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“Macau, 13 de Janeiro de 1927 (1)
… (…) … Eramos convidados do celebre cabeça Lei-lam, que há muito insistia pela minha visita, assegurando a abundância de perdizes na ilha, onde poderíamos caçar com toda a segurança até à hora do almoço que ofereceria em minha honra.
Tentado pela originalidade do convite e confiado na palavra do pirata, acedi ao pedido, saindo um belo dia de Macau com um grupo de caçadores a bordo da canhoneira Pak-tou das Alfândegas chinesas.
A certa altura do rio passámos por uma sampana de Lei-Iam, seguindo pelos enredados canais que recortam o famoso delta, transpondo barragens sobre barragens até ao cais de desembarque em Pakchiu. No cais eramos aguardados pelo filho do pirata, um verdadeiro gentleman educado na América, vestido à europeia em traje de caça, que me saudou em correcto inglês.
mapa-do-rio-de-cantao-1927-o-cruzador-republica-na-chinaUma escolta de polícias bem uniformizados e armados de pistola fazia a guarda de honra, seguindo-nos depois a distância durante todo o tempo que nos demorámos na ilha.
A caçada foi muito feliz, cabendo as honras ao Dr. Serrasqueiro Rossa, médico do República e exímio atirador.
O almoço foi uma magnífica comida china, com a indispensável sôpa de barbatanas de tubarão, ovos pôdres e outros pratos exquisitos, tudo regado com vinhos portugueses e lipum.
Depois do almoço os caçadores saíram a dar mais uma volta, mas eu fiquei com Lei-Iam que insistiu comigo para fumar um cachimbo do ópio. Ora eu que nem tabaco fumo, lá acedi às instâncias do meu hospedeiro, ficando a dormitar na cama apropriada à complicada operação.
embarcacoes-de-pesca-1927-o-cruzador-republica-na-chinaA certa altura senti que alguém me tocava. Entre-abri um ôlho desconfiado. Era o velho pirata que carinhosamente me cobria com um edredão de sêda, porque fazia muito frio.
Ficámos depois a conversar, e Lei-Iam, um dos mais temidos piratas nesta região, explicou-me que era muito amigo dos portugueses, tendo por isso dado ordens terminantes para que os seus homens não praticassem qualquer atentado contra gente de Macau. E era verdade.
(1) Um dos relatórios do Comandante em Chefe das Forças Navais Portuguesas no Extrêmo Oriente do Comodoro Guilherme Ivens Ferraz, publicado nas pp. 362-363 de:
FERRAZ, Guilherme Ivens – O Cruzador “República” na China. Subsídios para a História da Guerra Civil na China e dos Conflitos com as Potências. Academia de Marinha, 2.ª edição (fac-simile da 1.ª edição de 1932),  2006, 654 p.

Ao Ministério da Marinha
Macau, 8 de Outubro de 1926

Conforme telegrafei a V. Exa.ª em 29 de Setembro, O República foi arrastado na fúria do tufão do dia 27 dêsse mês, indo encalhar sem avaria no lôdo para as bandas da Lapa… (…)
Devo no entanto informar V. Exa.ª de que este tufão foi anormal, surpreendendo os observatórios de Hong Kong e Macau, os quais só poucas horas antes da passagem do meteoro anunciaram a sua aproximação desta região.
O navio continua sem a menor avaria, devendo fazer-se a primeira experiência de o flutuar no próximo dia 12 de Outubro.
Como tive em tempos ocasião de informar V. Ex.ª, foi dragado no pôrto interior de Macau um ancoradouro com uma boa amarração (!) para o cruzador República estacionar com segurança em qualquer circunstância de tempo. Infelizmente tive agora ocasião de verificar que essa amarração não podia merecer confiança alguma, pois logo no princípio do tufão o navio pegou de pôpa, arrastando depois a bóia com os seus quatro ferros até que, bem encalhado no lôdo perto da Ribeira Grande, não pôde garrar para além.
O Republica estaria já a nado se uma das poderosas dragas de sucção da Companhia Holandesa,  tivesse sido empregada no trabalho que está sendo feito com uma simples draga de queixada, que pertence ao Govêrno da Província. Foi porém tão exagerada a quantia pedida pelam Companhia, sem assumir qualquer responsabilidade, que se resolveu só em último caso recorrer ao auxílio da emprêsa que, estando a trabalhar no Pôrto Exterior  há mais de quatro anos, pretendeu especular com a situação do navio, como se fôsse uma Companhia cujas receitas fôssem constituídas  exclusivamente pelo produto dos trabalhos de salvação de navios.
Um outro tufão se anuncia já ao norte de Aparri, caminhando na mesma direcção do anterior, devendo alcançar-nos amanhã à tarde, se não mudar de direcção.

Guilherme Ivens Ferraz
Comodoro
Cruzador República, em Macau (1)

ivens-ferraz-cruzador-republica-na-china-republica-encalhado-1926O cruzador «República» encalhado no Porto Interior de Macau

Sobre este tufão embora não o mencione, o semanário “O Domingo Ilustrado“, no dia 3 de Outubro de 1926 publicava este desenho, na capa, com a seguinte legenda:

o-domingo-ilustrado-n-o-90-3out1926-capaO TUFÃO QUE ANDA PERDIDO NO MUNDO !
Na Metropole, nas ilhas, em Macau, um tufão, que os homens de sciencia classificam como sendo o mesmo, produz estragos formidaveis. Quando tomará pressão normal a enorme massa de ar?

o-domingo-ilustrado-n-o-90-3out1926-legendao-domingo-ilustrado-n-o-90-3out1926(1) FERRAZ, Guilherme Ivens – O Cruzador “República” na China, 1932.
Anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cruzador-republica/
(2) «O Domingo Ilustrado», n.º90, 3 de Outubro de 1926.
Semanário editado regularmente, em Lisboa, entre Janeiro de 1925 e Dezembro de 1927.

No dia 27 de Setembro de 1926, caiu sobre a cidade um inesperado tufão (1) que causou grandes prejuízos e estragos, devido ao facto de o tufão ter mudado inesperadamente de direcção e a população de Macau ter sido apanhada de surpresa. (2)
Assim registaram-se avarias na iluminação pública, naufrágios principalmente no Porto Exterior. A lancha canhoneira «Macau» (3) esteve em perigo de se afundar. O cruzador «Republica» (4) ficou encalhado no Porto Interior. Afundaram-se cinco batelões da «Netherlands Harbour Works». O rebocador Otto encalhou perto de um muro de retenção da Areia Preta. A draga Nanking garrou (5) e foi encalhar em Macau Siac. Encalhou também um batelão na Lapa, outro junto do muro da rua marginal, e outro no Porto Interior. Afundaram-se várias embarcações com perdas de vidas.(6)
O jornal «Diário de Lisboa» informava no dia 28 de Setembro de 1926 que “”UM TUFÃO ASSOLOU MACAU parecendo que houve mortes”
MACAU, 27 – Um violento tufão assolou esta cidade. Nem todos os juncos de pesca que estavam ao largo recolheram, receando-se que a maior parte se tenha afundado causando a perda de muitas vidas. Os estragos no litoral são relativamente pouco importantes.
Nos dois dias seguintes (29 e 30 de Setembro) completava a notícia:
No Ministério das Colónias não foi ainda recebido qualquer novo telegrama sobre o tufão de Macau. O cruzador «Republica» garrou, não tendo, porém, sofrido qualquer avaria.”
“Pela vistoria a que se procedeu, verificou-se que o cruzador «República», não sofreu qualquer avaria, em consequência de ter “garrado” em Macau.
(1) “Formou-se no Pacífico  no dia 22 de Setembro de 1926 nas proximidades de Guam; deslocou-se para WNW e depois NW, atravessou Luzon e no Mar da China, recurvou para W passando a poucas milhas a norte das Pratas. passou a cerca de 60 milhas a Sul de Macau e entrando no Continente dissipou-se a N. de Hanoi no dia 28 de Setembro”. (NATÁRIO, Agostinho – Tufões que assolaram Macau.) 1957.
(2) O mesmo acontecendo em Hong Kong conforme relatório anual (1926) de “Hong Kong General Chamber of Commerce”
tufao-27set1926-hk-chamber-of-commercehttps://www.chamber.org.hk/FileUpload/201108261214531386/1926AR.pdf
(3) N.R.P «Macau» – lancha-canhoneira (1909-1943)
canhoneira-macau-1909-1943Sobre esta lancha, aconselho a postagem do site:
http://naviosenavegadores.blogspot.pt/2008/09/marinha-de-guerra-portuguesa-o-nrp.html
Nos comentários a esta postagem, Ricardo Matias dá uma informação sobre o destino desta canhoneira:
A canhoneira Macau e duas dragas do porto de Macau, foram entregues às autoridades militares japonesas que ocupavam a China por troca com 10.000 sacos de arroz, foi uma troca desigual e forçada pela ameaça de invasão. O navio passou a chamar-se Maiko e com o final da Guerra caiu em mãos chinesas em Cantão, rebaptisado Wu Feng, passou em 1949 para a China Comunista e perdeu-se o rasto. A troca foi realizada em 15 Agosto 1943, mas o navio continuou na lista da Armada até 1945, uma maneira de mostrar aos americanos que não ajudávamos os japoneses.”
(4) Cruzador «República» (ex-HMS Gladiolus) (1920 -1943)
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/03/06/noticia-de-6-de-marco-de-1927-o-cruzador-republica/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/02/leitura-o-cruzador-republica-na-china/
(5) GARRAR – (termo náutico) – quando o navio é levado a vogar à mercê das ondas, por não estar bem segura a amarra.  Desprender as amarras.
(6) GOMES, Luís G – Efemérides da História de Macau, 1954.

Recorte do jornal “Ultramar” (1), órgão oficial da I Exposição Colonial (Dir. Henrique Galvão), de 1934
ULTRAMAR 1934 n.º 6 -adamastor IO Cruzador “Adamastor” construído nos Estaleiros Navais de Livorno, lançado à água em 12 de Julho de 1896, comprado pelas receitas provenientes de uma subscrição pública organizada como resposta portuguesa ao ultimato britânico de 1890, entrou pela primeira vez a barra do Tejo em 7 de Agosto de 1897.

DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor IO “Diario Illustrado” de 7 de Agosto de 1897  dando a notícia da chegada do “Adamastor”, na sua primeira página (2)

DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor II Ferreira do AmaralO seu primeiro comandante foi o Conselheiro, capitão de mar-e-guerra Ferreira do Amaral. (3)
Com um comprimento (entre perpendiculares) de 73.81  metros  81 cm (comprimento de fora a fora) e velocidade máxima de 18 nós (uma propulsão de 4000 cv – 2 máquinas a vapor com 4 caldeiras alimentadas a carvão), o “Adamastor” tinha uma capacidade (inicial) composta de 215 elementos (16 oficiais, 36 sargentos e 163 praças (4). Em matéria de armamento (há várias versões) (5):
2 peças Krupp de 150mm/ 30 Calibres – Mod.1895 (Calibre: 150mm/Alcance: 14Km)
4  peças  Krupp 105mm/4.0GR Mod. 1895 (Calibre: 105mm/Alcance: 9Km)
4 peças Hotchkiss 65/46
2 peças Hotchkiss 37/42
2 metralhadoras Nordenfelt 6,5 mm e 3 tubos lança-torpedos
DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor IIIEm relação à estadia do “Adamastor” em Macau  e Extremo Oriente:
1.ª comissão ao Ultramar em Outubro de 1899 repartida pela Divisão Naval do Índico e pela Estação Naval de Macau. Regressa em Junho de 1901.
2.ª comissão, em Novembro de 1903 parte para o Extremo Oriente. Chega a Macau em Março de 1904. Desde Agosto desse ano até Março de 1905 permanece em Xangai a fim de proteger os interesses da colónia portuguesa residente, missão que se repetiria mais tarde. Em Agosto chega a Lisboa.
3.ª comissão, larga em Junho de 1907. Parte de Luanda em Maio de 1908 com destino a Timor, onde esteve de 6 de Julho a 24 de Agosto de 1908. Regressa a Lisboa em Julho de 1909.
No ano de 1910 foi montado no navio um aparelho T.S.F. e toma parte na implantação da República, marcando o seu início com 3 tiros como sinal. (6)
Em Outubro de 1912 inicia a sua 4.º comissão. Além de Macau escala Xangai e outros portos da China e chega a Lisboa em Outubro de 1913.
Foi durante esta comissão que o cruzador sofreu um acidente, no dia 11 de Maio de 1913, ao sair do porto de Hong Kong, tendo sido assistido pela canhoneira “Pátria” e o contra-torpedeiro inglês “Otter”. (7) Na sequência do acidente, o “Adamastor” deu entrada na doca de Whampoa, em Kowloon, para ser submetido a reparações. Daí seguiu para o Brasil (Rio de Janeiro e Santos) para participar no lançamento nas festividades da primeira pedra para a construção de um monumento em memória do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro Presidente da Primeira República Brasileira, terminando esta missão em Dezembro.
Em meados de 1913, o então capitão de fragata, João de Canto e Castro (1862 -1934) (futuro Presidente da República, que sucede a Sidónio Pais) recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor. (8)
De Agosto de 1919 a 18 de Julho de 1925 sofre grandes restauros, em Lisboa.
Em 1926 a 1928, nova comissão de serviço em Macau. Destacado para outras missões, em Julho de 1926 chega a Xangai  a fim de defender as concessões internacionais e render ao mesmo tempo o cruzador “República”, (9) tendo desembarcado uma força de 30 praças sob o comando de um 2.º tenente. Larga de Xangai em Março de 1928 e entra no Tejo em Abril.
Em Setembro de 1929 rumo novamente para o Extremo-Oriente, escala Macau e parte no dia 8 de Fevereiro de 1932, com destino a Xangai e dali parte em viagem diplomática para Japão. Volta a Xangai para protecção da comunidade portuguesa em virtude do início da guerra sino-nipónica.
Em 15 de Outubro de 1931, parte para Lisboa, em serviço, levando o  Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira (9)
Em 18 de Junho de 1932 está fundeado em Macau, reclassificado como aviso de 2,.ª classe, em péssimo estado geral nomeadamente do seu aparelho propulsor e da sua guarnição reduzida, pelo que é decidido que seja abatido em Lisboa. Larga de Macau em Março de 1933 chega a Lisboa em Julho (depois de uma atribulada viagem em que é obrigado a diversas paragens por sucessivas avarias).
Após 36 anos de serviço, foi o “Adamastor” abatido ao “Efectivo dos Navios da Armada” em 16 de Novembro de 1933.
Esta notícia do jornal de 15 de Abril de 1934, encerra a “vida” do “Adamastor” – foi arrematado o casco, vendido à Firma F. A. Ramos & Cª., pelo preço de 60.850$00 (10)
Cruzador ADAMASTOR(1) Ultramar n.º 6, 15 de Abril de 1934 , p. 8 .
(2) http://purl.pt/14328/1/j-1244-g_1897-08-07/j-1244-g_1897-08-07_item2/j-1244-g_1897-08-07_PDF/j-1244-g_1897-08-07_PDF_24-C-R0150/j-1244-g_1897-08-07_0000_1-4_t24-C-R0150.pdf
Francisco Joaquim Ferreira do Amaral(3) Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (1844 —1923), mais conhecido por Francisco Ferreira do Amaral ou apenas por Ferreira do Amaral, foi um militar (almirante) português, administrador colonial (Governador de S. Tomé e Príncipe, Governador-Geral de Angola, Governador da Índia Portuguesa)  e político da última fase da monarquia constitucional portuguesa (Presidente do Conselho de Ministros) Era o único filho de Maria Helena de Albuquerque (1.ª baronesa de Oliveira Lima)  e do governador de Macau João Maria Ferreira do Amaral.
Mais informações em
https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Ferreira_do_Amaral
(4) Em Macau tinha uma tripulação de 206  (14 oficiais, 23 sargentos e 169 praças.)
BARROS, Leonel – Memórias Náuticas, 2003, p. 67
(5) http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt/Documents/Cruzador%20Adamastor.pdf
(6) “Para além de Machado dos Santos ( comissário naval), a Marinha teve um papel destacado na revolução, através do “Adamastor” e do “S. Gabriel”, e dos oficiais, sargentos e marinheiros que participaram em acções no Quartel de Alcântara, na abordagem ao D. Carlos….” (VENTURA, António – A Marinha de Guerra Portuguesa e a Maçonaria, 2013, pp. 25.
(7) 11-05-1913 – O cruzador «Adamastor» foi de encontro a uma rocha perto de Hong Kong ( SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4)
Ver referência a este episódio em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cruzador-adamastor/
(8) “Em meados de 1913, recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor. Esta será uma viagem inesquecível. Além de conhecer outras paragens (passa pela Alemanha, Rússia e China), contacta duas figuras políticas com que se cruzará mais tarde e em circunstâncias bem diversas: Sidónio Pais, que encontra em Berlim quando ruma a Macau, e Bernardino Machado, que recebe, na qualidade de embaixador de Portugal no Rio de Janeiro, a bordo do cruzador na sua passagem pelo Brasil.”
http://www.museu.presidencia.pt/presidentes_bio.php?id=27
(9) 6-03-1927 – Ida do cruzador «República» para Xangai.
15-10-1931- Parte para Lisboa, em serviço, o Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira no Cruzador “Adamastor” que  sai da Ponte Nova do Porto Exterior (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4)
(10) https://pt.wikipedia.org/wiki/NRP_Adamastor.

O Comodoro Guilherme Ivens Ferraz descreve no seu diário de bordo publicado em livro «O cruzador “República” na China» (referenciado em anterior “post”) (1), no dia 8 de Junho ( 1926) sobre os aviadores espanhóis em Macau (referido em anterior “post”) (2)
Macau, 8 de Junho:
… Um acontecimento sensacional se deu em Macau, o qual foi a chegada do aviador espanhol Gallarza (3) no dia 1 de Maio, ficando a cidade em ansiedade por se desconhecer o paradeiro do capitão Loriga (4) e seu mecânico, saídos de Hanoi na mesma ocasião.

Eduardo GallarzaCapitão Eduardo Gonzalez Gallarza Iragorri (1898-1986)
http://www.valvanera.com/rigallarza.htm

O aparelho de Gallarza, ao aterrar foi de encontro a umas árvores de Mong-Ha, deformando as azas inferiores e partindo o montante esquerdo de duro-alumínio. Esta última avaria era de tal gravidade que o próprio aviador perdeu por completo o ânimo, considerando-se impossibilitado de concluir o vôo Madrid-Manila. (5)
Tal não sucedeu porém, tendo as avarias sido reparadas com a maior perfeição, apenas com os recursos da terra e muita boa vontade.
Apesar de todos os esforços feitos para obter notícias do paradeiro do aparelho do capitão Loriga, não se conseguiu ao menos a resposta aos instantes telegramas mandados às autoridades francesas da Indo-China.
No dia 3, Sua Ex.ª o Governador da Província ordenou-me que empregasse todos os esforços, para descoberta do paradeiro dos aviadores espanhóis extraviados. Para esse fim mandei aprontar com urgência a canhoneira, a lancha-canhoneira Macau e a lancha Demétrio Cinatti, dando-lhes instruções… (…).

Joaquin  TaboadaCapitão Joaquin Loriga Taboada (1895-1927)
http://www.biografiasyvidas.com/biografia/l/loriga.htm

… (…) Por uma feliz coincidência, logo na manhã seguinte a Pátria aproximando-se do vapor chinês Tejo o qual, nas alturas de Kokok seguia para o Norte em direcção a Cantão, verificou que a bordo dêsse vapor seguiam fazendo sinais, o capitão Loriga e o seu mecânico, sargento Perez. 
Transmitida em rádio esta notícia, foi grande e alvoroçado o regozijo de todos, que motivos tinham para julgarem perdidos os heroicos aviadores.Ao princípio da tarde entrou a Pátria no pôrto, trazendo os dois citados aviadores, que foram recebidos co o maior regozijo, seguindo-se festas deslumbrantes durante dias consecutivos.” (1)

Os aviadores espanhóis partiram de Macau, no dia 11 de Maio de 1926, tendo o avião levantado voo às 7.30 horas da manhã, no prosseguimento da viagem para Manila. A esquadrilha que saiu de Madrid era composta por três aviões “Breguet 19” e somente um chegou a Manila, percorrendo em 39 dias os 17.500 Km entre Madrid e Manila.
O Comodoro Guilherme Ivens Ferraz no mesmo diário:
No dia 9, saiu o República não só com o fim de marcar um ponto da derrota do avião, como para o socorrer, caso fosse necessário.
No dia 11 passou o avião sobre o República a uma altura sw cêrca 1:800 metros, verificando-se que seguia exactamentew na direcção que condizia a Aparri.” (1)

Tabela de Voo Madrid Manila 1926(1) LEITURA – O CRUZADOR “REPUBLICA” NA CHINA
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/02/leitura-o-cruzador-republica-na-china/
(2) (3) (4) Anterior referência a essa aventura bem como biografia dos dois aviadores em: MAIS NOTÍCIAS DE 11 DE MAIO – RAID MADRID – MANILA
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/05/11/mais-noticias-de-11-de-maio-raid-madrid-manila/
(5) “Gallarza no tuvo más remedio que intentar el aterrizaje en Macao, en una explanada de 400 metros de longitud por 100 de anchura rodeada de árboles y líneas de alta tensión por los cuatro costados. El campo estaba señalizado con una gran T en el centro y una cruz blanca a 50 metros de ella; el piloto creyó que esta cruz sería una indicación de terreno blando, que debería evitarse, lo que redujo aún más el escaso espacio útil y propició el fatal desenlace. Aunque el choque se produjo a escassa velocidad el borde de ataque del plano inferior quedó destrozado y se dobló el montante soporte de las alas izquierdas, así como una pieza en el fuselaje. La reparación del borde de ataque no presentaba dificultades importantes, pero el montante era de dura luminio y no se veía forma de poderlo enderezar sin romperlo o degradar su resistencia.”
http://www.ejercitodelaire.mde.es/stweb/ea/ficheros/pdf/1BD09937E85D784CC12575450033F65F.pdf

“6-03-1927 – Ida do cruzador «República» para Xangai.” (1)

O Cruzador República na China - Em Macau“Foi num domingo o dia 5, todavia o República pôde sair na maré seguinte, ou seja ao meio dia do dia 6, levando a bordo sob o comando de um tenente, um destacamento de infantaria constituído por uma sargento e 26 soldados.
A viagem fês-se sem o menor incidente até ao Cabo Aguilar; nessa altura porém começou a formar-se uma neblina, que a breve trecho se transformou num intenso nevoeiro. Fui forçado a reduzir o andamento a 80 rotações e a navegar com todos os cuidados, tanto mais que pelo través de Swatow, um número sem conta de juncos de pesca coalhavam o caminho, fazendo notar a sua presença pelo toque de buzinas, por uma gritaria infernal e por luzes mostradas na ocasião.
Durou o nevoeiro até cêrca da meia noite do dia seguinte quando um enorme paspalhão desfêz repentinamente o nevoeiro, permitindo ver e marcar os faróis da costa.
A pesar do vento muito fresco, dos pesados aguaceiros e de algum mar, mandei andar então às 120 rotações, ao que correspondem 12 milhas de velocidade.
O tempo continua agreste e frio, mas o navio vai seguindo sem novidade, apesar da falta de alojamento enxoto para muitas praças da guarnição e soldados.
No dia 5, comuniquei pelo telégrafo a partida do República ao sr. Cônsul Geral de Portugal em Shanghai.” (2)

Comodoro Guilherme Ivens Ferraz (3)

O Cruzador RepúblicaCruzador República (1920 – 1943) (4)
Ex – HMS Gladiolus (1916-1920) da marinha inglesa

(1) A. H. M. –F.A.C.P. n.º 89 – S-C in SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Volume 4.
(2) “Recebi pelas 18 horas (dia 5 de Março) do Cônsul Geral de Portugal em Shanghai um telegrama cifrado que queria dizer:

Comodoro Ivens Ferraz –Cruzador – Macau

Parece-me estão finalmente sanadas as dificuldades vinda República cuja presença aqui tenho solicitado há muito tempo. Rogo a V. Ex.ª o favor de comunicar data partida – Cônsul Geral. (3)
(3) FERRAZ, Guilherme Ivens – O Cruzador “República” na China”. Ver referência a este livro em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/02/leitura-o-cruzador-republica-na-china/
(4) http://www.warshipsww2.eu/shipsplus.php?language=&period=&id=505903

No tufão de 23 de Agosto de 1927, um dos mais violentos e sobretudo de maior duração que tem sofrido esta colónia, veio abrigar-se no porto exterior, onde amarrou com os seus dois ferros, o vapor chinês «Wing Woo», de 538 toneladas e de carreira de Kuong-Chau-Van.(1) Este vapor, apezar de velho e com carga de suínos vivos em gaiolas, como usam os chineses, aguentou-se debaixo do violentísssimo tufão sem avaria alguma, tendo apenas garrado um pouco.
            Nessa ocasião, encontraram-se a canhoneira «Pátria», e a lancha-canhoneira «Macau», amarradas a boias junto da Ilha Verde. A «Macau», tendo rebentado o elo da boia, esteve em grande risco de se avariar de encontro ao perré da margem.

                                  Jaime do Inso MACAU 1929 PÁTRIACanhoneira “ PÁTRIA(2)

 A canhoneira «Pátria», passou sem novidade aquele tufão memoravel, que durou cêrca de 36 horas, tendo rajadas de 190 Km à hora, que arrancou arvores seculares, e em que as aguas subiram 2,78 m., acima do praiamar daquele dia, ou sejam 5,28 m., acima do zero hidrográfico, causando inundações, algumas mortes, naufrágios e muitos anos de toda a ordem.
            O pequeno vapor «Pak-Tao» da fiscalização das alfândegas chinesas, entrou pela terra dentro e foi encalhar num arrosal ao norte da Ilha Verde.
            Os prejuízos causados por este tufão foram avaliados em $ 25.000, tendo sido a população marítima a que, como quasi sempre, mais sofreu.” (3)

Um dos mais violentos tufões que atingiu Macau veio pôr à prova o abrigo seguro que o novo Porto Exterior passou a representar. O cruzador «República» galgou os molhes indo lutar com as vagas, para defronte do Tanque do Mainato, correndo sério de se despedaçar de encontro às pedras ali existentes, chegando na luta com o mar a estar distanciado de terra apenas uns cem metros.” (4)

(1)   Kuong-Chau-Van era uma colónia francesa e existia uma carreira marítima regular que durava cerca de 30 horas. O comércio com esta colónia era importante pois daí vinha a maior parte da importação de suínos.
(2)    Esta foto documenta a chegada da Canhoneira «PÁTRIA» a Hong Kong, conduzindo o Governador de Macau, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (2.º mandato, de 8-12-1926 a 2-01-1931) em visita oficial, em 20 de Setembro de 1927. Beatriz Basto da Silva na sua “Cronologia” (4) aponta para o início da visita oficial a 27 de Setembro de 1927.
(3)    INSO, Jaime do – Macau. Escola Tipográfica do Orfanato de Macau, 1929, 152 p.
(4)   SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1997, 454 p., ISBN-972-8091-11-7.

Partiram no dia  11 de Maio de 1926, os aviadores espanhóis, Capitão Joaquin Loriga Taboada  e Capitão Eduardo Gonzalez Gallarza tendo o avião levantado  voo às 7.30 horas da manhã, no prosseguimento da viagem para Manila. Durante a sua estadia em Macau, foram homenageados com várias festas pelos clubes locais. O cruzador «República» seguiu no dia anterior para as Pratas, a fim de servir de ponto referência e, entre essas ilhas e o Cabo Bojador (que também há um ao norte das Filipinas) encontravam-se, para esse fim, a canhoneira francesa «Algol» e dois contratorpedeiros americanos, sendo os aviões acompanhados pela esquadrilha aérea americana, desde o Bojador até Manila. (1) (2).

Monografias, artigos, mapas 1929 - Aviadores espanhóisOs aviadores espanhóis do Raid Madrid – Manila acompanhados do oficial às ordens, no Campo da Mong Há  (3)

 O aviador espanhol Capitão Eduardo Gonzalez Gallarza e o mecânico Arosamena, no seu voo Madrid-Manila, aterraram, vindos de Hanói, pelas 17.20 horas do dia 1 de Maio de 1926, no antigo campo de Mong Há. Foram de encontro a umas árvores e ficaram amolgadas as asas do aparelho. O avião do seu companheiro Capitão Joaquin Loriga Taboada e mecânico Perez caiu em San Tong, em território chinês, sendo os dois recolhidos, por um barco chinês e entregues à canhoneira «Pátria» que, com a lancha-canhoneira « Macau», tinha ido à sua procura. (1) (4)

Monografias, artigos, mapas 1929 Raid Madrid ManilaTrajecto da Esquadrilha “Elcano” (5)

NOTA: O Raid Madrid – Manila foi efectuado por uma esquadrilha (“Escuadrilla Elcano“) formada por três aviões “Breguet XIX” (aparelhos monomotores biplano com cabina aberta e carga útil de 220 Kg) capitaneados por Joaquín Loriga Taboada, Rafael Martínez Esteve e Eduardo Gonzalez Gallarza. Seguiam também os mecânicos Joaquin Arozamena Postigo, Pérez e Calvo.  Partiram de Madrid a 5 de Abril de 1926 (Aeroporto de “quatro vientos“) e necessitaram 39 dias para fazer os 17 500 kilómetros, em 20 etapas  (5)

Monografias, artigos, mapas 1929 avião Breguet XIXAvião “Breguet XIX”

(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)
(2) O Capitão Eduardo Gonzalez Gallarza (1898-1986) militar e pioneiro da aviação espanhola. Tentou dar a volta ao mundo em Agosto de 1928 a bordo de um “Dornier Super Wall” ( com Rámon Franco)  e em 1929 com um “Dornier Wall“. Ambas as tentativas foram falhadas tendo na última, sido forçado a amarrar perto de Açores, permanecendo perdido durante oito dias, sendo regatado por um porta aviões inglês. Foi posteriormente Ministro do Ar de 1945 a 1957.
http://es.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gonz%C3%A1lez-Gallarza
O Capitão Joaquin Loriga Taboada (Raid 1895 -1927), militar, morreria depois num desastre, no aeródromo de «Quatro Vientos», (Madrid) em 19 de Julho de 1927, quando o avião em experiência se despenhou no aeródromo.
http://es.wikipedia.org/wiki/Joaqu%C3%ADn_Loriga
(3) Monografias, artigos, mapas e gráficos estatísticos, 1929
(4) O avião do Capitão Loriga que caiu em San Tong, não teve conserto pelo que o mecânico Arozamena optou por ficar em terra cedendo o seu lugar ao Capitão Loriga que seguiu viagem no avião do Capitão  González Gallarza ( que ficou reparado no dia 5 de Maio)
(5) http://es.wikipedia.org/wiki/Escuadrilla_Elcano

                     Um Festival em Macau 1911 I O Monumento a «Vasco da Gama» inaugurado em Macau”

“Macau festejou o advento da Republica com uma solemnidade bem patriótica à memória de Vasco da Gama. Foi nos jardins de Flora, deante da população, que acorrera curiosamente, e de representantes dos setenta mil chineses da colonia que se realisou a grande festa na qual se descerrou o busto em bronze do celebre navegador portuguez.

Um Festival em Macau 1911 II“A cerimónia da inauguração” 

De seguida no campo vastissimo visinho dos jardins fizeram-se concursos de varios exercicios physicos em que predominaram os trabalhos dos militares, como o lançamento da bola a distância, precursos de velocidade e a passo e uma corrida de obstáculos. Os elementos de marinha tambem tomaram parte na festividade. Tratava-se do lançamento de um cabo que desenrolando-se no ar attingisse mais de vinte metros , o que foi conseguido pelo contramestre Pires, da canhoneira Patria e por dois marinheiros d´este navio e da Macau.

Um Festival em Macau 1911 III“No dia da inauguração” 

Houve tambem corrida de ciclystas e os rapazes das escolas da cidade fizeram exercicios de gymnastica sueca.A lucta de tracção foi disputada por marinheiros do cruzador República, da Pátria, Macau, soldados de artilharia, infantaria, polícia e da guarnição de Coloane, formando-se assim grupos de europeus e indianos, vencendo os soldados de artilharia. A cerimonia terminou ao som triumphal da Portugueza cantada pelas creanças e dos vivas á República correspondidos pela população.” (1)
NOTA: Embora a revista não mencione a data deste evento (a revista tem data  de Abril de 1911), este “festival” terá realizado entre Fevereiro e Março de 1911 (a inauguração do monumento foi a 31-01-1911). (2)
A proclamação da República em Macau foi a 11 de Outubro de 1910 e a 15 de Outubro do mesmo ano, foi hasteada pela primeira vez, a Bandeira da República Portuguesa, no edifício do Leal Senado (3)
(1) Illustração Portuguesa, 1911
(2) Ver a postagem anterior:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/31/noticia-de-31-de-janeiro-de-1911-monumento-de-vasco-da-gama/
(3 SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)
Outros postais já publicados sobre o jardim/monumento de Vacso da Gama:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/monumento-a-vasco-da-gama/
 

O cruzador república na China Praia GrandeAvenida da Praia Grande

O cruzador república na China Portas do CercoPortas do Cerco

 O cruzador república na China Largo SenadoLargo do Senado / Leal Senado

O cruzador república na China Santa CasaSanta Casa da Misericórdia

 (1) FERRAZ, Guilherme Ivens – O Cruzador “República” na China. Academia da Marinha,  2.ª edição (fac-simile), 2006, 654 p. + XVIII p. ISBN 972-781-091-8.