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“O grande acontecimento social de Macau em 1933 foi a inauguração do Edifício da União Recreativa, à Areia Preta, junto do Hipódromo, a 25 de Março.

Temos a descrição do imóvel, relatado em “A Voz de Macau”: “O elegante edifício, de linhas sóbrias e bem lançadas, é bastante amplo. No terreno vasto que lhe pertence, onde, à direita, existe já um parque para estacionamento de automóveis, ficarão instalados os campos de Futebol, Ténis, Golf, Basket-Ball, Hockey, e ainda um Parque Infantil para diversão dos filhos dos sócios, estando a Direcção envidando os seus melhores esforços para conseguir a realização duma ampla piscina”.

A Sociedade da União Recreativa foi fundada em 1924 por um grupo de macaenses que se reuniam para tocar música. Eram uns vinte e, entre eles, destacamos, sem desdouro para outros, António Ferreira Batalha, Paulino A. da Silva, Pedro e Alberto Ângelo e António Galdino Dias. Do entusiamo destes vinte, nasceu a ideia de criar um Centro Musical. Pouco a pouco, pelo dinamismo dos fundadores, o número de sócios aumentou, chegando a duzentos, número importante em relação à exiguidade da população portuguesa no Território. Agora já não era apenas um centro musical, mas também um centro recreativo e desportivo. O grupo representativo da União Recreativa, no futebol, era importante nos fins dos anos 20 e só foi dispersado quando rivalidades internas levaram os seus componentes a agruparem-se no Argonauta e no Tenebroso. Não havia sede nem instalações adequadas para comportar tamanho número de sócios. As festas e outras iniciativas exigiam um novo prédio. Mais uma ideia brilhante nasceu: o plano duma espécie de country club, fora de portas, em sítio calmo e ameno, onde a Sociedade pudesse dar largas às suas actividades. A Areia Preta era então um local ideal, pelo seu sossego, pelo ar de praia que ainda possuía. É preciso lembrar que a cidade morria na orla da avenida Horta e Costa; e, dali para o mar e para a Porta do Cerco, havia apenas algumas casas, tipo vilas, o Canídromo, o Hipódromo, aldeamentos chineses e imensos terrenos baldios. A Sociedade teve o apoio incondicional do Governador Tamagnini Barbosa. O Governo subsidiou, também a Associação dos Proprietários do teatro D. Pedro V, e outros vieram da iniciativa privada.

Ficou-nos na memória a festa da inauguração. Ainda nos lembramos de ver muita gente e estarmos à frente duma mesa pejada de iguarias e guloseimas, dum riquíssimo “chá gordo”. Discursaram o Presidente da Sociedade, António Ferreira Batalha, o Encarregado do Governo, Rocha Santos, e o Dr. Américo Pacheco Jorge, como representante da mais antiga agremiação macaense, o Clube de Macau. “A Voz de Macau” remata o seu artigo de 26 de Abril, com as seguintes palavras:

“Seguiu-se a assinatura da acta da inauguração, após o que numerosas pessoas assistentes dispersaram pelo amplo edifício e campos adjacentes, formando aqui e além pequenos grupos de cavaqueira, enquanto outros, os apreciadores de danças, iniciando a série de fox-trots, steps, valsas, etc., enlaçavam as gentis senhoras e meninas, danças que se prolongaram até cerca das 21 horas, com muito pesar dos fervorosos que desejariam que elas se prolongassem pela noite adiante. Mas Roma e Pavia não se fizeram num dia; e, como outras interessantes e simpáticas festas decerto se hão-de seguir, tirarão então a desforra…”

Não nos lembramos de ter havido campos de futebol, hóquei, golfe e basquetebol. Nem a piscina projectada. O que houve e tivemos ocasião de presenciar, foram as grandes partidas de ténis nos seus courts arejados e de vista ampla. A vida da União Recreativa foi brilhante nos primeiros anos, com festas e outras actividades que ficaram notáveis. Decaiu nos anos de 30 para reviver com a Guerra do Pacífico, sob outro nome – o Clube Melco. Mas este assunto será tratado noutra ocasião.

FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-36) in Revista da Cultura, n.º 23 (II Série) Abril/Junho de 1995, pp.151-152. Edição do Instituto Cultural de Macau. Disponível para leitura em: ttp://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797

Anúncio (assinado: J. M. Wolff, acting manager) publicado no dia 7 de Janeiro de 1860, no «Boletim do Governo de Macau», dos espectáculos duma empresa australiana, no hipódromo de Macau, durante uma semana (seis dias) a iniciar no dia 9 de Janeiro (segunda-feira), com autorização de “Members of The Portuguese Council on the Campo de Sm. Francisco” . Os espectáculos foram realizados pela Companhia “Lewis Great Australian Hippodrome” e da trupe “Mammoth Troupe of Male and Female Star Equestrian Artists”, que, em Hong Kong, tiveram o patrocínio principal do Governador de Hong Kong Sir Hercules Robinson e sua esposa e do Comandante em Chefe da Marinha na China, Sir James Hope

O espectáculo era diário às 20h00, e a partir de 9 de Janeiro com duas actuações extras; uma “Grand Day Performance” na quarta feira, dia 11 de Janeiro, às 14h00 e outra “Farewell Day Performance” também às 14h00. Os bilhetes (50 avos; 1 pataca e 2 patacas) estavam à venda no Hotel Praia Grande (Sr. Carvalho) e no escritório do hipódromo das 15h00 às 17h00 diariamente, nessa semana

Extraído de «Boletim do Governo de Macau», VI-5 de 7 de Janeiro de 1860, p. 20

O campo aberto que daria o futuro hipódromo e onde se realizaram as primeiras corridas, feitas por amadores, (1) situava-se em terrenos junto à Porta do Cerco, numa área  que foi conquistada ao mar, ao norte da Doca da Areia Preta. Área esta mais ou menos limitada pela Estrada dos Cavaleiros e pela Estrada Marginal do Hipódromo (antiga Rua do Cerco). (2) Só em 1924/1925 surge as primeiras informações sobre o licenciamento e organização de corridas de cavalos (3) (4) (5) e depois em 1927, o Hipódromo do «Macao Jockey Club» (6)

(1) 1927 – No campo aberto do futuro Hipódromo, realizaram-se as primeiras corridas de cavalo. Ainda não se tinha erigido o “Macao Jockey Club” nem havia delineada a magnífica pista de corridas. As demarcações eram improvisadas, mas prevalecia o espírito desportivo, sobretudo, dos ingleses que traziam cavalos de corrida de Hong Kong com imensos gastos, só pelo prazer de correr, com o mesmo entusiasmo com que os vemos colaborar e participar actualmente nas corridas de automóvel do Grande Prémio. (FERNANDES, Henrique de Senna – O Cinema de Macau II in http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30018/1706

(2) Até à fundação de Hong Kong , em 1841, a Comunidade Britânica de Macau possuía junto das portas do Cerco o seu campo de corridas. Já em 1829, o mandarim da Casa Branca publicava um edital em 28 de Abril, dizendo que, tendo ido a Macau, «vira os Estrangeiros fazerem carreiras de Cavallos na praia do Porta do Cerco…». Harriet Low no seu diário , de 5 de Novembro de 1829 refere: « o campo de corridas está no lugar chamado Barreira (Porta do Ceco),que impede todos os estrangeiros de passarem além. O campo mede cerca de três quartos de milha”… » (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997, pp.484-485).

(3) 26-04-1924 – Concessão do exclusivo da exploração de corridas de cavalos. Diploma Legislativo n.º 14 e sua correção no B. O. n.º 17, desta data. (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.162)

(4) 22-08-1924 – Construção de um campo para corridas de cavalos (Cfr. outros processos que se seguem nomeadamente o n.º 142/A da mesma série (A.H.M. – F. A. C. n.º 128-S-E) + (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.164)

(5) 09-06-1925 – Pedido de Lou Lim Ioc, Presidente da Companhia «Clube Internacional de Recreio e Corridas de Macau, Limitada» para que lhe seja arrendado um terreno junto à Porta do Cerco (A.H.M. – F. A.C. P. n.º 134 -S-C) (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.172)

(6) 19-03-1927 – Foi inaugurado o Campo de Corridas de Cavalos de Macau + (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.195)

No dia 25 de Fevereiro de 1945, efectuou-se o segundo bombardeamento aéreo americano a Macau. Pela 11h05, um quadrimotor americano bombardeia a área perto do hipódromo, onde um avião japonês tinha feito uma aterragem de urgência e sido detido, uns dias antes.
Embora o bombardeamento não atinja os alvos, abre fogo sobre o navio mercante a vapor «SS Masbate» (1) registado com a bandeira panamiana (país neutral) e um navio desmantelado «Tung wei» que servia de alojamento para refugiados. Atingiram ainda  outras embarcações atracadas no Porto Interior, o Bairro Tamagnini Barbosa/Toi SanBairro Nossa, a casa dos pobres de Nossa Senhora de Fátima, o estádio e a esquadra da PSP, situados nas imediações da Porta do Cerco, e o Bairro 28 de Maio/Fai Chi Kei, resultando na destruição dos pavimentos das ruas e na rede de distribuição de electricidade. Quatro pessoas morreram  e várias ficaram feridas, entre as quais um súbdito norueguês, Tygve Jorgensen, comandante do «SS Masbate». (2)
Recorda-se que o primeiro bombardeamento aéreo de Macau por esquadrilhas da Força Aérea dos EUA foi a 16 de Janeiro de 1945. (3)
(1) Devido á falta de alimentos em Macau durante a guerra, o navio «Masbate» de742 ton de bandeira panamiana, propriedade dum chinês que estava ancorado no Porto Interior, foi utilizado por ordem de Salazar após auscultar a diplomacia nipónica, para efectuar uma viagem à Indochina. Em 23 de Dezembro de 1943, por pressão dos japoneses, o navio «Masbate» foi rebaptizado «SS Portugal» e assim, em 1944 (Março-Abril), o «SS Portugal/Masbate» efectuou a viagem e regressou da Indochina com carvão e alimentos (favas/feijões). Segundo a “Cronologia” publicado no livro ”Wartime Macau”, o segundo bombardeamento danificou uma escola católica e atingiu o «Masbate». O «Masbate» foi novamente atingido pelas bombas americanas em 11 de Junho de 1945 e ainda, em 5 de Julho de 1945, novo «raid» aéreo à ilha de Coloane embora sem estragos. A 6 de Agosto, deste ano, foi a destruição de Hiroshima pela bomba atómica.
GUNN, Geoffrey C. – Wartime Macau in the Wider Diplomatic Sphere, in Wartime Macau, under the Japanese Shadow”,HKU Press 2016, pp. 36 e 166-67
(2) FERNANDES, Moisés Silva – Sinopse de Macau nas Relações Luso-Chinesas 1945-1995 Cronologia e Documentos, 2000, p. 28/29.
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/18/noticias-de-16-e-20-janeiro-de-1945-bombardeamento-aereo-de-macau/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2019/02/26/noticias-na-imprensa-em-portugal-dos-dias-26-de-fevereiro-e-6-de-marco-de-1945-novo-bombardeamento-aereo-de-macau/

Comemorando o 1.º aniversário da sua chegada a Macau, (1) o Destacamento Expedicionário realizou em 13 de Setembro de 1950 um festival no antigo hipódromo (2) sob o lema: “Nós todos não somos demais para defender Portugal”
As fotos (com as legendas retiradas da origem) foram tiradas por Chun Kwong (3)

Um exercício de ginástica com traves
Rebentamento de fornilhos (4) de trotil
A Classe Europeia de ginástica desfilando
Uma demonstração com soldados indígenas de Angola

(1) O Destacamento Mixto Expedicionário formado em Lisboa, em 1949, a fim de seguir para Macau, embarcou em 15 de Julho de 1949. Chegou a Macau em 24 de Agosto de 1949. O Comandante era o coronel Laurénio Cotta Morais dos Reis que no dia 27 de Agosto desse ano assumiria as funções de Comandante Militar da colónia de Macau.
CAÇÃO, Armando A. A. – Unidades Militares de Macau, 1999.
Ver anteriores postagens em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/09/13/noticia-de-13-de-setembro-de-1950-festival-militar/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/laurenio-cotta-morais-do
(2) O antigo hipódromo que, parte dele, foi depois campo de treinos militares do quartel de Mong Há, ficava num terreno junto à Porta do Cerco.
”09-06-1925 – Pedido de Lou Lim Ioc, Presidente da Companhia «Clube Internacional de Recreio e Corridas de Macau, Limitada» para que lhe seja arrendado um terreno junto à Porta do Cerco” (A.H.M. – F. A.C. P. n.º 134 -S-C).AGOSTO
(3) Publicadas em «MOSAICO», I-2, 1950.
(4) Cavidade enchida com explosivo, em obra ou local que se quer fazer explodir.

a-vistors-handbook-to-romantic-macao-capaFolheto turístico em inglês (41 páginas), “ A Visitor´s Hanbook to Romantic Macao”, publicado em 1928, pelo “The Publicity Office Port Works Department, Macao”. Impresso no “N. T. Fernandes e Filhos” (1). Este folheto de 1928 é da 2.ª edição (a 1.ª edição foi em 1927)
PREFACE TO SECOND EDITION
The active demand for this booklet has proved the need for such a publication, and the complete exhaustion of the first edition in less than two weeks has prompted the issue of a second edition, considerably added to with new sections and much further useful information.
The additionod a Bibliography as an appendix was suggested by that in the recently publishedResumo da Historia de Macauby Eudore de Colomban and Captain Jacinto N. Moura, and it is to be hoped that visitors will find Macao sufficiently interesting to make full use of the works enumerated in the short list to gain a better knowledge of “ Romantic Macao”
                                                                           THE PUBLISHERS
                                                                      Macao, 4th February, 1928

a-vistors-handbook-to-romantic-macao-1-a-pagina1-ª Página

Tópicos abordados: “The Charm of Old Macao”; “Topographical”; “Clmate”; “Historical”; “A Suggeste Itenerary”; “ Beautiful Macao”; “General Information”; “Harbour Works”; “Shipping”; “ Banking”; “ Hotels, & C.”; “Transport”; “ Commerce and Enterprise”; “ Industry and Crade”; “Buyers Guide”; “ Public Services”; “Bibliography”.

a-vistors-handbook-to-romantic-macao-mapa-1928MAPA DE MACAU E ILHA DA TAIPA (escala 1:80.000)

Na página 12, uma interessante sugestão de um percurso a pé por Macau pelos pontos turísticos principais, com a romanização para o inglês dos caracteres chineses desses locais.

a-vistors-handbook-to-romantic-macao-sugestao-de-itenerarioComeça na Avenida Almeida Ribeiro, passando pelo Jardim de São Francisco e Jardim de Vasco da Gama; subindo para a Colina da Guia, descendo para Flora, passando pela Montanha Russa e a Praia da Areia Preta (inexistente actualmente) até à Porta do Cerco. Depois, o Hipódromo (inexistente hoje) e o Templo Lin Fong. A seguir o Cemitério Protestante (antigo),  a Gruta de Camões e as Ruínas de S. Paulo. Depois a Sé Catedral e o Colégio de S. José, subindo para a Penha. Descida para a Santa Sancha e seguindo pela Avenida da República até ao Templo de Á Má, terminando o percurso pelo Porto Interior até à Avenida Almeida Ribeiro.

TAIPA Mapa Turístico 1991 CAPATAIPA 氹仔, MAPA TURÍSTICO 旅遊地圖, (1)

 A frente do folheto de 19 cm por 11 cm, editado pela Câmara Municipal das Ilhas, sem indicação da data (provavelmente 1991).

TAIPA Mapa Turístico 1991 VERSOO verso do folheto, com um mapa “miniatura” da ilha.

No interior, desdobrável, um mapa da Ilha da Taipa (45 cm x 35,5 cm).

TAIPA Mapa Turístico 1991 Planta da Ilha

Estão sinalizados (em português e chinês) além dos Templos e Mosteiros, do Largo do Carmo com a Igreja de Nossa Sr.ª do Carmo, do Jardim do Cais na Fortaleza da Taipa, do Jardim do Monumento, da sede da Câmara Municipal das Ilhas e da Biblioteca, as construções mais modernas como os solares da Avenida da Praia (vivendas construídas em 1921), o istmo Taipa-Coloane (construído em 1968), a ponte Governador Nobre de Carvalho (construção de 1970 a 74), o conjunto escultórico e miradouro da Montanha da Taipa Pequena (concluído em 1985). a Universidade de Macau (com esta denominação, em 1991, substituindo a Universidade da Àsia Oriental) e o hipódromo (reorganizado pela S.T.D.M em 1991),

Não sinalizados, mas já aparecem no mapa, os aterros de Pac On, à frente do cemitério chinês da Taipa, com a indicação do lugar da futura Central de Incineração dos Resíduos Sólidos de Macau (inaugurado em 1992) e os aterros para a construção do Aeroporto Internacional de Macau (inaugurado em 1995), junto à ponta Cabrita.

TAIPA Mapa Turístico 1991 Resenha históricaPor detrás do mapa, uma pequena resenha histórica da ilha de que retiro:
Oficialmente estabelecidos na península de Macau desde 1557, os portugueses a pedido das populações locais, no sentido de as protegerem de ataques de malfeitores que constantemente ameaçavam as suas embarcações, vidas e negócios, ocuparam em 1847, no tempo do Governador Ferreira do Amaral, a Taipa Pequena construindo-se nesse mesmo ano, uma fortaleza na parte ocidental da ilha.
Em 1851, o Governador António Gonçalves Cardoso mandou, pelas mesmas razões ocupar a outra parte da ilha, a Taipa Grande, que se encontrava então separada daquela. Recorde-se que até aos primeiros anos deste século a Taipa era formada por duas ilhas, a Taipa Grande e a Taipa Pequena

(1) 旅遊地圖 – mandarim pinyin: lu yóu di  tú ; cantonense jyutping: leoi5 jau4 dei6 tou4.

Do álbum da colecção Duarte de Sousa, reproduz-se outro desenho a lápis de Macau, (do livro: “Macau, Cidade do Nome de Deus na China”), sem nome do autor, referenciados como do ano de 1831-1832. (1)

Macau Cidade do Nome de Deus na China CHINNERY Porta da Barreira“The Barrier. Macao, on the Race Course. The Cecilia Bay.”

O istmo que ligava Macau à terra chinesa, a chamada Porta do Limite ou da Barreira. O campo de corridas de cavalos mantido pelos ingleses, com apostas que atraía muita gente. À direita, a baía/praia da Areia Preta que vem referenciada como  Baía Cecília. Nunca vi referenciada esta baía/praia com este nome. Terá sido o autor induzido em erro por esta praia/baía estar em continuidade com a praia de Cacilhas?

Sobre esta região escreveu  J. Dyer Ball (2), em 1905, no capítulo “The Barrier”:
This is the division between Portuguese, and Chinese territory. It is some distance along the long isthmus which unites the peninsula of Macao to China… (…)
Just before reaching the Barrier a short distance is the bathing place, the whole coast line here forming with the sandy beach on the seaward side a magnificent roughly semi-circular bay. Many large fishing stakes are seen with the hovels of their owners perched up amongst the rocks. The whole of Macao seems dominated by forts. To the left is a large one, topping a hill, commanding the Barrier, while to the left are two small ones overlooking the sea and Cacilha’s Bay. Once on the road, leading to the Barrier, we see facing us the large gateway which marks the boundary line…”

Sobre o “hipódromo” e as corridas de cavalo na Areia Preta, uma descrição com algum pormenor de Harriet Low (3) que viveu em Macau de 1829 a 1834, no seu Diário:
5 de Novembro de 1829:“…O campo de corridas está no lugar chamado a Barreira, que impede todos os estrangeiros de passarem além. O campo mede cerca de três quartos de milha. Havia lá uma casa provisória de bambú construída para as senhoras, e posso afiançar-te, minha querida irmã, que era muito interessante comtemplar o matizado grupo abaixo de nós. Chineses de todas as descrições, enfarpelados nos seus trajos muito singulares, alguns com os chapéus da forma dum cesto, muitos de cabeça descoberta, mas empunhando uma ventoínha que os protege do sol. Alguns tinham sacos nas costas medindo cerca de meia jarda quadrada, nos quais metem os bebés. Estes pobrezinhos apanhavam chocadelas em toda a roda, no meio da multidão, como se fossem pedaços de madeira.
Portugueses e lascares andavam de mistura com chineses e, ao ouvir esta mistura de línguas – das quais nada comprendi, fez-me pensar na confusão de Babel, o que me levou a desejar que esta doida gente visesse na terra tamto tempo quanto lhe fosse permitido.
Algumas das corridas foram muito boas e fizeram-se grandes apostas.
Regressámos cerca das sete horas e tivemos uma longa discussão sobre os méritos dos ingleses…(4)

Macau Cidade do Nome de Deus na China The Race Course

“Near the Race Course. Macao”

Creio que é a mesma “paisagem” do anterior mas “vista” de mais longe, podendo distinguir melhor o istmo que ligava Macau à terra chinesa. A colina à esquerda, muito provavelmente, a de Mong Há.

Ainda sobre estas corridas de cavalos, há um ofício, de 28 de Abril de 1829, do Mandarim de Heong San ao Procurador da Cidade:
ordenando-lhe que proibisse imediatamente as corridas de cavalos com que, por divertimento, os estrangeiros residentes em Macau (ingleses) assustavam os viandantes, junto às Portas do Limite, o que constituía uma grave ofensa às leis do Império (5)
Em 1831 havia ainda a disputa/jurisdição sobre a posse de terras. Sobre umas obras na Ilha Verde, o Mandarim de Heong San, num ofício de 21 de Julho de 1831, informava:
“... Os portugueses só têm residência autorizada dentro das muralhas. A Ilha Verde está fora delas, no mar, à distância de alguns lis; por isso não é portuguesa …etc”(5)
NOTA: outra referência ao Hipodromo da Areia Preta em 1934:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hipodromo/

(1) Ver referências em anterior “post”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/21/pintura-de-macau-de-1831-1832-i-fortaleza-da-guia/   
(2) Sobre este autor e referência ao livro, ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/j-dyer-ball/ 
(3) Sobre Harriet Low, ver referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/23/leitura-diario-de-harriet-low-tufao-de-1831/
(4) TEIXEIRA, Padre Manuel – Macau no séc. XIX visto por uma jovem americana. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, Macu , 1981, 59 p.
(5) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)

Na sequência do post anterior “A VIAGEM DO DILLY” (1), retiro do mesmo livro o envio dum envelope postal muito especial, relatado pelo próprio Tenente- aviador Humberto do Cruz.

Envelope postalEnvelope do primeiro correio aéreo saído de Macau, “Por avião Dily“, endereçado ao Tenente-aviador Humberto da Cruz  (Nova Goa – Índia), no ano de 1934.

O envelope  está inscrito (em português e em inglês)

3.º Cachet emitido pela S.I.C.

Comemorativo do 1.º Périplo aéreo do Im-

pério Colonial Português, feito pelos aviado-

res, Tenente Humberto da Cruz, piloto e 1.º

Sargento Gonçalves Lobato, mecânico.

Vôo Macau – Goa – 27/11/934

-/-

Third Cachet issued by the S.I.C.

Commemorating the first intrepid aerial
circumnavigation of the Portuguese Colonial
Empire, by the fliers Lieutenant Humberto
da Cruz, pilot, and air mechanic Gonçalves
Lobato

Macau – Goa Flight – 27/11/934

Selo 15 avosTem um selo de 15 avos – Correio de Macau. Os selos desta série continuariam a ser utilizados , já no correio aéreo, com um carimbo “Avião”

O avião Dilly de regresso  Portugal, partiu do campo da Areia Preta (hipódromo) com destino a Goa, via Hanói, Bangkok, Akyab (Birmânia), Allahabad (Índia), tendo aterrado em Goa a 1 de Dezembro de 1934
Anuário 1938 HipódromoRefere o piloto:
” Quási na hora da largada foram-nos entregues dois pacotes de cem cartas, cada, com envelopes especiais e devidamente selados. Um, dirigido a Gôa e, o outro ,  a Lisboa. alguém tivera a feliz ideia de aproveitar o avião para dar um início experimental ao correio entre colónias e entre Macau e a Metrópole…
Em cada um dos pacotes vinham duas cartas para os tripulantes do «Dilly» e , assim, em Gôa e em Lisboa, tivemos a satisfação de receber, quási à nossa chegada, cartas de Macau que nos eram dirigidas e que nós tínhamos trazido.
Os envelopes ficarão, pelos seus dizeres e pelos seus gráficos e desenhos, não faltando a barra nacional verde-vermelha, a atestar para sempre, na posse dos colecionadores, êsse primeiro transporte de correio aéreo feito por um avião português. ” (2)

Chegada ÍndiaA primeira aterragem dum avião português em Macau e em baixo, à esquerda, o “Dilly na Índia.

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/11/18/leitura-a-viagem-do-dilly-i/
(2) CRUZ, Humberto da (ten. av.); LOBATO, António (mec). – A Viagem do “Dilly” (1934). Impresso nas oficinas da Sintra Gráfica, 1935, 269 p
Foto do hipódromo retirado do Anuário de Macau , 1938 (já publicado em 01-04-2012 a propósito do mesmo hipódromo em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/04/01/leitura-eu-estive-em-macau-durante-a-guerra-o-hipodromo-de-macau/

“Hoje dia 18 de Novembro do ano de 1934, aterrou cerca das 16.30 horas, no hipódromo  da Areia Preta, o tenente-aviador  Humberto da Cruz que, com o seu mecânico , 1.º Sargento Gonçalves Lobato, efectuou o voo Lisboa- Dili.” (1)
A viagem de 42670 Km foi de Lisboa (partida: Amadora) a Timor e depois na volta, Macau, índia até  Lisboa. Decorreu entre 25 de Outubro a 21 de Dezembro de 1934.
O Tenente-Aviador Humberto da Cruz publicou as peripécias da viagem num livro “A Viagem do Dilly” (2)

Por sorte nossa marcávamos, na Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, a primeira aterragem dos portugueses, entre lágrimas e sorrisos, entre «vivas» e palmas, entre abraços e saudações, saltámos do avião para todos recebermos num primeiro abraço que era, para eles, o abraço que lhe iamos levar. Sua Ex.ªa o Sr Governador ali estava, e com êle quanta gente!…(…)
Abrigado o avião no hangar improvisado, feito de panos de tenda, fômos para a cidade, onde nos queriam receber no Leal Senado . na sua sala nobre, repleta de gente, tanta quanta coube, foram-nos dadas as boas vindas pelo presidente, Sr. Dr. Luiz Nolasco da Silveira,…(2)

A aterragem em Macau foi na verdade a primeira a ser efectuada por um avião de Portugal já que os aviadores Sarmento Beires e Brito Pais que efectuaram a anterior viagem aérea de 1924, chegaram a Macau por barco (3)
                             Macau visto de bordo do “Dilly” (4)

(1) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p., 18 cm x 12 cm
(2) CRUZ, Humberto da – A Viagem do “Dilly“. Edição especial, de 100 exemplares, em papel de luxo (que não foi posta à venda). Impressão Sintra Gráfica, de António Medina Júnior, 1935, 271 p., 28 cm x 18,5 cm.
(3) “25-06-1924 – Trouxe a canhoneira Pátria os aviadores Sarmento Beires e Brito Pais que, no seu acidentado voo Lisboa – Macau, tinham caído, no dia 20, cerca das 15 horas , em Sàm-Tchân, a 45 milhas de Macau. Foram entusiasticamente recebidos por toda a população, desembarcando sob uma chuva de flores, entusiásticos vivas, estrepitoso estralejar de panchões e da música dirigindo-se todos ao Leal Senado para a sessão solene. Macau esteve em festa durante dias seguidos” (1)
(4) Esta foto foi realizada por José Neves Catela.
No dia seguinte, de manhã, por indicação de Sua Ex.ª o Governador, fui com o fotógrafo Catela – um artista no género – já consagrado por diversos trabalhos de vulto, dos quais podemos citar algumas fotografias de Macau que estiveram na Exposição Colonial do Pôrto, tirar algumas «fotos» de Macau e das ilhas. Levou com ele quatro boas máquinas e fez 180 impressões. Bom trabalho resultou desse voo.” (2)
NOTA: Sobre o fotógrafo José Neves Catela (1902-1951):
A partir dos anos 20 e 30, a fotografia começou a fazer parte do quotidiano de Macau. O fotógrafo português José Neves Catela viveu em Macau entre 1925 até 1941, Foi um fotojornalista de vários jornais e revistas e estabeleceu o seu próprio estúdio. E, deixou um espólio fotográfico de grande valor que documenta vários aspectos da cidade, sobretudo as antigas embarcações de Macau.”
http://www.mam.gov.mo/showcontent.asp?item_id=20111217010200&lc=2
Mais informações ainda em:
http://caderno-do-oriente.blogspot.pt/2011/02/ano-novo-chines-fotografias-de-jose.html

CORRECÇÃO EM 08-12-2014:
José Neves Catela faleceu aos 49 anos de idade, em Macau, a 1 de Fevereiro de 1951. Natural de Alpiarça, onde nasceu em 1902, encontrava-se em Macau desde 1921 sendo funcionário da Secção de Propaganda de Macau. (informação da revista MOSAICO)

 No livro “Eu estive em Macau durante a guerra” (1), capítulo IX (pp.53-54), o autor descreve  a ida do personagem (Afonso Sequeira, médico do Quadro Colonial, colocado em Macau) ao hipódromo de Macau. Do texto, transcrevo curtas passagens:
Como qualquer fabiano que se preze e está  disposto a aproveitar todos os divertimentos que possa usufrir em meio tão limitado, Sequeira tirrou-se um Domingo dos seus cuidados e deslocou-se até ao Hipódromo, junto da Porta do Cerco, onde se realizavam as famigeradas corridas de cavalos, superiormente dirigidas por técnicos competentíssimos vindos de Hong Kong…
(…)  A assistência não era numerosa, mas não havia que admirar pois tratava-se de um espectáculo recente na Colónia, onde ainda existiam poucos aficionados..
(…) Sequeira examinou as “estampas”, demorando-se a fazer os seus cálculos, e só não apalpou o pulso aos “bichos” porque se lembrou a tempo de que não era veterinário, acabando por ir apostar dez patacas no “Ruço” que, à vista de outras alimárias, parecia apresentar todas as possibilidades de ganhar a corrida.
(…)             
– Ganhou o “Ruço”- exclamaram todos à uma, quando o burrito, a suar de esfalfado, atingia a meta primeiro que qualquer outro. E o jockey anémico, levando a mão à comprida pala do boné, agradeceu soridente as entusiásticas ovações, principalmente dispensadas pelos que julgavam ter ganho uma fortuna!
Sequeira, com as mãos a arder depois de tanta palma, convidou entusiasmado o Dr. Laranjeira para tomar um whisky, festejando assim a feliz intuição que o levara a apostar no vencedor. Saborearam a deliciosa droga inglesa e encaminharam-se depois para a bilheteira onde lhes entregaram dez patacas e sessenta avos, que o médico nem queria receber afirmando que certamente havia engano!
                    Então o Laranjeira … (..) .. recitou ao Sequeira um soneto que em tempos fizera (…)
 
UMA CORRIDA DE CAVALOS EM MACAU
 
Seis jockeys, dois juízes, três cavalos
(Bucéfalos de metro, ou pouco mais);
Dezoito circunstantes, dentre os quais
Uns  dez, junto dos outros, a mirá-los.
 
Prepara-se a corrida. Há sinais…
Quem joga e quer bilhetes vai comprá-los;
Os outros aproveitam os intervalos
No “bar”, ou conversando c´os demais
 
Já correm os murzelos, à porfia…
Ecoa o retinir dos duros cravos…
É grande a animação! Grande a alegria! …
 
Ganhou um jogador!… Imensos bravos! …
Jogou cinco patacas, que trazia,
Ganhou cinco patacas e dez avos…”

O Hipódromo de Macau iniciou as suas actividades em 1927 (2) (embora o autor do livro, refira tratar-se de um espectáculo recente na Colónia)  num terreno perto das Portas do Cerco, nos aterros da praia da Areia Preta (3). Realizavam-se aos Domingos e atraía muitos turistas de Hong Kong (na altura não existiam corridas de cavalos em Hong Kong) e permitia a participação de mulheres nas corridas (4)
Devido à Guerra no Pacífico, as corridas de cavalos nesse hipódromo, acabaram em 1941.
Uma foto do hipódromo, retirada do Anuário de Macau (5)

Uma foto do hipódromo, retirada do Anuário de Macau (5)

(1) ANDRADE e SILVA, António de – Eu estive em Macau durante a guerra. Col. Rua Central n.º 3. Instituto Cultural Macau/ Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1991, 164 pp. 23,5 x 16 cm. Ilustrado. Brochado com badanas. 23, 2 x 16 cm, ISBN 972-35-0117-1
(2) Sobre a história do hipódromo das Portas do Cerco e outras anteriores tentativas de estabelecer as corridas de cavalos em Macau, sugiro leitura do Blogue
http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/o-1-hipodromo-de-macau.html
(3)  É por isso que permanece na toponímia de Macau, na Zona da Praia de Areia Preta, as Avenidas Norte e Leste do Hipódromo, a Avenida do Hipódromo, a Estrada Marginal do Hipódromo, a Rua Direita do Hipódromo, etc.
(4) http://m.cityguide.gov.mo/(S(rv25kuujizdko2552pm2of55))/visit/detail.aspx?id=02090600000000000000&lang=p
(5) Anuário de Macau, 7.ºAno de publicação. Repartição Central dos Serviços Económicos, 1938, 480 p + anexos (Comerciantes, Industrias e Profissionais).