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Alguns vendedores das ruas de Macau.
4.11.1903 – Desenho de Filipe Emílio Paiva

Vendedor ambulante de chá e frutas. Arrematante do que faz crescer o arroz …! nas várzeas. Tangedor de horas durante a noite (sereno china). Negociante de agulhas, linhas e alfinetes. Vendedor ambulante de doces cristalizados. Vendedor ambulante de pato assado e miudezas de porco.

“Permanecendo um certo tempo em Macau, mais tarde ou mais cedo, tem que se ir aos tintins, ou lojas de bricabraque chinesas.
Aglomeram-se estas lojas por detrás da Igreja de Stº António.
Tudo o que há de mais esquisito e disparatado em mobílias, loiças, antigas e modernas, chinesas ou europeias, aparece no amontoamento destas lojas, de envolta com lixo, maus cheiros, a cozinha e o menage dos proprietários.
Quem tem paciência para andar de um para outro tintin, rebuscando, regateando, consegue às vezes, mas raramente, encontrar algum bordado antigo e raro, alguma porcelana, jarra ou chávena de algum valor, e que se adquire barato. Porém isto já está tão explorado, e como em Hong Kong o mercado é maior e mais rico, os tintins de Macau nada dão ao curioso, que recompense a maçada de regatear com os chineses, discutir, entrar e sair em recusas de oferecimentos cinco ou seis vezes na mesma loja.
Além disso é preciso saber avaliar, para saber tirar daqueles lugares bafientos, alguma chinesice curiosa, produto de espólio de um chinês, porque como já disse, o melhor vai tudo para Hong Kong para os grandes tintins de lá, ou vai figurar  montras do Queen´s Road, nas lojas de curiositiés.
No que os bricabraques do Bairro de St.º António são ainda hoje abundantes e nada caros é na compra e venda de mobílias.
Há esplêndidos móveis à americana e à moda inglesa, realmente muito baratos, assim como se vêem artigos de mobília curiosos pela sua forma antiga. Em mobílias à moda china também é abundante o mercado, especialmente os espelhos e as mobílias de Cantão. Faria bom negócio quanto mais não fosse para aproveitamento das ricas madeiras e embutidos de madrepérola, e mármores, quem as transportasse para Lisboa.
“Mas nestas lojas está tudo amontoado! São barracas que extravasam a rua, louças, botas e sapatos, ferragens, armas, pratos e estatuetas, oleografias, números dos jornais ilustrados, ingleses ou franceses, tudo isto abrigado do sol ou da chuva por toldos seguros por varas de bambu, ou ripados de tábuas negras ardidas pelo sol e pela chuva.
E ali vive também o dono da loja coma mulher e filhos, numa semi-escuridão, rodeado de lixo, de poeira amontoada de anos, respirando aquelas emanações fétidas, pútridas, dos detritos orgânicos que se evolam de toda aquela sujidade.
Operários ali também trabalham, por conta do dono da loja, consertando, lavando, ou envernizando, e acomodam-se, ali mesmo se arma uma mesa, onde o calor se sentam todos a comer os chaus-chaus, cozinhados também ali.
É isto o que se chama um tintin.
O chinês gosta e aprecia muito tudo o que é antigo, há porcelanas e nomeadamente as sanguinas que chegam a atingir preços fabulosos, uma jarra, uma simples jarra, quase sem feitio nenhum, só pela beleza dos vernizes, custa às vezes duas mil patacas.
Ao europeu, o chinês do tintin pede sempre uma quantia fantástica por qualquer cousa, é preciso estar de sobreaviso com tal sujeito, convence friamente  e nunca se zanga com o preço que lhe oferecem.
– Nõ pódi sehôlo! Tai-a-ti! Nõ pôdi!
É preciso ser tenaz, e muito regateador para fazer qualquer pequena compra, e sobretudo, ter muita paciência,
PAIVA, Filipe Emílio (1.º tenente de Marinha) – Um Marinheiro em Macau – 1903 – Álbum de Viagem. Museu Marítimo de Macau, 1997, 284 p.
NOTA: “Um olhar sobre os tintins”
http://bairrodooriente.blogspot.com/2009/10/um-olhar-sobre-os-tintins.html

“É difícil nos primeiros tempos perceber os macaístas a falarem entre si, porque usam um patois especial que não é nem chinês nem português, entremeado de gritos rápidos.
Quando falam com um português de Portugal lá se explicam melhor, mas com uma entoação à inglesa.
Assim, ao recém-chegado nunca se esquecem de perguntar:

 Como gosta di Macau?

 Está-se a ver o how do you like dos ingleses e ainda a resposta, a querer dizer – muito…infinito!
Dizem sempre em resposta:

 Oh! Sim … (tradução do Yes   britânico)

 E quando não entendem dizem: Como não!
Os géneros masculino e feminino são trocados, dizem – o mesa e a bule di chá, e arranjam frases que só a experiência é que nos dá conhecimento do que significam, tais como, por exemplo,   Abra a janela plan plan!, que quer dizer,  abra a janela de par em par!.
Como exclamação admirativa ou de indignação, de surpresa ou de pasmo, têm uma cousa assim parecida com          

Ou-I-àà!  An-na ”  (1)

NOTA: Filipe Emílio de Paiva assumiu as funções de oficial imediato da canhoneira «Diu», em missão de serviço na Estação Naval de Macau, em 25 de Abril de 1903. O navio estava fundeado no Porto Interior. O 1.º tenente Filipe Emílio de Paiva esteve embarcado na canhoneira até 28 de Fevereiro de 1905. (dados retirados da “Introdução” do livro)

(1)   PAIVA, Filipe Emílio de – Um Marinheiro em Macau 1903. Museu Marítimo de Macau, 1997, 284 p. , ISBN: 972-96755-6-2