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Dois anúncios da Firma «A. A. de Mello & C.º» (1) de António Alexandrino de Melo, Barão do Cercal (2), agência comercial portuguesa estabelecida em 1840, na Praça Lobo de Ávila,22 e 24 (à Praia Grande). Era uma agência de “viagens” – agente em Macau das empresas sediadas em Hong Kong, proprietárias dos paquetes que faziam carreira para a Europa, América, portos da China e Japão, com partida de Hong Kong.
A firma «A. A. de Mello & C.º» vendia passagens de Hong Kong para todos os destinos finais (Lisboa, Londres, Paris, Marselha, Vancouver, etc)e portos intermediários na China e no Japão.
ANÚNCIO -1929 - N. Y. K. LineO primeiro anúncio, publicitando a “N.Y.K. LINE” que possuía “ magníficos paquetes com excelentes acomodações, comida à europeia, serviço esmerado. Tinha partidas de Hong Kong, duas vezes ao mês para Marselha (a via mais habitual para seguir depois para Lisboa) e Londres. Tinha também carreiras para Lourenço Marques, Índia, S. Francisco  (E.U.A.), Canadá, Shanghai, Kobe, Yokohama, etc.
A empresa NYK Line (Nippon Yusen Kabushiki Kaisha -日本郵船株式会社 ) é ainda presentemente, uma das maiores  companhias mundiais  de transporte marítimo, com sede em Chiyoda, Tóquio (Japão). Fundada em 1885. Começou em 1924 a utilizar o motor em todos os seus navios de carga e em 1929, em todos os navios de passageiros, embora mantivesse até 1939 alguns dos navios de passageiros mistos (vapor e  motor).
Antes  da Guerra do Pacífico tinha 36 navios de passageiros mas quando a guerra acabou somente sobreviveu um, o “Hikawa Maru“. A partir dos anos 60 (século XX) com a diminuição de passageiros,  começou a operar mais com navios de carga (cargeiros); em 1968 o novo “Hakone Maru” foi o primeiro a efectuar ligação de navio de transporte de contentores do Japão para os Estados Unidos. (3) 
HAKONE MARU 1921HAKONE MARU (1921)
Navio de passageiros, transatlântico de maior classe entre os navios japoneses da época, construído em 1921, era movido a turbina a vapor. Na 2.ª Guerra Mundial/Guerra do Pacífico foi requisitado pelo governo nipónico para transporte de tropas e usado como navio-hospital. Em 27 de Novembro de 1943, aviões B-25 americanos atacaram um comboio marítimo  japonês e o navio de transporte “Hakone Maru” que integrava o comboio afundou-se. (4)
SUWA MARU 1912SUWA MARU (1912)
Construído em 1912, navio de carga e passageiros de 10 927 toneladas (em 1923, restaurado aumentando a tonelagem).
Foi também requisitado em 1940 para transporte auxiliar. Foi torpedeado em Março de 1943 por um submarino americano. Sem possível de reparação encalhou na Ilha Wake (atol Wake, na Micronésia, tomada pelos japoneses em 23-12-1941, aquando do ataque de Pearl Harbor e “reconquistada” pelos americanos em 4-09-1945; presentemente administrada pelos E.U.A.)
O  “Suwa Maru” efectuava a carreira para Marselha e há pelo menos uma indicação que tenha efectuado uma viagem a Lisboa com chegada a 22 de Setembro de 1940 com saía a 30 do mesmo mês. (5)
FUSHIMI MARUFUSHIMI MARU  (1914)
Outro transatlântico de classe superior japonês, construído em 1914, movido a turbina de vapor. Utilizado durante a 2.ª  Guerra Mundial como navio mercante misto de carga e de passageiros , o “Fushimi Maru” foi afundado no dia 1 de Fevereiro de 1943, por um torpedo disparado pelo submarino Tarpon (SS-175 (americano) a 20 milhas ao sul cidade Omaezaki ((御前崎市) (Japão) (6)
HAKOZAKI MARU 1922HAKOZAKI MARU (1922)
Construído em Nagasaki com início a 16 de Dezembro de 1920 e lançado ao mar em 2 de Março de 1922, o “Hakozaki Maru” era um navio (frigorífico) misto de carga e passageiros de 10 413 toneladas (depois aumentado). Integrado num comboio marítimo como transporte auxiliar foi torpedeado, a 225 milhas NNE de Shanghai, pelo submarino americano USS Balao (SS-285) no dia 19 de Março de 1945. O navio cuja carga era gasolina, armamento e torpedos, explodiu e afundo-se. A combinação do fogo, explosões e água do mar a 5 graus significou a morte de 928 passageiros, 51 soldados e 139 tripulantes. (7)
NOTA: a empresa “N. Y. K. Line” tinha também um navio chamado “S.S. Lisbon Maru“, construído em 1919 e lançado em 1920. Ficou conhecido (e má memória para os macaenses) por ter sido usado durante a Guerra no Pacífico como transporte de tropas e de prisioneiros entre a China e o Japão. Foi torpedeado pelo USS Grouper (SS-214), em 1 de Outubro de 1942 quando levava, além da tropa japonesa, quase 2000 prisioneiros britânicos (e macaenses que integravam a defesa de Hong Kong) capturados depois da queda de Hong Kong (Dezembro de 1941). Morreram mais de 800 em consequência directa do afundamento do navio e outros tantos “fuzilados” pelos soldados japoneses quando nadavam procurando salvação.
ANÚNCIO 1929 - CANADIAN PACIFICO segundo anúncio publicitava a “CANADIAN PACIFIC“,  empresa «Possuidora dos afamados paquetes “EMPRESS”»
Efectuava duas “rápidas” viagens por mês de Hong Kong para Vancouver (Canadá), via Shanghai e Japão.
A “Canadian Pacific”  era uma grande companhia de navegação canadiana estabelecida em finais do século XIX. De 1880 até depois da II Grande Guerra, era  a empresa com mais navios a vapor que operava no Atlântico (muitos emigrantes viajaram nestes navios da Europa para o Canadá) e Pacífico.
Os seus navios também foram incorporados nas duas guerras mundiais como navios de carga. Perderam 12 navios durante a 2.ª Guerra Mundial incluindo o afundamento do seu maior navio por um  submarino alemão U-Boot.
Em 1960 devido ao aumento da viagens aéreas, a Companhia passou a transportar contentores. Com este nome, a Companhia terminou em 2001.
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/07/16/anuncio-firma-a-a-de-mello/
(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alexandrino-antonio-de-melo/
(3) https://en.wikipedia.org/wiki/Nippon_Yusen
(4) http://www.wrecksite.eu/wreck.aspx?109780
(5) http://www.combinedfleet.com/Suwa_t.htm
(6) http://www.wrecksite.eu/wreck.aspx?143913
(7) http://www.combinedfleet.com/Hakozaki_t.htm
(8) https://en.wikipedia.org/wiki/CP_Ships

No dia 14 de Dezembro de 1863 (1) o célebre pianista Rod Sipp e o baixo italiano Grossi, deram um recital, no Palácio dos Barões do Cercal (2). O noticiarista do Boletim do Governo considerou o pianista superior a Franz Liszt.(3)

Palácio Barão do Cercal-Palácio do Governo c. 1890Palácio do Barão do Cercal  /Palácio do Governador  a partir de 1883
c. 1890

(1) António Alexandre Bispo num trabalho publicado na Revista Brasil-Europa-Correspondência Euro-Brasileira aponta a data de 11 de Dezembro de 1863 (sexta feira, às 8.30 horas) para o concerto  histórico na residência do Barão de Cercal do pianista Rod Sipp em Macau. Pelo pormenor da descrição deste concerto, é de confiar ser esta data, a mais correcta.(4)
Mais refere que neste concerto terá sido apresentado também Emmarentia Anna Peter van der Hoeven (5) que executou com Rod Sipp, uma fantasia para piano da ópera Moisés, de Sigismund Thalberg (1812-1871), e obras a quatro mãos na abertura da primeira e da segunda parte do programa. Refere ainda este autor que no concerto tomou parte um tenor italiano que se encontrava de passagem em Macau de nome Grossi.
(2) Nessa data a residência  dos Barões do Cercal (pai e filho) na Praia Grande construída em 1849 pelo arquitecto macaense José Tomás de Aquino,  era pertença do 1.º Barão do Cercal (depois Visconde, a partir de 1865) Alexandrino António de Melo  que a mandou construir. O Palácio foi alugado ao Governo (contrato a 8 de Junho de 1875) pelo filho António Alexandrino, em representação Visconde do Cercal e vendido posteriormente pelo filho. Hoje o Palácio é sede do Governo da RAEM.
(3) GOMES, Luís G. –  Efemérides da História de Macau, 1954 ) e SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau , Volume 3, 1995.
(4) Para melhor compreender a importância e a trajectória musical de Rod Sipp (“um dos primeiros nomes de pianistas de excelente formação e de renome internacional que actuaram na China”) bem como a sua biografia e as viagens que efectuou  aconselho a leitura do trabalho  de António Alexandre Bispo que contém o capítulo ” Apresentação em Macau na residência do Barão de Cercal
 Bispo, A. A. – “Judeus na internacionalização e profissionalização da vida musical em centros comerciais da Europa, das Américas e da China. O discípulo de Ignaz Moscheles (1794-1870) Rod Sipp, o D. Quixote do piano”. Revista Brasil – Europa: Correspondência Euro-Brasileira 137/13 (2012:3).
http://www.revista.brasil-europa.eu/137/Rod-Sipp.html
(5) Emmarentia Anna Peter, nascida em Batavia, em 1836, e falecida em Macau, em 1865. Filha de John Hendrik Peter e Maria Drost, recebeu em Batavia formação musical, alcançando elevado nível como pianista. Casou-se em 1836 em Batavia com Jan des Amorie van der Hoeven (1825-1877), que foi agente comercial da Sociedade de Comércio dos Países Baixos em Batavia, em 1826 e depois cônsul em Guangzhou, entre 1855 e 1866. O casal teve seis filhos, todos nascidos em Macau: Maria (1858), Jacoba (1860), Theodora Agatha (1861), Jan (1863), Henriette (1864), Herman (1865). Tendo Emmarentia falecido com apenas 29 anos, Jan des Amorie van der Hoeven casou-se em segundas núpcias, já em Leiden, com  Hermine Paulina Hubrecht (1843-1883).
Bispo, A. A. – “Emmarentia Anna Peter Van der Hoeven (1836-1865). O cultivo da música na tradição da burguesia de Rotterdam em Batavia e suas repercussões na China à época de revitalização do comércio das Índias Orientais Holandesas. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 137/12 (2012:3).
http://www.revista.brasil-europa.eu/137/Emmarentia-Anna-Peter-Van-der Hoeven.html

NOTA POSTERIOR (11-12-2019): Ao folhear o semanário «Ta-Ssi-Yang-Kuo» de 1863, encontrei a notícia deste recital na casa do Barão do Cercal que afinal se realizou no dia 11 de Dezembro de 1863 (sexta-feira). Peço desculpas pelo engano e aqui fica a correcção.

No dia 6 de Janeiro de 1874, o Hospital Militar de S. Januário, delineado pelo ilustre macaense António Alexandrino de Melo, Barão do Cercal, foi benzido pelo Governador do Bispado Pe. António Luís de Carvalho e solenemente inaugurado pelo Governador, Visconde de S. Januário,, com luzida cerimónia e a presença das autoridades e representantes nacionais e estrangeiras.Foi feita a entrega da chave ao Dr. Lúcio Augusto da Silva, Presidente da Junta de Saúde e entregue à mesma Junta a direcção de estabelecimento .  (1)

Prospecto 120 anos - Hospital Militar 1874 IO ataque holandês em 24 de Junho de 1622 veio chamar a atenção das autoridades para a necessidade da fortificação e defesa de Macau. Cedo se fez sentir também a necessidade de criar uma estrutura especialmente vocacionada para dar assistência na doença aos militares que entretanto se fixaram no território.
A construção do Hospital Militar só viria a ser realizada anos mais tarde por determinação e empenho do Governador Visconde de S. Januário.
O projecto, da autoria do capitão Dias de Carvalho que delineou o plano e do Barão do Cercal a quem competiu a parte arquitectónica, foi considerado na época como um dos mais modernos edifícios hospitalares. Constituído por um corpo principal a que se ligavam perpendicularmente as enfermarias gerais com uma lotação de 60 camas, contava ainda com uma enfermaria para subalternos, quartos-prisão, uma secção de isolamento e quartos para oficiais, o que perfazia uma lotação de 100 camas. A 1 de Dezembro de 1872 era lançada a 1.ª pedra e a a 6 de Janeiro de 1874 era inaugurado o Hospital Militar de S. Januário.” (2)
Prospecto 120 anos - Hospital Militar 1874 IIPortaria n.º 71, de 11 de Novembro de 1872:
«O Governador da província de Macau e Timor e suas dependências determina o seguinte:
Tendo-me sido apreciado pelo director das obras públicas o projecto de um novo hospital militar, que deverá edificar-se no terreno para esse efeito já preparado no monte de Sam Jerónimo, e que se acha compreendido na classe 6.ª da distribuição de fundos para o corrente anno económico, aprovada por portaria de 11 de junho ultimo; hei por conveniente, com o voto afirmativo do conselho technico e da junta da fazenda aprovar o dito projecto e seu orçamento na importância de $ 47:266,197, e determinar que se execute com previa arrematação perante a junta da fazenda.
As auctoridades, a quem o conhecimento e execução d´esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo em Macau, 11 de novembro de 1872 – o Governador da província, Visconde de Sam Januário.» (3)
NOTA: o primeiro Hospital Militar (com esta denominação) foi criada em 29-11-1855 (3) (4) sendo extinta, a partir de 1 de Dezembro, a velha Enfermaria Militar do batalhão de Artilharia estabelecida pelo decreto de 13 de Novembro de 1845 (1) e que funcionava nas dependências do Hospital da Misericórdia. Mas só a 6 de Junho de 1857, os doentes militares foram transferidos para o antigo mosteiro de S. Agostinho, convertido em Hospital Militar.
(1) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau.
(2) Retirado do impresso (prospecto ou folheto desdobrável), constituído por uma folha (70,5 cm x 28,5 cm) com duas dobras, intitulado “120 anos de História”, editado pelo Centro Hospitalar Conde de S. Januário, distribuído aquando dos 120 anos do Hospital (1994).
(3) TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Volumes I-II, 1998.
(4) Luís G. Gomes aponta 21-11-1855 nas “Efemérides da História de Macau.”
Outras referências ao Hospital Militar de Sam Januário:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-militar-de-sam-januario/ 

Saiu recentemente o livro:

Curandeiras Chinesas CAPAAs Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República” (1), romance de ficção histórica de Joaquim Fernandes (2), passada em Novembro de 1911, quando duas chinesas chegam a Lisboa e começam a recuperar a visão dos cegos mais pobres que as consultam. Quando as entidades oficiais intervieram, surgiu um motim popular, com destruição de lojas (entre elas, uma sucursal do jornal «O Século» no Rossio), intervenção da cavalaria da Guarda Republicana que no Rossio entre feridos e presos se deu uma das mais graves “colisões” entre a Guarda e o povo. Houve depois, manifestações dos cegos à frente do Ministério do Interior, intervenção política, e pareceres médicos.

Curandeiras Chinesas CAPA+CONTRACAPASaliento do prefácio «Um bom romance histórico» (p. 7) de Miguel Real que sublinha: Como romance histórico, obedece às categorias clássicas deste género literário: fidelidade e exactidão na descrição dos acontecimentos relatados, narração verosímil tendo em conta os documentos consultados e uma poderosa imaginação para cruzar e unificar o diversíssimo leque de acontecimentos sociais, criação de fortes personagens agregadoras, amplificadoras e sintetizadoras doas acontecimentos, integrados e estruturados estes na unidade de espaço e de tempo.

E perguntarão – Que relação tem este romance com Macau?
Uma menção, um parágrafo na página 254:
Capricho do caso, nesse mesmo dia, encontrei Azevedo Gomes, (3) ex-ministro da Marinha, um açoriano do Pico, que me disse conhecer o truc que acabara de ser anunciado no Brasil.
– Eu preveni as autoridades … mas não fizeram caso do meu aviso! – queixou-se. E tratou de explicar quanto se recordava dos procedementos das curandeiras. – Quando estive em Macau e nos portos do sul da China tive conhecimento desse truc que, seja dito em abono da verdade requer uma grande habilidade e destreza

Quanto ao “truque” mencionado, quem quiser saber que leia o romance. Leitura que vale a pena e recomendo.

Dois dos periódicos da época relataram (com fotos), este episódio do quotidiano lisboeta. A “A Illustração Portugueza” de 1911, com o título “ As Chinezas Milagrosas”:
Curandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - I

Curandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - II

Curandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - IIICurandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - IV

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro periódico “Revista Brasil-Portugal”, Dezembro de 1911 apresentou uma reportagem de 3 páginas (também com fotos) com o título “O Caso das Chinezas”.

Curandeiras Chinesas Brasil-Portugal ICurandeiras Chinesas Brasil-Portugal IICurandeiras Chinesas Brasil-Portugal III

(1) FERNANDES, Joaquim – As Curandeiras Chinesas. 2.ª edição. Publicações Gradiva, 264 p.ISBN: 978-989-616-593-2
(2) Licenciado em História, mestre em História Moderna e doutorado na área da História das Ciências. Professor da Universidade Fernando Pessoa, Porto
Curandeiras Chinesas AMARO J. GOMES(3) Amaro Justiniano de Azevedo Gomes (1852-1928) assentou praça na Armada em 1873, iniciou a carreira como guarda-marinha em 1875 chegando a capitão-de-mar-e-guerra em 1908. Entre vários cargos nas colónias ultramarinas, esteve em Macau onde regeu a Escola de Pilotagem. Casou em Macau no dia 9 de Agosto de 1882 com Lília Carlota Gonzaga de Melo, filha de António Alexandrino de Melo, 2.º barão de Cercal. Político republicano, fez parte do Governo Provisório da República Portuguesa (logo após a implantação da República) no cargo de Ministro da Marinha e do Ultramar (7 de Outubro de 1910 a 3 de Setembro de 1911).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Amaro_de_Azevedo_Gomes

Nasceu em Macau, a 7 de Junho de Junho de 1837 (faleceu em 1885), 2.º Conde de Cercal, filho de Alexandrino António de Melo, (1809-1877) (1) (2) e de Carlota Josefa Botelho (1819 – 1892), Viscondes de Cercal.

Aos 7 anos foi estudar para o colégio jesuíta «Stonyhurst» no condado de Essex, Inglaterra, formando-se em engenharia civil. Aos 17 anos foi completar os seus estudos em França. Aos 19 anos estudou pintura em aguarela e a óleo, em Roma, onde se demorou dois anos. Falava correctamente várias línguas: português, francês, espanhol, inglês, italiano e chinês.

António Alexandrino Melo

Como homem público, exerceu em Macau quase todos os cargos onde se requeria supremacia. Vogal do Conselho de Governo; do Conselho Técnico das Obras Públicas; Director das Obras Públicas; Comandante do Batalhão Nacional, no posto de tenente-coronel (no tempo em que o Barão comandou o Batalhão, chegou este a ter um efectivo superior a 400 homens, gastando com ele o dito comandante, uma grossa quantia do seu bolso para o equipar devidamente); Provedor da Santa Casa da Misericórdia; Juiz substituto da Comarca; etc.

Exerceu também os cargos de Cônsul do Brasil, Itália, Bélgica e Vice-Cônsul da França.

Como engenheiro delineou os seguintes edifícios públicos, em que ainda hoje, em alguns, se pode admirar a sua arquitectura: Palácio do Governo, Palacete de Santa Sancha, Hospital Militar Sam Januário (demolido), Cemitério de S. Miguel, Capitania dos Porto/Quartel dos Mouros, Clube Militar e vários outros edifícios (demolidos).

Alguns dos títulos honoríficos:
Barão do Cercal a partir de 1865 ou 1868; Fidalgo Cavaleiro da Casa Real; Comendador da Ordem de Cristo; Cavaleiro do Santo Sepulcro de Jerusalém; Comendador da Ordem de N. S. da Conceição de Vila Viçosa; Cavaleiro da Ordem da Bélgica; Cavaleiro da Legião de Honra de França; Cavaleiro de S. Maurício e S. Lázaro de Itália; Comendador de 1.ª classe do Sol Nascente do Japão e da Indochina; Medalha de Isabel, a Católica, de Espanha. Era sócio Honorário da Real Sociedade de Geografia Inglesa e outras Sociedades Científicas Estrangeiras.

Macau c 1870Macau c 1870 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:1870Macao.jpg)

Era o único sócio da firma « A. A. de Mello & C.º»  proprietário de 5 navios que faziam ligações com Portugal, Brasil e Austrália. Foi um dos mais ricos comerciantes de Macau mas sofreu duro revés com a instalação dos ingleses em Hong Kong, pelo que devido à má situação financeira, vendeu as casas dos seus pais, o Palácio da Praia Grande (comprado pelo Governo por uma bagatela) e o Palacete de Santa Sancha (comprado pelo inglês Herbert Dent, que a vendeu depois ao Governo por $30.000).

Informações recolhidas de
TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX. Macau, Imprensa Nacional, 1942, 659 p.
(1) Ver referência à família macaense Melo ou Mello em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/24/noticias-de-hong-kong-janeiro-de-1930/
(2) Sobre o 1.º Barão do Cercal, mais tarde Visconde do Cercal e Comendador, agraciado com este título pela Rainha D. Maria I, por Decreto de 11 de Dezembro de 1851 e transcrita no Boletim do Governo da província de Macau, Timor e Solor a 3 de Julho de 19852, ver em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/barao-de-cercal/

Para complementar  a notícia de ontem (1), reli o opúsculo histórico do Padre Teixeira (2) “O TEATRO D. PEDRO V“, publicado em 1971, pelo Clube de Macau (3) com subsídio do Governo da Província.

O Teatro D. Pedro V capa

Refere o autor, na introdução “Breves Palavras”:
“… Durante este século, foi o Teatro D. Pedro V que o Clube de Macau apresentou ao público não só os talentos locais mas os grandes artistas de renome internacional. Pode dizer-se que até à Guerra do Pacífico, a vida artística macaense se concentrou no Teatro D. Pedro V, devido aos bons ofícios das Direcções do Clube de Macau
O Teatro D. Pedro V fachada 1971

A Fachada do Teatro em 1971, degradada revelando as suas instalações, precárias condições de funcionamento

 O teatro, após obras que custaram 4 000 patacas (empréstimo pedido pela Direcção da Sociedade) (4) foi inteiramente restaurado e reabriu a 30 de Setembro de 1873.
O Jornal Gazeta de Macau e Timor (5) deu extensa notícia da festa de abertura:
” Abriu esta noite os seus salões o THEATRO DE D. PEDRO V – restaurado, elegante e perfeitamente armado, obras estas que deve à actual e incansável direcção que dotou o teatro com uns estatutos razoáveis, necessários e convenientes, trabalho este em que havia naufragado mais de uma direcção, havendo desgostos, discussões acaloradas e improdutivas.”

Ao longo do seu historial, o teatro passou por muitas vicissitudes: falência com penhora em 1879 (6); desavenças dos sócios;  cisão do Club União que organizava as festas no teatro;  fundação de uma nova Associação  denominada «Proprietários do Teatro D. Pedro V» que comprou o teatro, e o arrendou por um período de 10 anos à sociedade Club União, mediante ao pagamento de 15 % dos rendimentos brutos do clube e do Teatro; apogeu da sua utilização para espectáculos, récitas, óperas, concertos, conferências, etc; degradação do edifício ao logos de anos e outras tragédias ….. que relatarei em posteriores postagens.

O Teatro D. Pedro V lista dos proprietários IO Teatro D. Pedro V lista dos proprietários II(1) “NOTÍCIA  DE 7 DE MARÇO DE 1857 – TEATRO D. PEDRO V”
         https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/teatro-d-pedro-v/
(2) TEIXEIRA, P.e Manuel – O Teatro D. Pedro V. Clube de Macau, I Centenário, 1971, 50 + !2! p. 26,5 cm x 19 cm
(3) Nesse ano (1971), a Direcção do Clube de Macau era composta por:

 Presidente: Fernando José Rodrigues
Secretário: Dr. João Bosco da Silva
Tesoureiro: Estanislau Alberto Carlos
Vogais: Hugo José Sales da Silva e António V. N. Barros Amorim.

 (4) A Direcção era composta por António Alexandrino de Melo, barão do Cercal, João Eduardo Scarnichia, José Maria Teixeira Guimarães, Carlos Vicente da Rocha e Joaquim das Neves e Sousa que tinham elaborado novos estatutos da Sociedade «Theatro de D. Pedro V», os quais foram aprovados a 3 de Fevereiro de 1873 (data citada por Padre Teixeira e Luís Gonzaga Gomes, mas Beatriz Basto da Silva refere na sua Cronologia, a data de 10-02-1873.
(5) Gazeta de Macau e Timor, 2.º Ano, nº 2, de 30-09-1873
(6) “29-03-1879 – O Boletim Oficial publica o anúncio da arrematação do edifício do « Theatro D. Pedro V», penhorado em execução movida pelo Leal Senado contra a sociedade proprietária. O Teatro é vendido em leilão judicial por 1.400 reis (mais 672 reis pelos trastes), segundo o Boletim Oficial de 10 de Julho de 1880. Entretanto é fundado o Clube União e são os seus sócios (agremiados publicamente por escritura celebrada em 25 de Setembro de 1879) – que adquirem o teatro, com o nome de « Associação dos Proprietários do Theatro D. Pedro V»; nos Estatutos do Clube União, aponta-se para um único fim: o clube deve manter o teatro, ao serviço da população portuguesa de Macau “
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)

“O Rei de Inglaterra agraciou o cidadão português Alberto António de Mello com a entrada como membro honorário da «Most Excelent Order of the British Empire», pelos serviços  que prestou quando o vapor «Hai-Ching» foi atacado por piratas, em 7 de Dezembro de 1929. A Medalha foi-lhe entregue pelo Governador de Hong Kong, Sir William Peel, em cerimónia realizada no Palácio do Governo de Hong Kong”. (1)

Alberto de Melo, third engineer, was on duty in the engine room. He had just received information that pirates where on board through the speaking tube when he was held up by four armed pirates. He was forced to stop the engine, stop the dynamo, which plunged the ship into darrkness, and then forced to go on deck, in company with is pirate guard. On  reaching the starboard  alleyway on the main deck, he manged to elude his guard by knocking one pirate down and dashing off for the bridge which he reached without further accident. He then assisted with the officers in the defence of the bridge until the pirates were driven off.”  (2)

Alberto de Mello era macaense, e bisneto do Barão do Cercal, que fundou a Companhia «Hong Kong, Cantão and Macao Steam-Boat”, ainda em mão da família Mello (António Alexandrino, pai de Alberto)” (3)

Um pouco da história da Família Macaense Melo ou Mello (4)
Alexandrino António de Melo (1809-1877) -1.º Barão do Cercal, grande comerciante e proprietário.
Sócio fundador e um dos primeiros directores da «Hong Kong, Canton & Macao Steamboat Company»
Mandou edificar para sua residência, a casa da Praia Grande (hoje sede do Governo da RAEM) e proprietário da Quinta de Santa Sancha (hoje residência oficial do Chefe de executivo da RAEM). Fundou por sua iniciativa a «Nova Escola Macaense» (1862) (depois «Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM»)

Filho: António Alexandrino de Melo (1837 – 1885) – 2.º Conde de Cercal.
Único sócio da firma «A. A. de Mello & C.º», proprietário de 5 navios que faziam ligações com Portugal, Brasil e Austrália. Foi um dos mais ricos comerciantes de Macau mas sofreu duro revés com a instalação dos ingleses em Hong Kong , pelo que vendeu a casa da Praia Grande e o palacete de Santa Sancha. Engenheiro que projectou o Palácio do Governo, Santa Sancha, Hospital S. Januário, Cemitério de S. Miguel, Quartel dos Mouros, Grémio Militar.

Neto: António Alexandrino Gonzaga de Melo (1870-1945)- 7.º filho
Manteve como sócio gerente  da firma «A. A. de Melo & C.º», Professor da Escola Comercial «Pedro Nolasco» e do Liceu  de Macau.

Bisneto: Alberto António de Sena e Melo (1903-1964) – 4.º filho
Engenheiro de máquinas do vapor « Hai Ching»

(1) “The Macao Review“, Janeiro de 1930, p. 11 citado por (2) e (3)
(2) «Arquivos de Macau», Jan/Dez, 1987,  citado por (4)
(3) SILVA, Beatriz Basto da
Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)
(4) FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses , II Volume. Fundação Oriente, 1996, 1110 p., ISBN  972-9440-61-1
NOTA: Ver o Anúncio da Firma “A. A. de Mello” em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/07/16/anuncio-firma-a-a-de-mello/

Sobre os “Barões de Cercal”  ver anteriores posts:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/barao-de-cercal/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hospital-central-conde-de-s-januario/