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Extraído do «BOGPM», n.º 8 de 20 de Fevereiro de 1926

Já em anterior postagem de 18-04-2012, fiz referência a estes sinais feitos na Fortaleza do Monte para se conhecer a localização dos incêndios. A diferença maior na sinalização neste intervalo de tempo de 40 anos (1926-1966) está na ausência do disparo de dois tiros de peça antes da colocação dos sinais.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/04/18/sinais-de-incendio-na-fortaleza-do-monte/

Os serviços de incêndios de Macau foram, em tempos remotos prestados pelos seus próprios habitantes e com material adquirido por particulares.
Até ao ano de 1882, (1) não havia estações de bombeiros, mas apenas postos para a armazenagem do material sendo todo o pessoal constituído por empregados das lojas comerciais, fabricas e outros moradores.
Datam de 1883 os primeiros «Serviços de Incêndios», sob a administração da Fazenda Pública. (2)  Mais tarde, esses serviços passaram à administração da Direcção das Obras Públicas, cujo director desempenhava as funções de Inspector de Incêndios. (3)
Esses serviços, até 1914, (4) eram rudimentares e insuficientes para a cidade, cujo desenvolvimento populacional aumentava em ritmo acelerado.
No ano de 1914, (5) o sr. Henrique Nolasco da Silva pôs à disposição dos Serviços de Incêndios  a sua viatura automóvel, um das poucas existentes em Macau, que ao alarme de fogo, ou de outro sinistro, acorria sem perda de tempo, ao Quartel de S. Francisco, a fim de transportar o Inspector de Incêndios e os bombeiros auxiliares (militares).
Em face deste evidente atraso, o então major de Infantaria, João Carlos Craveiro Lopes, (6) já pela generosidade que era seu timbre, já pelo que em Portugal fizera (2.º comandante dos Bombeiros Municipais de Lisboa) e pelo que vira no estrangeiro, resolveu dotar esta Cidade de Nome de Deus com um serviço de incêndios, a que tinha indiscutível direito, pelo que seu crescente desenvolvimento comercial e industrial, pela expansão das suas artérias e pela sua categoria de grande centro do Sul da China.
E assim se criou, em 30 de Outubro do ano de 1915, a «Inspecção de Incêndios», tendo por seu 1.º Inspector Comandante o detentor da medalha «Torre e Espada», ganha honrosamente ao célebre incêndio da «Madalena», o major João Carlos Craveiro Lopes. (7)
A técnica a empregar na extinção de fogos, posta em vigor em 1915, foi ensinada por este Grande Bombeiro, saudoso pai do actual Presidente da República Portuguesa.
Igualmente a Corporação lhe deve o ter sido apetrechado com material e ferramentas apropriados para os serviços de prevenção e ataque, além das melhores bombas a vapor, conduzidas por tracção animal.
Foi em 1917 adaptada a 1.ª viatura automóvel em «Pronto-Socorro», cedida pelos «Serviços dos Correios de Macau» à «Inspecção de Incêndios».
Em 1919, passou a «Inspecção de Incêndios» a designar-se «Corpo de Bombeiros» a cargo da Câmara, para efeitos de administração. (8)
Em 1922, a Corporação começou a ser equipada com apropriadas viaturas motorizadas das mais completas, da Casa Merryweather. (9)
Em 1923, a Corporação passou a denominar-se «Corpo de Salvação Pública, voltando à administração directa do Governo da Província subordinado à Secretaria Geral do Governo. (10)
Em 1936, coube à Repartição Técnica de Obras Públicas a administração do mesmo. (11)
Nos termos do § 1.º do art. 12.º do Decreto n.º 31:714 do Ministério das Colónias, conjugado com o art. 47.º do D. L. n.º 908, do Governo da Província de Macau, o Corpo de Salvação Pública com o seu pessoal e material transitou para o Leal Senado, a partir de 1 de Janeiro de 1946. (12)
A Corporação, passou então a denominar-se «Corpo de Bombeiros Municipais», de acordo com a Organização dos Serviços do Leal Senado da Câmara de Macau.

obras-e-melhoramentos-1947-1950-pronto-socorro-cbmO novo pronto-socorro do Corpo de Bombeiros Municipais. em 1955

O edifício situado na Estrada Coelho do Amaral serve de «Quartel dos Bombeiros» e tinha 14 divisões: parque para viaturas, casernas, central telefónica, comando, secretaria, arquivo, porto médico, arrecadação, casa-escola, cantina, sala recreativa, sala de aulas, barbearia e campo desportivo.
Em 1951, foi instalado um «Posto de Incêndios» para a protecção do Bairro e moradores das Casas de Madeira da Ilha Verde.
Em 1955, a corporação era constituída por 75 elementos incluindo o Comandante, Manuel Dimas Pina e seu ajudante, Napoleão da Guia de Assis. Tinha ao seu serviço o seguinte efectivo de viaturas:
1) 2 Pronto-Socorros (Ford V-8)
2) 1 Pronto -Socorro (Ford)
3) 1 Auto-Bomba (Dennis)
4) 1 Ambulância (Ford V-8)
5) 1 Ambulância (Austin)
6) 1 Camioneta (Ford)
7) 1 Carro-de-Comando (Willy´s Overland)
8) 2 Moto-Bombas (Merryweather)
9) 1 Moto-Bomba (Pfalaz)

obras-e-melhoramentos-1947-1950-ambulancia-cbmA nova ambulância do Corpo de Bombeiros Municipais, em 1955

(1) “18-03-1867 – Foram aprovadas, provisoriamente, por portaria régia, algumas providências do governo de Macau sobre o serviço de incêndios.” (13)
(2) “25-09-1875 – Nomeado pela Portaria n.º 79 o Major de Engenharia do exercito de Portugal, Augusto César Supico, para o cargo de Inspector de Incêndios. Exonerado em 20-01-1879“. (14)
(3) “20-01-1879 – Exonerado o Major Eng.º Augusto Cesar Supico do cargo de Inspector dos incêndios e nomeado o Major Raymundo José de Quintanilha , Director das Obras Públicas , para exercer o mesmo cargo“. (14)
(4) “28-04-1912 – Nomeação de Simeal José Gregório Madeira, sota da Inspecção dos Incêndios de Macau”. (15)
(5) “1914 – Henrique Nolasco da Silva pôs à disposição dos Serviços de Incêndio o seu automóvel, um dos primeiros que existiram em Macau a fim de acorrer com mais presteza aos sinistros. O pessoal de incêndios, na maioria militares, estava aquartelado em S. Francisco”.(15)
(6) “09-10-1915 – Louvado o Major de Infantaria João Carlos Craveiro Lopes, comandante do Corpo da Polícia (mais tarde General e Governador do Estado da Índia e pai do Marechal Craveiro Lopes, Presidente da República) por se ter oferecido para ministrar instrução de bombeiros a um núcleo de praças do Corpo de Bombeiros Voluntários que satisfaça às exigências da cidade de Macau.(15)
(7) “1-11-1915 – Nomeado para interina e cumulativamente exercer o cargo de Inspector de Incêndios o Major de Infantaria João Carlos Craveiro Lopes (P.P. n.º 253). Exonerado a 13-03-1916″ (15)
(8) “26-04-1919 – A Inspecção de Incêndios de Macau é extinta e criado em sua substituição o «Corpo de Bombeiros». Nesta data pela Portaria n. 80, B. O. n.º 17 é aprovada a organização do Corpo de Bombeiros de Macau, extinguindo a Inspecção de Incêndios . A  2-09-1919, este passa para o Leal Senado”.(15)
(9) “1922 – O Corpo de Bombeiros de Macau recebe equipamento e viaturas modernos. (15)
(10) “01-09-1923 – O corpo de Bombeiros volta para o Governo da Província e passa a denominar-se Corpo de Salvação Pública. (15)
(11)  “7-03-1936  – O Corpo de Salvação Pública de Macau – os «Soldados da Paz», até aí vinculado à Secretaria Geral do Governo, passa a estar ligado às Obras Públicas (15).
(12)  “01-01-1945 – O Corpo de Salvação Pública transita para o Leal Senado, passando a Corpo de Bombeiros Municipais”. (15)
(13) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(14) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau , Vol. 3, 1995
(15) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau,  Vol. 4, 1997

Retirado do artigo “Corpo de Bombeiros Municipais de Macau“, publicado no «Anuário de Macau, 1953-55»,

Há ainda no Jardim da Flora a cabeça dum cão, vinda também da Fonte da Inveja. Como a bica desta fonte tinha a forma dum peixe e o fecho do arco do pórtico representava a cabeça dum cão, o público chamou-lhe a Fonte do Peixe-Cão, como remoque ao presidente da Câmara desse tempo, Domingos Clemente Pacheco, apelidado Pachecão.Os chineses davam o nome de I Long Hau (1) – (Garganta de dois Dragões) à Fonte de Inveja, porque os chineses confundiram o peixe e o cão por dois dragões. Este nome,  mais tarde foi atribuído à zona da Fonte da Flora (fonte por detrás do antigo Palácio da Flora. residência de Verão dos Governadores destruída pelo rebentamento do paiol).
A Fonte da Flora é também conhecida por Tai Long Hau (2) (Boca do Grande Dragão).
Uma cabeça  romana proveniente da Fonte da Inveja que derramava água pela boca está no Jardim da Flora.
Esta formosa fonte deu o nome à Rua da Fonte da Inveja, (3) que começa na Avenida Sidónio Pais, entre a Escola infantil «D. José da Costa Nunes» e o  Quartel da Flora, e termina na encosta da Colina da Guia, junto da Fonte da Inveja. (4)

Hospital Miitar Sam JanuárioQuando se construiu o Hospital de S. Januário a água era para lá conduzida da Fonte da Flora numa carroça puxada por um boi.
Após 25 anos de serviço contínuo, sem um dia de descanso nem sequer aos domingos, foi o boi demitido por estar velho, jarreta, trôpego e cansado. Do «Zé do Boi», que durante um quarto de século guiou esse seu amigo desde a Flora até ao Hospital de S. Januário para o abastecer de água, nem o nome se lhe conhece.
Só os amigos do «Zé do Boi» poderiam contar-nos as memórias gloriosas desta figura tão popular do nosso Macau, de há 50 anos.
Depois do boi, apareceu o caminhão do Corpo de Salvação Pública a fazer o mesmo serviço , agora mais rápido e com maior quantidade de água.
Ora em 1938 surgiu a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau, que tomou posse de todos os poços públicos e municipais e mandou encerrar muitos outros particulares. Foi ainda proibida a importação da água da Ilha da Lapa e da venda da mesma feita pela Companhia Loc Vó. O Corpo de Salvação Pública continuou a transportar a água da Fonte da Flora para o Hospital e era só esta que os doentes bebiam.
Os interesses feridos resultaram num casus belli: se os doentes não bebiam a água da Companhia Concessionária, era sinal que esta não prestava.
A Loc Vó agitou os cordelinhos e o pânico invadiu a população chinesa. Começou a manifestar-se uma certa reacção contra o consumo dessa água; de início, foi de carácter pacífico, notando-se apenas relutância em beber dessa água. Mas  essa reacção foi gradualmente aumentando a ponto de se chegar ao extremo de se quebrar as tampas dos poços encerrados  e de se fazer uma acintosa campanha de descrédito contra ela.
Então abalaram-se as potestades cá da terra: a Sociedade que fornecia a água, o Leal Senado que lhe concedera o exclusivo do abastecimento, o Corpo de Salvação Pública que levava o caminhão, os Serviços de Saúde e Higiene e o próprio Governo.
Ofícios, reuniões, discussões, um sarilho. Ora o boi, o doce boi, o boi mansinho, esse leão com um coração de passarinho, nunca fizera sarilho nenhum…(…)
TEIXEIRA, P. Manuel –  Toponímia de Macau, Vol I, pp..136, 246 – 247
(1) 二 龍口 – mandarim pinyin:  èr lóng kǒu; cantonense jyutping: ji6 lung4 hau2 -boca de dois dragões
(2) 大龍口 – mandarim pinyin:  dà lóng kǒu; cantonense jyutping: daai6 lung4 hau2 -boca do grande dragão.
(3) Rua da Fonte de Inveja – 二龍喉街
(4) Hoje entrada (topo norte) do túnel do Monte da Guia – 松山隧道