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Pouco dias antes da fatalidade, explosão da fragata “D. Maria II, no dia 29 de Outubro de 1850, (1) o tenente Luiz Maria Bordalo, uma das vítimas, compôs uma sentida e maviosa poesia (nela um vago pressentimento do destino que o esperava) (2) no dia 20 de Outubro de 1850, que foi publicada postumamente numa Revista Estrangeira.

Viver é gozar – um dia
Também eu vivi, oh! sim!
Como é doce a fantasia,
Sonhar contigo, oh Malim!
Lembras-te? … a flor perfumada,
Às mãos d´ella desfolhada,
E depois lançada ao mar?
Do poeta cifraste a sina,
Como essa flôr, Guilhermina,
Devem meus dias findar.

Onde Camões desterrado
Seu tão triste amor carpira
Vivo eu pobre, eu deslembrado,
Sem ter como elle uma lyra:
Oh! Quem china antes nascêra,
Na minha Lorcha eu vivera
Com velas de esteira fina;
Que lhe importa ao china a terra,
Se tudo qu´elle ama, encerra
A Lorcha dum pobre china?

Oh deusa! … tu, que no céu
Trazes cortejo de estrelas,
Que quando assomas sem véu,
Tanto semelhas às bellas;
Faze tu, casta deidade,
Que a pura ingenua amizade,
Que esses dois anjos estreita,
Seja eterna, como as plagas,
Onde vem quebrar-se as vagas,
Quando a tormenta é desfeita.

Mas se esta canção magoada,
Por vós, ó anjos, fôr lida,
Se por ella recordada,
Fôr do nauta a pobre vida;
Se em meio de alegre dança.
Surgir d´elle uma lembrança …
Oh! Fazei que uma saudade,
Busque ao triste ode elle arquêja,
Venha oh! Venha! … inda que seja
Nas azas da tempestade!.

Macau, 20 de Outubro de 1850
L. M. Bordallo (3)

explosao-da-fragata-d-maria-ii-em-1850-ihttp://www.acessibilidade.gov.pt/accessmonitor/dir/see/?cD0yfG89aW1nfHM9MzI3<

(1) A guarnição da D. Maria II compunha-se de 224 praças, das quais pereceram 188, salvando-se apenas 36 , que estavam em terra, doentes ou destacados e um grumete o único que sobreviveu entre os feridos que foram transportados ao hospital de Macau. Apenas foram enterrados 71 corpos; os outros desapareceram. Entre os mortos contam-se o comandante capitão-tenente, Francisco d´Assis e Silva (o corpo só foi encontrado no dia 31); os 2.ºs tenentes Plácido José de Sousa, Luís Maria Bordalo, Francisco Xavier Teles de Melo, Francisco Xavier Teles de Melo, Francisco Cipriano soa Santos Raposo, o tenente Mouro Samgi, o guarda-marinha João Bernardo das Silva, o 2.º cirurgião José Maria Lucas d´Aguiar e o comissário Manuel Marques. Entre os mortos, além da guarnição, contavam-se três marinheiros franceses presos, e uns 40 chineses que estavam a bordo ou em embarcações próximas. (3)
A fragata “D. Maria II” era um navio mercante “Ásia”, comprado em Inglaterra em 1831 e transformado em fragata no ano de 1832. A grande explosão deu-se no paiol que continha 300 barris de pólvora, e teria sido causada de propósito ou descuido pelo fiel da artilharia.

explosao-da-fragata-d-maria-ii-em-1850-ii“Explosão da Fragata D.ª Maria 2.ª  em Macao no anno de 1850”
Autor desconhecido de origem chinesa. (4)

Foi iniciativa do comendador Lourenço Marques mandar retirar do fundo do porto da Taipa o casco da fragata «D. Maria II» e algum tesouro, tendo sido o casco vendido por algumas mil patacas em benefício do erário público.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/12/14/noticia-de-14-de-dezembro-de-1902-falecimento-do-comenda-dor-lourenco-marques/
Outras referências a esta fragata:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fragata-d-maria-ii/
Aconselho visualização do vídeo “Explosão da Fragata D. Maria II”, de João Guedes, publicado a 19/01/2014 e artigo “Macau 1850: O mistério do maior desastre naval ultramarino português dos últimos duzentos anos”, do mesmo autor em:
https://www.youtube.com/watch?v=phN-7MWn39Q
https://temposdoriente.wordpress.com/2011/03/06/macau-1850-o-misterio-do-maior-desastre-naval-ultramarino-portugues-dos-ultimos-duzentos-anos-01-marco-11/
(2) “Virá aqui a propósito referir outra extraordinária coincidência relativa ao mesmo acidente:
Pela mala chegada em Outubro, recebeu o 2.º tenente Luís Maria Bordalo, uma carta de Lisboa do seu irmão Francisco Maria Bordalo (5) em que lhe dizia que em Lisboa corria a notícia, de ter voado com uma explosão a fragata «D. Maria II», carta essa que Luís Maria Bordalo mostrou a alguns dos seus camaradas. É extraordinário que tenha sido falado em Lisboa dum acontecimento que só viria a acontecer dali a dois meses e a 3600 léguas de distância” (3)
(3) Transcrito de TEIXEIRA, Padre Manuel – Taipa e Coloane, 1981.
(4) https://www.google.com/culturalinstitute/beta/u/0/asset/the-explosion-of-the-frigate-dona-maria-ii-off-taipa-island-macau/LwEeQsqGGH7xTQ
(5) Francisco Maria Bordalo (1821-1861) irmão de Luís Maria Bordalo, oficial da armada (promovido a capitão-tenente da armada em 1859), escritor, dramaturgo e colaborador em várias revistas portuguesas, também esteve em Macau de 1849 a 1852 quando era tenente, exercendo o cargo de secretário do governo de Macau. Publicaria em 1854 uma novela, baseada na tragédia da fragata D. Maria II, ocorrida a 29 de Outubro de 1850.  O protagonista Luís Osório seria o seu irmão Luís Maria Bordalo (morto na explosão) e todos os outros nomes (idênticos aos da vida real) correspondiam a tripulantes da fragata, mortos ou não na explosão. Ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/06/08/leitura-sansao-na-vinganca/
NOTA:Luís Maria Bordalo (1814-1850) promovido de guarda marinha a 2.º tenente em 26 de Novembro de 1840 publicou um drama original em 4 actos: “O Judeu” em 1843.

Romance de Marta Curto publicado em 2009 (1) (2).
É um romance que se lê muito bem, uma história de amor entre episódios históricos de Macau, com o desfecho na era actual.
Amor no Rio das Pérolas CAPA

Sinopse (na contra-capa)
No dia 29 de Outubro de 1850, Macau é abalada por uma forte explosão (3). No porto da Taipa no lugar onde antes estava fundeada a fragata D. Maria II, vinda de Goa para vingar a morte do governador Ferreira do Amaral às mãos dos chineses, apenas se vislumbravam os restos  do casco de um navio incendiado. Em terra, acompanhado de poucos marinheiros, o filho do comandante Francisco d´Assis e Silva sobrevive e assiste à tragédia. Com apenas cinco anos vê-se órfão numa terra estranha. No mesmo ano, uma menina de poucos meses é abandonada à sua sorte na Roda da Santa Casa da Misericórdia de Macau. Receberá o nome de Vitória e o destino fará com que se encontrem anos depois.
Em Junho de 2009, Wai vive emparedado nas regras da tradicional cultura chinesa, entre os desejos do pai e o vazio que vislumbra para o seu futuro. Sofia sente-se encurralada entre Portugal, que já não conhece, e Macau, lugar onde nasceu que vê como a sua terra apesar da ascendência portuguesa. Uma visita à capela da Guia fá-la descobrir o diário onde é revelada a história de Francisco e Vitória, pela qual se encanta de imediato levando-a a sonhar com o amor.
Serão precisos mais de 150 anos para as vidas de todas estas personagens se cruzarem no tempo. Histórias feitas de encontros e desencontros, de amores proibidos, de amores que ainda nem se sabe que virão. Um livro que nos faz viajar entre a Macau do século XIX e a de hoje, dez anos depois de Portugal ter abandonado a administração do território, fazendo-nos descobrir uma nova realidade desconhecida para a maioria dos portugueses.
Amor no Rio das Pérolas CONTRACAPA

NOTA:
O rio das Pérolas (珠江 mandarim pinyin: Zhū Jiāng; cantonense jyutping: zyu1 gong1) é o rio localizado no sul da China, sendo o terceiro rio chinês em comprimento (depois do Yangtzé e do rio Amarelo) e o segundo em caudal (depois do Yangtzé). Atravessa as províncias de Guangdong, Guangxi, Yunnan e Guizhou e parte de Hunan e Jiangxi, desaguando no mar do Sul da China. É formado pela convergência do Xi Jiang (“rio Ocidental”), do Bei Jiang (“rio Setentrional”) e do Dong Jiang (“rio Oriental”) (4) A sua bacia hidrográfica tem 409480 km² de área. No seu delta, localizam-se Macau e Hong Kong, duas cidades e portos de grande importância económica para a República Popular da China. Por isso, a foz do rio é uma região comercial e industrial muito importante e altamente movimentada, denominada muitas vezes de região do Delta do Rio das Pérolas (珠江流域mandarim pinyin: zhu jiang li´yù; cantonense jyutping: zyu1 gong1lau4 wik6 área do rio da pérolas
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_das_P%C3%A9rolas
(1)CURTO, Marta – Amor no Rio das Pérolas. Livros d´Hoje, 2009, 237 p., ISBN: 978-972-20-3916, 23,5 cm x 15,5 cm.
(2) Entrevista da autora pela jornalista Sandra Gonçalves sobre o livro:
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=426399
Maria Curto nasceu em 1978, licenciou-se em Comunicação Empresarial e, aos 20 anos, começou a trabalhar como jornalista. Em 2007 mudou-se para Macau, onde trabalhou e vivreu durante dois anos.
(3) Episódio histórico também mencionado por Francisco Maria Bordalo na novela “Sansão na Vingança”, relatado em anterior post:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fragata-d-maria-ii/
(4) Por isso chamado 珠江三角洲mandarim pinyin: zhu jiang san jué zhou; cantonense jyutping: zyu1 gong1 saam1 gok3 zau1

Trata-se de uma novela escrita por Francisco Maria Bordalo (1) e publicada em 1854 n´O Panorama (2)
É baseada na tragédia da fragata D. Maria II, ocorrida a 29 de Outubro de 1850.(3)  O protagonista Luís Osório seria o seu irmão Luís Maria Bordalo (morto na explosão) e todos os outros nomes (idênticos aos da vida real) correspondem a tripulantes da fragata, mortos ou não na explosão. (4)
Segundo Pedro da Silveira  que prefaciou a presente edição (5) : ” Claro que Sansão na Vingança!” não é uma obra-prima, nem bem uma novela perfeita. Se lhe falta, no desfecho, a força dramática que o assunto pedia, já o seu desenvolvimento padece também de evidentes «desuniões»…(…). Dito já que F. M. Bordalo foi o iniciador da nossa ficção de temática ultramarina…
O livro apresenta como apêndice uma NOTA INTRODUTÓRIA de Pedro da Silveira, explicando a proveniência dos  dois textos relativos à tragédia da D. Maria II: “Ofício do Comandante d Corveta «D. João I» ao Ministro e Secretário de Estado dos negócios da Marinha» e “Explosão da Fragata «D. Maria II» no Ancoradouro das Taipas, em Macau (autor: Guilherme José António Dias Pegado, macaense, colaborador assíduo e redactor da “Revista Popular” onde foi publicada) e do texto “Acon” (publicada na Revista Popular, assinada e datada por Francisco Maria Bordalo , Macau,  12 de Abril de 1852)
(1) Francisco Maria Bordalo (1821-1861), foi promovido a primeiro-tenente supranumerário a 12 de Novembro de 1850, e foi ao mesmo tempo nomeado, em comissão , secretário do novo governador da província de Macau, Timor e Solor, conselheiro Gonçalves Cardoso, partindo os dois de Lisboa para o seu destino a 23. Foram via Suez (ainda sem canal), para chegarem, com vários transbordos, a Hong Kong em 24 de Janeiro de 1851.
No Egipto recebeu má sombra: aí, desembarcando em Alexandria, por passageiros vindos para a Europa, Bordalo teve a primeira notícia da explosão em Macau da fragata D. Maria II; notícia algo vaga, suficiente porém para não deixar sossegado quem tinha entre os tripulantes desse navio de guerra um querido irmão. Em Singapura tudo ficou esclarecido: a D. Maria II perecera e com ela quase toda a tripulação, incluso o segundo-tenente Luís Maria Bordalo. Chegou a Macau em 24 de janeiro de 1851, retirou-se passados dezasseis meses, em Maio de 1852“. (2)
(2) Revista “O Panorama: jornal literário e instructivo da sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis” (revista fundada e dirigida por Alexandre Herculano)
(3) Sobre a explosão da fragata D. Maria II, aconselho leitura do artigo “O maior desastre naval ultramarino dos últimos 200 anos de João Guedes, no JTM e que se pode encontrar em:
http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=369103010  
(4) Dados retirados do Prefácio do mesmo livro, de Pedro de Silveira.
(5) BORDALO, Francisco Maria – Sansão na Vingança. Imprensa Nacional, 1980. Recolha, prefácio e notas por Pedro da Silveira (V-XI), 63 p., 26 x 18,3 cm.
Biografia de Francisco Maria Bordalo em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Maria_Bordalo.
Outros citações encontradas na net:
1 – A Passagem da Linha “…foi o introdutor do romance marítimo na nossa literatura. Amigo íntimo de Herculano, de Garrett e de outros intelectuais da época, deixou páginas de muito interesse para o conhecimento da vivência a bordo dos navios do seu tempo…(…). Aa suas impressões de viagens foram traduzidas pelo Time”
http://www.ancruzeiros.pt/ancpassagem-linha1.html.
2 – De Maria das Graças Moreira de SáFrancisco Maria Bordalo e o Romance Marítimo Oitocentista: Uma Tentativa Falhada
Com este artigo pretende-se lembrar o tipo de composição do século XIX a que Fidelino de Figueiredo chamou «romance marítimo» e o seu maior cultor em Portugal, Francisco Maria Bordalo. Inspirado no já então célebre Eugène Sue, e na esteira do americano Fenimore Cooper e do inglês Frederick Marryat, Francisco Maria Bordalo tenta criar histórias de enredo, localizadas no pequeno pátio dos navios que percorriam as costas da Península e do Império Ultramarino, focalizadas nas relações dos profissionais do mar com a gente de terra. Eugénio (1846) e Nau de Viagem (1880) são exemplos deste tipo de romance que falha, sobretudo, pela falta de volume e de autenticidade das personagens.”
http://ww3.fl.ul.pt/revistas/rflul/revflul234.html
Outras obras de Francisco Maria Bordalo relacionadas com Macau:
“Manuscrito achado na Gruta de Camões” (Macau, 1852)
“Um passeio de Sete Mil Léguas” (Lisboa, 1854)
Parte de uma das “cartas” que compõem este livro, pode-se ler em:
http://caderno-do-oriente.blogspot.pt/2010/08/as-portas-de-macau.html.
Pode-se ler trecho “Macau vista do mar“, do mesmo autor em
http://caderno-do-oriente.blogspot.pt/2010_01_01_archive.html.