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Inserido numa das zonas mais típicas da parte histórica da cidade, o Largo do Lilau sofreu obras de beneficiação ao nível das fachadas dos edifícios e das calçadas, levadas a cabo pelos Serviços Técnicos Municipais do Leal Senado em colaboração com o Instituto Cultural de Macau (ICM). Um conjunto de cerimónias organizadas pelo Leal Senado, reunindo no local velhas famílias macaenses, animou o antigo bairro em Janeiro de 1996. Música e uma palestra do escritor Henrique de Senna Fernandes sobre a história e a lenda do Lilau assinalaram igualmente a devolução daquele espaço à cidade e à sua população.

Quem bebe água do Nilau / não mais esquece Macau/ Ou casa aqui em Macau/ou etão volta a Macau. Assim reza a lenda descrita nos versos populares, que nos dão conta de um sentimento comum a todos os macaenses: a saudade.

Nilau (em cantonense, Nei-lau) significa «corrente (de água) do monte. É o nome chinês primitivo (hoje pronunciado indevidamente Lilau) da colina da Penha. O culto da água, elemento e força fundamental da vida orgânica, princípio base do «fong-soi» ou geomancia, conferiu à Fonte do Nilau foros de mito.

O Largo do Lilau, zona privilegiada do património arquitectónico, histórico e cultural de Macau, integra o circuito pedonal das igrejas que passa pela Barra, junto ao Porto Interior, e terminou nas Ruínas de S. Paulo, o ex-libris do Território. A designação Largo do Lilau, em chinês Á Pó Chéang Cai Tei, foi decidida pelo Leal Senado na sessão ordinária de 1 de Setembro de 1995.

Extraído de “Leal Senado, Uma Experiência Municipal (1989-1997) ”, p.55

NOTA “Nas crónicas de S. Agostinho, lê-se: «Na cidade de Nome de Deos de Macao temos huma ermida consagrada a Nossa Senhora da Penha de França em hum dos montes da cidade, chamado Nilao, edificada pelo Padre Fr. Estevão de Vera Cruz, prior do convento da mesma cidade em o anno de 1623, em cuja fábrica muito trabalhou gastando do convento (alem das esmolas) trezentos, e tantos taéis de prata» in TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997, p. 249

“O ano de 1932, tão sombrio em tantos aspectos, teve também as suas compensações, principalmente no campo artístico e do espectáculo. A companhia portuguesa Grande Tournée Teatral às colónias continuou a dar as suas representações (…)”

“O cinema continua a ser o divertimento favorito da população, mas a comunidade portuguesa tem entre si uma novidade. É a visita da Tournée Teatral Portuguesa às Colónias que, depois de se exibir em África e em Goa, chega a Macau. O grupo é constituído pelas actrizes Eveline Correia, Dolores d’Almeida e Salete Barros e pelos actores Manuel Correia, José de Arêde Soveral, Carlos Barros e Artur d’Almeida. Propõe-se dar uma série de representações e “A Voz de Macau” anuncia que tem a colaboração activa do Grupo de Amadores de Teatro e Música e mais das Mlles. Edith da Costa Roque e Maria da Costa Roque.

O teatro D. Pedro V tem uma temporada que reputamos de ouro. O mês de Fevereiro é praticamente preenchido pelas representações da Tournée que foi muito aplaudida, muito apoiada, deixando uma larga lembrança em Macau, pois nunca mais nos visitou qualquer outro grupo de teatro português. Os nossos hóspedes estreiam-se com o teatro do Largo de Santo Agostinho literalmente cheio, com a deliciosa opereta “A Mouraria“. (1) É um êxito. Dos amadores locais, intervêm Mlle. Edith da Costa Roque, Henrique Machado e Danilo Barreiros. A direcção musical ficou a cargo de Bernardino de Senna Fernandes, do Grupo dos Amadores de Teatro e Música. Estamos a 11 de Fevereiro.

No dia seguinte, representa-se a revista “No Balão” e em 17 apresenta-se o drama “Um Milagre de Fátima“, muito apreciado e louvado pela gente devota da terra. Ainda no mês de Fevereiro, exibir-se-ão a revista “Jardim da Europa“, a comédia “A Boneca Alemã“, a opereta “João Ratão” e a revista “Estava Escrito!”. Os membros da Toumée eram bons actores, pisando o palco com extraordinário à vontade. Foram eles que muito ensinaram os amadores de teatro que uns anos mais tarde formariam a Academia de Amadores de Teatro e Música, com os irmãos Carvalho e Rego, Henrique Machado, Lucília e Mário de Campos Néry, Vizeu Pinheiro, Jaime Bellard e outros.” (2)

(1) A opereta “Mouraria”, foi estreada em Portugal, em 1926, com texto de Lino Ferreira, Silva Tavares e Lopo Lauer, sendo a música do maestro Filipe Duarte. Foi encenada por Francisco Ribeiro, no Teatro Apolo (Lisboa). Ficou marcada por um assinalável triunfo da actriz e cantora Adelina Fernandes na personagem da Cesária.

2) FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-36)

(3) Fado da Cesária, Filipe Duarte, Silva Tavares, Adelina Fernandes, Opereta Mouraria, 1º acto, Teatro Apollo, Sassetti & C.ª Editores, s/d. http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797 (3) https://www.museudofado.pt/colecao/partitura/fado-da-cesaria-filipe-duarte-silva-tavares-adelina-fernandes-opereta-mouraria-1o-acto-teatro-apollo-sassetti-ca-editores-sd

Leitura de mais uma crónica de Henrique de Senna Fernandes (1)

“Em Fevereiro, aparece anunciado no Vitória um filme que causa engulhos. Correu pela cidade que a película estava recheada de escabrosidades e indecências. Intitulava-se “Modern Womanhood” (2) que os anúncios traduziram para português “A Mulher Moderna”, acrescentando “um filme educativo” e logo, mais severamente, “não é permitida a entrada de menores”. Pairou, por este motivo, um ar de escândalo, em volta da fita, cujos actores não eram conhecidos ou cujos nomes nem eram mencionados. Houve, assim, uma pré-exibição para os censores, transformados em pilares da moralidade da sociedade macaense. O “Jornal de Macau” de 2 de Fevereiro transcreve a seguinte notícia: “

Assistimos ao ensaio desta fita para a qual foram convidadas as autoridades, polícias, médicos e imprensa portuguesa e chinesa. O filme é interessantíssimo, mostrando a formação da mulher moderna e os vários costumes dos povos. Produção de uma empresa russa (nós diríamos hoje, com mais franqueza, soviética), mostra o cuidado que as autoridades têm pelo desenvolvimento da presente geração, especialmente das mulheres. O filme, focando assunto delicado, não contém todavia escabrosidades, sendo porém conveniente não ser visto por menores dum e doutro sexo, cujas cabecinhas poderiam tirar conclusões temerárias que o filme em si verdadeiramente não contém.

É claro que o Vitória encheu-se de senhoras e cavalheiros interessados em saber o que era “uma mulher moderna”. Houve quem se escandalizasse, pronunciando a crónica expressão: “Que horror!”. Que diriam essas mesmas pessoas se vissem os filmes que hoje por ali abundam, em especial, “Deep Throat” (A Garganta Profunda) (3) que corre mundo, exibido nas melhores casas de espectáculo das grandes cidades, onde papás e mamãs circunspectos vão receber a sua educação pornográfica, sem murmúrio nem protesto, até com laivos de admiração?!.

(1) FERNANDES, Henrique de Senna – O cinema em Macau III http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797

(2) Não consegui descobrir  qualquer informação deste filme.

(3)  “Deep Throat” filme pornográfico americano de 1972 de grande êxito commercial, escrito e dirigido por Gerard Damiano, com a actriz Linda Lovelace. https://en.wikipedia.org/wiki/Deep_Throat_(film)

Mais uma crónica de Henrique de Sena Fernandes, este referente aos jogos de hóquei em campo , da equipa de Hóquei Clube de Macau no período do dia 29 de Dezembro de 1934, a 4 de Janeiro de 1935. (1)

“Em Dezembro, as atenções de Macau desviam-se para a visita a Malaia do Macau Hóquei Clube, para uma série de jogos. Aparecem de toda a parte boas vontades para ajudar os “rapazes”. O Governo e o Leal Senado subsidiam, o mesmo procedendo entidades particulares, como Júlio Eugénio da Silva e António Maria da Silva. A Academia de Amadores do Teatro e Música leva a efeito a peça “As Alegrias do Lar”, entregando todo o produto da receita àquele clube desportivo. Na venda dos bilhetes distinguem-se Celeste Vidigal, Celsa Rodrigues e Guidinha Nolasco, que mereceu um agradecimento público do referido clube. Em 24 de Dezembro, os representantes do hóquei partiram de Hong-Kong no “Tilawa”, a caminho de Singapura. Macau ficou aguardando, com grandes expectativas, o triunfo deles. Foram quatro os jogos entre 29 de Dezembro e 4 de Janeiro de 1935. O primeiro jogo realizou-se entre Macau e a selecção de europeus de Singapura, com o resultado a nosso favor de 2-1. O segundo desafio, no último dia do ano, com resto de Singapura, isto é, uma selecção de jogadores não europeus, em que perdemos por 4-2. Para Macau foi um banho de água fria. No dia 2 de Janeiro de 1935, realizou-se em Kuala Lumpur o jogo principal: Macau-Malaia. A nossa linha era a mesma que no ano anterior enfrentara a Malaia:

Almada; Pinto Cardoso e Jacinto Rodrigues; Lino Ferreira, João dos Santos Ferreira e Alexandre Airosa; Frederico Nolasco da Silva, Laertes da Costa, Fernando Ramalho, Rui Hugo do Rosário e Amílcar Ângelo. Reservas – Pedro Ângelo Jr., João Nolasco da Silva e Leonel de Oliveira Rodrigues.

Era o jogo principal. O resultado foi duro para nós: perdemos por 3 bolas a zero; os goals metidos no primeiro quarto de hora da primeira parte. Ouçamos Filipe O’Costa: Antes do jogo, chuva. E assistimos novamente ao descalçar dos sapatos, como em Singapura. Mas houve pior. No primeiro quarto de hora, o nosso grupo, por nervosismo, por cansaço ou pelas duas causas reunidas, jogou mal como raras vezes o tenho visto jogar e os goals vieram, inexoravelmente. Eu, a arbitrar, quási que arranquei os cabelos. Mas honra lhes seja, não desanimaram e começaram a mostrar o que sabem; daí por diante o jogo foi igual e até com notável domínio nosso no final da segunda parte.Passado esse quarto de hora negro, todos jogaram bem, especialmente Ferreira, Rosário e Jacinto, embora o último não tivesse sido tão brilhante como em Singapura”. O último jogo, em 4 de Janeiro, realizou-se em Malaca, em que Macau venceu por 2-0, num “jogo agradável e regular” com “grande assistência, a maior, segundo nos disseram, que ainda presenciou um desafio de hóquei em Malaca”.

O telegrama recebido no dia 3 de Janeiro, anunciando a derrota com a Malaia, causou enorme consternação. A cidade portuguesa pareceu enlutada. No entanto, a actuação do nosso grupo em todos os desafios mereceu grandes encómios da imprensa de Singapura e de Kuala Lumpur. Macau Hóquei Clube não saiu desprestigiado e foi considerado um dos melhores grupos da Ásia. À chegada, o grupo foi recebido por uma grande massa de aficionados. A Sociedade da União Recreativa deu em honra dele, no dia 13 de Janeiro, uma “soirée dançante”, que decorreu muito animada até alta madrugada, interrompida apenas para um fino “copo de água” e para o discurso entusiástico do Presidente da Agremiação, António F. Batalha.(1)

(1) FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-1936). Revista de Cultura, N.º 23 (II Série), Abril/ Junho 1995. Instituto Cultural de Macau, pp. 133-170. http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30018/1706

Da leitura das crónicas de Henrique de Senna Fernandes, extraí o seguinte apontamento sobre o desporto do ano de 1928, nomeadamente da corrida de bicicletas, no dia 11 de Novembro de 1928, em comemoração do Dia do Armistício. (1)

“A segunda corrida de 100 Quilómetros realizar-se-ia, em comemoração do Dia do Armistício, em 11 de Novembro, com catorze ciclistas, e o azar continuou a perseguir Júlio Bento. Indo à frente, em boa forma e confiante, teve um acidente que o obrigou novamente a desistir, precisamente em Ku-Oc, seu lugar fatídico. Ganhou desta vez Manuel Rodrigues e a seguir Manuel Dias Correia e calcule-se o regozijo e os aplausos de toda a tropa da Guarnição, aclamando-os à chegada ao Palácio da Praia Grande.

Nunca mais houve oportunidade de se repetirem tais corridas que muito contribuíram para as boas relações entre Macau e a “terra-china”, dando as autoridades vizinhas toda a colaboração e facilidades para a concretização dos dois eventos.”

(1) Ver anterior crónica em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2021/10/05/noticia-de-5-de-outubro-de-1928-corrida-de-bicicletas-i-comemoracao-do-dia-da-republica/

Da leitura das crónicas de Henrique de Senna Fernandes, extraí o seguinte apontamento sobre o desporto no ano de 1928 nomeadamente das corridas de bicicletas, esta corrida referente ao dia 5 de Outubro de 1928.

“O culto do desporto, altíssimo nessa época, revelou-se em outras actividades. É o apogeu das corridas de bicicleta, iniciadas talvez na segunda metade dos anos 20, salvo erro de apontamento, sob o impulso do Núcleo Desportivo “Pátria”, constituído principalmente pelo pessoal dos Serviços de Marinha. A grande alma do ciclismo macaense foi Júlio A. Bento, popularmente conhecido por “Pau Preto”, o campeão incontestável da época.

A maior realização dos anais do ciclismo macaense foi a Corrida de 100 Quilómetros Macau-Tong Ká-Macau. Essa prova duríssima fez-se, em comemoração do Dia da República, 5 de Outubro, partindo os doze ciclistas inscritos do Palácio da Praia Grande. Do “Jornal de Macau” conhecemos os nomes de alguns dos corredores: Júlio Bento, Pietro Colombo (italiano), Carlos Borges Delgado, filho do então reitor do Liceu, Manuel Rodrigues e Manuel Dias Correia, ambos da Guarnição Militar, Samal Khan (polícia mouro) e Francisco Pinto.

Júlio Bento, o campeão, foi perseguido pelo azar, logo de início. Na curva do Jardim de S. Francisco, teve a primeira queda. Atrasado a consertar a bicicleta e a tratar-se de escoriações, voltou a correr, fazendo uma recuperação espantosa, chegando a Tong Ká, a poucos minutos de distância do primeiro. No caminho do regresso, teve a segunda queda em A-Chac, prosseguiu depois com o mesmo afinco e estava já a um minuto e tal do que ia à frente, quando à saída de Ku-Oc teve a terceira queda que lhe espatifou a bicicleta, desistindo da corrida.”

FERNANDES, Henrique de Senna – O Cinema de Macau II in  http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30018/1706

O Governador Nobre de Carvalho depõe um ramo de flores junto do pedestral do busto de Luís de Camões

“Dentro da tradição que conta muitos anos, e integrada no «Dia de Portugal», realizou-se a romagem das escolas à Gruta de Camões, este ano solenizada com mais brilho, pelo facto de se celebrar o IV centenário da publicação «Os Lusíadas»…» (1)

Esteve presente o Governador, acompanhado da Esposa, e as mais destacadas autoridades da Província, sendo denotar as numerosas representações sas escolas portuguesas, cujos estudantes traziam cada um uma flor que, na devida altura, depuseram junto do pedestral onde se ergue o busto do poeta.

O Dr. Henrique de Sena Fernandes proferindo a alocução junto à Grut

Findo o discurso do Dr. Henrique de Sena Fernandes, director da Escola Comercial, o Governador Nobre de Carvalho descerrou uma lápide comemorativa do IV centenário da Publicação de «Os Lusíadas», talhada no duro granito, irmão da rocha viva que forma a gruta do poeta.

O Governador descerrando a lápide, junto à Gruta de Camões
A lápide comemorativa do acontecimento.

Entretanto, os «JOGRAIS» da Escola Comercial «Pedro Nolasco» iam recitando trechos líricos e épicos de Camões, dando ao ambiente a solenidade dos momentos de alto valor cultural.

Depois seguiu-se o desfile da juventude escolar portuguesa perante o busto.

Os «Jograis» da Escola Comercial «Pedro Nolasco» recitando trechos líricos
A assistência na homenagem a Camões.
O desfile da juventude escolar

(1) Extraído de “Macau B.I.T.», VIII, 3  e 4, Maio/Junho, 1972, pp,20-22.

“O grande acontecimento social de Macau em 1933 foi a inauguração do Edifício da União Recreativa, à Areia Preta, junto do Hipódromo, a 25 de Março.

Temos a descrição do imóvel, relatado em “A Voz de Macau”: “O elegante edifício, de linhas sóbrias e bem lançadas, é bastante amplo. No terreno vasto que lhe pertence, onde, à direita, existe já um parque para estacionamento de automóveis, ficarão instalados os campos de Futebol, Ténis, Golf, Basket-Ball, Hockey, e ainda um Parque Infantil para diversão dos filhos dos sócios, estando a Direcção envidando os seus melhores esforços para conseguir a realização duma ampla piscina”.

A Sociedade da União Recreativa foi fundada em 1924 por um grupo de macaenses que se reuniam para tocar música. Eram uns vinte e, entre eles, destacamos, sem desdouro para outros, António Ferreira Batalha, Paulino A. da Silva, Pedro e Alberto Ângelo e António Galdino Dias. Do entusiamo destes vinte, nasceu a ideia de criar um Centro Musical. Pouco a pouco, pelo dinamismo dos fundadores, o número de sócios aumentou, chegando a duzentos, número importante em relação à exiguidade da população portuguesa no Território. Agora já não era apenas um centro musical, mas também um centro recreativo e desportivo. O grupo representativo da União Recreativa, no futebol, era importante nos fins dos anos 20 e só foi dispersado quando rivalidades internas levaram os seus componentes a agruparem-se no Argonauta e no Tenebroso. Não havia sede nem instalações adequadas para comportar tamanho número de sócios. As festas e outras iniciativas exigiam um novo prédio. Mais uma ideia brilhante nasceu: o plano duma espécie de country club, fora de portas, em sítio calmo e ameno, onde a Sociedade pudesse dar largas às suas actividades. A Areia Preta era então um local ideal, pelo seu sossego, pelo ar de praia que ainda possuía. É preciso lembrar que a cidade morria na orla da avenida Horta e Costa; e, dali para o mar e para a Porta do Cerco, havia apenas algumas casas, tipo vilas, o Canídromo, o Hipódromo, aldeamentos chineses e imensos terrenos baldios. A Sociedade teve o apoio incondicional do Governador Tamagnini Barbosa. O Governo subsidiou, também a Associação dos Proprietários do teatro D. Pedro V, e outros vieram da iniciativa privada.

Ficou-nos na memória a festa da inauguração. Ainda nos lembramos de ver muita gente e estarmos à frente duma mesa pejada de iguarias e guloseimas, dum riquíssimo “chá gordo”. Discursaram o Presidente da Sociedade, António Ferreira Batalha, o Encarregado do Governo, Rocha Santos, e o Dr. Américo Pacheco Jorge, como representante da mais antiga agremiação macaense, o Clube de Macau. “A Voz de Macau” remata o seu artigo de 26 de Abril, com as seguintes palavras:

“Seguiu-se a assinatura da acta da inauguração, após o que numerosas pessoas assistentes dispersaram pelo amplo edifício e campos adjacentes, formando aqui e além pequenos grupos de cavaqueira, enquanto outros, os apreciadores de danças, iniciando a série de fox-trots, steps, valsas, etc., enlaçavam as gentis senhoras e meninas, danças que se prolongaram até cerca das 21 horas, com muito pesar dos fervorosos que desejariam que elas se prolongassem pela noite adiante. Mas Roma e Pavia não se fizeram num dia; e, como outras interessantes e simpáticas festas decerto se hão-de seguir, tirarão então a desforra…”

Não nos lembramos de ter havido campos de futebol, hóquei, golfe e basquetebol. Nem a piscina projectada. O que houve e tivemos ocasião de presenciar, foram as grandes partidas de ténis nos seus courts arejados e de vista ampla. A vida da União Recreativa foi brilhante nos primeiros anos, com festas e outras actividades que ficaram notáveis. Decaiu nos anos de 30 para reviver com a Guerra do Pacífico, sob outro nome – o Clube Melco. Mas este assunto será tratado noutra ocasião.

FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-36) in Revista da Cultura, n.º 23 (II Série) Abril/Junho de 1995, pp.151-152. Edição do Instituto Cultural de Macau. Disponível para leitura em: ttp://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797

“O ambiente de optimismo e confiança no futuro ecnómico de Macau manteve-se, em crescendo, por todo aquele ano. O relatório do Comissário das Alfândegas Chinesas da Lapa, publicado em Junho, é francamente favorável e animador. Ali se referem as várias indústrias macaenses em progresso, se aponta a importância das corridas de cavalo, ainda que improvisadas, como factor de grande relevância para o turismo. E mais, exalta-se a inauguração do primeiro troço de oito quilómetros da estrada Macau-Seac Ki, construída pela Repartição das Obras Públicas, em terra vizinha, com a colaboração das autoridades desse território, em 18 de Março, com a presença do Governador Tamagnini, para além da Porta do Cerco.

Esta estrada macadamizada valorizou decisivamente a economia de Macau e as suas relações comerciais com o “hinterland”. A Companhia de Autocarros Kee Kuan lança carreiras para aquele território, dezenas de automóveis atravessam a Porta do Cerco, levando veraneantes e caçadores, principalmente aos Sábados e Domingos, organizam-se piqueniques e caçadas às rolas, perdizes e narcejas, ou então, pescarias à “asa vermelha”, nos meandros do rio e dos ribeiros e riachos afluentes.

Ainda nos lembramos desses passeios. Visitámos muitas localidades cujos nomes nos eram familiares: Chin Sán, Chôi Mei, Ku Oc, Tong Ká, Li Tchai, Seac Ki, Vong Mau Tché, as Águas Quentes e Choi Hang, terra de nascimento de Sun Iat Sen. Na nossa memória ficaram as merendas saboreadas em troços de estrada, à sombra e ao ramalhar de grandes árvores de pagode, os bambuais vergando ao sopro da viração, os búfalos mergulhados nas águas lamacentas das várzeas, com o focinho de fora, os camponeses atravessando pequenas pontes de pedra, a sorrir para nós, e o cheiro penetrante e enjoativo da espiga de arroz, quando madura, que nos perseguia durante todo o trajecto. Era uma vida boa!” (http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30018/1706)

Sobre a estrada Macau – Seak Kei/Shiqi, ver anterior referência em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/03/16/noticia-de-16-de-marco-de-1928-estrada-macau-seac-kei/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/03/18/noticia-de-18-de-marco-de-1928-a-nova-estrada-macau-seak-kei/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/04/13/noticias-do-mes-de-abril-de-1934-ecos-de-macau/

Anúncio (assinado: J. M. Wolff, acting manager) publicado no dia 7 de Janeiro de 1860, no «Boletim do Governo de Macau», dos espectáculos duma empresa australiana, no hipódromo de Macau, durante uma semana (seis dias) a iniciar no dia 9 de Janeiro (segunda-feira), com autorização de “Members of The Portuguese Council on the Campo de Sm. Francisco” . Os espectáculos foram realizados pela Companhia “Lewis Great Australian Hippodrome” e da trupe “Mammoth Troupe of Male and Female Star Equestrian Artists”, que, em Hong Kong, tiveram o patrocínio principal do Governador de Hong Kong Sir Hercules Robinson e sua esposa e do Comandante em Chefe da Marinha na China, Sir James Hope

O espectáculo era diário às 20h00, e a partir de 9 de Janeiro com duas actuações extras; uma “Grand Day Performance” na quarta feira, dia 11 de Janeiro, às 14h00 e outra “Farewell Day Performance” também às 14h00. Os bilhetes (50 avos; 1 pataca e 2 patacas) estavam à venda no Hotel Praia Grande (Sr. Carvalho) e no escritório do hipódromo das 15h00 às 17h00 diariamente, nessa semana

Extraído de «Boletim do Governo de Macau», VI-5 de 7 de Janeiro de 1860, p. 20

O campo aberto que daria o futuro hipódromo e onde se realizaram as primeiras corridas, feitas por amadores, (1) situava-se em terrenos junto à Porta do Cerco, numa área  que foi conquistada ao mar, ao norte da Doca da Areia Preta. Área esta mais ou menos limitada pela Estrada dos Cavaleiros e pela Estrada Marginal do Hipódromo (antiga Rua do Cerco). (2) Só em 1924/1925 surge as primeiras informações sobre o licenciamento e organização de corridas de cavalos (3) (4) (5) e depois em 1927, o Hipódromo do «Macao Jockey Club» (6)

(1) 1927 – No campo aberto do futuro Hipódromo, realizaram-se as primeiras corridas de cavalo. Ainda não se tinha erigido o “Macao Jockey Club” nem havia delineada a magnífica pista de corridas. As demarcações eram improvisadas, mas prevalecia o espírito desportivo, sobretudo, dos ingleses que traziam cavalos de corrida de Hong Kong com imensos gastos, só pelo prazer de correr, com o mesmo entusiasmo com que os vemos colaborar e participar actualmente nas corridas de automóvel do Grande Prémio. (FERNANDES, Henrique de Senna – O Cinema de Macau II in http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30018/1706

(2) Até à fundação de Hong Kong , em 1841, a Comunidade Britânica de Macau possuía junto das portas do Cerco o seu campo de corridas. Já em 1829, o mandarim da Casa Branca publicava um edital em 28 de Abril, dizendo que, tendo ido a Macau, «vira os Estrangeiros fazerem carreiras de Cavallos na praia do Porta do Cerco…». Harriet Low no seu diário , de 5 de Novembro de 1829 refere: « o campo de corridas está no lugar chamado Barreira (Porta do Ceco),que impede todos os estrangeiros de passarem além. O campo mede cerca de três quartos de milha”… » (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997, pp.484-485).

(3) 26-04-1924 – Concessão do exclusivo da exploração de corridas de cavalos. Diploma Legislativo n.º 14 e sua correção no B. O. n.º 17, desta data. (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.162)

(4) 22-08-1924 – Construção de um campo para corridas de cavalos (Cfr. outros processos que se seguem nomeadamente o n.º 142/A da mesma série (A.H.M. – F. A. C. n.º 128-S-E) + (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.164)

(5) 09-06-1925 – Pedido de Lou Lim Ioc, Presidente da Companhia «Clube Internacional de Recreio e Corridas de Macau, Limitada» para que lhe seja arrendado um terreno junto à Porta do Cerco (A.H.M. – F. A.C. P. n.º 134 -S-C) (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.172)

(6) 19-03-1927 – Foi inaugurado o Campo de Corridas de Cavalos de Macau + (BBS – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p.195)