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Extraído de «BGC III -27, 1927»

Os leitores desta notícia (em Portugal de 1927) terão tomado conhecimento que não haveria biblioteca pública em Macau até esse ano. Mas “oficialmente” em 29-11-1895, o Governando José Maria de Souza Horta e Costa criou uma comissão de professores do Liceu para fazer um Regulamento para a «Biblioteca Pública de Macau» a qual teve como primeiro bibliotecário o macaense Matheus António de Lima. (1) Há, no entanto, outras notícias anteriores de tentativas de se estabelecer em Macau uma biblioteca pública.
Em 16-07-1838, é recomendado, em portaria régia, a formação de um jardim botânico, destinado à cultura de plantas medicinais, usadas pelos chineses, e bem assim a fundação de uma biblioteca, composta principalmente de livros e mapas chineses, japoneses ou escritos em outras línguas orientais e em 27-12-1873, o Governador Visconde de S. Januário aprovou os Estatutos da Sociedade chamada «Biblioteca Macaense», que, no entanto, não se sabe se existiu na prática. (2)
(1) Em 1898, o bibliotecário, Matheus de Lima, apresentava o número de utilizadores, em Boletim Oficial. Como amostra mensal, em Fevereiro, 34 leitores e 36 volumes consultados; em Maio, 24 leitores e obras consultadas. Não estavam descriminadas se eram consultas locais ou domiciliárias. A Biblioteca Nacional de Macau estava aberta das 9 horas da manhã às 4 da tarde (2)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.

Extraído de «BGC XXVI-302-303,1950»
12-07-1910 – O Governador Eduardo Marques ordenou por portaria, a suspensão de garantias constitucionais, em todos os territórios do Concelho de Taipa e Coloane, sendo enviadas, pelas 4.00 horas de madrugada, duas forças uma de 45 praças de infantaria, comandada pelo Tenente Aguiar e outra do destacamento da Taipa e Coloane, sob o comando do tenente Albino Ribas da Silva, para desalojarem os piratas da quadrilha de Leong Tai Tchan e Leong Ngi Uá, que tinham o seu covil, nas furnas da ilha de Coloane. Devido à resistência oferecida pelos piratas foi enviada uma força de artilharia e, pelas 11.30 horas, a lancha canhoneira Macau, chefiada pelo primeiro-tenente Joaquim Anselmo Mata e Oliveira À tarde, seguiu novo reforço de 105 homens do Corpo da Polícia e infantaria, sob o comando do Capitão de infantaria Eduardo Azambuja Martins, indo assumir o comando geral das forças o major Alfredo Artur de Magalhães, comandante da Polícia de Macau O combate iniciou-se no dia seguinte e a rendição dos piratas foi no dia 14 embora as operações “de limpeza” tenham prolongado até 29 do mesmo mês.Desta acção resultou o completo extermínio dos piratas que tinham o seu quartel-general nessa ilha de Coloane, com a libertação de 18 crianças, mulheres e velhos e aprisionados 21 piratas reconhecidos, 39 indivíduos suspeitos, 11 mulheres de piratas num total de 89 pessoas. (1) Morreram 3 portugueses, segundo algumas fontes (2) mas somente é referido nos relatórios oficiosos, a morte do cabo António Maria d´Oliveira Leite, no dia 12 de Julho.

Militares portugueses, durante os combates em Coloane contra os piratas, em 1910

NOVEMBRO de 1910 – Julgamento dos piratas sequestradores de Coloane no Quartel de S. Francisco. Condenados 8 piratas a 28 anos de prisão, com degredo em Moçambique. Sete piratas foram absolvidos por faltas de provas dos crimes imputados.
O Júri do Conselho de Guerra: (1)
Presidente: Major António Joaquim Garcia
Vogais: Capitão Manuel das Neves e Alferes Mendes
Auditor: Camilo de Almeida Pessanha
Promotor: Tenente Rosa
Defensor oficioso: Alferes Rebelo
04-02-1911 – É escolhido o feriado municipal – 13 de Julho – do Concelho das Ilhas, e apresentada a justificação no B. O. n.º 5, desta data. Trata-se de sublinhar na memória de todos, em cada ano, a data do «combate de Coloane», contra os piratas, no ano anterior. (3)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954; TEIXEIRA, Pe. Manuel – Os piratas em Coloane em 1920, 1960
(2)  «MBI, III-71, 1956.»
(3) SILVA , Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.

Nesta data, 9 de Junho de 1984, José Augusto Seabra dedicou esta poesia ao poeta Camilo Pessanha com a Glosa

«Só, incessante, um som de flauta chora»
 
Gemido de água,
Sombra dorida
De tempo ou mágoa
Esmaecida
– flauta esquecida
No som que cala
Quando se exila
A gotejar
Na clepsidra

José Augusto Seabra
Macau, 9 de Junho de 1984
Oriente, 16 de Junho de 1984 (1)

José Augusto Baptista Lopes e Seabra (1937 — 2004), licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exilou-se em França., onde se doutorou em Letras pela Sorbonne. Em 1974, regressou a Portugal, onde é professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Deputado à Assembleia Constituinte e depois à Assembleia da República, exerceu as funções de Ministro de Educação entre 1983 e 1985, embaixador na UNESCO (contribuiu neste cargo o reconhecimento de Macau como Património Cultural da Humanidade), e depois em Nova Deli, Bucareste e Buenos Aires).
Poeta e ensaísta, dos livros de poesia publicados, um está relacionado com Macau. Poemas do Nome de Deus (edição bilingue traduzida por Lu Ping Yi). Instituto Cultural de Macau, 1990 (2). A “Revista de Cultura” (Nº 11-12, 1990) publicou  um ensaio de José Augusto Seabra abordando “Camilo Pessanha e as Margens do Texto”.
(1) In p. 174 – Homenagem a Camilo Pessanha (organização, prefácio e notas de Daniel Pires), IPOR, ICM, 1990,.201 p.
(2) Ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/16/macau-e-o-dragao-iii/

Conta D. Madalena da Paixão (porque veio ao mundo numa sexta-feira Santa), irmã do poeta Camilo Pessanha numa entrevista que deu a Germano Silva (1), contou um episódio curioso de Camilo Pessanha:
O meu irmão Manuel era advogado em Braga. Um dia chegou a casa e disse a Camilo que o Paiva da farmácia (homem muito conhecido e estimado naquela cidade) lhe tinha pedido a ele Manuel, para defender um pobre diabo que um outro homem sem escrúpulos levara ao tribunal. E o Manuel contou ao Camilo o que acontecera. Uma injustiça que queriam fazer ao pobre homem. E com uma expressão indignada, revoltado contra o que levara o outro a tribunal, Camilo pegou num lápis e num papel e escreveu, escreveu. No fim deu-o ao Manuel e disse-lhe «aqui tens a defesa desse pobre homem». E O Manuel leu aquilo que Camilo escrevera, decorou tudo e no tribunal reproduziu-o de cor e o homem foi absolvido.
(1) Publicado no «Jornal de Notícias», de 14 de Setembro de 1967.

SOLEDADE

Deleita-me a solidão desta choupana …
Mas dói-me ao recordar vozes amigas.
Sim, geme o verdelhão (2), – mas em país de exílio.
Conturba-me a cor da relva o coração, que começa.

Desce o sol, em um poente de cirros amarelos,
Passam nuvens sobre o mar, – que é mais ferrete.
Segunda lua … (3). E, na algarvia dos grasnidos,
Oiço os gansos (4) darem o alarme p´ra o regresso. (1)

(1) Autor: Pien-Kung, também conhecido por T´ingh-Shih.
(2) Nas notas que acompanham a poesia, refere como sendo «drilus sinensis» – género de besouro pertencente à família Elaterídae. Mas «verdelhão» em Portugal é um passarinho da família dos fringilíneos, excelente cantor.
(3) A segunda lua, correspondendo, em média aproximada, ao mês de Março, é a segunda do ano e da Primavera. A nona, correspondendo a Outubro, é a última do Outono.
(4) Os gansos bravos (Anser segetum) que vêm hibernar aos rios do sul, na zona tropical
Desenho de John Gould
http://www.art.com/products/p29690389918-sa-i8720063/john-gould-anser-segetum-bean-goose.htm

Tradução e notas retiradas de:
PESSANHA, Camilo – China (Estudos e traduções). Agência Geral das Colónias. Lisboa, 1944, 133 p
Ver anterior elegia chinesa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/02/poesia-vi-elegia-chinesa-de-camilo-pessanha/

Retirado do Boletim Geral das Colónias, II-17, NOVEMBRO de 1926, pp. 2-3.

A 19 de Março de 1913, o conservador do Registo Predial, Camilo d´Almeida Pessanha, pede a continuação das suas funções em Macau e desiste da promoção a Juiz de 1.ª estância. Camilo Pessanha foi nomeado juiz da comarca em Moçambique, por Decreto de 23 de Janeiro de 1913. O Governo da Metrópole deferiu a sua pretensão. (Decreto de 22 de Março de 1913).
E a propósito do 150.º aniversário do nascimento do poeta, a INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda editou uma “AGENDA 2017 – CAMILO PESSANHA (1867-2017)”, em Dezembro de 2016, (1) com coordenação de Ana Paula Laborinho e ilustrações de Carlos Marreiros (creio que são ilustrações, desenhadas nos finais da década de 80 e década de 90 do século XX)
A Agenda 2017 celebra Camilo Pessanha e a sua poesia, e regista o 150.º aniversário do nascimento deste poeta de culto, evocando o seu tempo e obra, marcado por Clepsidra.
Com a edição da Agenda 2017 espera-se ajudar os seus utilizadores a construir um tempo novo, inspirado e inspirador, renovado com poesia, em cada página, em cada dia.” (2)
Com a Agenda Camilo Pessanha, a editora pública dá o seu contributo para relembrar esta singular figura da cultura portuguesa. Destacamos, naturalmente o magnífico trabalho de Ana Paula Laborinho que coordena a organização desta agenda. (CARP, Rui – Camilo Pessanha cento e cinquenta anos depois. INCM)

 

Passou o outomno, já, já torna o frio …
– Outomno de seu riso maguado.
Algido inverno! Obliquo o sol, gelado …
– O sol, as aguas límpidas do rio.

Aguas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cançado,
Para onde me levaes meu vão cuidado?
Aonde vaes, meu coração vazio?

Ficae, cabelos d´ella, fluctuando,
E, debaixo das aguas fugidias,
Os seus olhos abertos e scismando …

Onde ides a correr, melancolias?
– E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translucidas e frias …

(1) Agenda 2017 – Camilo Pessanha (1867-2017). INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2016, 208 p.,  ISBN:978 -972 -27 -2496-
(2) https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=103073.