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Livro: MACHADO, Álvaro de Melo, (1) Coisas de Macau. Lisboa: Livraria Ferreira, (Ferreira Lda., Editores) 1913. – 153 p. : mapas, fotos; 24,5 cm x 16 cm.  (2)

Encadernação da época (década de 20) feita pelo próprio ou a mando, na lombada “A. MACHADO – COISAS DE MACAU – BRANCO”

Na página frontispício, assinatura de posse “ J. Vieira Branco” (3) e etiqueta de armazenamento (biblioteca?) “Lealitas, n.º 86, Estante I, Prateleira n.º 3 , n.º 148”

No prefácio (pp.3-4) Álvaro de Melo Machado afirma: “… para nosso mal, uma grande parte dos portugueses não sabe quantas e quais as colónias que possuímos; uma percentagem ainda maior desconhece onde elas se encontram situadas, a área que abrangem e a sua importância relativa; e, excluindo aquelles que por deveres de cargos ou por curiosidade se dedicam a estudos coloniaes, todos ignoram o que sejam os nossos domínios de além-mar, o que eles representam como elementos de vida da nossa nacionalidade, quaes são os seus recursos, quaes os seus mais importantes problemas, qual a vida que n´essas longiquas paragens levam os portuguezes que se expatriam e qual a acção desenvolvida pelos governos na administração de cada uma d´ellas.

– Um paiz que se mantem n´uma tal ignorância nunca poderá interessar-se verdadeiramente e a sério pelos assumptos que frequentemente se debatem sobre as suas colonias, nem poderá firmar opinião nas apaixonadas discussões da imprensa, em que cada um diz o que mais convem ao seu modo de ser politico ou particular.”

ÍNDICE: PRIMEIRA PARTE – Descripção de Macau : Resumo Historico – pp. 7-11; Descrição da colonia – pp. 13-28; Os recursos de Macau – pp. 29-47; Os problemas importantes de Macau – pp. 49- 78; Macau e o commercio portuguez na China – pp. 79-83; SEGUNDA PARTE – Usos e Costumes pp. 89-147; A situação na China – pp. 150-153

(1) Álvaro Cardoso de Melo Machado (1883 – 1970) chegou a Macau pela primeira vez como oficial do cruzador D. Amélia, no Extremo Oriente (1906-1909). Em 1909 ainda como 2º tenente, foi nomeado ajudante de campo do governador Eduardo Augusto Marques (monárquico), sendo secretário-geral interino em 1910, até ao momento em que é nomeado governador interino de Macau, a 17 de Dezembro de 1910, na sequência da queda do regime monárquico em Portugal. Foi quem assinou a Proclamação da República em Macau no Leal Senado (2.º supl. Ao B.O.o n.º 41) de 11 de Outubro e anuncia a cerimónia a terá lugar neste mesmo dia, pelas 12:00, no Leal Senado. Tinha apenas 27 anos e foi o mais novo de sempre a ocupar o cargo (interino nos dois primeiros anos) onde se manteve até 1912, sendo exonerado a seu pedido. Álvaro de Melo Machado governou Macau até ao dia 14 de Julho de 1912 (data da posse de Aníbal Augusto Sanches de Miranda). Ver biografia mais pormenorizada em ARESTA, António in «Jornal Tribuna de Macau», 23 de Janeiro de 2020. https://jtm.com.mo/opiniao/alvaro-de-melo-machado/

Ver anteriores referências deste autor: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alvaro-de-melo-machado/

(2) Mais recente, houve segunda edição em fac-símile, lançada em Macau pela editora Kazumbi, de Rui de Carvalho, em 1997.

(3)  Muito possivelmente , o Capitão reformado do quadro privativo das forças coloniais, José Vieira Branco, que em 25 de Agosto de 1919 tomou posse dos cargos de Procurador Administrativo e Administrador do Concelho de Macau  e em 6 de Janeiro de 1922, exonerado, a seu pedido, do cargo de administrador do conselho.

BOGPM XIX- 35, de 30 de Agosto de 1919, p. 626
BOGPM XXII-1, de 7 de janeiro de 1922, p. 4

Natural de Faro, José Vieira Branco nasceu em 1874 e faleceu em 28-01-1938. Iniciou a sua -aprendizagem tipográfica no Progresso do Algarve, em 1882, onde procurou descobrir qual a Tipografia mais antiga em Faro. Passados onze anos, abandonou a Tipografia e seguiu a vida militar. Passou por Angola, Macau, Moçambique e pelo Continente, onde teve que lutar para sobreviver. A vida militar durou até 1928. Depois, regressou definitivamente a sua cidade.” http://teoriadojornalismo.ufp.edu.pt/inventarios/branco-c-1938?tmpl=%2Fsystem%2Fapp%2Ftemplates%2Fprint%2F&showPrintDialog=1

Outros artigos de interesse , relacionados, disponíveis na net:GONÇALVES, Arnaldo – O Debate de 1911-1912 sobre o Modelo Politico de Macau. Revista de Cultura n.º 40, 2011, pp. 55 – 72. https://arnaldo-goncalves.com/pdf/portuguese/debate_1911-2.pdf

GUEDES, João – 150 anos de Sun Yat-sen | Os grandes amigos de Macau in Revista de Macau, 5 de Outubro, 2016. https://www.revistamacau.com/2016/10/05/150-anos-de-sun-yat-sen-os-grandes-amigos-de-macau/

29-07-1912 – Conflito com a China – Uma força chinesa de 20 ou 30 praças desembarca em 23 de Julho na Ilha de Tai Vong Cam, (ilha da Montanha) demorando-se pouco tempo. Dias depois, em 8 de Agosto uma força de 300 soldados chineses desembarca e efectua prisões na Ilha de D. João, (Siu Vong Cam) sob o pretexto de perseguição de piratas – Intervenção «enérgica do comandante militar da Taipa e Coloane e protesto do Governo de Macau perante o Governo de Cantão pela violação do tratado cometido por aqueles soldados chineses”.

(GOMES, Luís G. – Catálogo dos Manuscritos de Macau, 1965 n.º 105)
O Governador interino de Macar era o oficial de Artilharia, Aníbal Augusto Sanches de Miranda (até 16 de Abril de 1914 tendo tomado posse a 15-07-1912, por exoneração de Álvaro Cardoso de Mello Machado) e o Comandante Militar e Administrador do Concelho da Taipa e Coloane era o capitão Artur Taborda de Azevedo e Costa (até Setembro de 1912.
Relacionados com este tema, ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/21/noticia-de-21-de-agosto-de-1912-batida-a-ilha-de-tai-vong-cam/

Como referi em anterior “post”, (1) o “semanário de propaganda e defeza das colonias” «Gazeta das Colonias», nos anos de 1924 e 1925, apresentou vários artigos sobre a educação e o ensino em Macau.
GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO IEste artigo “MACAU – INTERESSES DA COLÓNIA. O problema da instrução ” apareceu no n.º 15 de 15 de Dezembro de 1924. Foi escrito por Raul Boaventura Real, engenheiro, 1.º Tenente maquinista naval (em Macau 2.º tenente) que foi o 2.º Director das Oficinas Navais de Macau (1918-1919), director da Escola «República» e autor de vários livros sobre marinhagem (2)
… No decurso dos últimos catorze anos, período a que me estou reportando , foi Álvaro de Melo Machado, um dos mais distintos oficiais da nossa marinha, infelizmente hoje afastado dos serviços dessa corporação e do convívio dos seus camaradas que muito o estimavam e apreciavam, o primeiro governador que aos assuntos da instrução dedicou assinalado interesse.
Por sua iniciativa foi criada a primeira escola «República», comemorando o advento do actual regime, escola essa que ele manteve pelo seu bolso particular e pelo de alguns amigos dedicados. Enormes foram as dificuldades a vencer para se conseguir manter essa escola, sobretudo depois de Álvaro Machado ter deixado a Colónia em 1912.
A falta de recursos poderá ser avaliada – sabendo-se que, ao tomar o signatário desta carta a direcção da Escola, em Outubro de 1913, recebeu do seu antecessor um saldo de quatro escudos e sessenta e dois centavos em cofre, e uma quotisação mensal de trinta escudos e vinte e cinco centavos… 
… Não pode o governador que a Álvaro Machado se seguiu e que foi o ilustre oficial de artilharia Anibal Sanches de Miranda, deixar uma obra notável em Matéria de instrução...(…)

GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO IIConvivas ao almoço em honra do Comandante Mendes Norton (X), no dia 08-07-1928, em Lisboa. Assinalado com o n.º 13 , o primeiro-tenente e engenheiro de máquinas Raul Boaventura Real
http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=1207963

… Em 1914 tomou o Governo da colónia José Carlos da Maia, esse grande e desventurado amigo, cuja perda ainda hoje sentimos com irreprimível revolta e cuja obra em Macau hade ser sempre  recordada com saudade… (…) 
E de facto nesse sentido foram as suas primeiras diligencias; tendo tomado posse do Governo em 10 de Junho de 1914, logo em 6 de Julho, pela Portaria Provincial numero 160, nomeava uma comissão a quem entregava a elaboração das bases em que deveria assentar a reforma da instrução.
Sob a presidência do actual deputado por Macau, sr. Manuel Ferreira da Rocha, ao tempo Secretário Geral do Governo da Provincia e consequentemente Inspector da Instrução Publica, constituiram a comissão com vogais os srs:
Francisco Xavier Anacleto da Silva, nessa data vice-Presidente do Leal Senado e, em 1924,  senador por Macau;
Francisco Gonçalves Velhinho Correia, deputado da Nação e então professor do liceu;
Dr. Carlos de Melo Leitão, Presidente do Leal Senado;
Mateus António de Lima, engenheiro e Reitor do liceu;
Artur da Silva Bastos, Director das Escolas Luso-Chinesas;
Patrício da Luz , Director da Escola Comercial dos Macaenses;
Francisco Xavier Gomes, Director das Escolas Primarias
Como secretário da comissão: Raul Boaventura Real.

GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO III… No seu trabalho reconheceu a comissão que o liceu, então com cinco classes, tinha uma frequência diminuta, havendo apenas dois ou três macaenses que as tivessem aproveitado para seguirem cursos superiores: havia, é  certo, que ter em consideração a frequencia por parte dos filhos dos funcionarios que da metropole iam desempenhar as suas comissões em Macau…
… Assim resolveu a comissão propor que o ensino liceal fôsse reduzido às três primeiras classes e que o ensino comercial fôsse instituído  com o desenvolvimento conveniente para pôr os macaenses em condições de concorrerem com os chineses e outros estrangeiros…
… na hipótese de qualquer macaense desejar seguir qualquer curso superior, admitir em principio o subsídio para quem o merecesse, propôr a utilização da magnífica Universidade de Hong Kong, a quatro horas de Macau, onde qualquer se poderia especializar na engenharia, na advocacia, na medicina, nas artes, etc…
… Enviadas para a Metrópole as bases e o relatório elaborados pela comissão, nenhuma resolução, nos consta, foi tomada sobre eles, sendo de prever que se encontrem sepultados no arquivo do Ministério…
GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO IV...Voltando nós a Macau, em 1918, fomos encontrar o liceu com sete classes, em vez das Três que tinham sido propostas; os professores já não são interinos, eram efectivos; quanto à frequência são elucidativos os elementos que possuímos e pelos quais vemos que em 1919 teve o liceu nas sete classe, 37 alunos matriculados, sendo apenas 25 macaenses e os restantes filhos de metropolitanos… (…)
GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO VInteressante esta fotografia inserida no artigo: Escola Municipal na Ilha da Taipa

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/08/24/macau-na-imprensa-portuguesa-de-1925-fomento-colonial-e-a-questao-do-ensino-em-macau/
(2) Encontro no Arquivo Histórico de Macau, uma entrada intitulada:
Diferença de £12.00 proveniente de passagens debitado ao 2.º tenente maqinista, Raul Boaventura Real, no seu regresso à Metrópole (1917/01/30 – 1917/08/27)” sobre um pedido do 2.º tenente maquinista, Raul Boaventura Real, para não ser obrigado a repor a quantia de doze libras, referente à diferença de passagens entre os preços da viagem Hong Kong-Lourenço Marques e Hong Kong-Cabo da Boa Esperança.
http://www.archives.gov.mo/webas/ArchiveDetail2013.aspx?id=25553

As festas da República foram ali assinaladas por uma revista militar que se realisou no Campo de Long Ting Ching.

Festas da República 1913 I“O governador da província, sr Sanches de Miranda, passando em revista os marinheiros da Patria

Eram mais de seiscentos homens, entre os quaes iam os marinheiros da Patria, a infantaria, artilharia e polícia, além dos mouros e chinas que constituem as forças indígenas. O governador da província, sr. Sanches de Miranda, (1) assistiu ao desfile das unidades que pela sua correcção causaram entusiasmo na numerosa assistência que ladeava o campo e as ruas do percurso.

Festas da República 1913 II“Os marinheiros em marcha”

À noite houve iluminações e um grande jantar oficial no palácio do governo, solenisando-se d´este modo,o aniversário do novo regime.” (2)

Festas da República 1913 III “A Pátria e o vapor de Hong Kong a Macau fundeados na bahia da Praia Grande”

 NOTA: A destituição da monarquia constitucional e a implantação da República Portuguesa foi a 5 de Outubro de 1910. A proclamação da República em Macau foi feita a 11 de Outubro de 1910 , pelas 12 horas, no Leal Senado.

“…cerimónia da proclamação da República , indo S. Exa. o Governador da província, à varanda dos Paços do Concelho, onde proclamou a Republica, à qual deu vivas, que foram correspondidos enthusiasticamente pelo povo e funcionários presentes a esse acto, hasteando-se n´essa ocasião a nova bandeira nacional, encarnada e verde, com tralha encarnada …” (3)

O auto da proclamação da República, elaborado pelo escrivão do Leal Senado, Patrício José da Luz foi assinado por 44 individualidades. Os mais conhecidos, Eduardo Augusto Marques (governador de 22-IX-1909 a 29-XI-1910, João Marques Vidal (governador interino de 30-XI-1910 a 17-XII-1910),  Álvaro Cardoso de Mello Machado ( governador interino de 17-XII-1910 a 14-VII-1912, Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, Constâncio José da Silva. Manuel da Silva Mendes, Camilo d´Almeida Pessanha, António Nascimento Leitão, Pedro Nolasco da Silva Jr.

(1)   Aníbal Augusto Sanches de Miranda, oficial da armada: governador de 14 de Julho de 1912 a 16 de Abril de 19 de Abril de 1914.
(2)   Artigo não assinado na revista “Illustração Portugueza”, de 24 de Novembro de 1913.
(3)   2.º Suplemento ao Boletim Oficial, n.º 41 (1910)

Sanches de Miranda I

Tomou posse como Governador de Macau, Aníbal Augusto Sanches de Miranda. Ficará no cargo até Abril de 1914 (1) (2).

A revista “Ilustração” de 20 de Maio de 1912 (p. 664),  em “FIGURAS E FACTOS DE 1912”, trazia a notícia do “indigitado” Governador e a sua foto.

Sanches de Miranda II

A foto n.º 2 – Major Sanches de Miranda indigitado governador de Macau”

(1) Aníbal Augusto Sanches de Sousa Miranda (1865-1939) foi um dos heróis das campanhas de África tendo acompanhado Mouzinho de Albuquerque na captura de Gungunhana, 1895, em Chaimite (Moçambique). Possuia a “Torre e Espada” por estes feitos heróicos em combate. Numa das salas do Museu Militar de Lisboa está o seu busto.
(2) Em 16 de Abril de 1914, toma posse como Governador interino (até Junho), o oficial de Artilharia José Maria Martins Pereira. Em 10 de Junho de 1914, nomeação e posse do Capitão-Tenente José Carlos da Maia para Governador da Província.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)