Camoes Grotto , Macao
Copyright by Sternberg , Hong Kong
Cerca de 1910

Teria ou não Camões estado em Macau e composto na gruta lendária parte dos Lusíadas? Desde que a lenda se apossou do caso, os críticos tinham obrigação de se retirar discretamente nos bicos dos pés, porque as suas opiniões não interessam nada e não oferecem nenhuma utilidade, enquanto as lendas, ao envolver os assuntos, lhes dão aquele valor poético que é uma das mais altas expressões da espiritualidade.
Não interessa, pois, perante a lenda, que Camões estivesse ou deixasse de estar em Macau. Os críticos dizem que sim; mas põem dúvidas quanta à gruta.
Devemos dizer, em primeiro lugar, que não há gruta nenhuma. Gruta pressupõe um vão cavado na terra ou na rocha, e não foi isso que nós vimos ao subir pela rampa da colina verdejante, até ao alto, ao pequeno terreiro ensombrado de árvores, onde um penhasco recoberto de ondulante vegetação parece palpitar com os estremecimentos dos fetos finos. Defronte, dois penedos sustentam um terceiro sobre si, deixando entre eles um espaço vazio, túnel talvez de metro de largo e dois de fundo – a que se chama gruta.
Aqui esconderam, sobre pedestal pobre, um pequeno busto do Poeta. Ao princípio, o monumento parece insignificante, destituído de grandeza; mas há nesta discreta concha vegetal uma frescura acariciante, um retraído ramalhar tão suave e tão insinuador, que a falta de grandeza ganha valores de intimidade espiritual, que a falta de grandeza ganha valores de intimidade espiritual e o busto deixa de ser o monumento público, a impor-nos e esmagar-nos, para se reduzir à pequena figura que temos sobre a nossa banca de trabalho. Não é quadro para se reproduzir em fotografias ou postais ilustrados. É um local para se visitar sozinho.” (1)

O mesmo postal, colorido.

Camoes Grotto Macao
Copyright by M. Sternberg, Hong Kong

(1) in p. 190 de OLIVEIRA. Barradas de – Roteiro do Oriente. Agência Geral do Ultramar, 1954, 249 p.