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Do Livro “Portugal no Mundo”, livro de leituras para a 4.ª classe da Província de Moçambique, de 1966, (1) na página 146, pequena referência a Macau, um pequeno trecho da Hermengarda Marques Pinto, do seu livro ”Macau, Terra de Lendas” (2)
(1) “Portugal no Mundo”, livro de leituras para a 4.ª classe da Província de Moçambique, de 1966, 188 p.
(2) PINTO, Hermengarda Marques – Macau terra de lendas. Campanha Nacional de Educação de Adultos, Tipografia da Atlântida-Coimbra, 1955, 128 p.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hermengarda-marques/ 

“Um chinês que morre é envolvido em mortalhas de seda, de crepe ou de qualquer tecido de algodão e a parte superior do corpo não deve nunca levar mais fatos que a parte inferior. A proporção é geralmente de cinco para quatro. Em indivíduos ricos, fazem envergar o morto com mais dois fatos, sendo enterrado com um total de onze peças de vestuário. 

Enterro chinês déc 50 MACAU Terra de LendasEnterro de chinês rico na década de 50 (século XX)

 As peças que revestem as partes inferiores do corpo não devem nunca ser pressas por cintos, que em chinês se chama fu-t´au-tái (1) (fita que prende a parte superior das calças) pois, como a palavra tái (cinto) também significa “levar (2), a família arriscar-se-ia a ver-se brevemente despojada de toda a fortuna que seria levada pela influência do morto. 

 Caixão chinês déc 50 MACAU Terra de LendasCaixão chinês

É necessário também haver grande cuidado em vigiar a câmara ardente, de contrário, o aparecimento de uma gata grávida poderá fazer erguer o cadáver do seu catafalco e levar consigo o mortal que se encontre presente. Se no seu caminho,o morto não tiver deparado com nenhuma vítima e for esbarrara contra a parede, esta ficará para sempre ameaçada de desmoronar a qualquer momento.

Enterro chinês déc 50 II MACAU Terra de LendasEnterro de chinês rico na década de 50 (século XX)

 O receio de intervir nas acções que julgam ser provocada pelo destino fazem com que os chineses jamais de atrevam a salvar qualquer individuo que tenha caído ao mar, pois receiam ser requisitados pelo rei do inferno para substituir aquela condenada alma.” (3)

(1)mandarim pinyin: kù tóu dài; cantonense jyutping; fu3 tau4 daai2
(2)Por exemplo:帶走  – mandarim pinyin: dài zou; cantonense jyutping; daai2 zau2 – levar, “to take away
(3) GOMES, Luís G. – Chinesises. Instituto Cultural de Macau/Leal Senado., sem data,  217 p.
Fotos retiradas de.
PINTO, Hermengarda Marques – Macau terra de lendas. Campanha Nacional de Educação de Adultos, Tipografia da Atlântida-Coimbra, 1955, 128 p. https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/17/leitura-macau-terra-de-lendas/

Mapa Macau 1955

Mapa de “S.to Nome de Deus de Macau” (1)

(1) Retirado de PINTO, Hermengarda Marques – Macau Terra de Lendas. Companhia Nacional de Educação de Adultos, 1955, 128 p.

Vangghi viveu na dinastia dos Tsin, na montanha Kuchau, e entregava-se feliz e ditoso à agricultura.
Era raro o dia em que não ia ao bosque apanhar lenha, mas, certa tarde, surpreendido por forte tempestade, foi obrigado a meter-se numa caverna. Ali encontrou vários homens de muita idade e longa barba que jogavam o xadrez.
Não resistiu à tentação e resolveu tomar parte no jogo. Em dado momento, um dos velhos de barba branca meteu-lhe um caroço de tâmara na boca, pedindo-lhe que o engolisse.
Adormeceu pesadamente e quando o acordaram resolveu pôr-se a caminho da casa. Mas qual não foi o espanto de Vangghi quando não encontrou a casa nem a família e lhe disseram que muitos séculos tinham passado.” (1)
(1) PINTO, Hermengarda Marques –Macau terra de lendas. Campanha Nacional de Educação de Adultos, sem data, 128 p.

PINTO, Hermengarda Marques – Macau terra de lendas. Campanha Nacional de Educação de adultos (Plano de Educação Popular), Colecção Educativa Série E, n.º 1, Tipografia da Atlântida-Coimbra,  1955, 128 p. + |4|, + 16 extra-textos, 4 dos quais a cor,16,5 cm x 11,2 cm. (1)
O meu exemplar tem assinatura de posse na p. 3: ” ???? Fialho, Castelo Branco 27-11-1957″. Na lombada da capa tem a seguinte indicação:
“XXVII C.N.E.A: MACAU 1955”
A capa é de Nuno San Payo.

Trata-se de uma monografia muito sucinta de Macau, abrangendo a história passada, religião, cultura, população, lendas e superstições, costumes, arte, curandeiros, festas, etc. Transcrevo trecho referente aos macaenses.
“MACAENSES
                    Os Macaenses podem dividir-se em três classes: filhos de Europeus há muito estabelecidos em Macau; produtos de cruzamentos entre Europeus e Orientais; e Chineses nascidos naquela Província.
                    Os mais numerosos e característicos são aqueles em cujas veias corre sangue chinês e é desses que nos vamos ocupar.
                    São, do modo geral, de estatura média; têm os pés pequenos e elegantes; as maças do rosto salientes – o que lhes dá originalidade e certa beleza; olhos ligeiramente oblíquos e cabelos pretos e lisos.
                    Alguns fogem a esta regra ou não se distinguem dos Europeus, ou são tipicamente Chineses.
                    Vestem-se bem, mesmo com precaução, mas duma maneira prática e ligeiramente vistosa – influência da moda americana.
                    Ultimamente, vêem-se muitas raparigas macaenses vestidas como uma chinesa moderna – «cabaia» pelo meio da perna, com uma abertura de cada lado.
                    Quase todas são cultas e educadas. Nos primeiros anos frequentam o «Colégio Santa Rosa de Lima», colégio de freiras, onde aprendem música e línguas e continuam os estudos no liceu, indo, geralmente, até ao 7.º ano.
                    Aliás, os macaenses têm todos um certo nível intelectual e procuram cultivar-se sob todos os aspectos.
                    Organizam, pelo ano fora, imensos concertos e conferências que têm sempre numerosa assistência. Também gostam de levar uma vida de sociedade intensa, divertindo-se em clubes e em casa uns dos outros, onde se reúnem para tomar chá e jogar o «mah-jong». Sobretudo as senhoras conseguem passar horas seguidas neste jogo barulhento que se torna quase em vício e que é igualmente apreciado pelos Europeus e pelos Chineses.
                    Os rapazes são grandes desportistas e levam uma vida higiénica e sã. Quando acabam o liceu, vêm para a metrópole tirar um curso superior, ou tentam empregar-se em escritórios.
                     A habilidade que têm para o negócio é só comparável à dos Chineses, com quem trabalham muitas vezes em diversos ramos e actividades.”
 
As duas fotos seguintes foram retiradas deste livro.

Pode-se ler enxerto dum outro capítulo do livro intitulado “A Cidade” em:
http://macauantigo.blogspot.com/2010/08/macau-terra-da-lendas.htm
ou
http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=290502004 

(1) Este livro foi reeditado em 1974:
PINTO, Hermengarda Marques – Macau terra de lendas. – Lisboa: Direcção Geral da Educação Permanente, 2.ª ed., 1974. – 126, [6] p. : il. ; 17 cm. – Educativa.

UMA DESCOMPOSTURA

     (Dialecto macaense)

«Vai ná minha bolontrão
Sevandija discarado,
Eu diverá mutu reva,
Olá ung-a Nhum assim malvado!

Vôs non tem nada di bom,
Divera certo falá;
Raspiáte sem vergonha,
Pra vôs non quêro olá

Tudo laia tem roindade
Est´ung-a  bobo quarenta fora
si vôs vai na minha casa,
Pinchá de jinela fora

Non quero vae vosso casa
Tem medo de suzá pê,                                                  ,
Quim qurê tratá cô vôs ?
Tché ! … Lé cô lé, cré cô cré

Gente benfeto»

UMA DESCOMPUSTURA
(Em Português correcto)

«Vai-te meu desajeitado
Suvandija, descarado,
Eu, de verdade, fico muito zangado
De ver um homem assim malvado!

Tu não tens nada de bom,
De verdade é certo o que te digo;
Pelintra sem vergonha,
Não quero olhar para ti

Tem toda a espécie de ruindade
Este bobo de mais de quarenta anos.
Se tu fores a minha casa,
Deito-te da janela fora

Não quero ir a tua casa
Tenho medo de sujar os pés,
Quem quer tratar contigo?
Tché ! Lé com lé, cré com cré

Gente boa»

Retirado das páginas 88 e 89 do livro de Hermengada Marques: “Macau terra de lendas” (1).
A autora refere ter tirado “dum livro do ilustre escritor Francisco Carvalho e Rego” (2), no entanto, estes versos já estavam reproduzidos na “Ta-Ssi-Yang-Kuo” de J. F. Marques Pereira, de 1889-1990, com a seguinte nota: “Este verso que me foi communicado recentemente pelo meu valoroso auxiliar o sr. capitão Claudio da Silva e que circulou na colónia com a rubrica de «gente bem fêto»

(1) PINTO, Hermengarda Marques – Macau terra de lendas. Campanha Nacional de Educação de adultos (Plano de Educação Popular),  Colecção Educativa Série E, n.º 1, Tipografia da Atlântida-Coimbra,  128 p. + |4|, + 16 extra-textos, 4 dos quais a cor,16,5 cm x 11,2 cm. S/d.

(2) Estes versos estão inseridos no livro “Macau” (1950) de Francisco de Carvalho e Rego.
Sobre Francisco Carvalho e Rego (vida e obra), poderão recolher mais informações em:
http://macauantigo.blogspot.com/2010/02/francisco-de-carvalho-e-rego.html
http://www.revista.akademie-brasil-europa.org/CM03-02.html