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Artigo publicado no dia 19 de Agosto de 1926, na revista «Ilustração» de 1926, (1) da autoria de Albino Forjaz de Sampaio, com o título de
Camilo Pessanha, o poeta bizarro e singular da Clepsydra, e o tradutor, com José Jorge, do Kuok Man Fo Shu, toxicómano que se finou há pouco em Macau, ofereceu em 1915 ao Museu de Arte Antiga, uma valiosa colecção de arte chinesa composta de 100 peças e compreendendo exemplares de pintura e caligrafia, bordados, brocados, indumentária, joalharia, cloisonné, champlevé, bronze, bronze com incrustações, escultura em madeira e marfim, unicórnio, pedras duras e vidro, embutidos em madeira, charão e cerâmica.

É uma colecção de um certo valor, tendo algumas peças preciosas, que se encontra depositada no Museu a que foi oferecida e não tendo sido até hoje exposta, não sendo portanto conhecida de profanos, a quem hoje, por nosso intermédio, pela primeira vez se revela…(…)
Pensando assim, o dr. Alfredo Guisado, após várias interpelações nas Câmaras, pensou em conseguir de Município um local onde a colecção, por deslocada no nosso Museu de Arte Antiga, pudesse luzir com toda a sua magnificência. Mas a colecção, que ficaria bem no museu da Sociedade de Geografia, foi por testamento doada ao Museu Machado de Castro de Coimbra, com outras peças que após a morte do seu possuidor se lhe vieram reunir….(…)
A colecção é valiosa e bem merece ser exposta. A cerâmica contém pratos, um da dinastia Sung, outro da Ming, Sun-Tac, outro de Seng-Fa, dinastia Ming, algumas estatueta brancas e policrómicas, boiões, jarras, frascos, um perfumador e um disco, montado em tamarindo; a pintura e caligrafia têm vários exemplares das dinastias Sung, Un, Ming, Cheng, cavaleiros, animais, crianças, bufarinheiros, aves e flores, e inscrições, não destituídas de interesse.”
(1)  «Ilustração» n.º 15, 19 de Agosto de 1926.

Camilo Pessanha com António Osório de Castro, em Lisboa, em Março de 1916
pouco antes de regressar definitivamente a Macau. (1)

“No dia de ano bom, dois irmãos foram a casa do tio paterno dar boas festas.
Ouviram música ali. O irmão menor exultou.
O tio paterno perguntou:
– «Gostas destes instrumentos? Dou-te licença para os tocares.»
O irmão menor assoprou na trombeta, mas não conseguiu produzir som algum: bateu na bátega e no tambor, mas não acertava com o compasso.
O irmão maior, diriguindo-se ao menor, disse-lhe:
– «Mesmo nestes insignificantes divertimentos, sem a prática, nada alcançamos. Quanto mais nos estudos?!.»
Publicado a «A Voz da Mocidade» (Setúbal) a 23 de Janeiro de 1916 (2)
(1) Postais da colecção «CAMILO PESSANHA no 70º aniversário da publicação do “CLEPSIDRA”». Edição do Instituto Português do Oriente, Macau, 1990.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/camilo-pessanha/page/2/
(2) PESSANHA, Camilo – China, Estudos e Traduções, 2.ª edição, 1993, p. 105

Extraído de «BGC III -27, 1927»

Os leitores desta notícia (em Portugal de 1927) terão tomado conhecimento que não haveria biblioteca pública em Macau até esse ano. Mas “oficialmente” em 29-11-1895, o Governando José Maria de Souza Horta e Costa criou uma comissão de professores do Liceu para fazer um Regulamento para a «Biblioteca Pública de Macau» a qual teve como primeiro bibliotecário o macaense Matheus António de Lima. (1) Há, no entanto, outras notícias anteriores de tentativas de se estabelecer em Macau uma biblioteca pública.
Em 16-07-1838, é recomendado, em portaria régia, a formação de um jardim botânico, destinado à cultura de plantas medicinais, usadas pelos chineses, e bem assim a fundação de uma biblioteca, composta principalmente de livros e mapas chineses, japoneses ou escritos em outras línguas orientais e em 27-12-1873, o Governador Visconde de S. Januário aprovou os Estatutos da Sociedade chamada «Biblioteca Macaense», que, no entanto, não se sabe se existiu na prática. (2)
(1) Em 1898, o bibliotecário, Matheus de Lima, apresentava o número de utilizadores, em Boletim Oficial. Como amostra mensal, em Fevereiro, 34 leitores e 36 volumes consultados; em Maio, 24 leitores e obras consultadas. Não estavam descriminadas se eram consultas locais ou domiciliárias. A Biblioteca Nacional de Macau estava aberta das 9 horas da manhã às 4 da tarde (2)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.

Extraído de «BGC XXVI-302-303,1950»
12-07-1910 – O Governador Eduardo Marques ordenou por portaria, a suspensão de garantias constitucionais, em todos os territórios do Concelho de Taipa e Coloane, sendo enviadas, pelas 4.00 horas de madrugada, duas forças uma de 45 praças de infantaria, comandada pelo Tenente Aguiar e outra do destacamento da Taipa e Coloane, sob o comando do tenente Albino Ribas da Silva, para desalojarem os piratas da quadrilha de Leong Tai Tchan e Leong Ngi Uá, que tinham o seu covil, nas furnas da ilha de Coloane. Devido à resistência oferecida pelos piratas foi enviada uma força de artilharia e, pelas 11.30 horas, a lancha canhoneira Macau, chefiada pelo primeiro-tenente Joaquim Anselmo Mata e Oliveira À tarde, seguiu novo reforço de 105 homens do Corpo da Polícia e infantaria, sob o comando do Capitão de infantaria Eduardo Azambuja Martins, indo assumir o comando geral das forças o major Alfredo Artur de Magalhães, comandante da Polícia de Macau O combate iniciou-se no dia seguinte e a rendição dos piratas foi no dia 14 embora as operações “de limpeza” tenham prolongado até 29 do mesmo mês.Desta acção resultou o completo extermínio dos piratas que tinham o seu quartel-general nessa ilha de Coloane, com a libertação de 18 crianças, mulheres e velhos e aprisionados 21 piratas reconhecidos, 39 indivíduos suspeitos, 11 mulheres de piratas num total de 89 pessoas. (1) Morreram 3 portugueses, segundo algumas fontes (2) mas somente é referido nos relatórios oficiosos, a morte do cabo António Maria d´Oliveira Leite, no dia 12 de Julho.

Militares portugueses, durante os combates em Coloane contra os piratas, em 1910

NOVEMBRO de 1910 – Julgamento dos piratas sequestradores de Coloane no Quartel de S. Francisco. Condenados 8 piratas a 28 anos de prisão, com degredo em Moçambique. Sete piratas foram absolvidos por faltas de provas dos crimes imputados.
O Júri do Conselho de Guerra: (1)
Presidente: Major António Joaquim Garcia
Vogais: Capitão Manuel das Neves e Alferes Mendes
Auditor: Camilo de Almeida Pessanha
Promotor: Tenente Rosa
Defensor oficioso: Alferes Rebelo
04-02-1911 – É escolhido o feriado municipal – 13 de Julho – do Concelho das Ilhas, e apresentada a justificação no B. O. n.º 5, desta data. Trata-se de sublinhar na memória de todos, em cada ano, a data do «combate de Coloane», contra os piratas, no ano anterior. (3)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954; TEIXEIRA, Pe. Manuel – Os piratas em Coloane em 1920, 1960
(2)  «MBI, III-71, 1956.»
(3) SILVA , Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.

Nesta data, 9 de Junho de 1984, José Augusto Seabra dedicou esta poesia ao poeta Camilo Pessanha com a Glosa

«Só, incessante, um som de flauta chora»
 
Gemido de água,
Sombra dorida
De tempo ou mágoa
Esmaecida
– flauta esquecida
No som que cala
Quando se exila
A gotejar
Na clepsidra

José Augusto Seabra
Macau, 9 de Junho de 1984
Oriente, 16 de Junho de 1984 (1)

José Augusto Baptista Lopes e Seabra (1937 — 2004), licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exilou-se em França., onde se doutorou em Letras pela Sorbonne. Em 1974, regressou a Portugal, onde é professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Deputado à Assembleia Constituinte e depois à Assembleia da República, exerceu as funções de Ministro de Educação entre 1983 e 1985, embaixador na UNESCO (contribuiu neste cargo o reconhecimento de Macau como Património Cultural da Humanidade), e depois em Nova Deli, Bucareste e Buenos Aires).
Poeta e ensaísta, dos livros de poesia publicados, um está relacionado com Macau. Poemas do Nome de Deus (edição bilingue traduzida por Lu Ping Yi). Instituto Cultural de Macau, 1990 (2). A “Revista de Cultura” (Nº 11-12, 1990) publicou  um ensaio de José Augusto Seabra abordando “Camilo Pessanha e as Margens do Texto”.
(1) In p. 174 – Homenagem a Camilo Pessanha (organização, prefácio e notas de Daniel Pires), IPOR, ICM, 1990,.201 p.
(2) Ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/16/macau-e-o-dragao-iii/

Conta D. Madalena da Paixão (porque veio ao mundo numa sexta-feira Santa), irmã do poeta Camilo Pessanha numa entrevista que deu a Germano Silva (1), contou um episódio curioso de Camilo Pessanha:
O meu irmão Manuel era advogado em Braga. Um dia chegou a casa e disse a Camilo que o Paiva da farmácia (homem muito conhecido e estimado naquela cidade) lhe tinha pedido a ele Manuel, para defender um pobre diabo que um outro homem sem escrúpulos levara ao tribunal. E o Manuel contou ao Camilo o que acontecera. Uma injustiça que queriam fazer ao pobre homem. E com uma expressão indignada, revoltado contra o que levara o outro a tribunal, Camilo pegou num lápis e num papel e escreveu, escreveu. No fim deu-o ao Manuel e disse-lhe «aqui tens a defesa desse pobre homem». E O Manuel leu aquilo que Camilo escrevera, decorou tudo e no tribunal reproduziu-o de cor e o homem foi absolvido.
(1) Publicado no «Jornal de Notícias», de 14 de Setembro de 1967.

SOLEDADE

Deleita-me a solidão desta choupana …
Mas dói-me ao recordar vozes amigas.
Sim, geme o verdelhão (2), – mas em país de exílio.
Conturba-me a cor da relva o coração, que começa.

Desce o sol, em um poente de cirros amarelos,
Passam nuvens sobre o mar, – que é mais ferrete.
Segunda lua … (3). E, na algarvia dos grasnidos,
Oiço os gansos (4) darem o alarme p´ra o regresso. (1)

(1) Autor: Pien-Kung, também conhecido por T´ingh-Shih.
(2) Nas notas que acompanham a poesia, refere como sendo «drilus sinensis» – género de besouro pertencente à família Elaterídae. Mas «verdelhão» em Portugal é um passarinho da família dos fringilíneos, excelente cantor.
(3) A segunda lua, correspondendo, em média aproximada, ao mês de Março, é a segunda do ano e da Primavera. A nona, correspondendo a Outubro, é a última do Outono.
(4) Os gansos bravos (Anser segetum) que vêm hibernar aos rios do sul, na zona tropical
Desenho de John Gould
http://www.art.com/products/p29690389918-sa-i8720063/john-gould-anser-segetum-bean-goose.htm

Tradução e notas retiradas de:
PESSANHA, Camilo – China (Estudos e traduções). Agência Geral das Colónias. Lisboa, 1944, 133 p
Ver anterior elegia chinesa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/02/poesia-vi-elegia-chinesa-de-camilo-pessanha/