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Ofício enviado de Lisboa por D. Diogo de Costa ao Vice-Rei da Índia em 27 de Março de 1626, (1) sobre o direito de Caldeirão (2) e conservação do Colégio de S. Paulo.

“Conde VRei Amigo Eu ElRey etc. O anno de 1624 apliquey as despezas da obra da fortificação da Cidade Macao a renda do direito de Caldeirão daquela Cidade, e que fortificada ella se trataria depois da conceruação, e sostento do Collegio a mesma Cidade que pertende consignar se lhe o necessário naquele drt.º p se ter p conveniente conseruarse o dito Collegio, pella boa criação e ensino, que ali tem os filhos dos moradores da dita Cidade, e vendo o que em reposta disso me escrevestes na via do anno passado, me pareceo encomendarnos me avizeis do que montara cada anno passado o rendimento daquele direito de Caldeirão, e o que importara a despeza, que será nescessario fazerse com o Collegio de Macao, e que do dito dinheiro do Caldeirão se não faça nelle agua sem primeiro saberem e julgarem os efeitos para que he mais necessário. Escrita em Lisboa a 27 de Março de 1626. Dom Diogo da Siua. Diogo de Costa.” (3)

(1) Em 1626, Portugal estava sob o domínio filipino, Filipe IV de Espanha (de 1621 a 1640), o Vice-Rei e Governador da Índia era D. Francisco da Gama (Conde de Vidigueira) (de 1622 a 1628). Em Macau, governava o Capitão-Geral de Macau D. Filipe Lobo (de 19-07-1626 a 1630): o Bispo era D Diogo Correa Valente, S. J (de 1626 a 1633) e o reitor do Colégio de S. Paulo, Manuel Lopes (de 1626 a 1627).

Nesse ano de 1626, concluía-se a Fortaleza de S. Paulo “conforme inscrição epigráfica, sobre a porta de acesso” e já existia a Capela na Guia (quando os holandeses tentaram invadir Macau, em 24 de Junho de 1622, já existia uma ermida) e o Forte da Guia (rudimentar sistema defensivo) que seria reconstruída como Fortaleza entre 1637-38, pelo Capitão de Artilharia António Ribeiro, a expensas da cidade, sendo Capitão-Geral Domingos da Câmara de Noronha

(2) Sobre o direito de Caldeirão – dinheiro das rendas dos cidadãos de Macau que patrocinavam as obras das fortalezas e outras do sistema defensivo da cidade:

“Toda a dita artelharia que tem esta cidade e obras de muros e fortes fez ella a sua custa sem a fazenda Real entrar nisso com couza algua em tempo que a viagem de Japão corria quasi por sua conta e particularmente os direitos que chamavam o caldeirão que são oje a oito por cento de todas as fazendas que vão pera Japão, e antigamente erão a tres e a quatro, e ainda assy lhe rendião muito», como explica António Bocarro no seu «Livro do Estado da índia Oriental», de 1635 reproduzido em C. R. Boxer, em “Macau na época da Restauração”, p. 34 da edição de 1993, da Fundação Oriente.

(3) “Arquivos de Macau”, 2.ª série –Vol I. n.º 2 de Fev-Março de 1941, p. 123

(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume IV, 2015, pp 10, 33, 46, e 49; Volume I, pp. 139.

“O Irmão jesuíta João Alvares (1) salvou a «copiosa e escolhida» livraria do Colégio de S. Paulo. Os jesuítas já em 1760 tinham notícia do decreto pombalino de 1759; a 9 de Outubro de 1760, Álvares escreveu ao Padre Inácio Málaga, S. J., procurador da Província das Filipinas, a relatar o que se passara em Goa desde Setembro de 1759 a Fevereiro de 1760. Prevendo que o malfadado decreto chegasse em breve a Macau, tratou de salvar o arquivo de S. Paulo, de que ele fora copista durante tantos anos. Comprou quatro caixas de madeira chinesa, forrou-as com papel vermelho e marcou-as com os n.ºs de 1 a 4. Nelas meteu o arquivo. Em cada caixa meteu uma nota que declarava o conteúdo com a data de 14 de Março de 1761. Nesse mesmo ano, o Capitão D. António Pacheco levou para Manila os 4 caixotes e entregou-os ao Padre Málaga para o futuro os reenviar para Macau. Eram mais de 40 maços de papel, originais, alguns cadernos isolados e vários documentos soltos. Os livros manuscritos, quase todos em folha, eram 100, dos quais pelo menos 23 não forma encadernados. O Inventário só menciona 3 livros impressos: Língua Japonesa, Dicionário de Tunkim e Bullarum Collectio.” (2)

(1) O Irmão João Álvares (Alvarez) foi a princípio colaborador e depois sucessor do Padre José Montanha, S. J., (3) no trabalho de copista do Arquivo de S. Paulo. Em 1742, recebeu ordem do Padre Domingos Pinheiro, Vice-Provincial da China (1741-1745) para copiar os originais da documentação do Arquivo. Auxiliado por 7 copistas, lançou-se ao trabalho e de 1744 a 1748 produziu 50 volumes das cartas escritas pelos jesuítas da Índia, da China e do Japão. Este precioso Arquivo foi remetido para Madrid em 1773 e hoje encontra-se lá em 3 sítios diferentes: Biblioteca da Real Academia de la Historia, Archivo Nacional e Biblioteca Nacional.

(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 2015, pp. 257, 260 e 284.

(3) O Padre José Montanha, S. J., foi designado pelo Provincial da Companha em Portugal para rever e compilar toda a documentação da Companhia de Jesus arquivada no Colégio de Macau, onde chegou em 1742. O método usado foi a cópia sistemática desse arquivo, com ajuda de um grupo de amanuenses. O padre José Montanha e o Irmão Jorge Álvares (seu continuador neste trabalho) começaram o processo de cópia dos documentos importantes do estabelecimento do Colégio de S. Paulo ou neles guardados em Novembro de 1742 (a partir de 3 de Outubro de 1742, segundo outra fonte) Produziu e enviou em 1744 alguns códices de “Jesuítas na Ásia”. (2) (3)

MONTANHA, José, Padre – Apparatos para a historia eccleziastica do Bispado de Macao, ( corresponde à história geral da missão do Japão dos anos 1583-1587) 1749-1752, 31×25 cm A. H. U., Contém uma das mais completas descrições da Igreja e do Colégio de São Paulo, baseada nos testemunhos anteriores que o autor pôde recolher e compilar na Livraria do mesmo. Extraído de: “SANTOS, Domingos Maurício Gomes dos  – Macau Primeira Universidade Ocidental do Extremo oriente in http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30021/1742

Ver anterior referência ao Padre Montanha em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-montanha/

(3) Em 1998, foi publicado um catálogo e guia “JESUÍTAS NA ÁSIA”,(2 Vols. Coordenação de Francisco G. Cunha Leão. Lisboa: ICM: IPPA: Biblioteca da Ajuda)  contendo 9462 sumários de documentos, existentes na Biblioteca da Ajuda, que formam o núcleo de uma das mais ricas e importantes colecções que existem sobre a Ásia e a presença portuguesa. Na Biblioteca da Ajuda existe um total de 30.000 folhas, distribuídas modernamente por 61 códices.

A. Marques Pereira – Efemérides Comemorativas da História de Macau. (1)
POSTAL – RUÍNAS DA IGREJA DE S. PAULO, c. 1925

As relíquias e a imagem de S. Francisco Xavier, foram salvas deste incêndio e em 19 de Fevereiro foram depositadas na Igreja de Santo António. Foram depois transferidas para a Sé e mais tarde estiveram em poder duma senhora macaense, donde passaram para o Seminário de S. José. A Companhia de Jesus celebrou em 1994, o IV Centenário co Colégio Universitário de S. Paulo (2)

Anuário de Macau, 1922, p. 10

POSTAL – RUÍNAS DE S. PAULO/RUINS OF ST. PAUL/大三巴牌坊
M 9402 (16,3 cm x 11,3 cm). Produced by Tak Lee Trading Co

(1) «Boletim do Governo de Macau» XIII-4, 28 de Janeiro de 1867,  p.20.

(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, 2015, Volume II, p. 72

Anteriores referências a este incêndio e à Igreja de S. Paulo em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/igreja-da-madre-de-deus-s-paulo/

Continuação da leitura do documento – carta escrita não assinada por um Irmão boticário do Colégio de S. Paulo, dirigida ao Padre Visitador Jerónimo Rodrigues em 21 de Dezembro de 1625 e cópia da mesma, ao Rev.mo Padre Geral no ano de 1626 (1) (2)

“ É muito risco de quem cura nesta terra, porquanto não há nela nenhum médico letrado e de autoridade para acudir a um erro, quando acontece uma cura, para o remediar e, também, para desenganar a muitos quando lhes morrem os parentes ou pessoas de sua obrigação e cuidam que tal ou tal coisa foi a causa de morte, como, por vezes, me aconteceu, sendo falso o que nesta me impuseram. Sei, de certo, que o mesmo aconteceu aos que aqui curam e, por vezes até ao Padre Gaspar de Castro, da nossa Companhia. Tanto que qualquer médico visita um enfermo, pelo mesmo caso, fica obrigado a continuar coma acura e dar-lhe as mezinhas de consideração. Se houver alguma falta carregará de sua consciência perdendo o crédito e se a enfermidade vai engravecendo e durante muito tempo é obrigado a continuar, como, por vezes, me aconteceu – como nesta terra não há botica, em mezinha alguma ao modo português, senão a deste Colégio, em semelhante caso sou obrigado às mezinhas de muita importância.

Vai em 6 anos que curo nesta Cidade e neste curso de tempo tenho curado 92 homens, deste, alguns 2 e 3 vezes, e 39 mulheres, tudo por ordem dos Superiores, gastando com estes enfermos todas as mezinhas que lhes foram necessárias, afora outras que dei, por ordem de outros médicos, sem nenhum destes senhores mandar a esta botica 1 só pardau pela ajuda, sabendo bem que este Colégio é pobre. Mais parece que gente tão ingrata não merece tão bem servida e o certo é que estes senhores cansam os Superiores e a mim, mais para não gastarem, do que por lhes faltar na terra quem os cure.”

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/12/21/noticia-de-21-de-dezembro-de-1625-leitura-da-carta-do-irmao-boticario-i/

(2) SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência, 1950 pp. 28-32 p. 29 

“22-06-1600 – Faleceu em Macau o P. Duarte Sande, S.J., (1) tradutor de uma das primeiras obras em latim, impressas em Macau – De Missione Legatorum Japonensium ad Romanam Curiam … Dialogus, Macau, 1589.” (2) Embora não seja consensual a data da sua morte, não quis deixar de salientar a importância da obra (3) que relata o Itinerário de quatro Príncipes japoneses, (4) mandados ao Papa Gregorio XIII, e de tudo quanto lhes sucedeu até se restituírem às suas terras

(1) O jesuíta Duarte de Sande,um dos primeiros missionários a introduzir as novas leis de adaptação à cultura, usos e costumes, bem como à língua chinesa, nasceu em 1547, na vila, hoje, cidade de Guimarães. Estudou Filosofia e Teologia no Colégio de Coimbra, e mais tarde ensinou Latim e Retórica, também nessa cidade, como era costume. Professou na Casa de S. Roque de Lisboa em 1562. Duarte de Sande segue para a Índia, em 1578, com um grupo de cinco jesuítas, a bordo da nau São Luís, precisamente onde vai uma das figuras mais emblemáticas da missionação na China, o padre Matteo Ricci (Duarte de Sande seria professor de Teologia de Matteo Ricci).   Duarte de Sande ficou sete anos na Índia. Foi reitor dos colégios da Companhia em Baçaim e o primeiro a ocupar as funções de Superior das Missões de Macau e da China (Zhaoqing) que só depois Matteo Ricci viria a ocupar. Morreu em Macau a 22 de Junho de 1600. https://www.oclarim.com.mo/todas/duarte-de-sande-jesuita-vimaranense/ http://araduca.blogspot.com/2013/02/escritores-vimaranenses-25.html

(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995. Na 3.ª edição, reformulada e aumentada da Cronologia de Macau, de 2015, não contém esta entrada mas esta: “17-01-1600 – «Carta Ânua do Colégio de Macau», dá notícia da vida e morte do Pe Duarte Sande, S. J. autor de uma das primeira obras em latim, impressas em Macau…..”

(3) De Missione Legatorum Iaponensium ad Romanam Curiam, rebusque in Europa, ac totum itinere animadversus Diálogus ex ephimeride ipsorum legatorum colledus, & in sermonem latinum versus ab Eduardo de Sande, Sacerdote Societatis lesu. In Macaensi portu Sinici regnum domo in Societatis lesu. Cum facultate ordinarij & superiorum. 1590. 4.° de VIII-412 pág., e mais 24 no fim sem numeração que compreendem o índice.

(4) A vinda de uma embaixada (embaixada Tensho ou Missão Tensho) de quatro jovens fidalgos japoneses, Miguel Chijiwa, Julião Nakaura, Martinho Hara e Mâncio Ito (todos entre 13 e 14 anos de idade), a vários reinos europeus no último quartel do século XVI (partiram de Nagasaqui a 20 de Fevereiro de 1582), organizada sob a égide da Companhia de Jesus, constituiu um marco histórico nas relações entre a Europa e o Japão. A passagem dos japoneses, primeiro por Portugal e Espanha e depois por várias cidades da Península Itálica, entre as quais sobressaem Veneza, Ferrara, Florença e, sobretudo, Roma, foi descrito em diário pelos próprios legados e depois traduzidos para Latim por Duarte de Sande, sacerdote da Companhia de Jesus. https://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas47/50_Costa_Ramalho.pdf http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30030/1916

Embaixada Tensho sendo recebida pelo papa Gregório XIII.
Autor desconhecido, 1655
https://pt.wikipedia.org/wiki/Embaixada_Tensh%C5%8D

Anterior citação de Duarte Sande neste blogue: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2019/06/27/noticia-de-27-de-junho-de-1748-desaparecimento-de-dois-chineses/

Continuação das postagens: “MACAU RETROSPECTIVA I” e “II” (1), nomeadamente na apresentação do segundo postal dos quatro emitidos com o mesma tema,
As referências iconográficas são da autoria de Luís Sá da Cunha e foram extraídas do documento dos CTT explicativo da emissão (pagela)

QUADRO II – POSTAL – SELO DE 1.50 patacas

A ALMA E O ESPÍRITO
Desde o início, a estratégia da entrada no âmago do Império Chinês dava valor igual ao Outro. Assim foi definida a política de “acomodação cultural”, cerne de uma vasta operação inter-civilizacional com sede no Colégio da Madre de Deus em Macau. Foi o mais largo e exemplar fenómeno de encontro de culturas assinalado na História.
De 1582 a 1773, foram apresentados à classe letrada do Império chinês todos os ramos do Saber ocidental, movimento nucleado ao famoso Tribunal das Matemáticas da Corte de Pequim, presidido quase desde o início a até à extinção por jesuítas portugueses. Foram publicadas nesse período 187 obras, esforço ingente de tradução para língua chinesa dos livros mais marcantes na cultura e na ciência ocidentais.
No ano 48 do reinado de Wanli (1620) Nicolas Trigault chegou a Macau com “mais de sete mil livros bem decorados”; na maioria forma formar a biblioteca de Pequim.
Sobressaíram os contributos prestados à cultura chinesa nos campos da Matemática, da Medicina, da Astronomia (o rigor na predição dos eclipses era politicamente importante para demonstrar que o Imperador ainda gozava do “mandato do Céu”), da Mecânica, da Música e do Calendário (reforma do calendário chinês segundo o gregoriano).
Em sentido inverso, a divulgação da cultura tradicional chinesa começou a fluir para a Europa com os primeiros relatos descritivos da nação e do Império (sobretudo de autores portugueses) e com a publicação do Quadrivolume de Confúcio (Sishu)  por Ricci em 1593, em Itália (Tetrabiblion Sinense de Moribus).

Verso do postal – BP . MACAU – 85

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/12/19/noticia-de-19-de-dezembro-de-1999-filatelia-macau-retrospectiva-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2019/01/09/postal-i-filatelia-macau-retrospectiva-ii/

Certidão de D. Sebastião Lobo da Silveira, (1) datada de 10 de Novembro de 1643, sobre a insubordinação / revolta dos soldados e a ajuda dos jesuítas:
“Lavrou a tal ponto a insubordinação e a revolta que os soldados do presídio desamparam S. Paulo. Os jesuítas saem do Colégio anexo à Fortaleza de S. Paulo, acorrem a ela e colocam-se ao lado do Capitão e ali conservam a pé firme dias e noites.
Silveira confessa que teve sempre os jesuítas a seu lado, “em particular neste último tempo que os soldados do presídio fugiram e largaram as forças (fortalezas) aleivosamente por maus conselhos dos religiosos dos três conventos, de S. Francisco, S. Agostinho e S. Domingos e de alguns seculares, que a seu tempo saberá
Achando-me só em grande aperto, me vali dos ditos Reverendos Padres da Companhia, os quais achei com particular vontade e verdadeiro ânimo para se empregarem com pessoas, vidas  e fazendas no serviço del-rei D. João IV, Nosso Senhor, acompanhando-me  de dia e de noite  neste Forte de S. Paulo, em que resido, e com sua indústria e diligência fizeram com alguns cidadãos dos principais da terra que tivessem particular cuidado de me assistirem» (2)
(1) Segundo Padre Teixeira, o capitão-geral D Sebastião Lobo da Silveira (1638-1644) não era boa peça. Essa insubordinação e revolta dos soldados deveu-se às despesas extraordinárias com a aclamação de D. João IV em 1642; para compensar, lançou mão dos soldos do presídio, que montavam a 1200 patacas mensais. Os soldados, vendo-se sem dinheiro, abandonaram os seus portos, deixando indefesas as fortalezas e revoltaram-se.(2)
Quando foi substituído em 1644 por Luís Carvalho de Sousa, o Senado da Cidade requereu ao novo governador a ao Governador do Bispado,  Padre Manuel Fernandes, a prisão de Sebastião Lobo d Silveira, por este ter sido a favor dos Espanhóis após a declaração de independência de 1640.
Dom Sebastião Lobo da Silveira saiu de Macau em 1644 e em 1647 foi embarcado em Goa rumo à Metrópole para aí ser julgado, no entanto o navio em que seguia veio a naufragar na costa do Natal. Os náufragos conseguiram passar para outro navio e seguiram para Moçambique, mas como Lobo Silveira era muito gordo, não conseguiu fazer o mesmo, deixaram-no e ele ali terá morrido.
No livro “Relaçam do naufragio que fizeram as naos Sacramento e nossa Senhora da Atalaia … de que era Capitão mór Luis de Miranda Henriques, na [sic] anno de 1647, etc”,  (3)
D Sebastião Lobo da Silveira, era assim descrito na p. 20:
D. Sebastião Lobo da Silveira era tão incapaz para marchar por ser muito pesado de gordura, e outros achaques, que lhe impediao andar poucos passos por seu pé, pelo que pediu aos grumetes, e officiaes, que o conduzissem, e por via do seu irmão D. Duarte Lobo, que de todos era bem quisto, se veio a concertar, que o acarretariao em huma rede, que se fez de linhas de pescar, dando a cada grumete oitocentos xerafins, a que se obrigou D. Duarte Lobo, e elle deu penhores de ouro…”
E sua morte assim relatado nas pp. 22-23:
(2) TEIXEIRA, Monsenhor Manuel – IV Centenário dos Dominicanos em Macau 1587-1987. Fundação Macau, 1987, 50 p.
(3) Consultável em:
https://books.google.pt/books?id=of9lAAAAcAAJ

A construção do Colégio de S. Paulo (1594) ao qual dentro em breve (1602) seria acrescentada a majestosa Igreja a Madre de Deus, de que restam imponentes ruínas, partiu da ideia do Padre Visitador Alexandre Valignano que na sua construção foi eficientemente auxiliado pelo padre Reitor Manuel Dias e a ultimaram com dispêndio de larga soma.
Na construção, uma das secções, logo lá individualizada, foi a da enfermaria, que aparece referida, pelo menos depois do acrescente «da varanda nova, com vistas para o rio» (porto interior),na verdade, a exposição recomendável (…)
Anexa à enfermaria estava a indispensável botica, a cargo de Irmão especializado e sempre proficiente.

postal-ruinas-de-s-paulo-dst-1986POSTAL – RUÍNAS DE S. PAULO
Colecção «MACAU DST»  s/data
(Provavelmente de 1986)

Eis uma carta escrita por um desses Irmãos boticários dirigida ao Padre Visitador Jerónimo Rodrigues em 21 de Dezembro de 1625 e cópia da mesma, ao Rev.mo Padre Geral no ano de 1626.
Por vezes tenho falado a V. Rev.ma dando-lhe várias razões para que haja por bem que eu não vá para fora da Casa curar nenhum enfermo e, também, por via do meu confessor o fiz saber a V. Rev.ma.
Mas como foram dadas, por várias vezes e de palavra, pareceu-me ajustá-las por escrito, as quais são as seguintes:
Primeiramente, tenho dificuldade de curar fora desta Casa, por não ser médico, porque um médico tem necessidade de saber muito bem latim, curso e medicinas e como V. Rev.ma sabe, das duas não sei nada e de latim sei muito pouco.
Vai em 6 anos que estou em Macau e todas as vezes que os Superiores me mandam fazer alguma cura, me escusei, vendo a minha insuficiência e, assim, sempre fui forçado, mais por lhes dar gosto e satisfazer o seu mandado, que para outro nenhum fim.
Ainda que algumas curas me sucederam bem, fiz muitos erros por não saber e alguns deles graves, de que fiquei com muitos escrúpulos, particularmente, de 3 de que fiz sabedor V. Rev.ma.
Não se pode dizer que há extrema necessidade, coo por vezes, me disseram alguns Superiores e alguns particulares, porque até Março passado estiveram (aqui) Estêvão Jorge e Diogo Marin, os quais curaram esta cidade 40 (?) anos.. Contudo, em seu tempo, me mandaram muitas vezes fora e agora têm aqui Luís de Azevedo que, ainda que não é médico de profissão, é muito bom latino e bom boticário e tem livros por onde estude. Sem nenhum encarecimento me atrevo a dizer que pode ser meu mestre, assim na medicina como na botica, afora outros mais que há na terra, ainda que, senão tão bons, também ajudam nas necessidades…”
… continua
SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência. Agência Geral das Colónias, 1950.pp.28-32.

Além dos tufões, eram os incêndios os que maiores danos materiais e humanos causavam em Macau. Assim há várias notícias nas primeiras décadas do século XIX, sobre medidas e recomendações para se evitarem os incêndios.
No dia 7 de Novembro de 1829, o mandarim tchó-t´óng, por apelido Im, com o fim de evitar incêndios, ordenou a todas as lojas que tivessem baldes com água, à porta e que fossem destruídas quaisquer barracas de palha, além de se andar de noite com lanternas, em vez de archotes. (1)
Outra notícia datada também de Novembro mas na década de 30 (século XIX) com a mesma preocupação de se evitarem incêndios:
No dia 17 de Novembro de 1834, o Procurador da Cidade, António Pereira exigiu em ofício ao mandarim Tchó- T´óng que fosse proibida a construção de barracas e casas de madeira na Praia Pequena a fim de evitar o perigo de incêndios. Em 5 de Novembro desse ano, um violento incêndio destruiu 500 moradias. (1)

chinnery-igreja-de-s-paulo-antes-do-incendio-1834Igreja de S. Paulo, antes do incêndio
George Chinnery, 1834

Relembra-se ainda um outro grande incêndio que aconteceu no ano seguinte, 1835, do dia 26 para 27 de Janeiro, com a destruição da igreja e colégio construídos pelos jesuítas da Companhia de Jesus, na segunda metade do século XVI (1594-1602) restando depois somente as ruínas: a imponente fachada e a escada de granito. (1)
Os primeiros «Serviços de Incêndios», sob a administração da Fazenda Pública datam de 1883. Antes dessa data os serviços de incêndios de Macau foram, em tempos remotos prestados pelos seus próprios habitantes e com material adquirido por particulares (2)
Assim logo que fosse dado o rebate saíam todos os “bombeiros” improvisados dos seus alojamentos que estavam organizados em grupos e o grupo que chegasse primeiro, através do dédalo das ruelas da velha cidade (o risco maior era sempre no Bazar), recebia como recompensa dos seus esforços um magnífico leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa, custeados entre os moradores da rua vitimada pelo sinistro.
“Ora o grupo mais afamado era o da fábrica de tabacos “Tchu-Tc´hèong-Kei” que mantinha um grupo privativo com o seu respectivo equipamento, o mais completo possível, pois necessitava de se prevenir contra qualquer incêndio dentro da fábrica cujo negócio era enorme.
Além do grupo de bombeiros, a fábrica obrigava todos os empregados a exercitar-se, constantemente, em destreza e acrobacia, de forma a que todos pudessem acudir pronta e eficientemente em qualquer caso de fatalidade. Estimulados com um bom salário, era nesse grupo que estavam reunidos os melhores bombeiros da cidade.
Assim que fosse dado o sinal de alarme, quer de noite ou de dia, esses valorosos mocetões saltavam imediatamente das suas camas e, num abrir e fechar de olhos, fazendo repercutir com estrépito nas pedras das vielas os seus sapatorros, chegavam ao local de desastre, no meio dum ensurdecedor estrupido de rodados e de brutais imprecações, pondo toda a rua alvoraçada numa convulsão de actividade e, em alguns minutos, dominavam com uma presteza sem igual qualquer abrasamento por mais violento que fosse.
Por este motivo, quando acontecia uma calamidade desta natureza, os ânimos pusilânimes dos moradores da rua onde se manifestava o sinistro só se asserenavam com a chegada do grupo da fábrica “Tchu-Tch´èong-Kêi”. Então, alijados do receio de o fogo se alastrar, devastando as suas casas, exclamavam jubulosos: – Já não há receio! Já chegou o grupo de “Tchu-Tch´èong-Kêi”.!
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) Ler anterior postagem sobre os primitivos bombeiros de Macau de Luís Gonzaga Gomes em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/11/01/noticia-de-1-de-novembro-de-1923-corpo-de-salvacao-publica/
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Os Primitivos Bombeiros de Macau in Curiosidades de Macau Antiga. Instituto Cultural de Macau, 1996, 2.ª edição, 184 p. ISBN -972-35-0220-8.
Outras referências anteriores sobre este assunto:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/09/30/leitura-corpo-de-bombeiros-municipais-de-macau-em-1955/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/incendios/”>https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/incendios/ 

Inauguração (reabertura do Colégio de S. José ?) (1) do Seminário de S. José, com oito alunos, sendo confiado aos Lazaristas ou Padres da Missão, vindos do Seminário de Chorão (Goa), e ficando Reitor, o Padre Manuel Correia Valente. (2) (3)

postal-jv-015-igreja-do-seminario-de-s-jose-1983POSTAL JV 015 – Igreja do Seminário de S. José, 1983 (4)

(1) Há grande divergência entre os investigadores sobre a data da fundação do Seminário de S. José (5) (segundo alguns autores, fundado como Colégio de S. Paulo, pelos jesuítas) mas sabe-se que já existia em 1749, podendo situar seguramente o seu começo no segundo quartel do século XVIII. Existia então no sítio, onde se levanta o actual edifício, conhecido durante muito tempo como Monte do Mato Mofino, um grupo de 3 casitas pertencentes a um homem rico, Miguel Cordeiro que as ofereceu aos missionários jesuítas. Nelas se instalou o primitivo Seminário e delas se foi erguendo, ano a ano, gradualmente o grandioso maciço que ainda é conhecido entre os chineses: Sam Pá Tchai ou S. Paulo menor.
Com a expulsão dos jesuítas, em 1762, registou-se um período de abandono, até 1784, ano em que o Seminário foi confiado aos Lazaristas ou Padres da Missão, vindos do Seminário de Chorão (Goa).
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/05/04/leitura-o-seminario-de-s-jose-em-1955/

ruinas-de-seminario-de-chorao-goa-1930Ruínas de Seminário de Chorão (Ilhas de Goa), fundado em 1671 (data da foto: 1930)
http://actd.iict.pt/view/actd:AHUD28898

(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(3) Até 1853 (data da morte de D. José Joaquim Pereira e Miranda), o Seminário foi um brilhante viveiro de missionários, chineses e portugueses. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 2, 1997).
(4) POSTAL JV 015 – Igreja do Seminário de S. José . Com a legenda: “Fundado em 1728, a sua igreja foi construída entre 1746 e 1758″

postal-jv-015-igreja-do-seminario-de-s-jose-1983-versoCopyright 1983- Edição de J. Victor do Rosário Jr, Tel.: 89942

(5) “22-02-1657 – Fundação, pelos jesuítas, do Seminário de S. José. A Igreja é de 1750” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 1, 1997).
19-02-1783 – Foi erecto em seminário, o antigo colégio de S. José, que os padres jesuítas tinham estabelecido em 1754 com três casitas que Miguel Cordeiro doou à Missão dos Jesuítas em Nanquim“. (2)
Outras referências ao Seminário de S. José:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/seminario-de-s-jose/