No livro “Eu estive em Macau durante a guerra” (1), capítulo IX (pp.53-54), o autor descreve  a ida do personagem (Afonso Sequeira, médico do Quadro Colonial, colocado em Macau) ao hipódromo de Macau. Do texto, transcrevo curtas passagens:
Como qualquer fabiano que se preze e está  disposto a aproveitar todos os divertimentos que possa usufrir em meio tão limitado, Sequeira tirrou-se um Domingo dos seus cuidados e deslocou-se até ao Hipódromo, junto da Porta do Cerco, onde se realizavam as famigeradas corridas de cavalos, superiormente dirigidas por técnicos competentíssimos vindos de Hong Kong…
(…)  A assistência não era numerosa, mas não havia que admirar pois tratava-se de um espectáculo recente na Colónia, onde ainda existiam poucos aficionados..
(…) Sequeira examinou as “estampas”, demorando-se a fazer os seus cálculos, e só não apalpou o pulso aos “bichos” porque se lembrou a tempo de que não era veterinário, acabando por ir apostar dez patacas no “Ruço” que, à vista de outras alimárias, parecia apresentar todas as possibilidades de ganhar a corrida.
(…)             
– Ganhou o “Ruço”- exclamaram todos à uma, quando o burrito, a suar de esfalfado, atingia a meta primeiro que qualquer outro. E o jockey anémico, levando a mão à comprida pala do boné, agradeceu soridente as entusiásticas ovações, principalmente dispensadas pelos que julgavam ter ganho uma fortuna!
Sequeira, com as mãos a arder depois de tanta palma, convidou entusiasmado o Dr. Laranjeira para tomar um whisky, festejando assim a feliz intuição que o levara a apostar no vencedor. Saborearam a deliciosa droga inglesa e encaminharam-se depois para a bilheteira onde lhes entregaram dez patacas e sessenta avos, que o médico nem queria receber afirmando que certamente havia engano!
                    Então o Laranjeira … (..) .. recitou ao Sequeira um soneto que em tempos fizera (…)
 
UMA CORRIDA DE CAVALOS EM MACAU
 
Seis jockeys, dois juízes, três cavalos
(Bucéfalos de metro, ou pouco mais);
Dezoito circunstantes, dentre os quais
Uns  dez, junto dos outros, a mirá-los.
 
Prepara-se a corrida. Há sinais…
Quem joga e quer bilhetes vai comprá-los;
Os outros aproveitam os intervalos
No “bar”, ou conversando c´os demais
 
Já correm os murzelos, à porfia…
Ecoa o retinir dos duros cravos…
É grande a animação! Grande a alegria! …
 
Ganhou um jogador!… Imensos bravos! …
Jogou cinco patacas, que trazia,
Ganhou cinco patacas e dez avos…”

O Hipódromo de Macau iniciou as suas actividades em 1927 (2) (embora o autor do livro, refira tratar-se de um espectáculo recente na Colónia)  num terreno perto das Portas do Cerco, nos aterros da praia da Areia Preta (3). Realizavam-se aos Domingos e atraía muitos turistas de Hong Kong (na altura não existiam corridas de cavalos em Hong Kong) e permitia a participação de mulheres nas corridas (4)
Devido à Guerra no Pacífico, as corridas de cavalos nesse hipódromo, acabaram em 1941.
Uma foto do hipódromo, retirada do Anuário de Macau (5)

Uma foto do hipódromo, retirada do Anuário de Macau (5)

(1) ANDRADE e SILVA, António de – Eu estive em Macau durante a guerra. Col. Rua Central n.º 3. Instituto Cultural Macau/ Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1991, 164 pp. 23,5 x 16 cm. Ilustrado. Brochado com badanas. 23, 2 x 16 cm, ISBN 972-35-0117-1
(2) Sobre a história do hipódromo das Portas do Cerco e outras anteriores tentativas de estabelecer as corridas de cavalos em Macau, sugiro leitura do Blogue
http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-1-hipodromo-de-macau.html
(3)  É por isso que permanece na toponímia de Macau, na Zona da Praia de Areia Preta, as Avenidas Norte e Leste do Hipódromo, a Avenida do Hipódromo, a Estrada Marginal do Hipódromo, a Rua Direita do Hipódromo, etc.
(4) http://m.cityguide.gov.mo/(S(rv25kuujizdko2552pm2of55))/visit/detail.aspx?id=02090600000000000000&lang=p
(5) Anuário de Macau, 7.ºAno de publicação. Repartição Central dos Serviços Económicos, 1938, 480 p + anexos (Comerciantes, Industrias e Profissionais).