Archives for posts with tag: Emigração dos cules

Esta estampa antiga intitulada “Evasion des emigrants chinois de leur dépôt à Macau, le 7 Avril 1857vem publicada no sítio de vendas “Amazon” com o título:
“Emigrantes Chinos Escapa el Depósito Perseguidor Macao 1857 de los Protectores”, sem indicação de autoria ou donde foi retirada.

“Evasion des émigrantes chinois de leur dépôt à Macau a 7 avril de 1857”

Não encontrei qualquer referência a este episódio nos livros e outros impressos que possuo, mas nesse dia terá tido uma evasão ou fuga dos emigrantes chineses (cules ou “colonos chinas” na versão oficial portuguesa) duma casa/barracão onde estavam alojados (ou presos) até serem embarcados.
No «Boletim do Governo», logo a seguir a esta data, aparece uma carta escrita em 18 de Abril de 1857, pelo Procurador da Cidade, Manoel António de Souza e dirigida ao Governador Isidoro Francisco Guimarães, informando-o e solicitando maior vigilância da parte das autoridades para “ se evitarem os abusos que se podem commetter tanto da parte dos armadores, como da dos Cules, que em muitos casos se vão engajar só com o fim de serem sustentados nos depósitos, e receberem os adiantamentos que lhe fazem para a viagem, mas com a determinação de se subtrahirem a embarcar …”
Após várias considerações, termina:
Recorda- se que o primeiro transporte de colonos chineses de Macau foi em 1851 (250 enviados para Peru). No ano 1857 foram transportados 8065 (destinos: Havana – 6735; Peru – 450; outros destinos – 880) e a abolição da chamada “emigração de cules” contratados em Macau foi em 1873 (decreto de 20 de Dezembro).
Os primeiros agentes em Macau foram os franceses Guillon e Durand que praticavam já este negócio em Hong Kong e o português, em 1851, José Vicente Jorge. (1 (2)
Devido aos engajadores clandestinos e negócios ilícitos, o governo de Macau em 1853 (Portaria de 12 de Setembro de 1853) exigiu “que os agentes de engajamento declarem o lugar de todas as trapichas (trapiche-armazém ou depósito de mercadorias de embarque ou desembarque) e depósitos (a quem alguns detratores da posição portuguesa chamam no seus escritos “barracões”, para acentuar a semelhança com a escravatura africana em que o termo é característico (1)
Nessa Portaria, o Governador Isidoro Francisco Guimarães mandava ainda vigiar tudo o que se relacione com os cules: número exacto dos indivíduos em trânsito, condições do seu temporário alojamento aguardando embarque e cabe ao governo a inspecção dos locais e a verificação dos dados fornecidos.
(1) Dados e informações retirados do livro de Beatriz Basto da Silva, leitura que aconselho sobre este assunto.
SILVA, Beatriz Basto da – Emigração de cules – dossier Macau 1851-1894. Fundação Oriente1994, 198 p. ISBN: 972-9440-35-2;
(2) José Vicente Caetano Jorge levou os primeiros 250 cules contratados para Callao de Lima (Peru) na barca «Sophia» , de que ele mesmo era proprietário
Anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-vicente-jorge-1803-1857/

medico-e-saude-jardim-botanico-rio-de-janeiroNavegando na net, encontrei na revista brasileira «médico & saúde», (1) um artigo intitulado: “Pulmão da cidade”
Transcrevo parte do artigo sobre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Brasil) (2)
“… Há 200 anos, quando dom João, príncipe regente de Portugal, (3) decidiu criar o Jardim da Aclimatação, no Rio de Janeiro, os europeus costumavam levar mudas de espécies encontradas em suas colônias para outras terras, em busca de solos apropriados para o cultivo. O Jardim da Aclimação, que também já foi Real Horto, Real Jardim Botânico e Jardim Botânico do Rio de Janeiro, é hoje o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ou, simplesmente, o nosso Jardim Botânico…
E relacionado com Macau (posto a negrito por mim) a estória/lenda: “A palmeira do príncipe e o olhar dos chineses
A principal lenda do Jardim Botânico é sobre a palmeira imperial que dom João teria plantado. “É o que se conta há gerações, uma história reproduzida por historiadores e botânicos sem que exista um só registo do fato, mês ou dia, por quem o teria acompanhado no nobre gesto”, diz Rosa Nepomuceno, no livro «O Jardim de D. João». Na verdade, ter sido ou não plantada por dom João não faz a menor diferença: a palmeira imperial tornou-se o principal símbolo do Jardim Botânico. Outro mistério que perdura por quase 200 anos é a origem do grupo de 300 chineses contratados para cultivar chá em 1814. Dizia-se que eles eram prisioneiros em Macau e haviam preferido o exílio à cadeia. Viveram por 10 anos no Jardim Botânico, isolados pelo idioma e pela cultura. Por causa deles, um dos pontos da Floresta da Tijuca foi batizado de Vista Chinesa

medico-e-saude-jardim-botanico-rio-de-janeiro-iiAntigo postal da Vista Chinesa. Rio de Janeiro (4)

Sobre esta emigração de Macau, sabe-se que foi um projecto económico organizado em 1810 pelo governo de Dom João VI, pelo então Ministro do Reino Conde de Linhares, de modo a introduzir a cultura do chá no Brasil e assim substituir as importações e o monopólio da China. Assim cerca de 300 chineses (plantadores de chá da província de Hubei, famoso pelo seu chá verde), com sementes de chá partiram de Macau no navio Vulcano. Foram colocados na fazenda da família imperial, no Rio de Janeiro (que mais tarde veio a ser o Jardim Botânico Real). Em 10 de Setembro de 1814, desembarcaram no Porto do Rio quatro chineses cultos (provavelmente mestres do processamento de chá) que foram morar na residência do Conde da Barca. Apesar da boa vontade de ambas as partes, o cultivo de chá pelos chineses foi, de modo geral, considerado um fracasso.(5)

medico-e-saude-jardim-botanico-rio-de-janeiro-iiiPlantação de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Johann Moritz Rugendas (5)

Nesta pintura, vêem-se alguns escravos negros que plantam, orientados por um chinês; à direita, outro chinês, aparentemente mais graduado, conversa com dois ocidentais, um deles sustentando sobre os joelhos grandes folhas de papel; por trás desse personagem sentado, está outro chinês, com um guarda-sol, e ainda outro personagem em traje ocidental, talvez um intérprete (6). Observa-se ainda os morros da cidade do Rio de Janeiro ao fundo.
(1) «médico & saúde», Ano I, número 3 Abr/Mai/Jun 2008 pp. 11-15.
http://old.cremerj.org.br/revistas/pdf/r9.pdf
(2) O Jardim de Aclimatização ou Jardim Botânico do Rio de janeiro foi fundado em 13 de Junho de 1808. Ele surgiu de uma decisão do então príncipe regente português D. João de instalar no local uma fábrica de pólvora e um jardim para aclimatação de espécies vegetais originárias de outras partes do mundo. Hoje o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro – nome que recebeu em 1995, é um órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e constitui-se como um dos mais importantes centros de pesquisa mundiais nas áreas de botânica e conservação da biodiversidade.
http://jbrj.gov.br/jardim/historia#sthash.OU8NwwjS.dpuf
d-joao-infante-d-joao-vi(3) Futuro rei  D. João VI (nome completo: João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança) (Lisboa, 13 de maio de 1767 — Lisboa, 10 de março de 1826), cognominado O Clemente, foi rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves de 1816 a 1822, de facto, e desde 1822 até 1825, de jure. Desde 1825 foi rei de Portugal até sua morte, em 1826. Pelo Tratado do Rio de Janeiro de 1825, que reconhecia a independência do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, também foi o imperador titular do Brasil, embora tenha sido seu filho Pedro o imperador do Brasil de facto. Casou com Dona Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon.
D. João, infante, pintura anónima no Museu da Inconfidência
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_VI_de_Portugal
(4) Postal retirado do Blogue Paulo Cannizzaro: postagem de 16/98/2012 –  China e Brasil: o projeto de D. João VI.
http://www.paulocannizzaro.com.br/post.asp?id=58&t=china-e-brasil-o-projeto-de-d-joo-vi
(5) Aconselho a leitura do texto de 2012, de Shu Chang-sheng: “RJ Recebeu os Primeiros Imigrantes Chineses” em
https://oestrangeiro.org/2012/04/12/chineses-no-rio-de-janeiro/
(6) Johann Moritz Rugendas (1802-1858), pintor alemão, durante sua primeira viagem ao Brasil, entre 1821 e 1825, documentou a plantação chinesa de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, publicando a gravura em seu livro «Viagem pitoresca através do Brasil», cujo texto faz referência a uma colônia de 300 chineses na cidade. (5)
(7) LEITE, José Roberto Teixeira – A China no Brasil: influências, marcas, ecos e sobrevivências chinesas na sociedade e na arte brasileiras. Editora Unicam, 1999, 288 p. ISBN 85-268-0436-7.

Bernardino Senna FernandesFoi nesta data, 18 de Abril de 1890, agraciado por mercê honorífica com o título de Visconde de Sena Fernandes por duas vidas, o proprietário macaense Barão de Sena Fernandes.

Bernardino de Senna Fernandes nasceu em Macau a 20 de Maio de 1815 e também aqui faleceu a 2 de  Maio de 1893. Era filho de José Vicente Fernandes e de Ricarda Constantina Fernandes, naturais desta Província.
Bernardino Senna Fernandes Brasão IBernardino Senna Fernandes Brasão IIBernardino Senna Fernandes Brasão IIIFoi distinguido com os títulos de Barão em 25 de Outubro de 1888, de Visconde (17-04-1890) e de Conde, em duas vidas (31-03-1893).  Esta ultima mercê só chegou depois da sua morte pelo só pode ser gozada por seu filho que, a falar com rigor foi o 1.º Conde de Sena Fernandes. Enquanto que o nome de família seja referenciado em Macau como “Senna Fernandes“, os títulos foram outorgados como “Sena Fernandes
Bernardino Senna Fernandes Brasão IVBRASÃO DE ARMAS: Escudo de ouro carregado com uma águia bifronte de negro estendida, armada de vermelho e com um crescente de prata apontado para cima sobre o peito ; orla de vermelho carregado com quatro cruzetos de ouro entre quatros crescentes de prata sendo estes acantonados  e aqueles nos centros do chefe, contra-chefe e laterais – Timbre, uma águia de negro andante e armada de vermelho. Virol de ouro e vermelho e assim o paquife; elmo de prata lisa, decorado de oiro lavrado e o forro azul celeste.

Negociante rico, grande proprietário (um dos maiores contribuintes de Macau do século XIX), figura polémica (1) e controversa,  foi Major ordinário, (2) Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo, Comendador da Ordem do Elefante de Sião, Cavaleiro de Torre e Espada, Condecorado com a Medalha de Prata de Mérito e Filantropia, Cônsul de Sião e da Itália em Macau, diplomata,  (3) Comandante da Guarda da Polícia, (2) organizador da Polícia do Mar,  (4) superintendente da Emigração Chinesa (isto é da emigração dos cules), inspector de Incêndios,  (5)  presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia e sócio fundador da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses) (APIM). (6)
Deixou numerosa descendência. Casou a 30 de Setembro de 1840 com Antónia Maria de Carvalho. Ficou viúvo, casou a 11 de Julho de 1862 com D. Ana Teresa Vieira Ribeiro e tiveram 9 filhos.

Bernardino Senna Fernandes Estátua IFoto: 2015

Esta estátua foi erecta, em Março de 1871, (no mesmo mês e ano em que foi inaugurado o monumento da Vitória) (7)  num terreno ajardinado do outro lado da rua oposto ao Monumento da Vitória; dali foi removida para o pequeno jardim do vivenda “Caravela”, (8) na Avenida da República, construída pela família Senna Fernandes. A família posteriormente alugou/vendeu (?)  a vivenda “Caravela” para servir de Hotel/Restaurante e nessa altura ofereceu a estátua ao Governo que a mandou colocar no recinto murado do então Museu de Luís de Camões (hoje  propriedade da Fundação Oriente) à direita de quem entra. (9)

Bernardino Senna Fernandes Estátua IIO pequeno jardim à frente da sede da Fundação Oriente com a estátua de Senna Fernandes (na foto: esquerda superior). Foto: 2015

O pedestal tem inscrições em chinês e português. (actualmente muito apagadas)

Bernardino Senna Fernandes Estátua IIIFoto: 2015
PARA PERPETUAR A MEMORIA DO BENEMERITO
CIDADÃO
BERNARDINO DE SENNA FERNANDES
MAJOR HONORARIO
COMMENDADOR DA ORDEM MILITAR DE
NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO
COMMENDADOR DA ORDEM DO ELEPHANTE BRANCO
DE SIAM
CAVALEIRO DA ANTIGA E MUITO NOBRE ORDEM
DA TORRE E ESPADA, DO VALOR, LEALDADE E
MERITO FIDALGO CAVALEIRO DA CASA REAL
CONSUL DE SIAM E DA ITALIA
I BARÃO, VISCONDE E CONDE DE SENNA FERNANDES
AGRACIADO COM A MEDALHA DE PRATA
DE MERITO, PHILANTROPIA E GENEROSIDADE
CHEVALIER SAUVETEUR DES ALPES MARITIMES
SOCIO PROTTETORE DE ASSOCIAZIONE DEI
BENEMERITI ITALIANI
MUITO APRECIADO PELA COMUNIDADE CHINEZA
DE MACAU
PELO SEU AMIGO JUSTICEIRO E PROVADA
ESTIMA  E SYMPATHIA
AOS NEGOCIANTES CHINEZES
A QUEM SEMPRE DISPENSAVA PROTECÇÃO
E APOIO
Bernardino Senna Fernandes Estátua IVFoto: 2015
Esta Estátua foi mandada erigir por
Lu-Cheo-Chi, Cham Hau-in, Ho-Liu-Vong
e outros negociantes chinezes de Macau
Em Testemunho de Amizade e Gratidão

(1) “Figura poderosa e polémica, foi naturalmente alvo de invejas e acusações  de toda a ordem, sobre as quais se torna difícil, hoje em dia, tecer um juízo de valor. Seja como for, ele próprio entendeu defender-se e publicou o folheto Um apelo ao publico imparcial, Macau, Typ. Popular, 1869, 24 p., no qual apresenta uma série de documentos comprovativos dos altos serviços prestados à Província. Coincidência, ou não, pouco depois desse desafrontamento pessoal, um grupo de importantes comerciantes chineses, deliberou mandar erigir-lhe uma estátua de corpo inteiro. (FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses)
(2) Senna Fernandes criou um corpo de polícia privado, em 1857, a «Polícia do Bazar», paga por um grupo de comerciantes chineses e depois esta Polícia extendeu-se a toda a cidade. Mas breve surgiram queixas de abuso de poderes. O governo hesitava, falho de meios para se lhe opor. Finalmente usando a velha regra que propõe que “se não os podes vencer junta-te a eles“,  Senna Fernandes foi nomeado Comandante da Guarda da Polícia a 14 de Outubro de 1857 e a 18 de Julho de 1861 foram-lhe concedidas as honras de major. Para demonstrar a sua riqueza, armou a Polícia à sua custa, com o armamento mandado vir propositadamente da Inglaterra.
SARAIVA, António M. P. – Jardins e a história de Macau in Macau, encontros de divulgação e debate  em estudos sociais, pp. 193-205.
Site das Forças de Segurança de Macau  indica como Comandante da Polícia: 14-10-1857 a 29-07-1863. (http://www.fsm.gov.mo/psp/por/psp_org_9.html)
(3) Conseguiu estabelecer com a China vários tratados de comércio, a fim de garantir à população os víveres necessários, depois de várias proibições ordenadas pelos mandarins em consequência da guerra entre a China e a Inglaterra, missão esta muito difícil que só o seu génio e alto prestígio conseguiu levar a bom termo. (Macau B. I., 1954)
(4) Criou também a Polícia do Mar, a quem se deve o salvamento de muitas vidas e propriedades, especialmente a quando do tufão de 27 de Julho de 1862. Reprimiu, à sua custa, com os seus navios e embarcações, o contrabando  e a pirataria nesta paragens, entregando sempre à Fazenda Pública o produto e os artigos das apreensões. Macau B. I., 1954)
(5) Reorganizou os serviços de incêndio da cidade exercendo gratuitamente o cargo de inspector (Macau B. I., 1954)
(6) Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) foi  fundada em 17 de Outubro de 1871, destinada à educação dos «filhos da terra». Em 1878 cria a «Escola Comercial»  (SILVA, Beatriz Basto da Cronologia da história de Macau, Vol.3).
(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/monumento-da-vitoria/
(8) O edifício da Caravela, infelizmente demolido em princípios de 1979
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2011/12/31/caixa-de-fosforos-hotel-caravela-2/
(9) TEIXEIRA, P.  Manuel – A Voz das Pedras de Macau, 1980.

“30-10-1858 – Foram estabelecidas três companhias de cules em cada bairro , cada uma das quais com um chefe ou cabeça, responsável perante o Procurador da Cidade pela conduta extravios e roubos que foram cometidos por aqueles que eram obrigados a trazer um barrete ou chapéu de bambu numerado e de cores diferentes para cada companhia. Esses cules eram isentos de décimas, sendo obrigados a apresentar-se, no Largo do Senado, para o serviço de bombas, sempre que houvesse incêndio” (1)
“O «Regulamento para trez Companhias de Cules Chinas» (chins, chinas ou chineses, designações correntes no século XIX) foi publicado no Boletim n.º  de 6 de Novembro de 1858. Entre outros aspectos se preceituava que  «cada Cule trará um barrete ou chapeo de bambú com o seu número, e de côr differente da de outra companhia, para ser conhecida do Publico». Tratava-se de carregadores, ou cules de transporte, que deveriam concorrer, por obrigação geral, ao Largo do Senado, quando houvesse rebate de incêndio, para prestarem serviço nas bombas, pelo que as três companhias, em compensação deste serviço de utilidade pública estariam isentas de pagamento de décimas” (2)
Cule era um trabalhador chinês. carregador, estivador, puxador de riquexó, condutor de triciclo, etc. Várias hipóteses para a origem deste termo, desde  meados do século XVII: do hindi/urdu «qulī»que significa “trabalhador(diário)”; do tribo natural do Guzerate «kulī», com o mesmo significado;  palavra tâmil «kuli» ,salários. (3)
O termo cule ou coolie/cooly/kuli foi mais utilizado no século XIX e princípios do século XX, para se referir aos trabalhadores braçais oriundos especialmente da China e Índia.
Os próprios chineses usavam este termo (4) no memso sentido mas dado o valor pejorativo que se foi tomando (principalmente na chamada “emigração dos cules”), (5) caiu-se em desuso tanto entre os chineses como entre os portugueses ou os ingleses.
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) SILVA, Beatriz Basto da –  Cronologia da História de Macau Vol.3, 1995.
(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Coolie
(4) A palavra chinesa 苦力 (mandarim pinyin:  kǔlì; cantonense jyutping: fu2 lik6 )significa literalmente “(uso) amargamente severo (de) força“.
O termo chinês mais utilizado culturalmente é   (mandarim pinyin:   gū lí; cantonense jyutping: gu1 lei1 ).
(5) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/emigracao-dos-cules/

No dia 3 de Agosto de 1856, aconteceu um desastroso incêndio a bordo do navio holandês «Banca» capitaneado por Heymans (ou Heymahs), fundeado na rada de Macau. (1) Tinha a bordo, além da tripulação, 350 colonos chineses que deveriam ser levados para Havana. Era perto das 10.00 horas, quando de terra se deu fé do fogo. Fizeram-se largar para bordo algumas embarcações chinesas da Praia Grande  e os escaleres do Mondego foram mandados em socorro do navio. O vapor «Queen», que vinha para Macau, recolheu a bordo alguns chineses e cinco marinheiros europeus, que encontrou na água, e veio fundear na Praia Grande, dizendo o capitão que se não aproximara do navio com receio de alguma explosão, pois tinham-lhe dito que havia muita pólvora a bordo. O Governador (Isidoro Francisco Guimarães) deu-lhe ordem para que voltasse a socorrer a gente da «Banca» e, tendo o capitão pedido alguns soldados, logo que estes lhe foram mandados, largou para o local do incêndio, recebendo o resto dos chineses, que estavam sobre o gurupés e proa do navio e sobre os paus que havia na água, perto do costado. Estes chineses foram trazidos para bordo, no bote do mesmo, na lancha do Mondego, no bote do brigue holandês Wilhelmine e num sapateão, onde estava um oficial da Marinha Portuguesa. Salvaram-se 180 chineses e 14 tripulantes. O incêndio foi causado por um chinês que fumava ópio na coberta. (2)

(1) Referências em publicações da época.
Relatório/carta de Peter Parker “Commissioner for the United States” in China” -cópia na página  889 no “Commissioners in China Congressional Series Set/ The Senate of the United Congress, 1858-59” (https://books.google.pt/books?id)
3-08-1856 Incêndio do BANCA carta de Peter Pakere também (notícia bem relatada) “APPALLING BURNING OF A SHIP” no jornal “The Montreal Daily Witness” (October 29, 1856), na secção “Selections”, (https://news.google.com/newspapers)

3-08-1856 Incêndio do BANCA recorte de jornal

Terminologia náutica:
Brigue – antigo veleiro de pequena tonelagem com 2 ou 3 mastros sendo o maior inclinado para trás.

3-08-1856 Incêndio do BANCA BrigueBRIGUE (https://pt.wikipedia.org/wiki/Brigue)

Costado – conjunto de chapas pranchas que revestem o cavername de um navio ou parte do forro exterior do casco da embarcação acima da linha de flutuação.
Escaleres – pequena embarcação a remo e a vela destinada ao serviço de um navio.
Gurupés – mastro colocado obliquamente na extremidade da proa de um navio.
Lancha – pequena embarcação de vela e remos usada no carregamento ou descarregamento dos navios.
Proa do navio – parte da frente do navio.
Sapateão – espécie de embarcação chinesa.
(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.