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No dia 29 de Setembro de 1725, desembarcou em Macau António de Albuquerque Coelho (1682-1745) (1) (2) vindo de Timor, por ter acabado o seu Governo. (3) Foi residir no Convento de S. Francisco, e mandou realizar, no dia 23 de novembro, um ofício solene pela alma da sua mulher, D. Maria de Moura, que desposara nesta cidade, na Igreja de Santo António, em 22 de Agosto de 1710 e aqui falecera, em 31 de Julho de 1714, das sequelas do parto (20 de Julho) (1) No fim do ofício, houve salva na Fortaleza do Monte e dobraram os sinos em todas as igrejas. (4) António de Albuquerque Coelho ficou ainda alguns meses em Macau, regressando a Goa no início de 1726. Chegou no mês de Abril e foi preso por causa do anterior conflito em Timor, com o bispo de Malaca, tendo depois sido solto após defender-se das acusações. António de Albuquerque Coelho ainda seria nomeado em capitão-Geral da ilha de Pate (ilha ao norte de Mombaça, na costa oriental de África) após um tratado celebrado em 24 de Agosto de 1728, entre o sultão da ilha e uma embaixada de Goa  no qual permitia a construção de uma fortaleza guarnecida com 150 homens. Viria a ser novamente preso em Setembro em 1729 (acusado de “deserção da fortaleza de Pate” pelo Vice-Rei D. João Saldanha da Gama) após desembarque em Goa mas viria a ser novamente absolvido da sentença.
Extraído de PEREIRA, A. Marques – Ephemerides Commemorativas da Historia de Macau …, 1868
(1) Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-de-moura/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/antonio-albuquerque-coelho/
(2) Foi governador de Macau de 1718 (tomou posse em Macau a 30 de Maio de 1718 embora nomeado em Maio de 1717) a 9 de Setembro de 1719. Segundo Jack M. Braga “ um anno, quatro mezes e 18 dias”.
(3) Nomeado em 1721 governador de Timor e Solor, partiu de Goa via Macau tendo chegado a Lifau (Timor) em 1722. A sua governação foi curta e com grandes problemas; conflito com o bispo de Malaca, D. Frei Manuel de Santo António (embarcado para Goa por ordem do governador) e revolta/rebelião de alguns povos de Timor. Em  1725 foi substituído por António Moniz de Macedo.
(4) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado, 1987.

Neste dia pario a Mulher de António de Albuquerque (Maria de Moura) hum filho, e no dia 23 mandou faser comedia á sua porta. Em 26 se correrão Alcansias a Cavallo com outros divertimentos. A 27 se baptisou a creança na Freguesia de St.º António, sendo seus padrinhos Manoel Favacho e Catharina Soares a cujo acto assistio o Governador António Sequeira de Noronha com duas Companhias de Soldados mandando salvar o Monte com sette tiros na entrada à igreja e onze na saída, rematando todo este pomposo, com outro Lugubre, com a morte da parida, que no dia 31 do dito mez passou para a eternidade sendo o seu cadáver enterrado em S. Francisco com grande acompanhamento mas diferente daquele com que o filho foi Baptizado porque aquelle acabou com praser, e este com tristeza e lagrimas como quasi sempre soccede nos praseres desta vida (1)

Igreja de S. Francisco
George Chinnery
1825
Lápis sobre papel

Com grande pompa de acompanhamento, ofícios e dobre de sinos em todas as Igrejas, ficou sepultada na Igreja de S. Francisco, na mesma cova onde já estavam a filha (Inês, enterrada a 6 de Março de 1712, que vivera só 7 dias). Entretanto chegavam a termo as muitas desavenças e queixas contra António de Albuquerque Coelho, tanto para o Vice-Rei, como para El-Rei, e com o parecer do Conselheiro António Ruiz da Costa, concordaram não só os do Conselho Ultramarino, como El-Rei, no sentido de mandarem inquirir, em especial, das suas responsabilidades, por abuso de autoridade, com tal ordem se cruzou a comunicação do Vice-Rei D. Vasco de Meneses ao dar parte que o fizera recolher a Goa – «para não prejudicar a inquirição das sua culpas» (2)
António de Albuquerque Coelho viria a ser nomeado em Goa. Governador de Macau, em 05 de Agosto de 1717. Chegou a Macau a 29 de Maio de 1718. Ocuparia o lugar até à chegada de António da Silva Telo de Meneses, irmão do Conde de Aveiras) a 9 de Setembro de 1719 que havia sido provido naquela capitania de Macau em data anterior à da nomeação em Goa de Albuquerque Coelho.

Escadas que conduzem ao antigo Convento de Santo Agostinho
George Chinnery
1829
Lápis sobre papel

A igreja de S. Francisco quando foi demolido, a urna com a lápide foram transferidas para a Igreja de Santo Agostinho onde ainda hoje se encontra encaixada na parede da capela-maior
A lápide constava o seguinte:

“Nesta urna estão os ossos de D. Maria
De Moura e Vasconcelos e sua filha
Ignez e os do braço direito de seu
marido António de Albuquerque Coelho
que aqui a fez depositar vindo de Governador
e Capitão Geral das Ilhas de Solor e
Timor no ano de 1725»

(1) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado, 1987.
(2) SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência, 1950.
Ver anteriores referências a António de Albuquerque Coelho:
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No dia 06 de Março de 1712, saiu de Macau o navio desta praça «Jesus Maria José» (1) que foi apresado por um corsário francês que o vendeu em Manila. (2)
Jack Braga em “A Voz do Passado” também aponta este episódio:
“06-03-1712 – “Neste dia sahio deste Porto o Navio S.M.S. do P.e Manoel de Queirós o qual hia para Batavia, sendo seu Capitão Francisco Leite Pereira e de Batavia passou a Surratte, e na vinda a vista de Pullo-Aor foi tomado por hum Corsário Francez que o levou a Manilla onde vendeo a Aleixo Pessoa. “ (3)
O Padre Videira Pires (4) pormenoriza melhor:
“Aos 6 de Março de 1712 largou, de novo, deste porto o navio J.M.J. do Pe. Manuel de Queirós Pereira, «o qual hia para Batavia, sendo seu Capitão Francisco Leite Pereira e de Batavia passou a Surrate, e na vinda à vista de Pullo-Aor (Ilha de Aor ou Condor) foi tomado por hum Corsário Francez que o levou a Manilla onde vendeo a Aleixo Pessoa.» O barco, porém, voltou à posse dos dois donos e, em 1719, chegaram a Manila embarcados clandestinamente, de Batávia, 64 comerciantes chineses, à razão de 20 patacas por cada. Descoberta a fraude, Doutel foi preso e multado
Jack Braga (3) para esse mesmo dia, assinalou outro acontecimento: o enterro da filha recém-nascida de António de Albuquerque Coelho, capitão de infantaria, oficial de guarnição na fragata Nossa Senhora das Neves, que chegara a Macau em 1706 e de Maria de Moura, formosa rapariga, órfã (mas rica) ainda criança, cujo namoro e casamento atribulados, em parte já foram narrados em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/antonio-albuquerque-coelho/
“Nesta manhãa se enterrou em S.m Ft.º (São Francisco) huma filha de António de Albuquerque recennascida de sette dias, com grande acompanhamento e fausto tanto dos moradores como de Tropa que lhe derão três descargas de Mosqueteria ao meter o Cadaver na Sepultura e Salva na Fortaleza do Monte de nove tiros.” (2)
António de Albuquerque Coelho viria depois a ser Governador de Macau de 30 de Maio de 1718 a 8 de Setembro de 1719.
(1) A fragata, barco ou navio «Jesus, Maria, José» ou muitas vezes descrito «J.M.J» e os copistas da «Colecção de Vários Factos Acontecidos nesta Mui Nobre Cidade de Macao …» adulteraram o título para «S. M. S. »  foi comprado em 21-12-1709, por Francisco Xavier Doutel e compartilhado desde 1711 pelo seu cunhado arcediago e tesoureiro-mor, Pe. Manuel Queirós Pereira
(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(3) BRAGA, Jack – A Voz do Passado, 1987.
(4) PIRES, Benjamim Videira – A Vida Marítima de Macau no Século XVIII, 1993.

Em 26 de Setembro de 1693, o Senado resolveu conceder mensalmente três pardaus à mulher de António da Silva, cirurgião na corte de Pequim, para onde foi levado por mandarins enviados pelo Imperador, que solicitara ao Padre Manuel Osório para de Macau levar um substituto  de João Baptista Lima (1)  (2)
O termo do Conselho Geral do Senado nesse dia:
«Pelo Vereador do mês foi proposto como os Fuiens (?) que vieram da Corte, manifestaram a este Tribunal em como era vontade do Imperador da China levarem em sua companhia António da Silva, para substituir o Lima… e por ser o dito António da Silva casado e ter uma pequena família, pedia, justamente, concorresse a Cidade com o que pudesse a sua mulher e filhos … para não parecerem.»
O que visto por todos assentaram de uniforme parecer que se dessem três pardaus, em cada mês, de mesada, durante o tempo que ele assistir em Pequim..
Por quanto tempo este cirurgião se demorou em Pequim não é possível informar , só passados cerca de quinze anos o seu nome, já como cirurgião do Partido da Cidade, aparece de novo em Macau, por ter sido chamado a intervir num caso de agressão por arma de fogo, episódio dramático a que sucessivas desventuras deram carácter de verdadeira tragédia. (1)
Este episódio dramático que José Caetano Soares refere, está relacionado com a história passional de Maria de Moura, (1) formosa rapariga, órfã (mas rica) que em criança, se enamorou de António de Albuquerque Coelho, capitão de infantaria, oficial de guarnição na fragata Nossa Senhora das Neves, que chegara a Macau em 1706. Em 1708, o capitão Albuquerque Coelho que mantivera correspondência com a menor (menos de 12 anos de idade) voltou a Macau na mesma fragata e pediu-a em casamento (segundo a lei, na altura, aos 12 anos de idade poderia”mudar de estado). A avó opôs-se alegando “ter a animá-lo mais o interesse pelo grande cabedal do dote, do que o amor que lhe tivesse. Apesar da recusa e ajudado pelos seus partidários – Jesuítas de S. Paulo, João Garcia Alvarez (tutor da órfã) , Bispo D. João de Casal e o cónego Lourenço Gomes – Albuquerque Coelho reclamou por via do Juízo Eclesiástico a entrega de Maria de Moura para serem ajuramentados os seus esponsais na  Igreja de Santo António a 30 de Junho de 1709. A Avó interpôs protesto perante o Bispo e recurso ao Senado para pelo Juiz dos Órfãos, lhe ser entregue a neta, que considerava tirada à força, contra as disposições testamentárias do pai. O processo seria depois remetido a El-Rei, com a petição de Maria de Vasconcelos.
Ora, a 2 de Agosto de 1709, António de Albuquerque Coelho foi ferido no braço direito por cima do cotovelo, com um bacamarte desferido por D. Henrique de Noronha (um dos pretendentes à mão de Maria de Moura e o favorito da avó.)
Foi observado pelo cirurgião da fragata e o cirurgião da cidade António da Silva que o curaram e lhe disseram que “não era nada
Porém, depois de 16 dias de “cura” e se não aparecesse um navio inglês que ia para Cantão, o qual mandou o seu cirurgião que vendo o dito braço logo disse, que estava podre e se quisesse escapar com a vida era necessário cortar-se. Com esta resolução se pôs por obra a operação que se fez com muita brevidade e logo em breves dias se achou melhor… (3)
(1) SOARES; José Caetano – Macau e a Assistência (Panorama médico-social), 1950.
(2) O Imperador da China encomendou ao Padre Grimaldi  que lhe enviasse para a Corte um médico europeu. A ideia não agradava aos Padres de Macau. Teriam pouca fé no sucesso da Medicina Europeia na China e a enviar médico  «que ele devia ser bom ou nenhum». Por outro lado, faltariam os médicos na cidade. A ideia tardou a concretizar-se mas  por insistência do Padre Grimaldi, sabendo que na Corte seria informada de que chegara outro médico ao pequeno domínio português, fez seguir de viagem com partida de Macau para Pequim a 12 de Maio de 1692, o jesuíta Isidoro Lucci (4) que em tempos  tinha estudado medicina, porém chamado por Deus, aos 18 anos de idade, “sem passar adiante e a tomar o grau de doutor”. Na companhia desse médico e para satisfazerem igualmente os desejos do Imperador, destacaram também de Macau o cirurgião João Baptista Lima, que servia o Senado, ” ainda que china de nação, criara-se entre europeus em Goa, Batávia e Sião e outras partes
(3) Voltarei a esta história passional, (com mais pormenores), verdadeira história rocambolesca, numa próxima postagem.
(4) Isidoro Lucci (Lou I Tao)( 1671-1715),  italiano, entrou na Companhia de Jesus  em Roma aos 7 de Setembro de 1689.  Pretendia missionar no Japão, mas apesar da sua vocação declarada ser de todo oposta à medicina, por obediência (um dos votos da Ordem) , aceitou a incumbência do Padre Grimaldi  em seguir para Pequim como médico. Assim de Roma foi para Génova, donde aos 2 de Fevereiro de 90 foi para Portugal e daí para a Índia onde chegou a 2 de Novembro do dito ano. Chegou a Macau aos 15 de Julho de 1691.

Ana d´Araújo e Barros, Irmãs da mulher de Simão Vicente Roza, Thia destes Rozas e também Irmãs da May de Diogo de Carvalho alias o gago que morreo em Bom Porto de quem ainda heide fallar, quando casou com Vicente da Matta, Manoel Vicente Roza lhe deo em dotte o Navio St.ª Anna, e como ficasse Viuva em 12 de Septembro do anno passado ficou com o Navio, e fosse ainda menina se enamorou de Vicente Ferreira de Carvalho e com elle se casou.
Manoel Vicente Roza não agradando deste casamento pertendeo tirar-lhe o Navio disendo que elle o tinha dado tão somente em q.º Vicente da Matta fosse vivo e logo que elle morreo lhe pertencia. O Carvalho desia que não porque elle Rosa o tinha dado em dotte, e como elle tinha casado com a Viuva lhe pertencia pelo mesmo previlégio do dotte pois que sua mulher fora dotada, e como o dito Roza não quis estar por estas razões pôs a cauza em Juíso contra o referido Carvalho o que correndo os seus termos, o Juís Ordinário José Coelho, cunhado de João Ribeiro dêo sentença a favor do reo.
Indignado Manoel Vicente de ter sahido contra si, não só ameaçou o Juís mas lhe dêo 17 paes d´ouro para que revogasse a Sentença a qual já elle Roza tinha posto embargos. O Juís não só pelo medo, mas movido pelo interesse recebeo os Embargos e revogou a Sentença, isto nos fins de Novembro. O Carvalho vendo-se desapossado do seu Navio se valeo do Governador, contando-lhe todo o facto e a injustiça do Juís pelo interesse de 17 paes d´ouro.
O Governador emediatamente mandou pôr huma Guarda a bordo do navio com ordem para que Manoel Vicente da Roza não tivesse authoridade alguma nelle, e que visto a Justiça ser suspeita se fosse descidir a cauza em Goa e assim ficou elle Carvalho desembaraçado para consertar o Navio.
BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado. Instituto Cultural de Macau, 1987, 78 p.

Manuel Vicente Rosa nasceu em Tancos (Santarém). Chegou a Macau por volta de 1708 e casou com Isabel da Cruz que faleceu sem deixar descendência em 1738 (sepultada no adro da Igreja de S. Domingo) e deixando um legado à confraria de N. Sr.ª dos Remédios. (1)
Como nunca teve filhos e era muito rico, mandou vir da sua terra natal dois sobrinhos, Simão Vicente Rosa, que chegou a Macau a 3 de Outubro de 1738 e António Vicente Rosa, que deve ter chegado na mesma altura.
Faleceu em 1751.
Em 28-06-1719 – Manuel Vicente Rosa, Pascoal da Rosa e Manuel Leite Pereira foram recebidos em Siu-Heng pelo Prefeito, que lhes entregou os presentes do Imperador destinados ao Senado. Não receberam chapa, como esperavam, limitando-se o Prefeito a informar que o Imperador mandava dizer que vivessem os portugueses de Macau quietos e sossegados.
Em 1726; Manuel Vicente Rosa deu 726 taeis para as despesas da embaixada de Alexandre Metelo de Sousa Meneses ao Imperador da China.
Possuía uma chalupa, chamada S. José, que naufragou entre os anos de 1735 e 1745, tendo-se perdido toda a gente a bordo, com excepção de 4 pessoas (2)
O Ouvidor Manuel Vicente Rosa é também conhecido pelo episódios que teve com o futuro Governador (nomeado em 1717), António Albuquerque Coelho (este afirmara, em 1714, «ser inimigo declarado seu já de cinco anos a esta parte») que o mandou prender em 1712. Por sua vez Manuel Vicente Rosa mandou encarcerá-lo na Fortaleza da Guia em 22 de Setembro de 1714.

(1) 15-12-1821 – Foram introduzidas na administração da Fazenda $ 10.000 provenientes do resto dos legados deixados por Maria Marim e Isabel da Cruz, por ordem do juiz das capelas, Conselheiro Miguel de Arriaga Brum da Silveira, a juros de 7% ao ano
Deixou ainda, um legado de mil taeis n para dotar as órfãs pobres a fim de se poderem casar. (2)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5).