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Não há nada melhor nesta data, 5 de Março de 2019 – CARNAVAL– para recordar Henrique de Senna Fernandes, (1) e as suas memórias sobre como se divertia a gente de Macau nesta festividade, na década de 30.
“Tudo isto ficou, em breve esquecido (2) com as festas de Carnaval, talvez as mais brilhantes e as mais animadas da década dos 30. Duas semanas antes do Sábado Gordo (10 de Fevereiro), realizaram-se os mais famosos “assaltos” da quadra, com tunas – eram três – a percorrer as ruas do velho burgo macaense. Os “assaltos” de que nos lembramos foram às residências de Abílio Basto, de Edmundo de Senna Fernandes, de Júlio Eugénio da Silva, da família Remédios, que vivia na casa onde reside hoje o Meretíssimo Juíz da Comarca. Também não esquecemos os “assaltos” à residência do Prof. Fernando de Lara Reis e a de António Ferreira Batalha.

Tuna e um grupo de mascarados na Casa do Professor Lara Reis (década de 30-séc. XX)

Éramos garotos, mas recordamo-nos de tudo, da esfusiante alegria, das tunas a tocar continuamente, das brincadeiras carnavalescas, das máscaras falando o patois e dos pares, muitos pares a dançar fox-trots, blues, quick-steps, valsas e marchas portuguesas, até alta madrugada.
A direcção do Clube de Macau decidira, nesse ano, ornamentar o salão de baile com motivos regionais portugueses. Um mês antes, ensaiou-se a garotada para se exibir na matinée de Domingo, com danças folclóricas nacionais. Adultos entusiasmados também quiseram aprender e formavam grupos à parte. Em todas as bocas se cantaram “Ora bate Padeirinha, ora põe o pé no chão” e “Rapazes, vamos ao vira, ai, que o vira é coisa boa”.
O Carnaval de 1934 iniciou-se com a soirée mas-quée, o baile tradicional do Clube de Macau. Houve muito poucos trajes carnavalescos, mas imensas casacas, smokings e jaquetinhas de cavalheiros e lindos evenings de senhoras. Madame Lebon, para tal acontecimento, fizera uma pequena fortuna. Todo este rigor e cerimonial era por causa da presença do Governador. Mais animado e popular, foi o baile que nessa mesma ocasião, se realizava no Clube de Sargentos, como era conhecido o Clube Recreativo 1° de Junho, onde não havia preocupações de protocolo e onde se estava mais à vontade. Tão divertida foi a festa do Clube de Sargentos que os sócios do Clube de Macau, mal terminaram a ceia, partiram para aquele Clube.
O Domingo Gordo, realizaram-se as matinées para os filhos dos sócios do Clube de Macau e do Clube de Sargentos. À noite, foi o baile na União Recreativa, com exibição das tunas e centenas de mascarados. Na Segunda, foi a vez do baile tradicional do Grémio Militar, mas também muito protocolar, nas primeiras horas, mas animadíssimo, depois da ceia. Na Terça-Feira, a rematar de novo, no Clube de Macau e no Clube de Sargentos, ambas as festas divertidíssimas, esquecendo-se todos que no dia seguinte era dia de trabalho e Quarta-Feira de Cinzas.
Outro acontecimento que merece menção nessa longínqua Primavera, foi a soirée-cotillon, realizada pelas alturas do “Micareme”, no belo edifício da União Recreativa, à Areia Preta. Foi o último baile no seu género, em Macau. Ali se marcou a quadrilha, com rigor palaciano, bailaram-se os “lanceiros” e as “polcas” dos tempos idos e exibiram-se outras danças próprias dum cotillon.”
(1) FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-36)
(2) Referia-se ao desaire da equipa de hóquei em campo do «Macau Hóquei Clube” que  derrotada em Hong Kong por 3 a 1.
“Nesse Fevereiro, para sofrimento e decepção dos aficionados, «Macau Hóquei Clube» é batido pela primeira vez na temporada e em Hong-Kong, perante uma enorme assistência. O oponente vencedor são os oficiais do navio “H. M. S. Midway” (3) que ganham por 3 a l.
O “Jornal de Macau” não esconde a sua amargura e é severo na sua crítica, quando diz no fim:
“Distinguem-se Lino Ferreira – o único que jogou bem do princípio ao fim – Hugo do Rosário, Ramalho e Cardoso, que teve a sua melhor tarde na presente época”.
No entanto, as palavras eram talvez injustas, pois os nossos rapazes tiveram apenas uma tarde de azar e levaram uma tremenda descompostura do Tenente Filipe O’Costa, mentor e treinador, alma do grupo. A derrota não lhes fez perder a confiança e foi mais um treino a sério, para a grande luta futura com a selecção da Malaia.”
http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797
(3) “The first ship to be named Midway by the Navy, she was built in 1921 as Oritani by Todd Shipyards Corporation, Brooklyn, New York, and renamed Tyee in 1939; was acquired by the Navy on a bareboat charter through the War Shipping Administration (WSA) from Alaska Transportation Company, Seattle, Washington; and commissioned at Puget Sound Navy Yard 10 April 1942.
https://en.wikipedia.org/wiki/USS_Midway_(AG-41)

Albert Einstein (1879-1955) em 1921
https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Einstein

Na sessão do Conselho Escolar do Liceu de 14 de Novembro de 1922, o Dr. Humberto Severino de Avelar (1) comunicou o seguinte:
«No desempenho da honrosa missão que a ele e aos seus colegas Dres. Adelino dos Santos Diniz e Telo de Azevedo Gomes fora incumbida pelo Conselho Escolar, se avistaram com o Professor Einstein a bordo do paquete «Kitano Maru» (2) no dia 9 do corrente, (3) a quem apresentaram as homenagens do mesmo Conselho, tendo-se aquele eminente sábio mostrado profundamente sensibilizado e reconhecido por tal facto, pedindo-lhes para apresentarem os seus agradecimentos ao Conselho e prometendo vir a Macau agradecer pessoalmente, desde que isso lhe fosse possível, no seu regresso do Japão» (4)

Albert Einstein e a esposa Elsa a bordo do «Kitano Maru», em 1922
https://www.scmp.com/magazines/post-magazine/travel/article/2140114/why-was-einstein-hong-kong-day-he-won-nobel-prize.

Afinal, Einstein não chegou a vir a Macau. Após uma permanência de 6 semanas no Japão, o retorno à Europa fez-se através de Shanghai, Hong Kong (6 de Janeiro de 1923), Singapura e Colombo.
(1) Os professores Humberto Severino de Avelar, Adelino dos Santos Diniz e Telo de Azevedo Gomes foram designados, na sessão do Conselho Escolar do Liceu (5) de 8 de Novembro de 1922, para irem a Hong Kong prestar homenagem ao Professor Einstein que por ali passava no dia 9; o reitor comunicou esta resolução ao Encarregado do Governo, o qual, compreendendo o alto significado deste démarche, deu a essa missão um carácter oficial enviando para esse fim ao Dr. Avelar, chefe da deputação, um ofício credencial. (2)
O Dr. Humberto de Avelar, bacharel em direito, além de professor no Liceu (latim e português)  exercia a sua profissão em consultório de advocacia na Rua de Praia Grande n.º 13.
(2) O paquete «Kitano Maru» vinha de França, via Singapura e partiu no dia seguinte, 10 de Novembro para o Japão.
(3) Precisamente a data, 9 de Novembro de 1922, em que foi anunciado em Oslo a atribuição do Prémio Nobel da Física de 1921 a Albert Einstein, “pelos serviços na física teórica e especialmente pela sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico” No entanto, Einstein somente recebeu a notícia por telegrama na sua chegada a Shanghai, três dias depois. A cerimónia da atribuição foi realizada a 10 de Dezembro, em Estocolmo, mas o físico não esteve presente pois encontrava-se em Kyoto.
NEBBS, ADAM – Why was Einstein in Hong Kong the day he won the Nobel Prize? in
https://www.scmp.com/magazines/post-magazine/travel/article/2140114/why-was-einstein-hong-kong-day-he-won-nobel-prize.
(4) Informações de TEIXEIRA, P. Manuel – Liceu Nacional Infante D. Henrique, 1969.
(5) O quadro de pessoal /professores) do Liceu Central de Macau, em 1922 era constituído por:

directorio-1934-liceu-central-de-macau-fachadaLiceu Central de Macau – Fachada

O Liceu Central de Macau (1) instalou-se no prédio 89 da Rua Conselheiro Ferreira de Almeida em 12 de Julho de 1924.
Adoptaria o nome de Liceu Nacional Infante D. Henrique em 1937 (B.O. n.º 34/1937)

directorio-1934-liceu-central-de-macau-bibliotecaLiceu Central de Macau – Biblioteca

Nesse ano de 1934 o Reitor era o Dr. José Ferreira de Castro e o Secretário, Fernando de Lara Reis que também chefiava a Secretaria com um funcionário, o 3.º oficial, Júlio José Gracias.
Como professores efectivos: Dr. José Ferreira de Castro (2.º grupo), Dr. Pedro Guimarães Lobato (5.º grupo), Dr. Artur Gonzales de Medina (6.º grupo), Dr. Adelino dos Santos Dinis (7.º grupo), Dr. José Maria Pereira (8.º grupo) e Fernando de Lara Reis (9.º grupo). Encontravam-se vagos, o 1.º e  o 2.º grupo.
Como professores provisórios e interinos estavam:
1,º grupo: Cónego Raúl Camacho
2.º grupo: Dr. João da Costa de Sousa de Macedo Vila Franca
3.º grupo: (Inglês) José Machado Nolasco da Silva
3.º grupo: (Alemão) Filipe Augusto do Ó Costa
Educação Física: Artur António Tristão Borges
Canto Coral: Bernardino de Sena Fernandes.
(1) Ver referências anteriores do Liceu Central de Macau em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/liceu-centralnacional-de-macau/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/liceu-de-macau/

Aproveitando esta notícia datada de 6 de Agosto de 1970, presto a minha homenagem a este pintor macaense, Herculano Estorninho (1)
“06-08-1970 – Regressa de Timor Herculano Estorninho” (2)
Herculano Estorninho em 1968 seguiu para Timor a fim de dirigir a Sociedade de Turismo e Diversões de Timor e regressa em 1970. Durante a sua permanência em Timor pintou muito da paisagem, usos e costumes dessa terra.

Herculano Estorninho - Aspectos da sua vida e obra CAPACAPA do livro “Herculano Estorninho, Aspectos da sua vida e obra” (1)

(1) Herculano Hugo Gonçalves Estorninho nasceu em Macau, na freguesia da Sé, em 1 de Abril de 1921. Era o nono filho de José Gonçalves Estorninho (natural de Lagoa, Portugal) e de Palmira Maria Augusto Estorninho (natural de Macau).
Frequentou o Seminário S. José e mais tarde o Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde foi aluno dos mestres que lhe deram os primeiros ensinamentos de desenho e composição, Fernando Lara Reis, Bordalo Borges e António de Santa Clara. Começou a pintar aguarelas em companhia de Luís Demée.(3). Prosseguiu os seus estudos com Brigite Reinhart, no então Colégio de Belas-Artes de Macau e depois em Belas-Artes Aplicadas com Frederic Joss, no Instituto de Arte Aplicada de Viena de Áustria.
Em 1962 com um grupo de artistas de Macau fundou o “Grupo Arco-Iris”.
Trabalhou durante 17 anos como observador meteorológico antes de ir para Timor e no regresso trabalha para a administração do Hotel Lisboa e em 1976 no Hotel Sintra até 1993. Faleceu a 30 de Abril de 1994.
A obra de Herculano Estorninho encontra-se na Europa, Ásia, América, África e Austrália nomeadamente em Portugal,  França, Itália Suécia, Áustria, Macau Hong Kong, China, Japão, Estados Unidos, Brasil, Angola e Moçambique. Em Portugal há trabalhos do pintor no Palácio de Belém, Palácio de S. Bento, Casa de Macau e Colecções Particulares (4)

Herculano Estorninho - Museu Luís de Camões 1963Herculano Estorninho  – Museu Luís de Camões (hoje, Casa Garden)
Aguarela sobre papel, 1963
Museu de Arte de Macau

“Nos óleos pintados em Macau também o espatulado ou a pincelada são vibrantes de cor fazendo lembrar um seu contemporâneo, Fausto Sampaio, embora muito mais velho, cuja pintura se apresenta com características semelhantes às do Estorninho. Em ambos, as texturas variadas conseguidas através de espessos empastamentos, a pincelada esperta na composição sólida, transmitem toda a emoção e a interpretação perceptivo – instintiva do lugar. Os contornos não são importantes e apagam-se para dar lugar à vibração e cintilação do movimento”.. (…)
Quanto à aguarela, a própria natureza do género conduziu-o a uma grande liberdade de expressão onde a rebeldia ” fauve” ficou presente, transmitindo a exaltação do pintor perante o assunto a tratar. O depuramento do tema e funcionalidade da cor, que passou a actuar como tradução da poesia contida no olhar, é sentida em muitas das suas aguarelas.”
Maria Margarida L. G. Marques Matias, na “Introdução” da exposição de 71 quadros de Herculano Estorninho em Dezembro de 1995, no Clube Militar (4)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 5, 1998
(3) Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/luis-demee/

Herculano Estorninho - Junco1963Herculano Estorninho – Junco
Aguarela em papel (1963)
http://www.macauart.net/News/ContentE.asp?region=L&id=162038

(4) Dados biográficos recolhidos do livro: ” Herculano Estorninho, aspectos da sua vida e obra. Exposição realizada na Sala do Comendador Ho Yin do Clube MIlitar, 21 de Dezembro de 1995. Edição da Fundação Macau, ISBN 972-8147-55-4
Anteriores referências:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/herculano-estorninho/

MACAU B.I.T. VIII-3-4, 1972 - 25 ANOS ROTARY CLUB - Foto dos rotários” Com brilhante solenidade, o Clube Rotário de Macau celebrou, no dia 22 de Junho de 1972 , as bodas de prata da sua fundação, oferecendo aos seus sócios e a muitos convidados uma luzida recepção , no restaurante «Portas do Sol», do Hotel Lisboa, distinguindo-se a presença do Senhor Governador da Província e de sua Esposa.
Os rotários de Hong Kong estiveram bem representados sendo de notar a presença de Robert Choa, Governador do Distrito Rotário 345.

MACAU B.I.T. VIII-3-4, 1972 - 25 ANOS ROTARY CLUB - entrada do GovernadorEntrada do Sr. Governador e Esposa no salão do restaurante «Portas do Sol»

O Dr. Henrique de Barros Pereira, presidente do Clube Rotário de Macau, deu as boas-vindas aos numerosos convidados, evocando a figura de Artur Woo, rotário já falecido, que teve acção preponderante na fundação do Clube Rotário de Macau.
Durante o jantar proferiu uma interessante palestra alusiva efeméride que se celebrava, o Dr. Henrique de Sena Fernandes, a que se seguiu no uso da palavra o sr. Robert Choa.

MACAU B.I.T. VIII-3-4, 1972 - 25 ANOS ROTARY CLUB - momento do brinde…No momento em que eram proferidos os brindes

Finalmente o sr. Governador manifestou a satisfação que ele e sua esposa sentiam em tomar parte no convívio que lhes proporcionava a celebração do 25.º aniversário da fundação do Clube.
A recepção terminou coma entrega de dois cheques, feita pelo Dr. Barros Pereira, um ao Centro de Recuperação Social da taipa, na pessoa do major Velasco, comandante da P.S.P. e noutro ao Padre Lancelote Rodrigues que representava a Madre Mary, de Coloane.”

MACAU B.I.T. VIII-3-4, 1972 - 25 ANOS ROTARY CLUB - rotários e convidadosRotários e convidados na recepção comemorativa das Bodas de Prata do Clube Rotário de Macau.

Transcrevemos uma pequena parte do  artigo escrito por Luís Gonzaga Gomes:
“…na argêntea efeméride que este ano se comemora, não podemos deixar de evocar os que sem esmorecimentos, escoaram as paredes mestras do clube, nas suas horas mais periclitantes, e se, com saudade, lembramos, hoje, o nome do Companheiro Hermann Machado Monteiro que muito se empenhou para a fundação e expansão do Rotary Club de Macau, não podemos também esquecer, o do falecido companheiro Henrique Nolasco da Silva que, dentro da maior compreensão dos quatro princípios do Rotary, foi sempre de uma assiduidade exemplar, até quanto lhe permitiram a sua abalada saúde e avançada idade, e do também já falecido Companheiro  Fernando de Lara Reis que legou a sua residência ao Rotary Club de Macau, para nele se estabelecer a primeira clínica anti-cancerosa desta província…(…)
…Fundado por 36 entusiastas, o Rotary Club de Macau viu desaparecer do número dos vivos muitos dos Companheiros fundadores; outros, quis o destino que abandonassem esta terra em obediência aos imperativos das suas profissões, indo exercer as suas actividades a outras terras e outros afastaram-se, por reconhecerem faltar-lhes a vocação rotária.”
Retirado de  «MACAU B. I. T.»,  1972.

No dia 15 de Abril de 1951, o Governador Comandante Albano Rodrigues de Oliveira assistiu à entrega da Clínica Anti-Cancerosa Lara Reis à Santa Casa da Misericórdia. O edifício foi legado pelo saudoso professor do Liceu de Macau Fernando Reis e o apetrechamento custeado pelo benemérito “Rotary Club de Macau”.

MOSAICO II-9 MAI1951 Clínica Lara Reis IA Clínica Anti-Cancerosa Lara Reis, primeiro e único estabelecimento no género, no Ultramar Português e no Sul da China
MOSAICO II-9 MAI1951 Clínica Lara Reis IIO Dr. Pedro José Lobo, Provedor da Santa Casa da Misericórdia lendo o seu discurso

Anteriores referências
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/clinica-lara-reis/https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fernando-lara-reis/
Reportagem e fotos de «Mosaico, 1951»

Cabelos que se tornam sempre escuros,
Olhos chineses e nariz ariano,
Costas orientais, e peito lusitano,
Braços e pernas finos mas seguros.

Mentalidade mista. Tem dextreza
No manejo de objectos não pesados,
Tem gosto por Pop Songs mas ouve fados;
Coração chinês e alma portuguesa.

Casa com a chinesa por instinto,
Vive de arroz e come bacalhau,
Bebe café, não chá e vinho tinto.

É muito bondoso quando não é mau,
Por interesse escolhe o seu recinto
Eis o autêntico filho de Macau

Leonel Alves
in ” Por Caminhos Solidários”  (1)

(1) in  p. 153 de REIS, João C. – Trovas Macaenses, 1992.
João Reis refere na biografia do poeta: “Deixa a ideia de ter chegado à poesia tarde na vida – havendo nos seus trabalhos passagens de saudosa evocação,  e de expressiva inspiração
NOTA: “Nasceu em Macau a 27 de Janeiro de 1921 e aqui faleceu a 10 de Outubro de 1982. Funcionário dos Serviços de Saúde. Colaborou em vários jornais de Macau com poesia e charadas. Frequentou o Liceu, tendo ganho o 1.º prémio de poesia num dos muitos concursos literários promovidos pelo professor Lara Reis. Em edição póstuma foi dado à estampa um livro que reuniu a sua poesia intitulado “Por Caminhos Solitários” (Macau, edição de autor, 1983, 113 p.) in Antologia de Poeta de Macau – sel. e org. Jorge Arrimar e Yao Jingming, 1999.
Aconselho leitura do artigo de António Aresta “Leonel Alves (pai)” no Jornal Tribuna de Macau de 2015:
http://jtm.com.mo/opiniao/leonel-alves-pai/

Hoje, dia 14 de janeiro de 1950, faleceu no Hospital Conde S. Januário, com a idade de 57 anos, Fernando Lara Reis.

Hernâni Anjos escreveu no jornal “Notícias de Macau”, do dia 17 de Janeiro de 1950”:

Professor austero e adorado; o turista tenaz e minucioso; o militar que combateue consagrou a memória dos que a seu lado tmbaram no campo da luta; o amigo sincero e firme, o companheiro amável e bem humorado, o cavaqueador que, por si só, eras pessoa para sustentar, durante, horas a animação da conversa em qualquer meio social… (…)
… Fernando de Lara Reis despediu-se esta madrugada de todos os seus inúmeros alunos, que tando o respeitavam e adoraram; de todos os imensos pontos do Mundo até onde conseguiu levar a par das múltiplas malas de viagem, a inesgotável mala da sua curiosidade… (…)
Pôs-se ontem verdadeiramente o Sol no “Sol Poente                       

Fernando Lara ReisFernando de Lara Reis (Leiria, 28-12-1892), frequentou o Colégio Militar (então chamada Escola de Guerra) e participou como tenente aviador militar na I Guerra Mundial aonde veio a sofrer um desastre que o obrigou a reformar-se com a patente de capitão.
Chegou a Macau em 1919, para ensinar no Liceu Central de Macau (nesse ano ainda instalado no Hotel da Boa Vista e depois, já no Tap Seac, em 1937, Liceu Nacional Infante D. Henrique). Professor de desenho, ciências naturais e de ginástica.
A ele ficaram a dever várias acções de âmbito escolar, tais como a fundação da “Associação Escolar do Liceu” (Estatutos publicados em 1935) que foi a sucessora da “Academia” fundada em 1920 (1) pelo reitor, Dr. Carlos Borges Delgado.
Dotado de um grande espírito de iniciativa, para diversão dos alunos, adquiriu mesas de “ping-pong”, uma mesa para xadrez e uma para damas, promoveu a construção de um campo de basquebol, um de voleibol e um de bagminton., fazim-se exposições de trabalho escolar (2) festas de convívio, passeios à China (Choi Hang) (3) (utilizando transportes de Companhia de Autocarro “Kee-Kuan”), campeonatos desportivos inter-escolares. Promotor da Feira Escolar para a construção do Campo Desportivo Escolar depois denominado Campo da Caixa Escolar para uso exclusivo dos estudantes. (4)
Partiu para Portugal em 1940 e daí para o Liceu Afonso de Albuquerque, em Goa onde permaneceu 5 anos. Após a II Guerra Mundial regressou a Macau.
Sócio-fundador do “Rotay Club de Macau”, legou à Santa Casa da Misericórdia de Macau, a sua residência “SOL POENTE” na Avenida da República. Mais tarde, por iniciativa dos rotários, foi aí instalada a Clínica «Lara Reis», o primeiro centro de luta anticancerosa (5).

Clínica Lara ReisClínica «Lara Reis» em 1988 (5)

Fundou em Macau a secção local da “Liga dos Combatentes da Grande Guerra”, tendo como sede, a torre ainda hoje existente no plano superior do Jardim de S. Francisco. (6) e a construção de um ossário–monumento dos Combatentes da Grande Guerra no Cemitério de S. Miguel.(7)

(1) “05-10-1920 – O Liceu Central começa a publicar mensalmente o jornal A Academia, que segue até o número 9 de Julho de 1921, sob a responsabilidade de Pedro Correia da Silva.”
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)
(2) “19-04-1928 – O Liceu Central de Macau preparou e vai enviar trabalhos de Desenho ao Congresso Pedagógico do Professorado do Ensino Secundário em Viseu. O Prof de Desenho é Lara Reis. O Liceu mostra, além de um forte vínculo luso-oriental, enormedinamismo a nível local já que acaba de receber a visita do Reitor da Universidade de Hong Kong, Prof. Horneli, que se interessou muito pela História de Portugal, pela produção artística dos alunos, exposta, e pelo apetrechamento do Liceu, nomeadamente a colecção de História Natural” (1)
(3) “03-01-1927 – Visita dos estudantes do Liceu de Macau aos estudantes da Universidade Leng-Nám de Cantão.”
GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(4)  Depois denominado Campo Desportivo Coronel Mesquita (Tap Seac)
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/caixa-escolar/
(5) A Clínica «Lara Reis», foi inaugurada a 15 de Abril de 1951, após uma subscrição entre os rotários. Foi o primeiro e único centro de luta anti-cancerosa no Sul da China e também o único nas províncias ultramarinas, nessa época. O edifício foi adquirido (e mantém-se) para sede da Cruz Vermelha, em 1988. A foto de 1988 foi retirada da revista “Macau”, n.º 13, 1988.
(6) Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/20/servico-postal-militar-em-macau/
(7) Inaugurado a 9 de Abril de 1938  e onde se encontram os seus restos mortais, após transladação em 1954.

Informação e foto retirados de BARROS, Leonel – Homens Ilustres e Benfeitores de Macau. Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), 2007, 196 p., ISBN 978-99937-778-8-5.

A 2 de Fevereiro de 1963 é criada a EPM 3 – Estação Postal Militar de 3ª classe, destinada ao serviço militar que começa a funcionar a 28 desse mês “no pavilhão sito no Jardim de S. Francisco” (1).  Inaugurada a 28 de Fevereiro de 1963 (2), a EPM3 é extinta em Outubro de 1974.

Situada no cimo  do jardim de S. Francisco, jardim dos Combatentes da I Grande Guerra Mundial, a Torre tem um símbolo da Associação dedicada aos combatentes onde sobressaem o escudo, os castelos e as cinco quinas da bandeira portuguesa e ainda  uma placa com a seguinte inscrição «Jardim dos Combatentes da Grande Guerra 1914-1918»
O Torreão no Jardim de S. Francisco foi sede da Liga dos Combatentes da Grande Guerra (um dos fundadores, Dr. Fernando de Lara Reis)  cuja obras de adaptação terminaram em Dezembro de 1938 (3). Segundo Pe. Teixeira   ” O torreão era antes a casa de arrecadação do material da R.T.O.P. do Jardim de S. Francisco; essa casa sofreu grandes modificações em 1938 e converteu-se no elegante Torreão que ainda hoje se vê. mas, uns meses após falecimento de Lara Reis, a sede da Liga viu-se transformada em sapataria, depois em alfaiataria e hoje serve de Estação Postal Militar. Na fachada principal desse Torreão ainda se vê uma placa com a seguinte inscrição «Jardim dos Combatentes da Grande Guerra 1914-1918»” (3)
O Torreão foi depois sede da Associação Recreativa dos Deficientes de Macau (ARDM).
As duas fotos seguintes foram retiradas de Revista da ARDM (4).

Dança de leão em cadeiras de rodas no jardim à frente do torreão

 Visita do Governador Almirante  Almeida e Costa à sede da ARDM

(1) http://macauantigo.blogspot.pt/2010/03/servico-postal-militar-macau.html
(2) MACHADO, Luís. Crónicas no JTM de 13 JUL, 2011 : http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=
(3)TEIXEIRA, P. Manuel – Liceu Nacional Infante D. Henrique, Jubileu de Diamante (1894-1969). Macau Imprensa Nacional, 1969, 291 p + |VI|
(4) Revista da Associação Recreativa dos Deficientes. Comemoração do 15.º aniversário 1978-1992