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Tomou posse, no dia 3 de Outubro de 1843, do governo d´esta cidade o chefe de divisão da armada José Gregorio Pegado- 彼亞度 (1)
Foi no governo de José Gregório Pegado, (2) que se iniciou a ocupação da ilha da Taipa, depois de uma memorável visita de cortesia ao vice-rei Ki-Yin (3), alto comissário de Cantão que prometeu «fechar os olhos» ao nosso estabelecimento na mencionada ilha. Na Taipa Pequena mandou depois Ferreira do Amaral fazer um pequeno forte (terminado em Setembro de 1847. Em 20 de Agosto de 1851 o Governador Francisco António Gonçalves Cardoso procedeu à ocupação da Taipa Grande. Só mais tarde as duas Taipas (outrora três) se uniram geograficamente. Pegado faleceu em Adem no seu regresso a Portugal de 1846, tendo embarcado em Macau, em 28 de Maio desse ano. (4)
José Gregório Pegado, pela sua distinção e mestria no manejo dos fai-chis, (5) durante um jantar que lhe ofereceu, em Cantão, o delegado e alto-comissário imperial, Ki-Ying, ouviu da boca deste os seguintes elogio e garantia: –V. Exa é um homem tão polido nas maneiras e simpatizo tanto consigo, que nada lhe posso recusar. Recomendarei confidencialmente ao vice-rei dos dois Kuóns que feche os olhos ao estabelecimento dos portugueses na (ilha da) Taipa“.
Depois de ocupar militarmente toda a península de Macau, desde as muralhas à Porta do Cerco, o heroico governador João Maria Ferreira do Amaral executou essa promessa verbal, incumbindo o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, em Abril de 1847, de construir a Casa Forte da Taipa. Depois de difíceis negociações com os mandarins limítrofes e com o vice-rei de Cantão, a bandeira portuguesa arvorou-se pela primeira vez nessa ilha ao 9 de Setembro de 1847. Em 1879 foi também ocupada a Taipa Quebrada ou Ilha de Maria Nunes e aí levantado um quartel, no antigo edifício do hospital, hoje Centro de Recuperação Social.
A 23 de Dezembro de 1864, os habitantes de Coloane pediram que uma força militar portuguesa os fosse proteger contra os piratas. Um destacamento de 10 polícias dirigiu-se imediatamente para aquela ilha. A administração dos três novos territórios (note-se que então a Taipa eram duas ilhas) organizou-se em 1878. (6)

MAPA DE 1884 – PLANTA DA PENÍNSULA E PORTO DE MACAU
de A. Ferreira Loureiro
Em baixo, à esquerda, a Ilha da Taipa Quebrada e Ilha da Taipa Grande ou Kaikong

(1) PEREIRA, A. Marques –  Ephemerides Commemorativas da história de Macau e
(2) José Gregório Pegado governador de 3-10-1843 até 13-02-1846, data do embarque para Macau do Conselheiro Capitão de Mar e Guerra João Maria Ferreira do Amaral que tomou posse como Governador a 21 de Abril de 1846.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-gregorio-pegado/
(3) O ex-governador Adrião Acácio da Silveira Pinto (governador de 22-02-1837 até 3-10-1843) foi nomeado em 10-10-1843, pelo Governador José Gregório Pegado (em sessão do Senado de 10 de Outubro), Embaixador de Portugal para tratar com os Plenipotenciários chineses sobre as condições da existência política de Macau. O e governador seguiu no dia 27 de Outubro para Vampu, no brigue de guerra Tejo, do comando do Capitão-Tenente Domingos Fortunato de Vale. Acompanharam-no o Procurador da Cidade, João Damasceno Coelho dos Santos e o intérprete interino, José Martinho Marques. (7) No dia 4 de Novembro a missão diplomática seguiu de Vampu para Cantão, em escaleres, residindo, depois de realizada a conferência, na casa de campo do Mandarim graduado Pau-Teng-Kua e no Consulado da França, onde se realizou as reuniões, durante dez dias, com o segundo delegado chinês. A missão não conseguiu que fosse relevado o foro pago pela colónia nem dispensada a demarcação do limite para fora dos muros do Campo de Stº António,
Ver anterior referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/11/04/noticia-de-4-de-novembro-de-1843-conferencia-luso-chinesa-em-cantao/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/adriao-a-silveira-pinto/
(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 3, 1995.
(5) Faichis – “Pauzinhos” para levar a comida à boca.. Termo macaense usado pelos chineses desta região e também pelo portugueses de Macau e Hong Kong (BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977
Ver em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/05/10/os-antigos-cozinheiros-ambulantes-de-macau-1953-i/
(6) PIRES, Benjamim  Videira – Os Governadores e a vida de Macau no Século XIX.
http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30007/1510
(7) Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-martinho-marques/

Colecção de 10 postais (postal: 16 cm x 11 cm) intitulada

澳門老照片 / Fotografias Antigas de Macau / Old Photographs of Macao”

emitido em Setembro de 2009 pelo Instituto Cultural do Governo da R. A. E. de Macau/Museu de Macau (1), com legendas no verso de cada postal em chinês, português e inglês. Separação de cores e impressão na Tipografia Seng Si Lda.
Preço: 25 patacas. Esta minha, comprada no Museu de Macau
No interior da contracapa a fotografia do Museu de Macau com indicação da morada. Praceta do Museu de Macau, n.º 112, telefone (853) 28357911 Fax: (8539 28358503 e horário de funcionamento: 10h00 – 18h00, excepto às segundas-feiras
(1) 澳門老照片 / Fotografias Antigas de Macau / Old Photographs of Macao.  Instituto Cultural do Governo da R. A. E. de Macau/Museu de Macau, Setembro de 2009 , 1.ª edição, ISBN 978-99937-0-113-2
澳門老照片 mandarim pīnyīn: ào mén lǎo zhào piān,; cantonense jyutping: ou3 mun3 lou5 ziu3 pin3
O primeiro postal:

燒灰爐 /Àrea do Chunambeiro /Chunambeiro area
澳門十九世九十年代/Macau – década de 1890/ Macao – 1890s

A área do Chunambeiro era o antigo lugar de Macau, próximo da fortaleza de Bom Parto, no extremo sul da baía da Praia Grande. Nesse local havia antigamente fornos de cal de ostras, e também foi o local da antiga fundição de artilharia e casa de pólvora de Manuel Tavares Bocarro no século XVII (1) (2) (3)
Nessa altura para vir da Barra à Praia Grande era necessário atravessar a colina pois a marginal terminava no Chunambeiro. (4) O projecto do primeiro lanço de 135 metros da extensão da muralha de Bom Parto e aterro marginal da Praia Grande do Chunambeiro à Fortaleza do Bom Parto foi aprovado em 17 de Janeiro de 1873. (5)
O aterro do Chunambeiro foi iniciada em 1871 sob a direcção de Vicente de Paulo Portaria e continuada no mesmo ano pelo tenente Henrique Augusto Dias de Carvalho, condutor das Obras Públicas, segundo ele diz no seu relatório de 30 de Junho desse ano. (3)
(1) BOXER, Charles Ralph (anotada por) – Ásia Sínica e Japónica, Vol II. Instituto Cultural/Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1988, 245 p.
(2) Existia no Chunambeiro a fundição de artilharia de bronze de Manuel Tavares de Bocarro de 1625 a 1656. Foi capitão-geral ou governador desta cidade de 1657 a 1664. Faleceu em Macau ou em Goa (3)
Segundo Marques Pereira in Ta-Ssi-Yang Kuo III (edição 1984), p.126, nota 2:
Manuel Tavares Bocarro fundiu peças em Macau desde 1626 a 1631.É possível que depois fosse para a India onde fundiu em 1641 a peça existente no Museu de Artilharia ou foi fundida mesmo em Macau por ordem do governador da Índia, Telles de Menezes?
(3) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997.
(4) Chunambeiro de chunambo ou chuname (6) que significa no Oriente cal de ostra – e por haver neste sítio antigamente em Macau também fornos para a queima desse marisco.
Existe presentemente a Rua do Chunambeiro (existia nos fins do século XIX ou princípios do Século XX o Largo do Chunambeiro) que começa na Praça de Lobo de Ávila  e termina na Calçada do Bom Parto. Em chinês chama-se Siu Fui Lou Kai (7)  que significa Rua do Forno do Cal.
(5) Em 1 de Outubro de 1869, o major de artilharia, Francisco Maria da Cunha, inspector das Obras Públicas, informava que em 1 de Julho a 30 de Setembro se fizera uma casa da guarda em S. Sancha «pela necessidade de estabelecer uma estação de polícia em um dos sítios mais isolados da cidade, mais importante pelas casas de campo que ali existem, e ponto quási obrigatório da passagem da povoação da Barra para a Praia Grande, atravessando a montanha intermédia».
Boletim da Província de Macau e Timor, XVI, n.º 3 de 17-01-1870.
(6) “Chunambeiro – forno para fabricação de chunambo ou local onde se fabricava chunambo.
Chunambo– cal obtida pela calcinação de conchas de ostras.”
BATALHA. Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977, pp. 144/145.
Charles Boxer (in Àsia Sinica e Japónica, Vol II, p. 234, nota 7) (1) refere: “Xinamo, Chunname ou Chunambo como cal obtida pela calcinação de conchas de mariscos. O motivo de admissão do termo indiano é que a cal da Ásia se faz de outro material. O étimo é o maliada Chunnambra, relacionado com o neo-arcaico chunã, sânscrito churna.”.
7) mandarim pīnyīn: shāo lú huī jiē; cantonense jyutping: siu 1 fui1  lou4 gaai1

A Dra. Beatriz Basto da Silva chama a atenção (1) para um artigo “Anatomy of a small foot” publicado no mês de Abril de 1835 no «The Chinese Repository» (2) sobre os pés enfaixados e pequeninos das mulheres chinesas. (3)

A Chinese Golden Lily Foot, Lai Afong, c. 1870s (4)

Refere um estudo de Jean Baptiste Du Halde (5) que dá como início deste costume a Última Imperatriz da Dinastia Shang que pereceu cerca 1.123 A.C.. como tinha os pés realmente muito pequenos, resolveu enfaixá-los e atá-los, fazendo crer que se tratava de uma moda, quando era, afinal, uma deformação congénita.
Robert Morrison, na sua «View of China» (6) diz que Howchoo (por volta das Cinco Dinastias, cerca de 925 A. D.) pediu à concubina Yaou para atar os pés com faixas de seda para se manterem pequenos, com a beleza do quarto de lua crescente. As outras mulheres imitariam a ideia.
Enfim, hipóteses incertas, mas que trouxeram o costume dos «Golden Lilies» ou «Kin leen» (7) quase até finais do século XX. (1)

18th-century illustration showing Yaoniang (窅娘) binding her own feet, Qing Dynasty woodblock print from Hundred Poems of Beautiful Women(Bai Mei Xin Yong Tu Zhuan 百美新詠圖傳) (8)

NOTA 1 – Na década de 60 (séc. XX), em Macau, ainda conheci uma senhora amiga da minha avó, que tinha os “pés atados”. Lembro-me dela sempre bem vestida (muito possivelmente de famílias aristocráticas chinesas) que saída à rua sempre acompanhada por uma criada que a ajudava a andar e sempre protegida por uma “sombrinha” (guarda- sol) (6)
NOTA 2 – Aconselho visualização das fotografias da britânica Jo Farrell que passou oito anos a registar a vida das últimas mulheres idosas chinesas com os “pés deformados”. Estas fotos estiveram em exposição de 18 a 31 de Março de 2018 no «Hong Kong Museum of Medical Science».
http://www.dailymail.co.uk/news/article-5425801/Last-foot-binding-survivors-captured-beautiful-photos.html
Pode ver uma reportagem sobre estas mulheres em:
https://www.youtube.com/watch?v=gmGZGa0Ze58
(1) SILVA, Beatriz Basto da Sila – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995
(2) Anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/the-chinese-repository/
(3) Pés atados ou Pés-de-lótus (em inglês footbinding) foi um antigo costume chinês em que os pés de meninas jovens mantinham reduzidos em tamanho no máximo 10 cm de comprimento. Para isso, os pés das meninas jovens eram rigorosamente atados e mantidos em pequenos sapatos a fim de evitar o máximo o seu crescimento . O objetivo era ter o menor pé possível, que significava sensualidade muito apreciado pelos homens na altura.
(4) https://en.wikipedia.org/wiki/Foot_binding#/media/File:A_Chinese_Golden_Lily_Foot,_Lai_Afong,_c1870s.jpg
(5) Jean-Baptiste Du Halde (1674-1743), jesuíta francês, historiador com especial interesse na história chinesa, embora nunca tivesse estado na China nem dominar a língua chinesa mas coleccionava os relatórios dos missionários jesuítas e a partir deles fez uma enciclopédia da história, cultura e sociedade chinesa.

 

 

(6) MORRISON, Robert – A view of China for philological purposes : containing a sketch of Chinese chronology, geography, government, religion & customs, designed for the use of persons who study the Chinese language, 1817
Anteriores referências a Robert Morrison em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/robert-morrison/
(7) –  mandarin pīnyīn: jīn lì; cantonense jyutping: gam1lei6
(8) https://en.wikipedia.org/wiki/Foot_binding#/media/File:Yaoniang_binding_feet.jpg
(9) Sombrinha – termo utilizado em Macau para designar o sombreiro ou guarda-sol ou guarda-chuva. Segundo Prof Graciete Batalha, o termo sombreiro, com este sentido foi corrente no ásio-port., mas a forma macaense parece revelar influência espanhola talvez através das Filipinas. Glossáro do Dialecto Macaense, 1977, p. 534.

Mais uma velha naná ou canção de embalar do folclore macaísta citado pela Dra. Graciete Batalha. (1)

Já pagá candia
Já nom tê azeite;
Tomá quiança-quiança
Fazê ramalhête
 
Ramalhête feito
Na ponta do lenço
Quê càsá com preto
Tê grande sentimento
 
Más qui seja preto,
Sã nossa naçãm
Panhá vento suzo
Ficá cor de jambolam 

Possível “tradução”:

Apagou-se a candeia
Já não tem azeite
Pegar nas crianças
Que fazem ramalhete (birra)

Ramalhete feito
Na ponta do lenço
Quem casar com preto
Tem grande sentimento

Embora seja preto
É da nossa nação
Apanhar “vento sujo” (doença)
Ficar com cor de jambolão

Note-se a referência à superstição do “vento suzo” (vento sujo, «mau ar»). Por apanhar vento sujo, a pessoa ficou com a cor de jambolão, isto é, com a pele escura.
Jambolão – fruto semelhante a um grande bago de uva preta e «doce como a uva ferral» segundo Dalgado, Gloss. I, s. v. Há porém, quem o descreva como uma azeitona preta, com caroço semelhante, mas muito doce. (2)
(1) BATALHA, Graciete – Aspectos do Folclore de Macau, 1968.
(2) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.

Extraído do «Boletim do Governo de Macau e Timor» n.º 9 de 2 de Março de 1868, p. 49.
NOTAS:
FONTE DE LILAU – originariamente denominada Bica do Nilau (nome primitivo da colina que depois é conhecida como Colina da Penha por ter sido lá construída  a Ermida de Nossa Senhora da Penha da França). Foi destruída.

Hoje no Largo do Lilau existe uma fonte que tenta memorizar a bica original.
BALSA – fogo de artifício chinês, muito comum em Macau até à década de 20 (séc. XX) depois caiu em desuso. Este fogo de artifício era chamado porque os foguetes eram colocados em balsas ou baldes Construía-se uma armação em bambu, espécie de torre de dois ou três andares, e em cada andar punha-se uma balsa de foguetes. Acendia-se a primeira, esta ao explodir pegava fogo à segunda e assim sucessivamente. (1)
Referência à «balsa» na «Carta de Siára Pancha a Nhim Miquéla» escrita em «3 de janero de 1865» (2)
Outro dia Voluntario inglez (3) d´Hong Kong já vem Macáo ! Qui lai di bonito ! eu já vai olá também. Macáo parece França, tudo gente fallá. Tem tifin (4), revista di tropa, salva de vinte un há tiro, balsa à note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancias três mil fóra pataca.
“TUTI”TOU TEI – 土地 – Deus da Família – nos mitos antigos, Tou Tei é um deus que governa a terra, por isso esta festividade se denomina “Festa do Deus da Terra”. Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/27/noticia-de-27-de-fevereiro-de-2017-tou-tei-o-deus-da-familia/
(1) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do DIalecto Macaense. Coimbra, 1977.
(2) Ta-Ssi-Yang-Kuo , Tomo I, 1899, p. 324.
(3) Refere-se à visita dos soldados voluntários da colónia inglesa de Hong Kong a Macau no dia 19 de Novembro de 1864, armados e com artilharia, com exercícios no campo de S. Francisco. Estiveram em Macau até o dia 21. Ver anterior referência a esta visita em postagem já publicada em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/19/noticias-de-19-a-21-de-novembro-de-1864-visita-do-corpo-de-voluntarios-de-hong-kong-a-macau/
(4) “TIFIN” É o mesmo que “lunch” (almoço)

Um artigo publicado em 1866 no “The Illustrated London News” (1) intitulado

EXTERIOR AND INTERIOR OF THE THEATRE AT MACAO”

Baseado em duas pinturas de Eduard Hildebrandt (de 1842), (2) o redactor do artigo tece considerações sobre o funcionamento dum teatro chinês (será mais um “AUTOCHINA”) (3) com palco armado ao que parece na Barra à frente do templo de Á Má.

“THE THEATRE AT MACAO” por  E. HILDEBRANDT (4)

“INSIDE OF THE THEATRE AT MACAO” por E. HILDEBRANDT

(1) «The Illustrated London News», 1866, 17 MARCH 1866, p.264
(2) Ver anteriores referências a este pintor alemão Eduard Hildebrandt  (1818-1869):
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/02/04/noticia-de-4-de-fevereiro-de-1865-baile-e-ceia-no-teatro-d-pedro-v/

“A-Ma Temple, Macao” gravação duma pintura de Eduard Hildebrandt (1818-1869)

(3) “Chama-se em Macau auto china ao tradicional teatro chinês em que se representam cenas da história antiga e da mitologia do país. Consta de canto e palavras rítmicas, com acompanhamento de instrumentos e tantãs típicos “(BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977)
(4) A mesma pintura em diversas publicações está referenciada como

“Macao, Theater Sing Song”

Recentemente entre amigos, relembrando termos/expressões «maquista» surgiu esta

CIFRÂ DENTE

com utilização num sentido que desconhecida:  “vai à merda
Segundo outros autores consultados o termo é usado como

Cifrâ (ou Cifâ) – cerrar ou arreganhar(1) (2)
Cifrâ dente – vai-te embora, não me chateies (1)
Cerá-dente – cerrar os dentes, dando mostras de zangado (2)

Em “Maquista Chapado” (1) os autores apresentam a expressão:

Nê-bôm cerá dente – calma, não se irrite

José dos Santos Ferreira (2) (3) apresenta as duas formas: Cerá ou Cifrâ
Cifrá-dente  – mostrar os dentes, com expressão de cólera

Vôs nancassá cerá dente; iou nádi susto – não esteja com este ar zangado; não me assusta.
«Ti Vicente boca gránde,/
Cifrá dente, preguntá…»

A Dra. Graciete Batalha (4) refere o seguinte:
Cifar verbo ant.
Polir com cifa?
Usado apenas na expressão plebeia cifá dente! “vai-te embora, não me maces, não me chateias”
Penso que deste termo cifa, areia fina, se derivaria em Macau cifar dente, no sentido de “arear, polir os dentes”. Informadores idosos recordam-se de polir ou escovar antigamente os dentes com uma espécie de cinza de casca de arroz, visto que não existia pasta dentífrica. Em vez dessa cinza, poderia ser usada, em época mais antiga, areia fina ou qualquer semelhante a areia.”
(1) FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2001.
(2) FERREIRA, José dos Santos – Macau di Tempo Antigo, Vocabulário, 1985.
(3) FERREIRA, José dos Santos – Macau sã assi, Vocabulário, 1967.
(4) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.

Outra expressão empregada na minha infância principalmente quando me queixava:
Mamá, mana chipi eu.
Mãe, a mana (irmã mais velha) beliscou-me.
Chipir – apalpar com os dedos, apertar na mão, agarrar (1)
« co su mám (…)… chipi na patinga …» com a sua mão agarrar na barriga da perna. (2)
(1) Étimo – V. chipe-chipe. Deve ser verbo formado – quer no malaio, quer no malaio-português – a partir do subst. Chipe, “ostra”, e sob a sugestão do movimento de abrir e fechar da concha. Cf. O provérbio do português de Malaca:
«Querê chipê, medo morrês; querê abri, medo aboá» – não saber o que fazer, como a pessoa que tem um pássaro na mão: se aperta, tem medo que o pássaro morra; se abre a mão, tem medo que ele voe. (Cit. pelo Prof. P.e Silva Rego, Apontamentos para o estudo  do dialecto português de Malaca , in Bol. Geral das Colónias, ano XVII, n.º 198)
BATALHA, Graciete Glossário do Dialecto Macaense, 1977.
(2) FERREIRA, José dos Santos – Macau sã assi.

Recentemente ouvi a expressão dum macaense: : “Boa Tacada
Utilizou-a no sentido – “Boa ideia”
Graciete Batalha (1) refere uma outra expressão no mesmo sentido:
“Tem tacada!” – é esperto, tem boas ideias, tem habilidade (linguagem corrente)
Alan Baxter /M. Senna Fernandes (2) apresentam outras expressões com este termo.

  • Golpe, truque.
  • Maneira. Buscâ ung´a tacada – procurar uma maneira.
  • Astúcia. Sã ung´a quiança inchido di tacada – é uma criança cheia de astúcia.
  • Imaginação. Vôs nôm têm tacada – você não tem imaginação.
  • Ung´a tacada já cavá tudo – acabei num instante.

(1) 1- Pancada de taco (no jogo do bilhar) 2 – Esperteza, manha, boa ideia, boa descoberta
Étimo – Port. Tacada
BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.
(2) FERNANDES, Miguel Senna ; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2002.

Esta lenga – lenga tem a particularidade de se referir às velhas amas africanas – Chacha di Congo – que eram levadas para Macau no séquito de seus senhores portugueses e as relações, que se diz nunca terem sido muito boas, entre africanos e chineses em Macau:

Chacha di Congo, de melmissó
Vai botica comprá missó
China dá pôco,
Chacha querê tanto
China dá-le-chacha
Chacha berá: Aió

A velha do Congo vai à loja comprar misso (molho de feijão), o china da loja dá pouco, ela exige mais (pelo mesmo dinheiro), o china bate-lhe (dá-le) e a velha berra: Aió .
 
Chacha – avó; mulher velha (actualmente a palavra é usada em sentido jocoso)
Conversa de chacha – conversa de velhas, conversa sem interesse (1)
No livro OU-MUN-KEI-LEOK (Monografia de Macau), (2) o tradutor Luís Gonzaga Gomes, apresenta uma pequeno vocabulário com transcrição fonética dos termos portugueses/macaenses para a pronúncia chinesa e a respectiva tradução em chinês.
Assim para o termo «chacha»

Xá-Xá (avó)  ———Tchi –tchá 自茶 —–em chinês A-pó

(1) Retirado de BATALHA, Graciete – Os Poetas Populares Macaenses.
Trabalho apresentado no III Encontro de Poesia realizado em Vila Viçosa, de 6 a 10 de Junho de 1987, iniciativa de «Património XXI», com o patrocínio da Câmara Municipal de Vila Viçosa.
(2) OU-MUN KEI-LEOK (Monografia de Macau) por Tcheong-U-Lâm e Ian-Kuong-Iâm. Tradução do Chinês por Luís G. Gomes, 1950.
mandarin pīnyīn: yà pó; cantonense jyutping: aa3po4
自茶mandarin pīnyīn: zì chá; cantonense jyutping: zi6 caa4