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No dia 4 de Outubro de 1985, foi descerrado no Jardim Luís de Camões a estátua oferecida pela Conferência Episcopal da Correia, do Santo André Kim, primeiro coreano a ser ordenado sacerdote (Xangai, 1845) depois de ter estudado em Macau.  (1)

NAM VAN n.º 18 - 1985 Santo Andrè Kim InauguraçãoEsta estátua de bronze, em corpo inteiro, trajando de sacerdote, foi restaurado a 29 de Junho de 1997 pelos católicos coreanos de Hong Kong e Macau. Ergue-se sobre uma ampla base de mármore  e contém uma inscrição em coreano, chinês, inglês e português com as principais datas da sua vida.

NAM VAN n.º 18 - 1985 Santo Andrè Kim EstátuaAndré Kim nasceu a 21-08-1821 em Salmoe, na província coreana de Chong-Cheong-Do de uma família nobre coreana. O Padre Piérre Philipe Mauband, das Missões Estrangeiras de Paris, foi quem o encaminhou para o sacerdócio, enviando-o para Macau, com dois outros companheiros, quando tinha 15 anos de idade (data em que se converteu ao catolicismo, com os seus pais).  Para chegar a Macau, saíram da Coreia a 9 de Dezembro de 1836, atravessaram o continente chinês a pé, na companhia de um padre deste país, Pacificus Liu e chegaram a Macau a 17 de Julho de 1837.
Estudou de  1837  a 1842 na Procuradoria das Missões Estrangeiras de Paris, em Macau (então instalada na Casa de Beneficência, junto ao Jardim de Camões. Em 1843 retornou ao seu país, numa época em que o cristianismo era ali ferozmente perseguido. Foi ordenado padre em Xangai a 17 de Agosto de 1845, por Monsenhor Luís de Besi. No fim do mês de Agosto desse mesmo ano, regressou  num barco à vela, à  Coreia, para desempenhar a sua Missão na Província de Chong-Cheong-Do. Foi preso e  levado a Seoul e ali decapitado na margem do rio a 16 de Setembro de 1846.
Preso e martirizado pela tropa secreta coreana em Seoul a 15-09-1846, aos 25 anos de idade. Primeiro mártir coreano.
Em 1925 foi beatificado com um grupo de 78 mártires, seus compatriotas, entre eles o seu próprio pai, Inácio Kim.
Ele e os seus 102 companheiros católicos, que foram igualmente martirizados nessas paragens, foram canonizados por João Paulo II, durante a sua viagem à Coreia, no dia 6 de Maio de 1984 .
Informação recolhida de ARAÚJO, Amadeu Gomes – Diálogos em Bronze. Livros do Oriente, 2001. Mais informações deste santo em
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=11487&fd=0
(1) Foto da inauguração retirado da revista NAM VAN n.º 18,1985.

No dia 2 de Novembro de 1854, foi inaugurado o Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Antes da construção deste cemitério, os mortos católicos eram enterrados, nas paredes arruinadas da Igreja de S. Paulo. (1) (2)
Em 14 de Outubro de 1852, por o cemitério de S. Paulo se encontrar muito arruinado, ameaçando desmoronamento das paredes que ainda se encontravam de pé, e onde se enterravam os mortos, ordenou o Governador Isidoro Francisco Guimarães um empréstimo, por subscrição pública, para a construção dum novo cemitério a ser construído fora da porta da cidade (1) (3)
No entanto, há informação que no lugar onde está o cemitério (“que ficava para os lados do Bairro de S. Lázaro”), em 1849, já se enterrava católicos chineses. E a partir de 1852 uma postura do Leal Senado veio fundir com o de S. Miguel (3)
A Benção do Campo Santo de S. Miguel Arcanjo foi feita pelo Bispo D. Jerónimo da Mata,(4) sendo dois dias depois sepultado o primeiro cadáver (Zenóbia Maria Luísa de Freitas).

Cemitério de S. MiguelA capela foi construída somente em 1875.

Em 8 de Fevereiro de 1877, o Cemitério de S. Paulo foi considerado propriedade do Estado (estava na posse da Câmara Municipal desde 24 de Agosto de 1874) e classificada como nacional. Os jazigos e restos mortais que ainda aí se encontravam foram removidos para o cemitério de S. Miguel. (5)

O Regulamento do Cemitério «São Miguel Arcanjo» foi publicado em 29-06-1925.

Do livro de Amadeu Gomes de Araújo (6) retiro:
“…inaugurado, em plena época do liberalismo, o novo cemitério acabou por crescerá sombra do romantismo, tornando-se uma réplica do Cemitério dos Prazeres em Lisboa, com pequenas nuances orientais …(…). Sendo o romantismo a componente cultural do liberalismo, os arranjos, a decoração e a estatutária que lentamente foram invadindo aquele campo santo, acabaram por reflectir uma postura romântica perante a morte. O mármore é um elemento fundamental. Os vivos rejeitam a morte, e, porque desejam anular os efeitos putrefactivos da terra, transformaram os cemitérios em enormes aglomerados de mármore.
Embora a maior parte das estátuas e outros símbolos tenham sido produzidos numa fábrica de mármores de Hong Kong, a simbólica do cemitério é ocidental e cristã, ocupando o crucifixo um lugar de relevo.”
(1)   GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(2)   SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)
(3)   A Portaria Provincial N.º 95, de 14-10-1952, manda abrir subscrição para um empréstimo destinado a construir um cemitério e regula a forma de o realizar.(2)
(4)   D. Jerónimo José da Mata (1804 – 1865) foi bispo de Diocese de Macau de 28-03.1845 a 25-09-1862. Após concluir os estudos teológicos, em Macau, foi ordenado presbítero em 19.12.1829.Foi professor no Seminário de S. José. Em 17-06-1844 foi nomeado bispo-coadjutor de Macau. D. Jerónimo da Mata desempenhou um papel fundamental na reconstrução da Sé de Macau que ele próprio consagrou em 14 de Fevereiro de 1850 e na ampliação do Recolhimento de Santa Rosa de Lima Reorganizou também o Seminário de S. José.
http://www.gcatholic.org/dioceses/diocese/maca1.htm”>http://www.gcatholic.org/dioceses/diocese/maca1.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jer%C3%B3nimo_Jos%C3%A9_da_Mata
(5)   A Portaria Provincial n.º 13, de 08-02- 1877, manda considerar propriedade do Estado, classificada como nacional, o Cemitério de S. Paulo, indevidamente entregue à Câmara Municipal; e dão-se instruções para a remoção dos jazigos e restos mortais ali existentes para o Cemitério de S. Miguel (2)
(6)   ARAÚJO, Amadeu Gomes de – Diálogos em Bronze, Memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001, 168 p. + |4|, ISBN 972-9418-88-8

NOTA: A foto foi retirada de http://www.iacm.gov.mo/p/facility/introduction/grave

Pode-se ver fotos do Cemitério de S. Miguel Arcanjo e da Capela de S. Miguel no blogue “Orient´Adicta”:
http://oriente-adicta.blogspot.pt/2013/05/o-cemiterio-de-s-miguel-arcanjo-e.html

…………………………………continuação do “post” anterior (1)

“Tinha o corpo estendido em todo o seu comprimento com a cara voltada para o sobrado e os cabelos estendidos para a frente, estando o corpo e o sobrado todo ensanguentado. O crâneo estava literalmente macerado, e ao lado uma coronha de clavina de dois canos quebrado pelo delgado, estando a fecharia envolta em cabelos também ensanguentados. Por cima da mesma havia uma folha de espada de boa têmpera e muita antiga, que mostrava não ter servido em toda a luta por não se descobrir nela vestígio de algum sangue. Só restava saber o que fora feita do coronel Mesquita, e logo houve quem se lembrasse de que se a casa tinha poço, Mesquita devia ter ido ali acabar seus dias, e não se enganou.
Todos se dirigiram em massa ao lugar do poço, onde foi encontrado o desventurado Mesquita, julgo que com vida ainda pelo facto de subirem à flor da água algumas bolhas de ar. O poço, porém, era de grande profundidade, que foram frustradas todas as tentativas para o trazer acima, enquanto não chegou um aparelho preparado para aquele fim, conseguindo-se trazê-lo acima sómente às 5 horas da madrugada, tendo na cabeça algumas fracturas por efeito de pancada nas paredes do poço por ocasião da queda.”

O remate desta triste tragédia, é fácil de compreender ou prever, a família Mesquita ficou reduzida a metade:  3 mortos, 2 feridos e 1 sem receber ferimento algum; os mortos foram o coronel Mesquita, sua esposa Carolina Maria Josefa da Silveira e sua filha mais nova, Iluminada Maria Os feridos foram: a filha mais velha, Leopoldina Rosa e o filho mais velho, Geraldo, ficando ileso o filho mais novo, Francisco,  que contava 18 anos de idade. Este veio a falecer mais tarde em Xangai, empregado numa firma comercial; Geraldo foi para Timor, sendo furriel em 31 de maio de 1883, por assim o haver requerido; mais tarde ascendeu ao posto de sargento, de que depois pediu baixa, vindo a falecer em Macau; a última, Leopoldina, faleceu em 1937; como todos três morreram solteiros, ficou para sempre extinta a família do coronel Mesquita, que parecia estar sob a influência de má estrela (2)

………………………..Voltarei ao assunto numa próxima oportunidade.

NOTA: a casa onde se deu a tragédia já não existe; ficava no lugar onde está o prédio n.º 1 da Rua do Lilau. O poço foi entupido com as obras do novo prédio.

 Vicente Nicolau de Mesquitahttp://en.wikipedia.org/wiki/File:Mesquita-portrait.jpg

 Vicente Nicolau de Mesquita casou aos 17 anos de idade ( nessa altura, era já voluntário no Batalhão do Príncipe Regente) com a crioula Balbina Maria da Silveira de quem teve cinco filhas, três das quais faleceram no mês de Maio de 1842, com intervalos de uma semana. Enviuvou. após 24 anos de casamento, tendo depois desposado Carolina Maria Josefa da Silveira, irmã da sua primeira mulher (mais nova 11 anos). A quarta filha do primeiro casamento faleceu meses após o 2.º casamento do pai. Leopoldina Rosa  faleceu em 14 de Outubro de 1937 no asilo da Misericórdia, com 95 anos de idade. (ARAÚJO, Amadeu Gomes – Diálogos em Bronze, Memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001, 168 p. + |6|. ISBN 972-9418-88-8)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/19/noticia-de-19-de-marco-de-1880-tragedia-em-macau-vicente-nicolau-de-mesquita-i/
(2) TEIXEIRA, P.e Manuel – Vicente Nicolau de Mesquita. Macau, 2.ª edição, 1958, 98 p.