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Termo ainda hoje, embora pouco, empregado na comunidade macaense: mão-tanto

Mám mão.

Mám-tanto  – aquele ou aquele que mexe em coisas que não lhe competem

O vocábulo mám é empregado em certas frases, em vez de braço. Estendê mám: estender o braço.

Outros termos «maquista» referentes à mão:

Mám cumprido: pessoa que costuma estender o braço para praticar roubo; mão ligeira, mão que rouba. Diz-se por exemplo, dos criados que furtam pequenas coisas aos patrões (1) «Ela mám cumprido » (linguagem corrente) (2)

Mám fichado – avarento, que não abre a mão para dar ou gastar dinheiro

«Ah , minha Siára num sabe

Man fichado qui fechado!

Ôvo de sua galinha

Guardá muto bem guardado.

Ajuste de casamento, em T.S. Y. K, I Volume

Mám fichado qui fichado: mão sempre muito fechado¸ diz-se de pessoa avara; mesquinha.

Mám p´ra trás – mãos ociosas, atrás das costas – Por extensão: indivíduo ocioso, preguiçoso.

Mám-cuti– maçaneta do fecho de uma porta ?:

«quebrá porta de despensa puçá (puxar) na mám-cuti ….»

de Tia Pacoela, em Renascimento I, n.º 2, p. 137.

“Não encontrei quem conhecesse o termo. Poderia ser a mãozinha que se usava antigamente para bater à porta da casa, junto ao fecho” (2)

Mão-de-buda – espécie de cidra:

 « ….as líchias, que aumentam a inteligência, as mãos de Buda, que tranquilizam o espírito, e a raiz de trate, estimulante afrodisíaco…» (3)

A cidra, ou tangerinas mãos de buda, que é o que significa o seu nome chinês fát-sân-kâm. Esta última é considerada fruta sagrada, sendo frequente representar-se o Buda com uma cidra na mão. Porém, ela só é comestível depois de preparada em doce, sendo o seu suco empregado na lavagem de tecidos delicados e valiosos …” (4)  

(1) FERREIRA, José dos Santos – Macau Sã Assi, 1967/68 https://nenotavaiconta.wordpress.com/2020/06/21/leitura-macau-sa-assi/

(2) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1988, p. 214.

(3) BRUNO, Emílio de San – O Caso da Rua Volong, p.10, nota

(4) GOMES, Luís G. – Chinesises. VII-Colecção Notícias de Macau. 1952, p.101

SIU HENG TCHÔNG 肇慶棕 Bolos de arroz glutinoso à moda de Siu Heng

Estes bolos (1) são conhecidos em Macau pelo nome de catupás (2) sendo vendidos e consumidos pelos chineses nas ocasiões da Festividade de Pelopé, isto é, na Festividade dos Barcos Dragões.

Em Macau, chama-se Pelopé à centopeia e os barcos que entram nas corridas desta festividade chinesa são chamados pelopés, por causa do seu feitio e dos seus numerosos remos lembrarem uma centopeia.

O termo Siu Heng Tchông é empregado para se referir aos pés propositadamente deformados das mulheres chinesas que com as suas ligaduras faziam lembrar estes bolos de arroz glutinoso, de formato piramidal, embrulhados com folhas de figueira ou de bambu e que em Siu Heng (cidade) (3) se fazem com quase meio metro de comprimento. (4)

(1) 肇慶 mandarim pīnyīn: zhào qìng zōng; cantonense jyutping: siu6 hing3 zung1

(2) Catupá – espécie de pequeno pudim de arroz gomoso, cozido em banho-maria dentro dum envólucro de folha de bananeira. A folha é enrolada e atada com uma espécie de fio de ráfia, de modo a ficar com a forma aproximada duma pirâmide triangular. O catupá pode ser “doce” ou “salgado”. O “doce” não é na verdade doce, mas insípido e, ao comer, toca-se em açúcar. Consta apenas de arroz cozido. O “salgado” tem no centro uma gema de ovo salgado, bocadinhos de toucinho de porco, sementes de lotus, uns grãos de cevadinha, etc. Esta espécie de pudim é geralmente preparado por chineses e oferecido aos amigos por altura da Festa do Dragão, no 5.º dia da 5.ª lua, isto é, pelo nosso mês de Junho

Há uma cantiga do antigo folclore, que muitas pessoas idosas e de meia idade ainda sabem onde a palavra ocorre:

«Quim querê pra mim

Tant´ancusa logo dá:

Apa, muchi coco,

Pipis, catupá.»

BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977

(3) Zhaoqing (肇慶) –  em cantonense: Siu Hing- cidade localizada na província de Cantão (Guangdong) no sul da República Popular da China.

(4) GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa in «Mosaico», V-25/26 de Setembro/Outubro de 1952, pp 44-45.

1- Refogado à chinesa, geralmente constituído por uma mistura de carnes e vegetais variados.

Esta expressão entra na designação de vários pratos da cozinha macaense, por exemplo «chau-chau pele» (o mesmo que tacho), «galinha chau-chau parida», «porco chau-chau mamá», «pigmentos chau-chau», «arroz chau-chau», «chau-min»  etc

2 – Mistura de coisas diferentes.

3 – Chau-chau lau-lau – Confusão, mixórdia, desordem.

«É tudo um chau-chau lau-lau» – está tudo fora dos eixos, em confusão, ninguém se intende

«Fazer um chau-chau» pode significar «fazer um estrugido de vários ingredientes»

ou «fazer uma misturada, uma confusão» (1)

Étimo – ch´áu –    (2) –  refogar, estrugir, frigir ((em pequena porção de gordura). Entre os macaenses a reduplicação chau-chau designa de facto variedade de comidas, mas em chinês o sentido fundamental é o estrugir, frigir.

Toda a informação de BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977

(1) «Ung´a chau-chau lau-lau ná-mas!» isto é uma mixórdia, nada mais! (FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista chapado, 2001

(2) mandarim pīnyīn: chǎo; cantonense jyutping: caau2

Antigamente, o balichão, 鹹蝦醬 (1) pasta de camarão salgado (ingrediente/condimento da cozinha cantonense) era abundantemente produzida nas águas costeiras de Macau, pois era muito utilizado quer pelos chineses na sua culinária quer pelos macaenses que incorporaram-no na sua cozinha e consideram-no «coisa de Macau»
O balechão é um tempero ou um acompanhamento para certos pratos. É feito de camarões pequenos, sal, e ingredientes picantes. Guarda-se como uma conserva e vai-se utilizando em pequenas porções que se juntam aos refogados para tempero ou se passam na frigideira para acompanhamento. O nome deve ser de proveniência malaia e aprendido pelos chineses através da culinária macaense . As donas de cada macaenses, que o prepavam para consumo da família diziam que «balechão china é muito ordinário»” (2)
NOTA 1 – BALICHÁM – condimento salgado preparado com camarões muito pequenos, secos; muito importante em muitos pratos macaenses (3). Neste livro regista ainda o termo. «Bicho-balichám» como pessoa irrequieta.
NOTA 2 – BALCHÃO (prato goês) é o termo registado por Sebastião R. Dalgado, (4), mas conforme referência que extrai do “Ta-Ssi-Yang-Kuo” de 1990, em Macau, o termo usual é BALICHÃO.


NOTA 3 – O nome está na toponímia de Macau nomeadamente a «Travessa do Balichão – 鹹蝦巷» situada no centro da povoação de Coloane, perto do Parque Eanes, entre a Avenida 5 de Outubro e a Rua dos Negociantes.
鹹蝦巷mandarim pīnyīn: xián xiā hàng; cantonense jyutping: haam4 haa1 hong6
NOTA 4 – Dum texto em patuá de 23-11-2013 do saudoso Carlos Coelho publicado em (5):
“Tõma caldo di Tong-Kuá cô rábo di pêxe, hám-sun-chõi chau-chau sun-keong, kiu-tou cô chá-siu, chau-nap-nap cô chõi-pou, fã-sang, margôso-minchi cô bálichãm máquista, pêxe.cucûz cô sutate, cebolinha china. Sabroso rufã cô arroz branco. Rufã qui nádi pódi pára. Cãva tudo rispirâ fundo. Qui rámede. Tudo cumizaina sã pêdi arroz. Senti tem qui vâi sium pádri confessã qui tâ comê di Gula. Qui ferrádo. Dessã vai-ia. Nuncasã tudo ano tem tanto gente volta nossô amado Terra Macau. Sã nunca?
NOTA 5Sabores da Lusofonia – Balichão
http://www.gastronomias.com/lusofonia/mac007.htm

NOTA 6 – Não esquecer,  recordar a letra da “Rua di Balicám” do Adé dos Santos Ferreira em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/23/musica-rua-di-balicham/

(1) 鹹蝦醬 – mandarim pīnyīn: xián xiā jiàng; cantonense jyutping: haam4 haa1 zoeng3
(2) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977, p. 304
(3) FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, IIM, 2001
(4) DALGADO, Sebastião Rodolfo – Glossário Luso-Asiático, Volume I, 1919
https://ia800202.us.archive.org/31/items/glossriolusoas00dalguoft/glossriolusoas00dalguoft_bw.pdf
(5) http://jbfoco.com.br/2019/11/escritos-em-patua-di-macau-por-carlos-coelho/

Extraído de «O Independente» Vol I, n.º 9 de 30 de Outubro de 1868

Louquis – mulher pública, na China (do cantonense Lôu Kôi -老譽 – prostituta) (1)(2)
Tancar – Habitante-tripulante do tancá (pequeno barco chinês movido a um ou dois remos ou com uma vela) e de outros barcos chineses. Tancá neste sentido é, de modo geral, “homem do mar”, em Macau e Hong Kong. A forma tancar é produto de ultra-correção, por se supor que faltava o –r final, normalmente suprimido em Macau. (3)
Fille de joie – prostituta, mulher da vida, cortesã, meretriz
Locachaes no sentido de pequenos (menores) loucanes, assim denominados os “marujos chineses”
(1) 老譽mandarim pīnyīn: lǎo yù; cantonense jyutping: lou5 jyu6.
(2) DALGADO, Sebastião Rodolfo – Glossário Luso-Asiático, Volume I, 1921
(3) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.

Um poema da Professora Graciete Batalha, em “Língu Maquista” sobre o progressivo desaparecimento das lorchas nas águas de Macau, em finais da década de 80.

Ai mar di Macau sem Vela!

Onde foi teu velejá?
Qui saiã vela tam bela,
Cor di azul, rosa, amarela,
Deitando a sombra na mar! …

Hoje tancá nã qué vela,

Pressa, pressa, as lorchas nua …
Antigo passa tambela,
Em frente di eu-sa janela
As vela, em noite di lua ! …

Hoje nem lua nem estrela,

Nem sol vê elas passa …
Onde qui Macau é ela
Sem boniteza di vela
Sem borboleta na mar? …

             Gracieta Batalha (1)

Anteriores referências à Professora Graciete Batalha em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/graciete-batalha/
(1) Da Sampana ao Jactoplanador, Da Cadeirinha ao Automóvel. Correios e Telecomunicações de Macau, 1990, 114 p.

In «Bol do Governo da Província de Macau, Timor e Solor», Vol 6, 16 de Agosto de 1851, n.º 39
TIM-TIM
1- Ferro velho, homem que anda pelas ruas comprando objectos usados e que se faz anunciar batendo com um pequeno ferro numa chapa metálica.
2- Geralmente no plural tim-tins – Lojas e tendas onde se vendem objectos usados: louças, móveis, antiguidades, etc. Ir aos tim-tins é precorrer as ruas onde se concentram essas lojas e tendas, as ruas dos tim-tins. Havia antigamente ao Largo dos tin-tins (cf. T.S.Y.K.II Vol.)
´´Etimo – tin-tin, é apenas onomatopaico. O chinês popular tem a expressão teng-teng lou, em que lou (佬) é “homem”, e teng teng (não é palavra chinesa) é apenas uma forma onomatopaica. (BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.p.546) 
ADELLO (ADELO) (do árabe – corretor, leiloeiro, pregoeiro)
1- Pessoa que compra roupas e coisas usadas para revender. = ADELEIRO, FERRO-VELHO
2- Estabelecimento onde se vende roupa, livros ou outros objectos usados. (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)
NOTA: Sugiro visualização de “Um olhar sobre os tintins
http://bairrodooriente.blogspot.com/2009/10/um-olhar-sobre-os-tintins.html

Onde que tu vai, Macau?
Qui de amanhã ocê tê?
Já não é de Portugau
Nã é de China tambê …
 
Ou-Mun, sim, é de China
Macau foi de português,
Mas agora, terá minha,
Onde que vou pôr meus pés?
 
Filho di Macau largado
Orfão de mãe viva, assim …
Meu povo chora càlado.
Que nã sabe ele-sa fim …
 
Filho de Macau largado
Qui de amanhã para mim?

Graciete Batalha (1)

(1) «Revista de Cultura» n.º 20 (II Série) Julho/Setembro 1994. ICM.
Referências anteriores à Professora Graciete Batalha, em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/graciete-batalha/

Recentemente a propósito dum acidente de viação utilizei o termo «choncâ» e os meus familiares disseram que não «existia este termo em português»
Com razão pois segundo a Professora Graciete Batalha (1) o étimo veio do chinês.
Chocar, embater (diz-se geralmente em referência a acidentes de viação): «o carro foi choncá noutro»; «cuidado, nã vai choncá!» (linguagem corrente)
Étimo – Chinês chong, 撞 (2) – “ colidir, dar encontrão em”, possivelmente com contaminação do português chocar.
(1) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977, página 404
mandarim pīnyīn: chuáng; cantonense jyutping:  zong6.

Estando a preparar um texto para a postagem (1), encontrei este termo maquista “gavartá” num dos parágrafos da “Carta di Siára Pancha a Nhim Miquéla” (2)
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá un-há buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra que vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista , por isso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita injterá, eu achá graça; pôde crê? Padri que cusa pôde tem? coitado! Eu sinti sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di têra? Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, que cusa fazê di lugar pra esconde?” (3) (4)

“Gavartá” é um termo maquista que nunca ouvi; mas está referenciado em (5)

Gavartâ – esgaravatar, revolver
Gavartâ armário – revolver o armário.
“Gavartâ ôsso di bur-bur” – esmiuçar, pesquisar ou investigar em todos os pormenores.

Ouvia-se e falava-se muitas vezes, o termo “gafinhâ”, talvez com o mesmo sentido – esgravatar, procurar – (6) (7)

Gafinhâ – Procurar, esgaravatar, descobrir uma coisa difícil de achar
Úndi vôs já vai gafinhâ estung´a pintura?” – Onde foi que descobriu este quadro?
“Gafinhâ ôsso di bur-bur” – diz-se da pessoa que é muito bisbilhoteira, que faz muitas perguntas indiscretas. (bur-bur é uma variedade de peixe do mar, sem espinhas)

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/11/19/noticia-de-19-de-novembro-de-1864-visita-dos-voluntarios-artilheiros-de-hong-kong/
(2) «Carta di Siára Pancha a Nhim Miquéla» in «Ta Ssi Yang Kuo», Volume I, p. 324. (3)
(3) «Siára Pancha» relata as investigações que se fizeram em 1864 para achar a comunicação subterrânea que se dizia existir entre a fortaleza do Monte e a igreja dos jesuítas (S. Paulo).
(4) “Agora estão a escavar em São Paulo: acharam um buraco no Monte e outro no frontispício da igreja e as pessoas mais velhas dizem que é um caminho subterrâneo que ia da igreja para a fortaleza no tempo dos paulistas; por isso estão agora a escavar todo aquele mato, para descobrir o caminho. Toda a gente diz que há ali muito dinheiro que os jesuítas enterraram. Eu acho graça: consegues crer? O que é que os padres podem ter? Coitados. Acho que são histórias. Até mesmo o caminho, quem sabe? O que é que eles fariam com um caminho subterrâneo? Eles não eram hereges como os maçons, o que fariam do esconderijo”.
CARDOSO, Hugo C., HAGEMEIJER, Tjerk, ALEXANDRE, Nélia – Crioulos de Base Lexical Portuguesa in pp. 666-687.
http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/30870/1/Cardoso_Hagemeijer_Alexandre2015-Antologias_crioulos.pdf
(5) FERNANDES, Miguel Senna ; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2001
(6) Esgravatar (ou esgaravatar) – remexer com as unhas (a terra) (FIGUEIREDO, Cândido – Dicionário da Língua Portuguesa, Volume I, 1939)
(7) A professora Graciete Batalha refere também “gafinhar” com o sentido: “ fazer comichão ou cócegas com as unhas: « …lembrá que são algum animal que tá gafinhá com pê na sua mão ?» (Glossário do Dialecto Macaense)