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Domingos Pires de Azevedo, primeiro oficial taquigrafo do Congresso da República, professor de Taquigrafia do Instituto Superior de Comércio de Lisboa, redactor-taquigrafo do jornal “A Manhã” de Lisboa, foi contratado pelo Governo de Macau, em 1920, para ser professor da “Escola Oficial de Taquigrafia”, funcionava no Liceu de Macau. A escola foi criada por portaria n.º 345 de 4 de Novembro de 1920 do governador Henrique Monteiro Correa da Silva, e inaugurada a 15 de Novembro de 1920 (1) A escola pouco durou, 1920 a 1923, pois morreu com a retirada do seu fundador.

ANUÁRIO DE MACAU DE 1921

Segundo o Regulamento de 4-11-1920, o professor foi contratado para dar o curso de taquigrafia (ou estenografia) que era gratuito para os inscritos, e durava dois anos, sendo o 1.º teórico e o 2.º prático; os exames de passagens constavam de ditados dum trecho, durante 3 minutos, com a velocidade de 130 sílabas por minuto, as provas do exame final constavam de escrita taquigráfica e tradução imediata, em caracteres comuns, dum ditado de 3 minutos co a velocidade de 213 sílabas por minuto.

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/20/curiosidade-escola-oficial-de-taquigrafia-de-macau/

No dia 13 de Dezembro de 1922, foi lançada uma bomba, nos jardins do Palácio do Governo, na série de vários atentados bombistas que os terroristas chineses xenofobistas estavam executando, periodicamente, na cidade, tendo o cinema Vitória, o Grémio Militar e alguns estabelecimentos comerciais sido vítimas das suas proezas (1)
Em 29 de Maio desse ano, tinha sido novamente proclamado (2) o estado do sítio em todo o território em Macau devido ao cerco à esquadra de Ship Seng e a resposta policial. Foram mandadas encerrar todas as associações de classe cujos estatutos não estivessem autorizados ou requeridos. (3)
(1) GOMES, Luis G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) O anterior estado de sírio tinha sido declarado a 24 de Setembro de 1921 (com suspensão de garantia pelo prazo de 8 dias), mas que, em consequência de certas entidades inglesas terem intervindo evitou-se um sério rompimento, sendo ordenada, no dia seguinte, a cessação da ordem de estado de sítio (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, 1997).
(3) “29-05-1922 – Novamente é proclamado o estado de sítio em todo o território. Factos graves contra a soberania nacional, o prestígio das autoridades e a segurança da população”. SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, 1997.
30-05-1922 – O 2.º Suplemento ao B. O. n.º 21 contém o edital n.º 2: «São convocados todos os cidadãos portugueses válidos a apresentar-se imediatamente no quartel do corpo de Voluntários (em Santa Clara), a fim de serem mobilizados para serviço do Governo. Macau, 30 de Maio de 1922 – O Comandante Militar da Cidade – Joaquim Augusto dos Santos, Coronel» Só a firmeza da resposta do Governador (Comandante Corrêa da Silva – Paço d´Arcos) às autoridades de Cantão evitou crise maior.” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, 1997).
Sobre estes incidentes no ano de 1922, anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/23/os-tumultos-de-macau-em-1922i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/24/os-tumultos-de-macau-em-1922-ii/
E aconselho a leitura de GUEDES, João – O General anarquista e a “República Cantonense
in http://arquivo.jtm.com.mo/view.asp?dT=355903012

Com a presença do governador de Hong Kong, Reginald Stubbs, no dia 7 de Dezembro de 1920, foi lançada, em Hong Kong, pelo Governador de Macau, Capitão-Tenente Henrique Monteiro Correia da Silva  (governador de 23-VIII-1919 a 20-V-1922) a pedra fundamental, para a construção do novo Clube Lusitano (desenhada por A. G. Hewlitt) em Shelley  Street.  (1) (2)

CLUBE LUSITANO HK 1866-1920Club Lusitano em Shelley Street 1866 – 1920
http://oceandeeop3000.blogspot.pt/2013/07/1.html

O Clube Lusitano foi fundado em 26-12-1865 por portugueses que estavam radicados em Hong Kong, e por iniciativa de dois macaenses  J. A. Barretto (de origem goesa) e Delfino Noronha, que foram trabalhar para Hong Kong e foram   bem sucedidos nos negócios aí realizados. O Governador José Rodrigues Coelho do Amaral (governador de 22-VI-1863 a 1866) que sugeriu o nome «Lusitano», correspondendo à moda de então (por exemplo o clube dos alemães chamava-se «Germania Club ») (2)  presidiu, em Hong Kong, à festa solene da colocação da primeira pedra do edifício do Clube Lusitano. (1) (3)
O primeira edifício/ sede do Clube, em Hong Kong, foi  inaugurado a 17 de Dezembro de 1866, com a presença do Governador José Maria da Ponte e Horta (26-X-1866 – 1868). (1) (4)
O Clube Lusitano desempenhou um papel primordial com a invasão japonesa no natal de 1941.
Foi sede/quartel de duas companhias de voluntários perante a ameaça japonesa e centro de refugiados dos portugueses aquando da invasão e antes da sua retirada para Macau e centro de acolhimento aos que continuaram em Hong Kong durante a guerra.
Embora muitos vieram com a sua família para Macau, alguns permaneceram em Hong Kong na Resistência. Caso de Carlos Henrique “Henry” Basto que foi preso quando estava a jogar bridge no Clube Lusitano. Acusado de espionagem usando a terminologia do jogo do bridge para passar informação, foi decapitado pelos japoneses. (5)
Recorda-se que o Corpo de Defesa Voluntários de Hong Kong que estiveram na defesa da Colónia (queda de Hong Kong em 25 de Dezembro de 1941) estavam cerca de 300 portugueses. Morreram 26 na defesa da Colónia e os restantes foram para o Campo de Prisioneiros de guerra de Shumshuipo e alguns deles, depois transferidos para os campos de trabalhos de Sendai, no Nordeste do Japão.
CLUBE LUSITANO HK 1966Futuramente, nova sede, seria iniciada em 17 de Dezembro de 1966 (cem anos após o lançamento da primeira pedra da sede de Shelley Street) em Ice House Street, Central de Hong Kong, com o projecto de Alfredo Álvares. O Clube Lusitano ocupa cinco andares do edifício.
(1) A informação desta notícia aponta o novo Clube Lusitano situado em Dudell Street.
GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954; SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995
(2) O Clube Lusitano, em 1920, mudou-se para Ice Street, Central. As instalações de Shelley Street foram vendidas a bom preço mas a gerência socorreu-se ainda de um empréstimo de 160 mil dólares de HK ao governo de Macau (, Luís Andrade de – The Boys From Macau, Portugueses em Hong Kong, 1999)
(3) Boletim do Governo de Macau, de 1 de Janeiro de 1866 : “No dia 26 de Dezembro último, foi S.Exª. o Governador a Hong Kong presidir à festa solene da colocação da primeira pedra do edifício que ali se vai erigir para um clube português, com o título de Clube Lusitano. Sua Exª o governador foi de Macau, acompanhado pelo seu estado maior, e foi recebido em Hong Kong pelos cavalheiros da comissão directora do referido club, estando no cais, para o mesmo fim, o general das forças britânicas em Hong Kong, e uma guarda de honra de infantaria 9, salvando-se ao desembarque de S.Exª. com a salva que lhe competia. A festa, a que assistiram todos os principais funcionários ingleses, e a maioria dos portugueses residentes na colónia, correu sumptuosa e brilhante. S.Exª. o governador partiu de Hongkong penhorado por tantas atenções de consideração como as que recebeu na curta demora que teve naquela cidade. Depois da cerimónia que correu com as devidas formalidades, serviu-se um esplêndido ‘lunch’, no qual se fizeram vários brindes, todos com entusiasmo recebidos. Os primeiros foram a S.M. a Raínha Vitória e a S.M. El-Rei o sr. D. Luiz. Damos sinceros parabéns aos sócios do novo club pelo bem que correu esta festa, de muito alcance, e pela dignidade com que se houveram em acto tão solene”.
Retirado de ARESTA, António: http://jtm.com.mo/opiniao/curiosidades-da-historia-de-macau-seculo-xix-2/
(4) Segundo Luís de Sá, o Clube Lusitano foi fundado no dia  17 de Dezembro de 1866, com um magnifico baile na sua sede de Shelley Street, em Hong Kong. Com a inauguração do clube, numa cerimónia  que contou  com a presença do governador de Macau, Coelho do Amaral, (erro, o governador era José Ponte e Horta)  e do representante do governador de Hong Kong, W. T. Menger, os portugueses passaram a ter o seu primeiro teatro, no interior da sede….  (SÁ, Luís Andrade de – The Boys From Macau, Portugueses em Hong Kong, 1999 pp. 86-87).
(5) SILVA, António M. Pacheco Jorge da – The Portuguese Community in Hong Kong. Instituto internacional de Macau, 23 p.  2011.

Foi criada por portaria n.º 345 de 4 de Novembro de 1920 do governador Henrique Monteiro Correa da Silva. (1)
Segundo o Regulamento de 4-11-1920, o professor seria contratado; o curso era gratuito e durava dois anos, sendo o 1.º teórico e o 2.º prático; os exames de passagens constavam de ditados dum trecho, durante 3 minutos, com a velocidade de 130 sílabas por minuto, as provas do exame final constavam de escrita taquigráfica e tradução imediata, em caracteres comuns, dum ditado de 3 minutos co a velocidade de 213 sílabas por minuto.
A   Escola abriu a 15 de Novembro de 1920, mas pouco durou, pois morreu com a retirada do seu fundador. (2)
A Taquigrafia ou Estenografia é o termo geral que define todo o método abreviado ou simbólico de escrita, com o objectivo de melhorar a velocidade da escrita ou a brevidade, em comparação a um método padrão de escrita.(3)
(1) Henrique Monteiro Correa da Silva ( Macau, 1878/1935), capitão-de-Mar -e-Guerra da Armada, Ministro do Ultramar e Governador de Macau de 23-08-1919 a 1922  (4). Filho do Primeiro Visconde e Conde de Paço d´Arcos, Carlos Eugénio Correia da Silva (1834 – 1905), que também Governou de Macau de 1876-1879. Como curiosidade, nunca se encartou com o titulo nobiliárquico, sendo 2.º Conde, o seu filho Henrique Belford Correa da Silva (conhecido como poeta Anrique Paço d´Arcos). Outro filho conhecido: o escritor/poeta Joaquim Paço d´Arcos. (sobre este escritor ver anterior post: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/joaquim-paco-d%C2%B4arcos/ 
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Eug%C3%A9nio_Correia_da_Silva 
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1982, 422 p + |10|
(3) http://pt.wikipedia.org/wiki/Taquigrafia
(4) O Governador que se seguiu, foi Rodrigo José Rodrigues que tomou posse em 5 de Janeiro de 1923

Teus olhos cinzentos, teus olhos castanhos,
teus olhos negros, azuis, esverdeados,
– De que cor? Meu Deus !-
Teus olhos fitaram os meus.
Foi numa terra distante, na Costa da China.
Não fixei a cor dos teus olhos,
nem a dos teus cabelos;
Mas os anos passaram e não esqueci teus olhos;
Nem os teus cabelos
Não te esqueci, a ti,
Nem as tardes quentes, húmidas, pegajosas,
Ou as noite mornas,
em que só teus olhos brilhavam
Junto de mim.

Não te esqueci os gritos das mulheres
nos san-pans atracados,
O chapinhar da água lodosa na baixa-mar,
O ruído das pedras do mah-jong,
Aquele baralhar contínuo,
por detrás das persianas cerradas,
Ao longo do nosso caminho !

Foi numa cidade remota na Costa da China…

-Que é feito de ti?
E dos teus olhos em que os meus viram
todas as cores do céu?
Onde pairam os san-pans abrigados na baía?
Onde vãs águas lodosas da baía?
porque não oiço o marulhar das pedras do mah-jong
E o perpétuo marulhar da vaga na enseada?

Porque não fecho mai as portas
e o calafeto as janelas
Em dia de tufão?
Porque não te sentas mais nas pedras
da muralha
Demolida pelo tufão?
Porquenão estraleja o fogo
em noite de noivado,
Ou reboam os gongos em procissão?

Porque não percorremos mais as ruas em
jerinkshá
E nos perdemos nas vielas escusas de
Shi-lu-há?
Porque não havia de perder-me noutros caminhos,
– Mas sem ti?!

Porque não haveria mais de palmilhar os caminhos
em que te encontrei – a ti?!
E porque havia de de sentir toda a vida
o brilho dos teus olhos
De cor indefinida?
Porque havia de me acompanhar toda a vida
A luz dos teus olhos, Se os gongos se calaram,
Se os gritos emudeceram,
Se as muralhas tombaram,
Se os san-pans partiram,
Se as águas secaram,
Se tudo mudou?
porque só tu persistes na lembrança, Se tudo morreu?
Porque vens ainda à minha vida,
Se eu já sou outro, nada subsiste de mim?
Teus olhos cinzentos, azuis, esverdeados,
– De que cor? Meu Deus! –
Ficaram em terra,
Nessa cidade remota na Costa da China,
Todos os mares nos separam,
Mas a água toda do mar não foi bastante
Para apagar dentro de mim o fogo dos teus olhos,
O fogo que arde numa cidade remota,
na Costa da China…

Joaquim Paço d´Arcos
(Do livro “Poemas Imperfeitos”) (1)

Joaquim Belford Correia da Silva (Paço d’Arcos) (1908-1979), conhecido como Joaquim Paço d´Arcos, romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta (único livro de poemas publicado “Poemas Imperfeitos em 1952), premiado diversas vezes, foi muito lido nos anos 40 e 50. Após a sua morte, em 1979, foi praticamente esquecido. Uma das suas obras mais conhecidas é o conjunto de seis romances “Crónicas da Vida Lisboeta“. (2) (3)
Em Junho de 1918, veio para Macau (via América) juntamente com os seus irmãos  Pedro, Henrique e Manuel, a acompanhar o seu pai (Henrique Monteiro Corrêa da Silva, que nasceu em Macau em 08-12-1878, capitão de mar e guerra da Armada) que governou Macau de 23-08-1919 a 1922 (4). Aliás seu avô, Carlos Eugénio Correia da Silva, primeiro visconde e conde de Paço d´Arcos também governou Macau (1876-1879).
Esteve em Macau até 22-6-1922, tendo regressado a Lisboa.
Joaquim Paço d´Arcos tem duas obras com temas macaenses: “Amores e Viagens de Pedro Manuel(1935) e “Navio dos Mortos e outras Novelas(1952). A primeira tem como personagem um chefe da polícia secreta de Macau que era também capitão de piratas nos mares da China. A segunda conta a história da filha de um rico chinês residente em Macau, assassinada pelo marido que, por princípios ideológicos, não admitia poder sua mulher herdara fortuna do pai. O navio, que fazia o transporte de mortos chineses do estrangeiro, trouxe os corpos de ambos, pois o marido, condenado pela justiça inglesa, morrera na forca. (5)

(1) PAÇO D´ARCOS, Joaquim. Poemas imperfeitos. Lisboa : Edições Sit, 1952, 144 p. ; 20 cm
(2) http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=9989.
(3) http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Pa%C3%A7o_d’Arcos.
(4) http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=21141
(5) http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via01/via01_16.pdf.