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João Pires Cutileiro, escultor (também ceramista) mais conhecido pelas suas esculturas em mármore, nascido em Lisboa em 1937, faleceu nessa mesma cidade no dia 5 de Janeiro deste ano.

Viveu e trabalhou em Évora desde 1985, tendo duas das suas obras expostas ao público em Macau: uma no jardim do Centro Cultural de Macau, inaugurado a 19 de Março de 1999, de um grupo escultórico esculpido em mármore cinzento de Estremoz com um barco de pedra e cavaleiros preparados para a guerra, inspirados nos guerreiros de terracota de Xian e a outra, mais escondida do público, “corpo feminino-mulher deitada” de 28 de Novembro de 1989, colocada no átrio principal de entrada aquando da inauguração do 1-ª edifício do conjunto dos três edifícios que constituía o Centro Hospitalar Conde de S. Januário.

Átrio principal da entrada do Centro Hospitalar Conde de S. Januário (C.H.C.S.J.) edifício do Bloco Clínica Obstétrica e Pediatra (para a esquerda da foto) e da Clínica Médico – Cirúrgica (para a direita da foto). Ao fundo, no centro, a escultura de João Cuteleiro.

Apresento três postais de uma colecção de seis (15 cm x 10 cm) que os Serviços de Saúde de Macau editou a propósito dos 120 anos da inauguração do «Hospital Militar de Sam Januário”, inaugurado a 6 de Janeiro de 1874.

Perspectiva do átrio principal do C.H.C.S.J.
Escultura de João Cutileiro – 1989; Átrio principal do C.H.C.S.J
Escultura de João Cutileiro (pormenor) – 1989; Átrio principal do C.H.C.S.J.

Recorda-se que a escultura não foi bem vista pela comunidade chinesa, apesar da ideia da mulher nua ter sido baseada na tradição dos tempos dos imperadores em que as mulheres dos mandarins não podiam ser observadas pelos curandeiros/médicos. Assim quando estavam doentes, as aias ou criadas levavam uma boneca /pequena escultura e apresentavam-na aos médicos, apontando o local da dor/maleita. Se precisassem ser observadas o médico somente podiam palpar o pulso para fazer o diagnóstico.

A escultura controversa foi, por isso, posteriormente transferida para o átrio do terceiro edifício deste Centro Hospitalar – a entrada para a Escola Técnica dos Serviços de Saúde e do seu anfiteatro (junto à placa da inauguração dessa Escola no dia 3 de Dezembro de 1992), onde suponho que lá esteja ainda hoje.

“No dia 5 de Outubro de 1939, foi inaugurado o edifício do Hospital de S. Rafael que já existia desde 1569 (1) e fora reconstruído em 1640, 1747 (2) e 1766 (3), depois de devidamente restaurado e com grandes beneficiações”. (4)

Havia uma lápide à entrada:

5 de Outubro de 1939
Este hospital foi mandado reconstruir no ano de 1938 pelo Governador da Colónia
o Exmo. Sr. Artur Tamagnini  de Sousa Barbosa
Que conseguiu para a Santa Casa da Misericórdia
Os fundos necessários.
As obras iniciadas em Agosto de 1938
Sendo Provedor Manuel Beja Corte Real e Mesários
Paulino António da Silva
Mário de Barros Pereira
Pedro Nolasco da Silva
Januário Agostinho d´Almeida
e concluídas em Setembro de 1939
Sendo Provedor Alexandre dos Santos Majer e Mesários
Paulino António da Silva
Mário de Barros Pereira
Pedro Nolasco da Silva e João Tavares de Sousa.
Projecto do Engenheiro civil
João Canavarro Nolasco da Silva
Director clínico do Hospital:
Dr. Jacinto Vargas Moniz”

 Pe. TEIXEIRA A Medicina em Macau - Hospital S. Rafael 1974Hospital de S. Rafael em 1974 (5)

Nessa reconstrução de 1938-39, as casas que a Mesa da Misericórdia mandara construir (6 casas de aluguer) na esplanada do hospital foram arrasadas, restituindo-se ao hospital a sua antiga esplanada.
A «Maternidade Dr. Soares» foi mantida e renovada e ampliada (o Dr. José Caetano Soares foi o anterior director sendo substituído pelo Dr. Jacinto Vargas Moniz) , a velha consulta externa foi ampliada criando-se consultas de especialidade de gravidez e de ginecologia, olhos, rins e vias urinárias. A «Ambulância» foi completamente reformada tanto no seu material como na sua orgânica. A ala cirúrgica ficou com um  «Bloco Cirúrgico Artur Tamagnini de Sousa Barbosa» (duas salas de operações, duas salas de anestesia, dois arsenais cirúrgicos, uma sala de esterilizações). Foi criado um laboratório de análises clínicas e um gabinete de raio X com equipamentos modernizados. Foi criado o balneário para os hospitalizados e doentes da consulta externa que necessitassem banhos terapêuticos.

Pe. TEIXEIRA A Medicina em Macau - Hospital S. Rafael antigoAntigo Hospital de S. Rafael (antes da reconstrução)(5)

Em 1787, o pé do hospital civil, tinha um compartimento para os militares (hospital militar com um cirurgião e quartos pata três oficiais, para oito subalternos e uma enfermaria para 80 soldados). O médico do Hospital dos Pobres era sempre o médico do Partido Municipal e uma das cláusulas do contrato determinava que ele prestava serviço gratuito no Hospital das Misericórdia. Em 1834, o Hospital dos Pobres chamava-se hospital civil para o distinguir do militar.
Em 1855, o governo determinou que fosse extinta a enfermaria militar do Hospital mas os doentes militares só a 6 de Junho de 1857 é que passaram para o Convento de Santo Agostinho. Em 1872 começou a construção do Hospital Militar de Sam Januário.

Pe. TEIXEIRA A Medicina em Macau - Relação do pessoal Hospital S. Rafael 1938Relação do pessoal do Hospital de S. Rafael em 1938 (5)

(1) “O estabelecimento devia então ser o «Hospital dos Pobres» e embora  a referência mais antiga seja só de 1591 (nas notas de lançamentos das verbas testamentarias do  escrivão da Misericórdia, António Garcez), o Hospital é anterior a 1591 e para a fundação pertencer a D. Melchior Carneiro haveria que datá-la, o mais tarde, de 1583, que, sem dúvida, sabe-se foi o ano em que ele morreu(SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência,1950).
Segundo o Padre Teixeira, o Hospital dos Pobres foi fundado por D. Melchior Carneiro (o hospital dos cristãos) em 1568 baseado em dois testemunhos coevos e irrefragáveis. ( TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Vol. I-II, 1974).
(2) Acta  de 1747: «Sendo provedor Luiz Coelho, diz este, que o hospital dos enfermos que esta Santa Casa tem se acha totalmente arruinado principalmente a capela… e também, a enfermaria, onde os enfermos existem por ser logar imundo e incapaz de poder ficar criatura humana» Existia uma lápide4 à entrada do hospital em que se lia “Este hospital da Santa Caza de Misericórdia Mandou fazer Luis Coelho sendom provedor no anno de 1747”
(3) Em 1766, sofreu nova reconstrução e posteriormente em 1840, (fizeram-se obras, aumentando-se um andar, ficando concluídas em 1842), sendo provedor Filipe José de Freitas. Foi nessa altura que sobre o portão principal se colocou um nicho coma  estátua de S. Rafael e as palavras MEDICINA DEI. Foi portanto desde então que passou a ser conhecido por Hospital S. Rafael.
(4) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(5) TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Vol. I, 1974

Tendo sido transferido para o Convento de Sta. Clara a escola de meninas que funcionava no convento de Sto. Agostinho, desde 10-08-1846 (1), em 6 de Julho de 1857, foi este transformado em Hospital Militar até 1874, (2) ano em que foi construído o Hospital Conde de S. Januário (inaugurado a 6 de Janeiro de 1874). Depois “velho e desactivado“, o convento é convertido em Liceu Nacional de Macau (inaugurado em 18-09-1894) (3) e depois comprado por Artur Basto que o transformou em sua residência. Com a morte foi adquirido pela Companhia de Jesus e, sob o nome de Residência de Nossa Senhora de Fátima dos jesuítas ou “Vila Flor” (serve de casa de repouso aos jesuítas), junto à Igreja de Sto. Agostinho. (GOMES, Luís Gonzaga- Efemérides da História de Macau, 1954).

Chinnery Escadas de Sto Agostinho 1829Escadas que conduziam ao antigo Convento de Santo Agostinho
George Chinnery – 1829 (4)

(1) “O convento de Santo Agostinho foi fundado em fins de 1586 ou princípios de 1587, pelo agostinho espanhol Fr. Francisco Manrique, (os padres espanhóis pertenciam à Província Filipina) e foi entregue aos agostinhos portugueses em 22 de Agosto de 1589. (5) Encadeados nas múltiplas hipóteses da sua transferência, total ou parcial, para o sítio onde hoje existe, há manuscritos que nos afirmam ter-se mudado o local do convento para a Colina do Mato Mofino (onde hoje se encontra a residência de Nossa Senhora de Fátima dos jesuítas) em 1591. Outros dizem que só foram mudadas algumas portas e não todo o corpo do convento, por não se encontrar notícia nem vestígios do que se pretende dar por mais antigo.
Esta transferência, e até à fundação dos agostinhos em Macau, atribui-a Casimiro Cristóvão de Nazaré em «Mitras Lusitanas no Oriente», ao agostinho português Fr. Miguel dos Santos.
Em 1711, o Convento de s. Agostinho foi retirado aos seus frades por ordem do Vice – Rei D. Rodrigo da Costa, sob a acusação de serem afectos ao Cardeal de Tournon. Mas foi-lhes restituído em 1721.
Em 1834, com a expulsão e extinção de todas as ordens religiosas no Império Português, esta igreja foi confiscada pelo Governo de Macau e serviu-se de quartel militar (Batalhão de Primeira LInha), escola de meninas desde 10-08-1846   e hospital. No final do séc. XIX,, em 1873, o Governador de Macau devolveu a administração desta igreja à Confraria de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos.
O engenheiro Jerónimo Luna no relatório «Hospital Militar – no extinto convento de Santo Agostinho» refere as obras realizadas neste edifício:
«Neste hospital se fizeram primeiramente diferentes obras, de consertos, reparos e pinturas, e, ultimamente, fizeram-se as obras necessárias para o isolamento completo dos doentes, em relação à parte do edifício arruinado, pelo desmoronamento de parte da igreja. …» (6)
«…Este edifício, por ser velho e ter geralmente má construção, precisa constantemente de reparos.»” (7)
(2) A instalação do Hospital Militar que foi autorizada por portaria de 21 de Novembro de 1855, implicou alterações/adulterações da estrutura do edifício. O Hospital Militar ocupou as alas que conformavam o claustro e dispunha de sessenta e oito camas. Mesmo após 1874 após a transferência dos doentes para o Hospital Sam Januário, a tropa continuou no convento até 1893 (aquando da instalação do Liceu de Macau).( GOMES, L.G.- Efemérides da História de Macau, 1954).
3) “28-09-1894 – Foi inaugurado o Liceu Nacional de Macau, instalado no velho e desactivado Convento de Santo Agostinho (que acabou de ruir, sem causar danos pessoais) com uma simples visita do Governador Horta e Costa. Não se realizou nenhuma solenidade por a família real se encontrar de luto. .(GOMES, L.G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

SMIRNOFF Igreja Sto Agostinho 1944Fachada principal da Igreja de Santo Agostinho
George Smirnoff, 1944
O Convento ficava à direita (na foto) da Igreja

(4) Este desenho de Chinnery vem mencionado com este título nos catálogos das exposições, ambas em 1995 “Macau Uma Viagem Sentimental” e “Imagens de Macau Oitocentista“. Mas tem uma referência ao “Convento de S. Francisco”, embora interrogado, no catálogo da exposição em 1985 “George Chinnery – Macau“.
(5) “22-08-1589 – Tomarão posse os Religiosos de Stº Agostinho desta Cidade do Convento de N. S. da Graça que hoje possuem o qual foi fundado pelos Religiosos desta Ordem vindos de Filipinas …” (BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado, 1964).
(6) “Isto escrevia-se depois do grande incêndio de 1872, que destruiu a capela‐mor, a sacristia e várias outras dependências e que nos faz crer que essa parte do convento, já não alinhava com o bloco da igreja, pois era considerada dependência militar, e , posteriormente, passou a pertencer a particulares.” (7)
(7) ” A Colina de Santo Agostinho e o seu Convento”, sem indicação de autor in . MACAU, Boletim Informativo, 1956.
Anteriores referências ao Convento de Santo Agostinho:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/convento-de-s-agostinho/
Ver ainda «NOTÍCIAS – QUEDA DO TECTO DA IGREJA DE SANTO AGOSTINHO» em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/27/noticias-queda-do-tecto-da-igreja-de-santo-agostinho/

1.º Centenário Inauguração do Hospital ENVELOPE

No dia 25 de Janeiro de 1974, os Correios de Macau (C.T.T.) emitiram e puseram a circular o envelope comemorativo (selo + carimbo) do 1.º Centenário da Inauguração do Hospital Central Conde de S. Januário.

Hospital Conde S.Januário 1974O Hospital “Conde de São Januário”, em 1974

 Relembro que o Hospital Militar de Sam Januário, delineado pelo ilustre macaense António Alexandrino de melo., Barão do Cercal, foi benzido pelo Governador do Bispado Pe. António Luís de Carvalho e solenemente inaugurado pelo Governador, Visconde de S. Januário no dia 6 de Janeiro de 1874.

O início das comemorações do 1.º Centenário teve lugar no dia 5 de Janeiro de 1974 com a inauguração da exposição «O Hospital e a Saúde Pública» no átrio do edifício do Leal Senado. (1)
No dia 6 de Janeiro, teve lugar a sessão solene a que presidiu o Governador. Proferiu a conferência onde expôs «uma resumida panorâmica sobre a evolução do Hospital através dos tempos», o Dr. António Joaquim Paulino, médico-inspector, Chefe dos Serviços de Saúde e Assistência.
No mesmo dia, fez-se o descerramento da Placa Comemorativa do 1.º Centenário do «Hospital de São Januário», no átrio do mesmo hospital, ao qual se seguiu a Missa Solene, com a presença do Governador da Província, general Nobre de Carvalho, autoridades, e funcionários dos Serviços de Saúde e Assistência. Nesse mesmo dia inaugurou-se e o Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Central Conde de S. Januário.

Hospital C. C. S. J. 100 Anos ao Serviço de Macau

Como fecho das comemorações, teve lugar no dia 7, domingo, um jantar de confraternização no Restaurante Chinês do Hotel Lisboa para o qual foram convidados as principais autoridades, médicos, tanto de Macau como de Hong Kong, pessoal de enfermagem, funcionários de todas as categorias dos Serviços de Saúde e suas respectivas famílias, num total de cerca de 700 pessoas.
A fachada do Hospital apresentou-se iluminada tendo em grandes letras no ponto mais alto do edifício as palavras «100 ANOS AO SERVIÇO DE MACAU»

1.º Centenário Inauguração do Hospital SELOS e CARIMBONeste envelope, os dois selos de franquia postal comemorativos do centenário (Portaria 18/74 de 11 de Janeiro) (3), a efígie do visconde de S. Januário no valor de 15 avos e as duas imagens da fachada do referido Hospital: de 1874 e 1974, no valor de 60 avos.

(1) SILVA Beatriz Basto da – Cronologia Da Historia de Macau, Volume 5.
Segundo Padre TEIXEIRA, a inauguração da exposição foi no sábado, dia 6-01-1974 e esta, estava no salão nobre do Leal Senado (TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Volumes I-II).
(2) Portaria 18/74 de 11 de Janeiro:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Ultramar, que, nos termos do artigo 2.º do Decreto 37050, de 8 de Setembro de 1948, sejam emitidos e postos em circulação na província de Macau selos de franquia postal comemorativos do primeiro centenário do Hospital Central do Conde de S. Januário, tendo como motivos a efígie do visconde de S. Januário e o referido Hospital, nas dimensões de 40 mm x 35 mm, das taxas, cores e nas quantidades seguintes:
2000000 da taxa de 15 avos – Preto, carmim, azul-da-prússia-claro, azul-da-prússia-escuro, ocre, sépia-claro, sépia-escuro, amarelo, verde-azeitona-claro, vermelhão e cinzento-azulado.
4000000 da taxa de 60 avos – Carmim, vermelhão, preto, azul-da-prússia-escuro, sépia-escuro, sépia-claro, ocre, amarelo, verde, verde-salsa-claro e azul-da-prússia.
Ministério do Ultramar, 3 de Janeiro de 1974. – O Ministro do Ultramar, Baltasar Leite Rebelo de Sousa.
NOTA: anteriores referências ao Governador Visconde de S. Januário e ao Hospital, verem:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-central-conde-de-s-januario/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/centro-hospitalar-conde-s-januario/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-militar-de-sam-januario/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/januario-correa-de-almeida/

 

1969 IV Centenário SCM Envelope

16 de Outubro de 1969: 1.º Dia de circulação do selo comemorativo do  IV Centenário da Fundação da Santa Casa da Misericórdia de Macau 1569-1969 , com carimbo e  envelope comemorativo.

Portaria n.º 24331 (D G 232/69 Serie I de 3-10-1969):
Manda emitir e pôr em circulação na província de Macau selos postais, da taxa de 50 avos, comemorativos do 4.º centenário da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Macau.”

1969 IV Centenário SCM SELOSDois selos da minha “colecção” (1), um obliterado com carimbo de 1971 e outro virgem.

D. Belchior Carneiro SCM década de 60A Santa Casa da Misericórdia de Macau (década de 60-Século XX)

Em 1569, D. Melchior Miguel Nunes Carneiro Leitão (1516-1583) que chegara a Macau em Junho de 1568, fundou a Santa Casa da Misericórdia, de que foi o primeiro provedor, e um hospital para cristãos e pagãos.

D. Belchior Carneiro SCM RETRATOQuadro a óleo de D. Melchior Carneiro, existente no salão principal da Santa Casa.

Segundo ele informava, em 1575, em carta para o Geral da Companhia:
– «Quando cheguei ao porto de Macau chamado do Nome de Deus, havia aqui mui poucas habitações de portugueses e algumas casas de cristãos do país…(…)
… Apenas cheguei abri um hospital, onde se admitem tanto cristãos como pagãos. Criei também uma Confraria de Misericórdia, semelhante à Associação de caridade de Roma: ela tem providenciado às necessidades, de todos os pobres envergonhados e dos necessitados»

D. Belchior Carneiro SCM Hospital S. Rafael década de 50O Hospital S. Rafael (década de 50 – século XX)

O hospital denominado Hospital dos Pobres, posteriormente, recebeu o nome de S. Rafael.
TEIXEIRA, Pe. Manuel – D. Melchior Carneiro, 1968, 117 p.

(1) “colecção” está entre aspas porque «colecção de selos» é um hobby de colecionar selos o que não é o meu caso;  ao longo de alguns anos da juventude limitei-me a juntar uns selos de Macau, tirados das cartas da correspondência aérea.

Continuação da leitura do Relatório do “ESTUDO DA ACTUALIZAÇÃO E AMPLIAÇÃO DO HOSPITAL CENTRAL CONDE DE SÃO JANUÁRIO DE MACAU”, de 1951. (1) (2)

… I Parte – ESTADO ACTUAL:
LOCALIZAÇÂO: O recinto do Hospital Central Conde de São Januário, ocupa parte da Colina de S. Januário e a sua vertente S.W., medindo aproximadamente 15.000 m2, e é limitado a S.E. pela Estrada de S. Francisco, a N.E. pela estrada de acesso ao Observatório Metereológico, e a N.W. pela Calçada do Visconde de S. Januário e S. E. pela Rua Nova.
A Colina de S. Januário continua a Colina da Guia que corre paralela ao mar, na direcção N.E. – S. W.
A entrada principal do Hospital faz-se pela Estrada Visconde de S. Januário (Vide plantas) (2)
DESCRIÇÃO: Os vários serviços do Hospital, ampliações ao traçado original que foram feitas à medida que as necessidades iam aparecendo, estão instalados em pavilhões dispersos pela área do recinto hospitalar em três planos situados e cotas diferentes.

1 – CASA MORTUÁRIA

Relatório Hospital S. Januário Casa Mortuária I

Este edifício com um piso, em mau estado de conservação, construído em 1918, consta de 4 compartimentos, um destinado a autópsias, dois a câmaras ardentes e um a guarda de uma carrete funerária.

Relatório Hospital S. Januário Casa Mortuária II

Impróprio para o fim a que se destina por falta de condições higiénicas sa sala de autópsias, e de um mínimo de decoro das câmaras ardentes.

Relatório Hospital S. Januário Casa Mortuária III

Acresce ainda a sua infeliz localização pois é o primeiro espectáculo que o Hospital oferece aos doentes e às visitas…(…).

Relatório Hospital S. Januário Casa Mortuária IV

NOTA 1 – As mesas de autópsias, de mármore, foram transferidas para a sala de autópsias da nova Casa Mortuária do Hospital Central Conde de S. Januário que ficava na Estrada Visconde de S. Januário.
Aquando da destruição desta casa mortuária para construir o Centro Hospitalar Conde S. Januário (1988), destruíram as mesas, em nome do “progresso”, pois o novo Serviço de Medicina Legal foi totalmente equipado com material mais actualizado e práctico.

NOTA 2 – Confirmo a descrição da Casa Mortuária feita neste Relatório  já que em criança tinha muito medo de passar por este edifício, à direita de quem subia pela Calçada do Visconde de S. Januário para chegar ao Hospital.  Além de decrépito, a casa mortuária estava associada a histórias de fantasmas (tão populares nos contos, lendas  e filmes chineses).

Mas o episódio verídico que vou contar, relatado pelo meu pai, passou-se nessa casa mortuária:
Faleceu um soldado, militar português. Confirmado o óbito pelo médico de serviço hospitalar, iniciaram-se os preparativos para o enterro a realizar no dia seguinte. O corpo já vestido com a farda, foi colocado na casa mortuária numa “cama” de uma das cãmaras ardentes, aguardando  a chegada do caixão (no dia seguinte) e para vigília da noite foram nomeados quatro soldados africanos (landins).
A meio da noite, o “morto” acordou e levantou-se, pondo em pânico os quatros soldados africanos que fugiram para o quartel. Constou-se que um dos landins fugiu descalço, deixando as botas para trás e que o “morto” foi a pé para o quartel. Estava vivo, aparentemente de boa saúde e radicou-se em Macau como polícia, mas não se livrou nunca mais do nome porque era conhecido: o “Morto-Vivo”.
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/02/19/hospital-central-conde-s-januario-i/
(2) Conforme planta do edifício, apresentado neste “post”, a entrada principal seria Calçada do Visconde S. Januário já que (embora não tenha a certeza) a Estrada do Visconde S. Januário é a estrada atrás do edifício e aquela que vem da Calçada do Gaio.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/01/09/leitura-hospital-central-conde-de-sao-januario-ii/

“Os primeiros objectos que sucessivamente se offerecem à curiosidade do navegante, quando demanda o porto de Macáu, são uma bateria portuguesa(que, sobranceia aos rochedos e ao mar, domina toda a cidade) e o convento da Guia, notavel por suas altas muralhas, e copadas arvores, as unicas destes sítios. Por cima da Guia, no cume da rocha, se eleva outro mosteiro; e pela encosta da collina vem descendo as casas de Macau, à maneira de degraus, até o mar, que lambe os alicerces das derradeiras. Occupa a nossa colonia um retalho de solo ingrato, e tão limitado, que no espaço de duas horas pôde ser visto, situado na ponta oriental da ilha de Negao-Men, a qual tem dez leguas de comprimento, e é a maior do archipelago, em cujo golfo desagua o Tigre, rio da Cantão…(…)

Bateria e Quartel S. Francisco 1910Quartel e Bateria de S. Francisco na década de 10 (século XX)

Quatro fortalezas defendem Macáu, n´uma dellas, que tem uma cisterna, quatro fontes d´agoa nativa, e casamatas, e quarteis para 1.000 homens, existiam ainda em 1829, epocha a que se refere esta descripção, quarenta peças d´artilheria. A outra mais pequena, e provida de trinta peças, tem também uma fonte inexhaurivel, porém não pôde accomodar senão 300 soldados. Estas duas fortificações; colocadas nas maiores alturas da ilha, dominam todo o territorio, e apesar disso não podem resistir á má vontade, e á astucia dos mandarins; porque se hoje trovejasse a artilheria, começariam ámanhã a sentir os Macaistas os rigores da fome.

Com ser tão acanhado o territorio da colonia, não deixa de conter, além da cathedral e do acastellado convento da Guia, residencia do bispo, e dos doze cónegos seus vigarios, umas dez igrejas ou conventos de religiosos d´ambos os sexos, assim como tres hospitaes civis ou militares.
Ao descer da cidade alta para as praias avistam-se de tempos a tempos, nos sítios mais ermos, as latadas de flores, e os alvejantes tumulos dos cemiterios chins.” (1)

                             continua …

(1)   Artigo não assinado em “O Panorama”, 1837

“Acompanhado do vice-almirante Possiet, ajudante de campo geral do Imperador da Rússia, do sr. Machin, conselheiro de estado efectivo, do capitão O´Callaghan, ajudante de campo de Sir Arthur Kennedy, Governador de Hong Kong, do sr. Tundeer, tenente da Marinha imperial e do sr. Wodehouse, funcionário do governo vizinho, chegou o Grão-Duque Alexis (1) a Macau, num sábado, dia 28 de Setembro de 1872, vindo de Cantão, no barco a vapor da carreira «Spark», que, ao passar em frente da Praia Grande, em demanda da ponte cais no Porto Interior, sustara a marcha, por pouco tempo, a fim de permitir que o Príncipe Herdeiro da Rússia e sua comitiva passassem para a galeota do Governador, momento esta em que troou pelos ares, ribombando, vibrante e alacremente, pelas quebradas dos montes e serrania das ilhas que envolvem esta península, uma salva disparada dos velhos canhões da vetusta fortaleza de S. Francisco.
Vistosamente engalanada, a galera governamental, sob o impulso de vigorosas e cadenciadas remadas de musculosos marinheiros, cortava célere as lodosas águas do delta e, num ápice, em lesta e perfeita manobra, acostou ao cais de pedra, em frente do Palácio do Governo, que estava situado no local hoje ocupado pelo edifício do Palácio das Repartições (2)
Outra salva, desta vez, disparada da fortaleza do Monte, assinalou a ocasião em que o futuro Imperador da Rússia tocou pé em terra, sendo cumprimentado, no cais do desembarque, pelo Secretário Geral do Governo, Henrique de Castro, e outras individualidades. Sua Alteza, com o seu séquito, ascendeu, depois, a rampazita do cais e franqueou a diminuta largura da avenida da Praia Grande, para chegar à porta do Palácio do Governo, frente do qual estava postada a guarda de honra, constituída por uma força do Batalhão de Infantaria, com a sua banda de música e bandeira.
Aguardava a importante personagem, à porta do palácio, o Visconde S. Januário, (3) acompanhado das pessoas mais gradas tanto do meio civil como militar.
Terminado o aparato da recepção e apresentadas as boas-vindas, o Príncipe Real ficou alojado, no Palácio do Governo, e, depois de um pequeno descanso, percorreu de carruagem, na companhia do Governador, dos ajudantes e do seu séquito, algumas das principais ruas da cidade e dos arrabaldes. (4)
Alexandre III da Rússia IAlexandre III com a sua esposa Maria Feodorovna (nascida como princesa Dagmar da Dinamarca) em 1868 (5)
(1)   O Príncipe Imperial Grão-Duque Alexis (1845-1894) viria a ocupar o trono de Czar (Imperador e Autocrata de todas as Rússias, Rei da Polónia e Grão Duque da Finlândia), em 13 de Março de 1881, com o nome de Alexandre III, sucedendo a seu pai Alexandre II, cujas tendências liberais renunciaria, para retomar as tradições absolutistas.
(2)   Sensivelmente onde está colocada, agora, a estátua de Jorge Álvares.
(3)   Januário Correia de Almeida (1829-1901), 1.º Visconde de S. Januário (atribuído a 1867), foi nomeado governador de Macau a 23 de Março de 1872. Terminou o mandato a 7 de Dezembro de 1874 (nomeado neste ano Ministro Plenipotenciário na China, Japão e Sião. O título de 1.º Conde de S. Januário foi-lhe atribuído em 1889, por D. Luís Ide Portugal.
Recordar que o início das obras de terraplanagem do planalto do até então Monte de S. Jerónimo para a construção do Hospital Militar que ficou com o seu nome,  foi a 10 de Agosto de 1972.
(4)   GOMES, Luís Gonzaga. Páginas da História de Macau. Instituto Internacional de Macau. Macau, 2010, p.357, ISBN: 978-99937-45-38-9
(5)   http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_III_da_R%C3%BAssia
CORRECÇÃO E ACTUALIZAÇÃO EM 28/09/2016
Esta postagem contém um erro que rectifico:
O grão duque Alexis que esteve em Macau não foi o Príncipe Imperial Grão Duque Alexander Alexandrovich Romanov (1845-1894), futuro czar Alexandre III (reinou de 1881 a 1894) mas sim, o seu irmão Alexis Alexandrovich Romanoff (1850-1908).  Para mais informações ver a actualização “”Notícias de 28 a 30 de Setembro de 1872 – Visita do Grão Duque Alexis “

Macau Artístico - Hospital Militar Sam Januário

THE MILITARY HOSPITAL, situated high up on the cliff, close to the Lighthouse, is pretty looking building, and helps to complete the picturesqueness by which the visitor is welcome in the approach to Macao

HURLEY, R. – Macao (1)

(1) in LACERDA, Hugo de (coordenação) – Macau e seu futuro porto. Tip: Mercantil – N. T. Fernandes e Filhos, Macau, 1922, 84 p.
NOTA:  Sobre R. C. Hurley e o Hospital S. Januário ver anteriores “posts”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-central-conde-de-s-januario/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-conde-de-s-januario/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-militar-de-sam-januario/

Dum livro escolar, editado pelos Serviços de Publicações do Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa de Angola, de 1972 (1), retiro este artigo referente a uma personalidade macaense que poucos conhecem e que merece a sua divulgação.

“ Uma firme e serena fisionomia, um comportamento exemplar e simpático, uma modesta e prestável gentileza – eis as marcas que julgam de engrandecer-lhe todos quantos ainda o conheceram.
Macau inteiro ainda recorda na convivência das pessoas e das coisas da governação, na defesa dos interesses da camada simples do povo, donde nascera. Homem curioso e culto, foram mesmo a sua elegância e simplicidade de maneiras que constituíra, na sua curiosa carreira, o valioso suporte de toda a sua acção.
Nós...Somos Nós - José Anock
Nasceu de pais chineses, na paróquia de St.º da velha cidade, em 1 de Fevereiro de 1867. Ainda soavam nítidos os ecos da vibrante ousadia de Nicolau de Mesquita ante as injustas pretensões de vizinhos dos meados do século.
Choi Anock teve a sorte de receber dos pais e dos missionários de sua comunidade uma boa iniciação cristã. Depois de seus primeiros estudos, em que não lhe foi difícil aprender a língua do seu País, alistou-se, de rapaz, no serviço da marinha. Criado de bordo, primeiro em navios portugueses que escalavam o porto de Macau, empregou-se depois como despenseiro numa canhoneira da nossa Marinha de Guerra. Todos o conheciam e consideravam pela sua arte de culinária, pela sua obediência e zelo de ofício. Todos: oficiais e camaradas, chineses e portugueses.
Coisa curiosa! Certos amores o foram prender, nas suas idas e vindas à capital do Reino, a uma senhora de Lisboa, de quem teve dois filhos.
Mas Choi Anock, que continuou ao serviço do Estado, voltou depois à sua terra oriental, constituiu família legal, educou e formou os seus filhos no mais genuíno amor nacional, no mais estrito acatamento das leis cristãs e portuguesas.
Vários governadores, dentre os quais salienta o macaense Artur Barbosa, julgaram-no indispensável no palácio. Precisando dos seus serviços, nomearam-no fiel o do Palácio, onde «a sua presença – como lemos em registo biográfico do «Noticias de Macau» – se notava pelo seu porte, pela disciplina que impunha a todos os seus serventuários, pela forma como dirigia um banquete, desde o arranjo da mesa até ao serviço dos criados, que o estimavam e cumpriam todas as suas indicações».
No seu despacho, no seu esmero, nas providências que tomava para chás, banquetes, recepções, de dia ou da noite, descansavam as senhoras do palácio. O fiel Choi Anock ganhou de todos, grandes e pequenos, o mais distinto e justo conceito.
Vivia já a sua meia idade quando, sentindo-se com aptidões superiores às de simples fiel, pediu que o dispensassem para se dedicar ao comércio particular. E sorrindo-lhe a sorte dos seus negócios, não se fechou egoisticamente no gozo dos seus bens. Bondoso e acessível, nunca ninguém da mais modesta condição dele se retirou sem o óbolo preciso.
Sincero na sua fé, Choi Anock activou a administração e direcção de diversas organizações católicas, cívicas ou humanitárias. Eis porque algumas delas guardam, em lugar de honra, o seu retrato, eis porque se orgulham de ter-lhe confiado a presidência de Beneficência «Tong Sing Tong», a Associação Católica Chinesa, a Associação de Beneficência do Hospital «Keang Wu», as confrarias de S. Vicente e de S. Lázaro.
A geral aceitação e competência deste homem simples do povo foi coroada quando enfim, o Governo de Macau o escolheu como representante da Comunidade Chinesa, para vogal do Conselho do Governo… (…)
Gasto, enfim, por uma vida trabalhosa, sem que jamais perdesse a serenidade e firmeza que lhe timbrou o ser, uma doença grave o vitimou para sempre, em 22 de Agosto de 1945. Tinha 78 anos.” (1)
(1)   Texto não assinado in SIMÕES, Antero – Nós … Somos Nós (“Antologia Portugalidade”), III Tomo. Edição dos Serviços de Publicações do Comissariado Provincial M. P., Luanda, 1972, 498 p.

NOTA POSTERIOR: este texto contém erros e  merece correcções:
1 –  A figura biografada é JOEL JOSÉ CHOI ANOK  e não  «José Choi  “Anock“»;  este é o nome do primeiro filho, que teve da governanta do ex-governador Custódio Miguel Borja que o levou para a Marinha em Portugal, filho nem sequer reconhecido imediatamente, dado que foi baptizado como filho de pai incógnito.
2 – Joel José Choi Anok nasceu a 17-03-1867 e não a 1-02-1867.
3  – Da “senhora de Lisboa” teve só um filho,  José Choi Anok.
3 – Creio que não chegou a ser Presidente da Associação Católica Chinesa; foi só conselheiro.
4- Não havia  “as confrarias de S. Vicente e de S. Lázaro” mas sim Confraria ou Sociedade de S. Vicente de Paulo da freguesia de S. Lázaro.
Quanto às sete condecorações que se vêem na foto, tirando a de Cavaleiro da Ordem de Cristo, as outras medalhas devem ser devido a distinções pela ficha exemplar na Marinha e pelos serviços prestados à Cruz Vermelha.
Agradeço a RBC as informações inseridas nesta nota.