Archives for posts with tag: Canhoneira Macau

Extraído de «BGC XXVI-302-303,1950»
12-07-1910 – O Governador Eduardo Marques ordenou por portaria, a suspensão de garantias constitucionais, em todos os territórios do Concelho de Taipa e Coloane, sendo enviadas, pelas 4.00 horas de madrugada, duas forças uma de 45 praças de infantaria, comandada pelo Tenente Aguiar e outra do destacamento da Taipa e Coloane, sob o comando do tenente Albino Ribas da Silva, para desalojarem os piratas da quadrilha de Leong Tai Tchan e Leong Ngi Uá, que tinham o seu covil, nas furnas da ilha de Coloane. Devido à resistência oferecida pelos piratas foi enviada uma força de artilharia e, pelas 11.30 horas, a lancha canhoneira Macau, chefiada pelo primeiro-tenente Joaquim Anselmo Mata e Oliveira À tarde, seguiu novo reforço de 105 homens do Corpo da Polícia e infantaria, sob o comando do Capitão de infantaria Eduardo Azambuja Martins, indo assumir o comando geral das forças o major Alfredo Artur de Magalhães, comandante da Polícia de Macau O combate iniciou-se no dia seguinte e a rendição dos piratas foi no dia 14 embora as operações “de limpeza” tenham prolongado até 29 do mesmo mês.Desta acção resultou o completo extermínio dos piratas que tinham o seu quartel-general nessa ilha de Coloane, com a libertação de 18 crianças, mulheres e velhos e aprisionados 21 piratas reconhecidos, 39 indivíduos suspeitos, 11 mulheres de piratas num total de 89 pessoas. (1) Morreram 3 portugueses, segundo algumas fontes (2) mas somente é referido nos relatórios oficiosos, a morte do cabo António Maria d´Oliveira Leite, no dia 12 de Julho.

Militares portugueses, durante os combates em Coloane contra os piratas, em 1910

NOVEMBRO de 1910 – Julgamento dos piratas sequestradores de Coloane no Quartel de S. Francisco. Condenados 8 piratas a 28 anos de prisão, com degredo em Moçambique. Sete piratas foram absolvidos por faltas de provas dos crimes imputados.
O Júri do Conselho de Guerra: (1)
Presidente: Major António Joaquim Garcia
Vogais: Capitão Manuel das Neves e Alferes Mendes
Auditor: Camilo de Almeida Pessanha
Promotor: Tenente Rosa
Defensor oficioso: Alferes Rebelo
04-02-1911 – É escolhido o feriado municipal – 13 de Julho – do Concelho das Ilhas, e apresentada a justificação no B. O. n.º 5, desta data. Trata-se de sublinhar na memória de todos, em cada ano, a data do «combate de Coloane», contra os piratas, no ano anterior. (3)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954; TEIXEIRA, Pe. Manuel – Os piratas em Coloane em 1920, 1960
(2)  «MBI, III-71, 1956.»
(3) SILVA , Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.

O Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa que substitui A. Bernardes de Miranda e posse do cargo publicado no Boletim Oficial de 10-04-1937 (foi o seu 3.º mandato como governador),  chegou a Macau no dia seguinte.
Publicado no BGC  1937.

NOTA: sobre este mesmo acontecimento de 1937, ver
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/04/10/noticias-de-10-e-11-de-abril-de-1937-a-recepcao-do-novo-governador-de-macau/
Sobre o Governador Artur Tamagnini Barbosa, ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/artur-tamagnini-barbosa/

No dia 27 de Setembro de 1926, caiu sobre a cidade um inesperado tufão (1) que causou grandes prejuízos e estragos, devido ao facto de o tufão ter mudado inesperadamente de direcção e a população de Macau ter sido apanhada de surpresa. (2)
Assim registaram-se avarias na iluminação pública, naufrágios principalmente no Porto Exterior. A lancha canhoneira «Macau» (3) esteve em perigo de se afundar. O cruzador «Republica» (4) ficou encalhado no Porto Interior. Afundaram-se cinco batelões da «Netherlands Harbour Works». O rebocador Otto encalhou perto de um muro de retenção da Areia Preta. A draga Nanking garrou (5) e foi encalhar em Macau Siac. Encalhou também um batelão na Lapa, outro junto do muro da rua marginal, e outro no Porto Interior. Afundaram-se várias embarcações com perdas de vidas.(6)
O jornal «Diário de Lisboa» informava no dia 28 de Setembro de 1926 que “”UM TUFÃO ASSOLOU MACAU parecendo que houve mortes”
MACAU, 27 – Um violento tufão assolou esta cidade. Nem todos os juncos de pesca que estavam ao largo recolheram, receando-se que a maior parte se tenha afundado causando a perda de muitas vidas. Os estragos no litoral são relativamente pouco importantes.
Nos dois dias seguintes (29 e 30 de Setembro) completava a notícia:
No Ministério das Colónias não foi ainda recebido qualquer novo telegrama sobre o tufão de Macau. O cruzador «Republica» garrou, não tendo, porém, sofrido qualquer avaria.”
“Pela vistoria a que se procedeu, verificou-se que o cruzador «República», não sofreu qualquer avaria, em consequência de ter “garrado” em Macau.
(1) “Formou-se no Pacífico  no dia 22 de Setembro de 1926 nas proximidades de Guam; deslocou-se para WNW e depois NW, atravessou Luzon e no Mar da China, recurvou para W passando a poucas milhas a norte das Pratas. passou a cerca de 60 milhas a Sul de Macau e entrando no Continente dissipou-se a N. de Hanoi no dia 28 de Setembro”. (NATÁRIO, Agostinho – Tufões que assolaram Macau.) 1957.
(2) O mesmo acontecendo em Hong Kong conforme relatório anual (1926) de “Hong Kong General Chamber of Commerce”
tufao-27set1926-hk-chamber-of-commercehttps://www.chamber.org.hk/FileUpload/201108261214531386/1926AR.pdf
(3) N.R.P «Macau» – lancha-canhoneira (1909-1943)
canhoneira-macau-1909-1943Sobre esta lancha, aconselho a postagem do site:
http://naviosenavegadores.blogspot.pt/2008/09/marinha-de-guerra-portuguesa-o-nrp.html
Nos comentários a esta postagem, Ricardo Matias dá uma informação sobre o destino desta canhoneira:
A canhoneira Macau e duas dragas do porto de Macau, foram entregues às autoridades militares japonesas que ocupavam a China por troca com 10.000 sacos de arroz, foi uma troca desigual e forçada pela ameaça de invasão. O navio passou a chamar-se Maiko e com o final da Guerra caiu em mãos chinesas em Cantão, rebaptisado Wu Feng, passou em 1949 para a China Comunista e perdeu-se o rasto. A troca foi realizada em 15 Agosto 1943, mas o navio continuou na lista da Armada até 1945, uma maneira de mostrar aos americanos que não ajudávamos os japoneses.”
(4) Cruzador «República» (ex-HMS Gladiolus) (1920 -1943)
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/03/06/noticia-de-6-de-marco-de-1927-o-cruzador-republica/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/02/leitura-o-cruzador-republica-na-china/
(5) GARRAR – (termo náutico) – quando o navio é levado a vogar à mercê das ondas, por não estar bem segura a amarra.  Desprender as amarras.
(6) GOMES, Luís G – Efemérides da História de Macau, 1954.

Na 5.ª Parte do Boletim Sanitário da Província de Macau, ano de 1922, mês de Janeiro, referente a “RELATÓRIOS E ESTUDOS MÉDICOS”, encontrei este relatório efectuado pelo Dr.  António do Nascimento Leitão (capitão, médico de 1.ª classe), (1) relativo às inspecções sanitárias aos estábulos, vacarias, visitas domiciliárias e via pública.
A) – ESTÁBULOS E VACARIAS
Todos estão obedecendo às instruções que lhes tem sido dadas. Apenas o estábulo da firma Yun-Hop, em Sa-Kong, tem uma parte do reboco da parede caído. Prometeu que em breve dias estaria reparado e de novo caiado a branco
B) – VISITAS DOMICILIÁRIAS
SAN-KUONG (ARMAZÉNS) – AVENIDA ALMEIDA RIBEIRO – Tem bons urinóis providos de água sob pressão. As retretes é que são do tipo insalubre (celhas de madeira no terraço do telhado). De bom grado poderão ser  substituídas pelas de autoclismo, distribuídas pelos três andares do edifício, para uso não só dos seus 50 empregados, mas também dos seus freguezes. Precisa, porém, de saber para onde tem de dirigir os respectivos tubos  de descarga, se para o colector da Avenida, se para o da rua das trazeiras, ou se para o da Travessa do Paralelo, que lhe fica ao lado.
AVENIDA ALMEIDA RIBEIRO, N.º 67 – CULAO – Muitos sujos os pavimentos do 1.º e 2.º andares. Tem muitos escarradores, mas todos por baixo das mesas. Indiquei os lugares próprios para estes, lavagens frequentes dos soalhos e escadas, e a afixação de desticos proibindo que se escarre no chão.
AVENIDA ALMEIDA RIBEIRO, N.º 64 – CASA DE PENHORES – Tem as retretes de celhas no telhado, a transportar – recomendei o tipo  das de caixa, limpas diariamente.
AVENIDA ALMEIDA RIBEIRO, N.º 74 – CAMBISTA – CASA DE PENHORES. – Casa asseada. as suas retretes e urinóis, de autoclismos, poderão servir de modêlo às outras casas da Avenida.
AVENIDA ALMEIDA RIBEIRO, N.º 76 – CULAO – No rez-do-chão, a cozinha muito negra, e a porta de grade que lhe dá acesso para a Avenida muito suja de fuligem. Nos andares superiores, os pavimentos muito sujos e as paredes muito escarradas; escarradores em abundância, aos grupos mesmo, mas todos por debaixo das mesas. No telhado, retretes (celhas) com as feses a transbordar – Recomendei as retretes de caixa, limpas diariamente; os escarradores mais espalhados e acessíveis; os soalhos lavados frequentemente; as paredes caiadas e com mais frequência a da cosinha, e sempre limpa e pintada a porta desta para a Avenida.
AVENIDA ALMEIDA RIBEIRO – Encontrei em sofrível estado de asseio os prémios números 80, 84, 86, 88, 90, 92 e 94.
C) – VIA PÚBLICA
Continuam a ser lançadas a urina e as matérias fecais para os sifões das sargetas de algumas ruas. A Travessa do Abreu, a Rua Nova (Bazarinho), a Calçada da Feitoria, para não citar outras todas as manhãs atestam o que afirmo. Está num estado imundo o pateo do n.º85 (antiga numeração) da Rua das Pontes e dejecta para a via pública um cano com despejos entúpido, que desce do 1.º andar do prédio n.º 24 da Rua da Senhora do Amparo.
Continuam as ruas a ser varridas a sêco, com os graves inconvenientes para a saúde pública.
Pelas 13 1/2 horas dos dias sêcos e ventosos começam as nuvens de poeira a ser levantadas em frente dêste Pôsto Médico, como que a demonstrarem-lhe como é inútil insistir mais sôbre êste ponto de higiene pública.
(1) Nesse ano, o Dr. António do Nascimento LeitãoHomem de cem ofícios» como lhe chamou o Padre Teixeira ), capitão médico colocado no Quadro Sanitário de Macau (desde 1920; seria nomeado major médico em Abril de 1923) era director do Laboratório de Radiologia (nomeado em Janeiro de 1922), director do Laboratório Bacteriológico (funções que desempenhava gratuitamente desde 1922 e era director desde 1912, com interrupções devidas a comissão em Timor). Como responsável do Posto Médico: dava consultas diárias, vacinações, socorros urgentes de dia e noite no Porto ou a domicílio; verificava óbitos na cidade e subúrbios, no mar, no Asilo de Santa Infância e no Hospital chinês; fazia inspecções sanitárias, serviços de estatística e administração, desinfecções e elaboração de relatórios; efectuava serviço clínico do Asilo de Sta Infância, Casa de Beneficência e cadeia civil; exercia sanidade marítima (inspecções de doentes a bordo, verificação de óbitos ocorridos em viagens, pratica as medidas a tomar  no caso de doença infeciosa, etc). Era professor da Escola de enfermagem.
António do Nascimento Leitão, nascido a 27-04-1879 (Aveiro – Portugal) tirou o curso na Escola Médico-Cirúrgica do Porto com 18 valores. Incorporado em 1899, promovido a facultativo de 3.ª classe (alferes) em 1907 ficando alferes graduado do Depósito de Praças do Ultramar nesse ano. Chega a Macau em 8 de Julho de 1907, como facultativo de 3.ª classe do Quadro de Saúde de Macau e Timor. Fez parte das operações militares do ano de 1910 contra os piratas na Ilha de Coloane (serviu de hospital de sangue a lancha-canhoneira Macau, dirigido  pelo Dr. César Augusto de Andrade, coadjuvado pelo Dr. Nascimento Leitão) Prestou serviço em Timor em 1911 e  1923.
Exerceu as funções de subdirector dos Serviços de Saúde em 1924 e 1926.Tenente coronel Médico em 1926.
Foi professor do Liceu de Macau das disciplinas doa  7.º grupo em 1908 – 1913 e das disciplinas do 6.º grupo de 1917 a 1920.
Além das suas múltiplas actividades exercia também  “Clínica médica e cirúrgica”  privada como comprova este anúncio de 1922.
ANÚNCIO de 1922 - CONSULTÓRIO DE ANTÕNIO N. LEITÃOAnúncio do consultório do  Dr. António Nascimento Leitão, em 1922, na Rua do Padre António 10 – Telefone n.º 6.
Intitulava-se “Com prática nas clínicas e laboratórios da Faculdade de Medicina de Paris (seguiu durante o 2.º semestre do ano escolar 1913-1914, um curso prático de medicina operatória sobre o tubo digestivo e seus anexos no Hospital «Saint Antoine », em Paris), médico radiologista ( seguiu assiduamente as conferências de radiologia, assistiu regularmente aos exames radiográficos e tomou parte activa nos exercícios práticos da radiografia no Hospital «Saint Antoine», assim como radioterapia), e subdelegado de saúde e guarda mor  de saúde (substituto de Lisboa em 1916 até regressar a Macau em 6 de Junho de 1917), etc.
As “especialidades” cirúrgicas e radiológicas foram “tiradas” nos quatro meses de licença que lhe foi autorizado em Janeiro de 1914 para ser gozadas em Paris e depois prolongada na situação de licença ilimitada até 31-12-1916.
O horário das consultas: da 1 (13H00) às 2 (14H00) e das 4 (16H00) às 5.30 (17H30).
O Padre Manuel Teixeira (em 1976) elogia este médico ” Foi o Dr. Leitão, neste 400 anos, o único que teve gesto tão simpático“, por ter enviado ao Governador Comandante Albano Rodrigues de Oliveira que foi seu aluno em Macau, a quantia de vinte mil patacas, para ser distribuída pela Casa de Beneficência (Asilo da Santa Infância e Asilo de S. Francisco Xavier), Hospital «Kiang Wu», Leprosaria Ká-Hó, Coloane (para beneficiação das instalações) Liceu Nacional de Macau (prémio para o melhor aluno anualmente), Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (prémio para o melhor aluno anualmente), Seminário S. José (melhor aluno anualmente), Hospital Central Conde De S. Januário (melhor aluno de enfermagem anualmente)
Anteriores referências ao Dr. António de Nascimento Leitão.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/antonio-de-nascimento-leitao/
TEIXEIRA, P. Manuel – A Medicina em Macau. Vol IV: Os Médicos em Macau no Séc.XX, 1976.

O Comodoro Guilherme Ivens Ferraz descreve no seu diário de bordo publicado em livro «O cruzador “República” na China» (referenciado em anterior “post”) (1), no dia 8 de Junho ( 1926) sobre os aviadores espanhóis em Macau (referido em anterior “post”) (2)
Macau, 8 de Junho:
… Um acontecimento sensacional se deu em Macau, o qual foi a chegada do aviador espanhol Gallarza (3) no dia 1 de Maio, ficando a cidade em ansiedade por se desconhecer o paradeiro do capitão Loriga (4) e seu mecânico, saídos de Hanoi na mesma ocasião.

Eduardo GallarzaCapitão Eduardo Gonzalez Gallarza Iragorri (1898-1986)
http://www.valvanera.com/rigallarza.htm

O aparelho de Gallarza, ao aterrar foi de encontro a umas árvores de Mong-Ha, deformando as azas inferiores e partindo o montante esquerdo de duro-alumínio. Esta última avaria era de tal gravidade que o próprio aviador perdeu por completo o ânimo, considerando-se impossibilitado de concluir o vôo Madrid-Manila. (5)
Tal não sucedeu porém, tendo as avarias sido reparadas com a maior perfeição, apenas com os recursos da terra e muita boa vontade.
Apesar de todos os esforços feitos para obter notícias do paradeiro do aparelho do capitão Loriga, não se conseguiu ao menos a resposta aos instantes telegramas mandados às autoridades francesas da Indo-China.
No dia 3, Sua Ex.ª o Governador da Província ordenou-me que empregasse todos os esforços, para descoberta do paradeiro dos aviadores espanhóis extraviados. Para esse fim mandei aprontar com urgência a canhoneira, a lancha-canhoneira Macau e a lancha Demétrio Cinatti, dando-lhes instruções… (…).

Joaquin  TaboadaCapitão Joaquin Loriga Taboada (1895-1927)
http://www.biografiasyvidas.com/biografia/l/loriga.htm

… (…) Por uma feliz coincidência, logo na manhã seguinte a Pátria aproximando-se do vapor chinês Tejo o qual, nas alturas de Kokok seguia para o Norte em direcção a Cantão, verificou que a bordo dêsse vapor seguiam fazendo sinais, o capitão Loriga e o seu mecânico, sargento Perez. 
Transmitida em rádio esta notícia, foi grande e alvoroçado o regozijo de todos, que motivos tinham para julgarem perdidos os heroicos aviadores.Ao princípio da tarde entrou a Pátria no pôrto, trazendo os dois citados aviadores, que foram recebidos co o maior regozijo, seguindo-se festas deslumbrantes durante dias consecutivos.” (1)

Os aviadores espanhóis partiram de Macau, no dia 11 de Maio de 1926, tendo o avião levantado voo às 7.30 horas da manhã, no prosseguimento da viagem para Manila. A esquadrilha que saiu de Madrid era composta por três aviões “Breguet 19” e somente um chegou a Manila, percorrendo em 39 dias os 17.500 Km entre Madrid e Manila.
O Comodoro Guilherme Ivens Ferraz no mesmo diário:
No dia 9, saiu o República não só com o fim de marcar um ponto da derrota do avião, como para o socorrer, caso fosse necessário.
No dia 11 passou o avião sobre o República a uma altura sw cêrca 1:800 metros, verificando-se que seguia exactamentew na direcção que condizia a Aparri.” (1)

Tabela de Voo Madrid Manila 1926(1) LEITURA – O CRUZADOR “REPUBLICA” NA CHINA
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/02/leitura-o-cruzador-republica-na-china/
(2) (3) (4) Anterior referência a essa aventura bem como biografia dos dois aviadores em: MAIS NOTÍCIAS DE 11 DE MAIO – RAID MADRID – MANILA
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/05/11/mais-noticias-de-11-de-maio-raid-madrid-manila/
(5) “Gallarza no tuvo más remedio que intentar el aterrizaje en Macao, en una explanada de 400 metros de longitud por 100 de anchura rodeada de árboles y líneas de alta tensión por los cuatro costados. El campo estaba señalizado con una gran T en el centro y una cruz blanca a 50 metros de ella; el piloto creyó que esta cruz sería una indicación de terreno blando, que debería evitarse, lo que redujo aún más el escaso espacio útil y propició el fatal desenlace. Aunque el choque se produjo a escassa velocidad el borde de ataque del plano inferior quedó destrozado y se dobló el montante soporte de las alas izquierdas, así como una pieza en el fuselaje. La reparación del borde de ataque no presentaba dificultades importantes, pero el montante era de dura luminio y no se veía forma de poderlo enderezar sin romperlo o degradar su resistencia.”
http://www.ejercitodelaire.mde.es/stweb/ea/ficheros/pdf/1BD09937E85D784CC12575450033F65F.pdf

Hoje celebra-se o CHENG MENG – FESTIVIDADE DA PURA CLARIDADE, o dia em que os chineses exprimem a sua piedade filial com aqueles que já partiram deste mundo, o respeito e obediência aos seus antepassados – culto dos antepassados. (1)

Relembro um escrito de Wenceslau de Moraes (2) , nos primeiros meses da sua estadia em Macau, sobre este dia.

O dia 5 de Abril amanhecera excepcionalmente belo em Macau. Uma alegria, este renascimento da luz, a alvorada cor-de-rosa, as montanhas doiradas pelo sol, a brisa tépida varrendo o espesso çlençol de neblina; alegria que só compreendem os que já por longo tempo habitaram as costas da China, e que por experiência conhecem a tristeza dos fastisiosos meses de Fevereiro e Março, invarialvelmente turvos, frigidos, desoladores. Com um poucochinho de boa vontade, quem não acreditaria numa influência complacente das grandes divindades budísticas, que, em amigável pacto, houvessem assi deliberado proteger o pacífico povo das vizinhanças de Macau, na realidade da festa religiosa mais grata talvez a todos os filhos do império?

Wenceslau de Moraes

As recortadas colinas, que rematam o panorama do porto interior, semeadas de velhos túmulos, ordinariamente desertos, encheram-se de peregrinos logo ao romper da madrugada. Curiosa romaria; um desprevenido julgaria surpreender misteriosas emboscadas, processos estratégicos de invasão, naquele desfilar indeciso de cobaias serpeando cautelosamente pelas trilhas das serras, aqui ocultando-se nas moitas, além ascendendo aos outeiros, dividindo-se em grupos, estudando o solo, perscrutando atentos. Mas peregrinação bem de paz era aquela, a comemoração do Tsing-Ming (3) ou festa dos mortos, geral em toda a China.

No entanto atravessava eu a cidade, passava para além do nosso domínio, e achava-me no chamado Terreno neutro, vasto campo arenoso, onde os chinas de Macau e dos lugares vizinhos enterram habitualmente os seus mortos; terreno de mortos se lhe poderia mesmo chamar, sem ofensa aos nossos brios de dominação, atentas a imparcialidade política, a absoluta neutralidade, que professam a imparcialidade de todos os países…  A mesma peregrinação: no dorso suavemente curvo da encosta, eriçada de pedras funerárias, formigava uma multidão enorme de povo; famílias inteiras, os avós trémulos de velhice, os pais vigorosos, os rapazes, as criancinhas agarradas às mãos das mães, onda humana alastrando-se por mais de dois quilómetros de extensão, salpicada de tons vivos pelas cores variegadas dos vestidos (4)

(1) Sobre esta festividade ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/04/04/cheng-meng-festividade-da-pura-claridade-em-macau/
(2) Escrito por Wenceslau de Moraes em Junho de 1890. A 1.ª data referida a Wenceslau de Moraes nos documentos de Macau, como oficial imediato da Canhoneira Tejo, fundeada em Macau, é de 14 de Fevereiro de 1890.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)
(3) 清明節 – mandarim pinyin: qing ming jié; cantonense jyutping: ceng1 ming4 zit3)
(4) MORAES, Wenceslau de – Traços do Extremo Oriente Siam – China – Japão. Livraria Barateira, Lisboa, 2.ª edição, 1946, 265 p.

NOTA 1: em Macau, uma edição mais recente deste livro, foi publicada por Carlos Morais José, edição COD, Junho de 2004, em parceria com a Comissão das Comemorações dos 150 anos de Wenceslau de Moraes, com o título: “ Obras Completas de Wenceslau de Moraes, Vol I; Traços do Extremo Oriente”, 197 p. (ISBN 99937-786-1-3)

NOTA 2: aconselho a leitura da tese de mestrado de Maria Margarida da Silva Faria Capitão, de Março de 2012, com o título: “Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau de Moraes” que poderão encontrar em:
http://run.unl.pt/bitstream/10362/7827/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20M%20Margarida%20Capit%C3%A3o%20EPLSE%20mar%C3%A7o%202012.pdf.

No tufão de 23 de Agosto de 1927, um dos mais violentos e sobretudo de maior duração que tem sofrido esta colónia, veio abrigar-se no porto exterior, onde amarrou com os seus dois ferros, o vapor chinês «Wing Woo», de 538 toneladas e de carreira de Kuong-Chau-Van.(1) Este vapor, apezar de velho e com carga de suínos vivos em gaiolas, como usam os chineses, aguentou-se debaixo do violentísssimo tufão sem avaria alguma, tendo apenas garrado um pouco.
            Nessa ocasião, encontraram-se a canhoneira «Pátria», e a lancha-canhoneira «Macau», amarradas a boias junto da Ilha Verde. A «Macau», tendo rebentado o elo da boia, esteve em grande risco de se avariar de encontro ao perré da margem.

                                  Jaime do Inso MACAU 1929 PÁTRIACanhoneira “ PÁTRIA(2)

 A canhoneira «Pátria», passou sem novidade aquele tufão memoravel, que durou cêrca de 36 horas, tendo rajadas de 190 Km à hora, que arrancou arvores seculares, e em que as aguas subiram 2,78 m., acima do praiamar daquele dia, ou sejam 5,28 m., acima do zero hidrográfico, causando inundações, algumas mortes, naufrágios e muitos anos de toda a ordem.
            O pequeno vapor «Pak-Tao» da fiscalização das alfândegas chinesas, entrou pela terra dentro e foi encalhar num arrosal ao norte da Ilha Verde.
            Os prejuízos causados por este tufão foram avaliados em $ 25.000, tendo sido a população marítima a que, como quasi sempre, mais sofreu.” (3)

Um dos mais violentos tufões que atingiu Macau veio pôr à prova o abrigo seguro que o novo Porto Exterior passou a representar. O cruzador «República» galgou os molhes indo lutar com as vagas, para defronte do Tanque do Mainato, correndo sério de se despedaçar de encontro às pedras ali existentes, chegando na luta com o mar a estar distanciado de terra apenas uns cem metros.” (4)

(1)   Kuong-Chau-Van era uma colónia francesa e existia uma carreira marítima regular que durava cerca de 30 horas. O comércio com esta colónia era importante pois daí vinha a maior parte da importação de suínos.
(2)    Esta foto documenta a chegada da Canhoneira «PÁTRIA» a Hong Kong, conduzindo o Governador de Macau, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (2.º mandato, de 8-12-1926 a 2-01-1931) em visita oficial, em 20 de Setembro de 1927. Beatriz Basto da Silva na sua “Cronologia” (4) aponta para o início da visita oficial a 27 de Setembro de 1927.
(3)    INSO, Jaime do – Macau. Escola Tipográfica do Orfanato de Macau, 1929, 152 p.
(4)   SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1997, 454 p., ISBN-972-8091-11-7.