1865 – Incendiou-se, pela madrugada, o Teatro D. Pedro V, mas o fogo foi rapidamente extinto, tendo apenas ardido parte duma janela. ” (5)
30-09-1873 – Reabriu, restaurado, o Teatro D. Pedro V, com Estatutos aprovados por Portaria de 10 de Fevereiro deste ano”  (7)
(7) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)
(8) http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8d/Dom_Pedro_V_Theatre_in_Macau.jpg

“A via pública, que principia no sítio onde se cruzam as Ruas da Praia Grande, Santa Clara e Formosa, e termina entre a Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida e Rua Ferreira do Amaral, ao fundo da Calçada do Poço, é vulgarmente designada como o nome de Rua do Campo, por ter sido este o caminho que ia dar ao terreno aberto que ficava outrora fora das muralhas da cidade.
Os chineses chamam a essa rua Sôi-Hâng-Mêi (Extremo do Regato), nome que evoca, porventura, o facto de ter havido noutros tempos, algum fio de água que vertia pela encosta do Monte abaixo.

                          FOTO DE MAN FOOK – RUA DO CAMPO 1907

Ora contam que nessa rua existia um enorme casarão com um grande jardim, sendo seu dono um abastado chinês, mas depois da época de kuâi-tchân-ôk (os demónios abalam as casas), isto é, em que Macau foi visitada por uma assustadora série de abalos sísmicos, porém sem graves consequências , nunca mais ninguém ousou lá habitar, vindo o jardim desta vasta propriedade a ser aproveitado para se fazer o jardim de S. Francisco, que ficou separado do edifício por uma rua lateral.

                         HOSPITAL S. RAFAEL NA DÉCADA DE 60

A entrada principal do enorme casarão (1) ficava em frente do Hospital São Rafael (2) e o seu proprietário, que enriquecera com o negócio do sal, quando o mandou construir, julgou poder manter unida a sua família através de seis gerações. Infelizmente, à quarta geração, os seus descendentes foram obrigados a dispersar-se e a abandonar aquele casarão sem poderem satisfazer os desejos do seu ilustre ascendente.
O casarão possuía ao todo cinco entradas e trinta e um quartos e ninguém ousava habitá-lo por ser verificado que nele viviam vinte e oito almas penadas.
Como com o tempo, fosse aumentando o número dos espíritos da sombra, as pessoas incumbidas de tomar conta daquele inútil casarão, espalharam por todas as salas mil e um feitiços e pregaram e penduraram por todas as paredes inúmeros amuletos, a fim de ver se conseguiam, desta forma, evitar que o malfadado prédio continuasse a ser visitado por tão terríveis entes.
Efectivamente, durante algum tempo, os espíritos deixaram de aparecer mas, assim que descobriram a forma de anular os efeitos dos feitiços e amuletos, passaram outra vez a residir no casarão, tornando-o inabitável para os mortais.
Os herdeiros daquele casarão, que nada rendia, não olharam então a dinheiro e convidaram os mais afamados exorcistas e bonzos de todos as seitas, para celebrarem complicados esconjuros e encantações e entoarem demorados ensalmos, mas tudo foi baldado. Os bonzos acabaram por recomendar aos descorçoados proprietários para atravessarem a viga mestra do corpo principal do edifício com um espigão de ferro de oito braças de comprimento das quais seis deveriam ficar a descoberto no interior do edifício.
Este recurso também não deu resultado, pois, mal se escondia o sol, lá se ouvia por todos os cantos e recantos o perturbante mussitar dos fantasmas que decerto andavam segredando malévolos planos ou concertando misteriosas diabruras, e, na calda da noite, surgiam por entre a escuridade dos sobrados, estranhos vapores que se iam adensando, palatinamente, formando grossos novelos de impenetrável fumo que impediam a entrada de qualquer ousado visitante…” (3)
…………………………………………………………………..continua
(1) O casarão foi demolido.
(2) Hoje Consulado-Geral de Portugal.
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Lendas Chinesas de Macau. Notícias de Macau, 1951, 340 p. ; 19 cm.
Este conto está também inserido no livro,  (CÉSAR, Amândio – Literatura Ultramarina, Os Prosadores. Sociedade de Geografia de Lisboa, Semana do Ultramar, 1972, 197 p., 20,5 cm x 15 cm.), já referenciado em post anterior:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/02/leitura-literatura-ultramari-na-dentro-do-barco-da-velha/