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Continuação das postagens: “MACAU RETROSPECTIVA I” e “II” (1), nomeadamente na apresentação do segundo postal dos quatro emitidos com o mesma tema,
As referências iconográficas são da autoria de Luís Sá da Cunha e foram extraídas do documento dos CTT explicativo da emissão (pagela)

QUADRO II – POSTAL – SELO DE 1.50 patacas

A ALMA E O ESPÍRITO
Desde o início, a estratégia da entrada no âmago do Império Chinês dava valor igual ao Outro. Assim foi definida a política de “acomodação cultural”, cerne de uma vasta operação inter-civilizacional com sede no Colégio da Madre de Deus em Macau. Foi o mais largo e exemplar fenómeno de encontro de culturas assinalado na História.
De 1582 a 1773, foram apresentados à classe letrada do Império chinês todos os ramos do Saber ocidental, movimento nucleado ao famoso Tribunal das Matemáticas da Corte de Pequim, presidido quase desde o início a até à extinção por jesuítas portugueses. Foram publicadas nesse período 187 obras, esforço ingente de tradução para língua chinesa dos livros mais marcantes na cultura e na ciência ocidentais.
No ano 48 do reinado de Wanli (1620) Nicolas Trigault chegou a Macau com “mais de sete mil livros bem decorados”; na maioria forma formar a biblioteca de Pequim.
Sobressaíram os contributos prestados à cultura chinesa nos campos da Matemática, da Medicina, da Astronomia (o rigor na predição dos eclipses era politicamente importante para demonstrar que o Imperador ainda gozava do “mandato do Céu”), da Mecânica, da Música e do Calendário (reforma do calendário chinês segundo o gregoriano).
Em sentido inverso, a divulgação da cultura tradicional chinesa começou a fluir para a Europa com os primeiros relatos descritivos da nação e do Império (sobretudo de autores portugueses) e com a publicação do Quadrivolume de Confúcio (Sishu)  por Ricci em 1593, em Itália (Tetrabiblion Sinense de Moribus).

Verso do postal – BP . MACAU – 85

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/12/19/noticia-de-19-de-dezembro-de-1999-filatelia-macau-retrospectiva-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2019/01/09/postal-i-filatelia-macau-retrospectiva-ii/

Certidão de D. Sebastião Lobo da Silveira, (1) datada de 10 de Novembro de 1643, sobre a insubordinação / revolta dos soldados e a ajuda dos jesuítas:
“Lavrou a tal ponto a insubordinação e a revolta que os soldados do presídio desamparam S. Paulo. Os jesuítas saem do Colégio anexo à Fortaleza de S. Paulo, acorrem a ela e colocam-se ao lado do Capitão e ali conservam a pé firme dias e noites.
Silveira confessa que teve sempre os jesuítas a seu lado, “em particular neste último tempo que os soldados do presídio fugiram e largaram as forças (fortalezas) aleivosamente por maus conselhos dos religiosos dos três conventos, de S. Francisco, S. Agostinho e S. Domingos e de alguns seculares, que a seu tempo saberá
Achando-me só em grande aperto, me vali dos ditos Reverendos Padres da Companhia, os quais achei com particular vontade e verdadeiro ânimo para se empregarem com pessoas, vidas  e fazendas no serviço del-rei D. João IV, Nosso Senhor, acompanhando-me  de dia e de noite  neste Forte de S. Paulo, em que resido, e com sua indústria e diligência fizeram com alguns cidadãos dos principais da terra que tivessem particular cuidado de me assistirem» (2)
(1) Segundo Padre Teixeira, o capitão-geral D Sebastião Lobo da Silveira (1638-1644) não era boa peça. Essa insubordinação e revolta dos soldados deveu-se às despesas extraordinárias com a aclamação de D. João IV em 1642; para compensar, lançou mão dos soldos do presídio, que montavam a 1200 patacas mensais. Os soldados, vendo-se sem dinheiro, abandonaram os seus portos, deixando indefesas as fortalezas e revoltaram-se.(2)
Quando foi substituído em 1644 por Luís Carvalho de Sousa, o Senado da Cidade requereu ao novo governador a ao Governador do Bispado,  Padre Manuel Fernandes, a prisão de Sebastião Lobo d Silveira, por este ter sido a favor dos Espanhóis após a declaração de independência de 1640.
Dom Sebastião Lobo da Silveira saiu de Macau em 1644 e em 1647 foi embarcado em Goa rumo à Metrópole para aí ser julgado, no entanto o navio em que seguia veio a naufragar na costa do Natal. Os náufragos conseguiram passar para outro navio e seguiram para Moçambique, mas como Lobo Silveira era muito gordo, não conseguiu fazer o mesmo, deixaram-no e ele ali terá morrido.
No livro “Relaçam do naufragio que fizeram as naos Sacramento e nossa Senhora da Atalaia … de que era Capitão mór Luis de Miranda Henriques, na [sic] anno de 1647, etc”,  (3)
D Sebastião Lobo da Silveira, era assim descrito na p. 20:
D. Sebastião Lobo da Silveira era tão incapaz para marchar por ser muito pesado de gordura, e outros achaques, que lhe impediao andar poucos passos por seu pé, pelo que pediu aos grumetes, e officiaes, que o conduzissem, e por via do seu irmão D. Duarte Lobo, que de todos era bem quisto, se veio a concertar, que o acarretariao em huma rede, que se fez de linhas de pescar, dando a cada grumete oitocentos xerafins, a que se obrigou D. Duarte Lobo, e elle deu penhores de ouro…”
E sua morte assim relatado nas pp. 22-23:
(2) TEIXEIRA, Monsenhor Manuel – IV Centenário dos Dominicanos em Macau 1587-1987. Fundação Macau, 1987, 50 p.
(3) Consultável em:
https://books.google.pt/books?id=of9lAAAAcAAJ

A construção do Colégio de S. Paulo (1594) ao qual dentro em breve (1602) seria acrescentada a majestosa Igreja a Madre de Deus, de que restam imponentes ruínas, partiu da ideia do Padre Visitador Vaglinani que na sua construção foi eficientemente auxiliado pelo padre Reitor Manuel Dias e a ultimaram com dispêndio de larga soma.
Na construção, uma das secções, logo lá individualizada, foi a da enfermaria, que aparece referida, pelo menos depois do acrescente «da varanda nova, com vistas para o rio» (porto interior),na verdade, a exposição recomendável (…)
Anexa à enfermaria estava a indispensável botica, a cargo de Irmão especializado e sempre proficiente.

postal-ruinas-de-s-paulo-dst-1986POSTAL – RUÍNAS DE S. PAULO
Colecção «MACAU DST»  s/data
(Provavelmente de 1986)

Eis uma carta escrita por um desses Irmãos boticários dirigida ao Padre Visitador Jerónimo Rodrigues em 21 de Dezembro de 1625 e cópia da mesma, ao Rev.mo Padre Geral no ano de 1626.
Por vezes tenho falado a V. Rev.ma dando-lhe várias razões para que haja por bem que eu não vá para fora da Casa curar nenhum enfermo e, também, por via do meu confessor o fiz saber a V. Rev.ma.
Mas como foram dadas, por várias vezes e de palavra, pareceu-me ajustá-las por escrito, as quais são as seguintes:
Primeiramente, tenho dificuldade de curar fora desta Casa, por não ser médico, porque um médico tem necessidade de saber muito bem latim, curso e medicinas e como V. Rev.ma sabe, das duas não sei nada e de latim sei muito pouco.
Vai em 6 anos que estou em Macau e todas as vezes que os Superiores me mandam fazer alguma cura, me escusei, vendo a minha insuficiência e, assim, sempre fui forçado, mais por lhes dar gosto e satisfazer o seu mandado, que para outro nenhum fim.
Ainda que algumas curas me sucederam bem, fiz muitos erros por não saber e alguns deles graves, de que fiquei com muitos escrúpulos, particularmente, de 3 de que fiz sabedor V. Rev.ma.
Não se pode dizer que há extrema necessidade, coo por vezes, me disseram alguns Superiores e alguns particulares, porque até Março passado estiveram (aqui) Estêvão Jorge e Diogo Marin, os quais curaram esta cidade 40 (?) anos.. Contudo, em seu tempo, me mandaram muitas vezes fora e agora têm aqui Luís de Azevedo que, ainda que não é médico de profissão, é muito bom latino e bom boticário e tem livros por onde estude. Sem nenhum encarecimento me atrevo a dizer que pode ser meu mestre, assim na medicina como na botica, afora outros mais que há na terra, ainda que, senão tão bons, também ajudam nas necessidades…”
… continua
SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência. Agência Geral das Colónias, 1950.pp.28-32.

Além dos tufões, eram os incêndios os que maiores danos materiais e humanos causavam em Macau. Assim há várias notícias nas primeiras décadas do século XIX, sobre medidas e recomendações para se evitarem os incêndios.
No dia 7 de Novembro de 1829, o mandarim tchó-t´óng, por apelido Im, com o fim de evitar incêndios, ordenou a todas as lojas que tivessem baldes com água, à porta e que fossem destruídas quaisquer barracas de palha, além de se andar de noite com lanternas, em vez de archotes. (1)
Outra notícia datada também de Novembro mas na década de 30 (século XIX) com a mesma preocupação de se evitarem incêndios:
No dia 17 de Novembro de 1834, o Procurador da Cidade, António Pereira exigiu em ofício ao mandarim Tchó- T´óng que fosse proibida a construção de barracas e casas de madeira na Praia Pequena a fim de evitar o perigo de incêndios. Em 5 de Novembro desse ano, um violento incêndio destruiu 500 moradias. (1)

chinnery-igreja-de-s-paulo-antes-do-incendio-1834Igreja de S. Paulo, antes do incêndio
George Chinnery, 1834

Relembra-se ainda um outro grande incêndio que aconteceu no ano seguinte, 1835, do dia 26 para 27 de Janeiro, com a destruição da igreja e colégio construídos pelos jesuítas da Companhia de Jesus, na segunda metade do século XVI (1594-1602) restando depois somente as ruínas: a imponente fachada e a escada de granito. (1)
Os primeiros «Serviços de Incêndios», sob a administração da Fazenda Pública datam de 1883. Antes dessa data os serviços de incêndios de Macau foram, em tempos remotos prestados pelos seus próprios habitantes e com material adquirido por particulares (2)
Assim logo que fosse dado o rebate saíam todos os “bombeiros” improvisados dos seus alojamentos que estavam organizados em grupos e o grupo que chegasse primeiro, através do dédalo das ruelas da velha cidade (o risco maior era sempre no Bazar), recebia como recompensa dos seus esforços um magnífico leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa, custeados entre os moradores da rua vitimada pelo sinistro.
“Ora o grupo mais afamado era o da fábrica de tabacos “Tchu-Tc´hèong-Kei” que mantinha um grupo privativo com o seu respectivo equipamento, o mais completo possível, pois necessitava de se prevenir contra qualquer incêndio dentro da fábrica cujo negócio era enorme.
Além do grupo de bombeiros, a fábrica obrigava todos os empregados a exercitar-se, constantemente, em destreza e acrobacia, de forma a que todos pudessem acudir pronta e eficientemente em qualquer caso de fatalidade. Estimulados com um bom salário, era nesse grupo que estavam reunidos os melhores bombeiros da cidade.
Assim que fosse dado o sinal de alarme, quer de noite ou de dia, esses valorosos mocetões saltavam imediatamente das suas camas e, num abrir e fechar de olhos, fazendo repercutir com estrépito nas pedras das vielas os seus sapatorros, chegavam ao local de desastre, no meio dum ensurdecedor estrupido de rodados e de brutais imprecações, pondo toda a rua alvoraçada numa convulsão de actividade e, em alguns minutos, dominavam com uma presteza sem igual qualquer abrasamento por mais violento que fosse.
Por este motivo, quando acontecia uma calamidade desta natureza, os ânimos pusilânimes dos moradores da rua onde se manifestava o sinistro só se asserenavam com a chegada do grupo da fábrica “Tchu-Tch´èong-Kêi”. Então, alijados do receio de o fogo se alastrar, devastando as suas casas, exclamavam jubulosos: – Já não há receio! Já chegou o grupo de “Tchu-Tch´èong-Kêi”.!
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) Ler anterior postagem sobre os primitivos bombeiros de Macau de Luís Gonzaga Gomes em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/11/01/noticia-de-1-de-novembro-de-1923-corpo-de-salvacao-publica/
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Os Primitivos Bombeiros de Macau in Curiosidades de Macau Antiga. Instituto Cultural de Macau, 1996, 2.ª edição, 184 p. ISBN -972-35-0220-8.
Outras referências anteriores sobre este assunto:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/09/30/leitura-corpo-de-bombeiros-municipais-de-macau-em-1955/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/incendios/”>https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/incendios/ 

Inauguração (reabertura do Colégio de S. José ?) (1) do Seminário de S. José, com oito alunos, sendo confiado aos Lazaristas ou Padres da Missão, vindos do Seminário de Chorão (Goa), e ficando Reitor, o Padre Manuel Correia Valente. (2) (3)

postal-jv-015-igreja-do-seminario-de-s-jose-1983POSTAL JV 015 – Igreja do Seminário de S. José, 1983 (4)

(1) Há grande divergência entre os investigadores sobre a data da fundação do Seminário de S. José (5) (segundo alguns autores, fundado como Colégio de S. Paulo, pelos jesuítas) mas sabe-se que já existia em 1749, podendo situar seguramente o seu começo no segundo quartel do século XVIII. Existia então no sítio, onde se levanta o actual edifício, conhecido durante muito tempo como Monte do Mato Mofino, um grupo de 3 casitas pertencentes a um homem rico, Miguel Cordeiro que as ofereceu aos missionários jesuítas. Nelas se instalou o primitivo Seminário e delas se foi erguendo, ano a ano, gradualmente o grandioso maciço que ainda é conhecido entre os chineses: Sam Pá Tchai ou S. Paulo menor.
Com a expulsão dos jesuítas, em 1762, registou-se um período de abandono, até 1784, ano em que o Seminário foi confiado aos Lazaristas ou Padres da Missão, vindos do Seminário de Chorão (Goa).
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/05/04/leitura-o-seminario-de-s-jose-em-1955/

ruinas-de-seminario-de-chorao-goa-1930Ruínas de Seminário de Chorão (Ilhas de Goa), fundado em 1671 (data da foto: 1930)
http://actd.iict.pt/view/actd:AHUD28898

(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(3) Até 1853 (data da morte de D. José Joaquim Pereira e Miranda), o Seminário foi um brilhante viveiro de missionários, chineses e portugueses. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 2, 1997).
(4) POSTAL JV 015 – Igreja do Seminário de S. José . Com a legenda: “Fundado em 1728, a sua igreja foi construída entre 1746 e 1758″

postal-jv-015-igreja-do-seminario-de-s-jose-1983-versoCopyright 1983- Edição de J. Victor do Rosário Jr, Tel.: 89942

(5) “22-02-1657 – Fundação, pelos jesuítas, do Seminário de S. José. A Igreja é de 1750” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 1, 1997).
19-02-1783 – Foi erecto em seminário, o antigo colégio de S. José, que os padres jesuítas tinham estabelecido em 1754 com três casitas que Miguel Cordeiro doou à Missão dos Jesuítas em Nanquim“. (2)
Outras referências ao Seminário de S. José:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/seminario-de-s-jose/

Em 01 de Agosto de 1632, nasceu em Seong Sok, na província de Kong-Sou, (1) um dos mais afamados aguarelistas chineses o pintor Ung Lek (2) (3) que foi ordenado em Macau, em 1 de Agosto de 1688, (4) aos 57 anos de idade, com o nome de Pe. Simão Xavier da Cunha, S. J.”(4)

Pintura de Wu Li IWu Li – Spring Comes to the Lake

(1) Changzhou (ou Changchow) 常州, na província de Jiangsu (ou Kiangsu) 江蘇, cuja capital é Nanjing (ou Nanquim) 南京.
(2) Wu Yushan (吳漁山) (1632-1718), também conhecido como Wu Li (吳歷), notável aguarelista e pintor de paisagens chineses, também calígrafo e poeta (pioneiro na poesia chinesa cristã), viveu no período da dinastia Qing (1644–1912).
(3) “His style name was ‘Yu Shan’ and his sobriquet was ‘Mojing Daoren’. Wu learned poetry from Qian Qianyi. He was taught painting by Wang Shimin and Wang Jian, and was influenced by the painters Huang Gongwang and Wang Meng. His landscapes utilized dry brush strokes and light colors. His distinctive style elevated him to where he is now identified as one of the Six Masters of the early Qing period.”
https://en.wikipedia.org/wiki/Wu_Li
(4) Tornou-se católico entre 1675 e 1677, foi ordenado padre jesuíta com o nome de Simão Xavier da Cunha, aos 57 anos de idade. Segundo algumas fontes terá estudado durante sete anos no Colégio de S. Paulo (1681-1688) e ordenado padre em Macau; outros autores confirmam 1 ano de estadia em Macau e ordenação pelo Bispo Chinês dominicano Lo Wanzao, em Nanking, no dia 1 de Agosto de 1688 (data de aniversário, 56 anos). Após ordenação foi colocado em Shanghai e aí permaneceu durante 30 anos, como padre nas aldeias chinesas. Em 1691 foi coordenador dos assuntos religiosos em Jiading (嘉定), subúrbio de Shanghai onde faleceu em 1718.
O´NEILL, Charles E.; DOMINGUES, Joaquin Maria – Diccionario Histórico de la Compania de Jesús. Biográfico-Temático III-  Infante de Santiago.Piatkewicz . Universidad Pontificia Comillas, Madrid, 2001, ISBN: 84-8468-039-8 (t.. III)
O primeiro jesuíta chinês Zheng Mano (Manuel Siqueira) foi ordenado em Coimbra c. 1663 e de outros três jesuítas chineses enviados pelo Visitador Francesco Saverio Filippuci (1632-1692) para Macau onde estiveram um  ano completando o noviciado, Liu Yunde (Bras Verbiest; 1628-1707), Wu Yushan, também conhecido como Wu Li (Simão Xavier da Cunha; 1632-1718)) e Wan Qiyuan (Paulo Banhes; 1631-1700) ordenados em Nanking, em 1688, pelo Bispo Chinês dominicano Lo Wanzao (consagrado em Nanking, 1685)”
BROCKEY, Liam Matthew – Journey to the East , The Jesuit Mission to China 1579-1724.  The Belenap Press of Harvard University Press, 2007.
(4) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

Pintura de Wu Li -1632-1718 IIWu Li – “Boat Trip on the River Underneath a Buddhist Temple”

NOTA: O Instituto Ricci de Macau organizou um Simpósio internacional dedicado ao estudo do intercâmbio intercultural entre a China e o Ocidente, tanto numa perspectiva histórica como de actualidade, no ano de 2003 (entre 23 e 29 de Novembro) intitulado:  “ Culture, Art, Religion: Wu Li and His Inner Journey / Cultura, Arte e Religião: Wu Li ( Simão Xavier da Cunha) e o seu caminho interior”. Os oradores (mais de seis dezenas de participantes oriundos de diversos países da Europa, Estados Unidos da América e América do Sul influindo um significativo número de investigadores da China, de Macau e de Hong Kong), analisaram, aspectos culturais, espirituais e históricos da época de Wu Li, período bastante conturbado durante o qual se deu o ocaso e queda da dinastia Ming e a ascensão do poder manchú com a Dinastia Qing.
http://www.riccimac.org/eng/newsletter/2/portugues.htm

MBI I-15 15MAR1954 Seminário S. José IA fachada da Igreja do Seminário de S. José

A imponente fachada das Ruínas de S. Paulo não constitui apenas um monumento religioso. Aquela mole gigantesca de granito apregoa na sua aparente nudez, uma época brilhantíssima em que com toda a justiça, Macau era apontada como o ponto de irradiação da Cultura Lusíada nestas paragens.
Do Colégio-Universidade de S. Paulo (ou S. Paulo, o Grande – Tai Sam Pá / 大三巴) fundado no final do século XVI) saíram para a China, para o Japão, para todo o Extremo Oriente, legiões de missionários, padres e leigos empenhados na obra de difundir entre os infiéis, a Fé e a Civilização Cristãs.
Remonta também a essa época o começo do Seminário de S. José, fundado como Colégio de S. Paulo, pelos Jesuítas.
Há grande divergência entre os investigadores sobre a data da sua fundação. Sabe-se que já existia em 1749, podendo situar seguramente o seu começo no segundo quartel do século XVIII. Existia, então, no sítio onde se levanta o actual edifício, conhecido durante muito tempo como Monte do Mato Mofino, um grupo de 3 casitas pertencentes a um homem rico, Miguel Cordeiro, que as ofereceu aos missionários jesuítas. Nelas se instalou o primitivo Seminário e delas se foi erguendo, ano a ano, gradualmente o grandioso maciço que ainda é conhecido entre os chineses: Sam Pá Tchai ou S. Paulo Menor/ 三巴仔.(1)
Com a expulsão dos jesuítas, em 1762 , registou-se um período de abandono, até 1784, ano em que o Seminário foi confiado aos Lazaristas ou Padres da Missão, vindos do Seminário de Chorão (Goa).(2)
Dentre os novos professores, que conseguiram levantar o seu prestígio cultural a um grau bastante elevado, distingiu-se o famoso sinólogo, Padre Joaquim Afonso Guimarães, cujas cinzas, como as do Bispo de Pequim, D. Joaquim de Sousa Saraiva, ainda se conservam na igreja do Seminário.
Em 1820, ensinavam-se nela, além de ler, escrever e contar, as Línguas Portuguesa, Inglesa, Francesa e Chinesa, a Música, a Retórica, a Filosofia, os Estudos Eclesiásticos. Havia também aulas de Matemática, uma Academia e de Marinha.
Em 1828, o Seminário adquiriu, por compra, a Ilha Verde, então verdadeira ilha, para nela se construir uma casa de repouso, onde os seminaristas passavam as férias de Verão.(3)

MBI I-15 15MAR1954 Seminário S. José IIAltar de Nossa Senhora da Conceição

Com a execução, em Setembro de 1835, do decreto que extinguia toas as congregações religiosas e, mais tarde com a morte, em 1853, do Pe. Joaquim José Leite, último reitor lazarista, entrou o então «Real Colégio de S. José» num novo período de decadência.
Em Março de 1862, porém, graças aos esforços do bispo D. Jerónimo José da Mata, chegavam os jesuítas Padres Francisco Xavier Rôndina (o seu retrato está num dos salões do edifício do Leal Senado) e José Joquim de Afonso Matos, que deram notável impulso ao ensino, atraindo ao Seminário alunos de Hong Kong, das Filipinas e doutros pontos do Extremo Oriente.
Em 1870, os seus estudos foram oficializados, para os que se não destinavam ao sacerdócio, passando a denominar-se «Seminário-Liceu», facto este que confere o direito de ser considerado o primeiro Liceu da Província.(4)
Em 1871 com a expulsão, primeiro dos professores estrangeiros e, mais tarde, de todos os padres da Companhia de Jesus, sofreu o Seminário novo golpe.(5)
O bispo D. António Joaquim Medeiros confiou em 1890, o ensino, e, em 1893, a direcção e administração do Seminário, novamente, aos jesuítas.
Com a terceira expulsão destes, em 1910, tomou a direcção do Seminário, o clero secular, até 1929, ano em que o bispo D. José da Costa Nunes a entregou, outra vez, aos jesuítas que nela se mantiveram  até 1940. Desde então foi dirigido pelos cleros seculares, auxiliados por alguns religiosos e leigos até ao seu fecho em 1968 (externato); no ano anterior tinha sido encerrado o curso eclesiástico por falta de vocações.

MBI I-15 15MAR1954 Seminário S. José IIIAltar-mor da Igreja do Seminário

Em 1931, fundou-se o Colégio de S. José para alunos externos chineses, anexo ao Seminário até 1938, data em quer foi desligado, passando a funcionar independentemente.
Em Maio de 1938, fecharam-se as portas do Seminário aos alunos externos, sendo frequentado apenas pelos candidatos à vida missionária.(6)
Mas, em 1949, reabriu para os externos, o curso primário e, em 1950, o curso secundário.

MBI I-15 15MAR1954 Seminário S. José IVApós obras de reconstrução, em 1955, os dois edifícios novos do Seminário de S. José. Ao fundo o Salão de Actos e sala de estudo e em primeiro plano a nova escola para alunos esternos.

Em 1954, (7) após a restauração da igreja do Seminário construída igualmente pelos jesuítas, em data que se ignora, mas já existente em 1758, o bispo João de Deus Ramalho, S. J. inaugurou dois pavilhões novos, um para sala de estudos dos seminaristas e salão de actos e outro para aulas dos externos e residências dos professores.
Em 1954/1955 funcionavam neste estabelecimento, 4 cursos distintos, com 2 classes diferentes de estudantes (96 seminaristas e 330 alunos externos):
1 – Curso de Instrução Primária, para alunos portugueses;
2 – Curso Secundário, para alunos portugueses;
3 – Curso Secundário, para alunos chineses;
4 – Curso Eclesiástico, constituído por 2 anos de Filosofia e 5 de Teologia, comum a chineses e portugueses.
À parte funcionava ainda um Curso Especial nocturno de Português para chineses , frequentado especialmente por empregados comerciais.
No seu período áureo, por muitos anos, chegou a manter, com grande proveito para os que não pretendiam seguir a carreira eclesiástica, entre outros cursos especiais, uma Escola de Pilotagem e um Curso Comercial em língua inglesa.(8)
Durante mais de dois séculos, o Seminário de S. José formou sucessivas gerações de pessoas que se destacaram em Macau e no mundo, nomeadamente: Marechal Gomes da Costa, Leôncio Ferreira, o antigo governador de Macau  Artur Tamagnini Barbosa, D. José da Costa Nunes (Vice-Camarlengo da Santa Sé), D. Jaime Garcia Goulart, (Bispo de Timor), Guilherme José Dias Pegado Gouveia ((doutor e lente de Matemática/Física da Escola Polytécnica e seu irmão Manuel Maria e  Pedro José Lobo, Pedro Nolasco da Silva, José Silveira Machado, Manuel Teixeira, José Machado Lourenço, D. Jerónimo José da Mata, D. Arquimínio Rodrigues da Costa, D. Domingos Lam Ka-tseung, D. José Lai Hung-seng e D. Jaime Garcia Goulart. (9)

MBI I-15 15MAR1954 Seminário S. José VO corpo docente e discente do Seminário de S. José (1954/1955) com o novo reitor, Rev. Pe. Arquimínio Rodrigues

(1) 19-02-1783 – Foi erecto em seminário o antigo colégio de S. José, que os padres jesuítas tinham estabelecido em 1754 com três casitas que Miguel Cordeiro doou à Missão dos Jesuítas em Nanquim.(10)
      07-03-1783 – Foi criado no Colégio de S. José de Macau, um seminário para a educação da mocidade macaense.(10)
(2) 01-10-1784 – Foi inaugurado o Seminário de S. José, confiado aos lazaristas, com oito alunos. (10)
(3) Referências anteriores à Ilha Verde:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ilha-verde/
(4) O decreto de 20 de Setembro de 1870 é o primeiro documento oficial completo, referente ao Seminário, que, além dos estudos eclesiásticos e da formação dos missionários para a China, visava também oficializar os estudos no referente a alunos que não se destinavam ao sacerdócio. Na verdade, o n.º 3 do artigo 1.º diz assim « Servir de liceu em que recebam instrução secundária os indivíduos que não se destinarem aos estado eclesiásticos». Aparece, portanto, o Seminário de S. José, como o primeiro liceu na realidade, em Macau,  visto que o Liceu de Macau só foi criado em 27 de Julho de 1893.
22-12-1881 – Decreto organizando o Seminário de S. José, sob o nome de Seminário -Liceu de S. José de Macau, continuando, porém a serem mantidas a cadeira de náutica e as aulas do ensino comercial.(10)
(5) 20-09-1870 – Todos os professores estrangeiros do Seminário de S. José foram obrigados, por decreto, a deixar o ensino.(10)
(6) 18-05-1938 – Foi extinto o Colégio e ficou só o Seminário de S. José, por Portaria Eclesiástica, em cumprimento às instruções da Santa Sé de as aulas do Seminário só poderem ser frequentadas por candidatos à vida eclesiástica(SILVA, B. B. .Cronologia da História de Macau, Vol.4)
(7) MARÇO DE 1954 – Concluídas as obras de reparação nela introduzidas, foi reaberta ao público a Igreja do seminário de S. José. Nesse dia, Sua Exa. o Bispo D. João de Deus Ramalho conferiu o Santo Crisma a 18 seminaristas recentemente vindo vindos da metrópole. (Macau B. I., 1954)
(8) 22-12-1881 – Decreto organizando o Seminário de S. José, sob o nome de Seminário -Liceu de S. José de Macau, continuando, porém a serem mantidas a cadeira de náutica e as aulas do ensino comercial.(10)
(9) Seminário de S. José – Macau B. I. 1955 e Seminário de S. José in Anuário de Macau 1953-55.
(10) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954
NOTA: a Igreja e o Seminário de São José estão incluídos na lista dos monumentos históricos do “Centro Histórico de Macau”, que por sua vez foi classificado pela UNESCO em 2005 como sendo um Património Mundial da Humanidade.