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A propósito duma postagem anterior, sobre “jerinxá/riquexó” (1), recupero a referência que o Governador Álvaro de Mello de Machado deixou escrito no seu livro “Coisas de Macau” (1913), na p. 144, (2) sobre os meios de transportes de Macau nomeadamente sobre o “Jrinksha” (grafia do autor)

Jrinksha particular das casas senhoriais da Praia Grande

O meio de transporte mais adaptado em Macau é o jrinksha, ligeiro veículo a duas rodas puxado por um chinez. A pequenez da cidade não comporta as velocidades das carruagens e dos automóveis, e d´ahi a ausência quasi completa de semelhantes vehiculos, que representariam um luxo demasiado caro, quasi sem aplicação” (3)

“ É pois o jrinksha, que invade todas as ruas, circula em todas as direcções, já barulhento e desconfortável rodando ao passo cançado do seu mal alimentado conductor, já elegante, airoso, resplandecendo metaes, deslisando suave sobre os seus aros de borracha, agilmente impelido pelos músculos fortes de dois reforçados rapazes. Todas as pessoas, que vivem com um certo desafogo, possuem um jrinksha que as transporta para toda a parte. (4) E assim, dando largas á fantasia, ao gosto, ou ao espirito de ostentação, o ligeiro carrinho e os seus conductores percorrem todas as escalas, d´este o imundo vehiculo de praça ao bello exemplar acharoado, que o Japão fabrica para preços caros, puxado pelos culis vistosamente enfarpelados, anunciando ao longe as côres a identidade da pessoa que transportam.

A principio custa naturalmente, a quem não está habituado, a sentir-se confortavelmente transportado pelo trabalho violento de humanas creaturas. Mas vem o habito, e com elle a apreciação do treno grande que essa gente tem, podendo correr durante horas sem grande esforço a velocidades moderadas, e aguentando facilmente uma corrida veloz, para menos importantes extensões; e acaba-se por achar natural, e até commodo e agradável, esse meio de transporte”

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/

(2) MACHADO, Álvaro de Mello – Coisas de Macau. Livraria Ferreira, 1913, p. https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alvaro-de-melo-machado/

(3) Em 1907 existiam sete automóveis e em 1911, apareceu o primeiro táxi.

(4) Também as entidades oficias tinham os seus jerinshás particulares, como se pode comprovar com esta informação: “13-04-1914 – Aquisição de quatro jerinxás, do tipo Saigão, para o Palácio do Governo (A.H.M.-F.A.C-. P. n.º 73-S-E) in SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. III, 2015, p. 78.

Anteriores referências aos riquexós/ jerinxás em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/

Livro: MACHADO, Álvaro de Melo, (1) Coisas de Macau. Lisboa: Livraria Ferreira, (Ferreira Lda., Editores) 1913. – 153 p. : mapas, fotos; 24,5 cm x 16 cm.  (2)

Encadernação da época (década de 20) feita pelo próprio ou a mando, na lombada “A. MACHADO – COISAS DE MACAU – BRANCO”

Na página frontispício, assinatura de posse “ J. Vieira Branco” (3) e etiqueta de armazenamento (biblioteca?) “Lealitas, n.º 86, Estante I, Prateleira n.º 3 , n.º 148”

No prefácio (pp.3-4) Álvaro de Melo Machado afirma: “… para nosso mal, uma grande parte dos portugueses não sabe quantas e quais as colónias que possuímos; uma percentagem ainda maior desconhece onde elas se encontram situadas, a área que abrangem e a sua importância relativa; e, excluindo aquelles que por deveres de cargos ou por curiosidade se dedicam a estudos coloniaes, todos ignoram o que sejam os nossos domínios de além-mar, o que eles representam como elementos de vida da nossa nacionalidade, quaes são os seus recursos, quaes os seus mais importantes problemas, qual a vida que n´essas longiquas paragens levam os portuguezes que se expatriam e qual a acção desenvolvida pelos governos na administração de cada uma d´ellas.

– Um paiz que se mantem n´uma tal ignorância nunca poderá interessar-se verdadeiramente e a sério pelos assumptos que frequentemente se debatem sobre as suas colonias, nem poderá firmar opinião nas apaixonadas discussões da imprensa, em que cada um diz o que mais convem ao seu modo de ser politico ou particular.”

ÍNDICE: PRIMEIRA PARTE – Descripção de Macau : Resumo Historico – pp. 7-11; Descrição da colonia – pp. 13-28; Os recursos de Macau – pp. 29-47; Os problemas importantes de Macau – pp. 49- 78; Macau e o commercio portuguez na China – pp. 79-83; SEGUNDA PARTE – Usos e Costumes pp. 89-147; A situação na China – pp. 150-153

(1) Álvaro Cardoso de Melo Machado (1883 – 1970) chegou a Macau pela primeira vez como oficial do cruzador D. Amélia, no Extremo Oriente (1906-1909). Em 1909 ainda como 2º tenente, foi nomeado ajudante de campo do governador Eduardo Augusto Marques (monárquico), sendo secretário-geral interino em 1910, até ao momento em que é nomeado governador interino de Macau, a 17 de Dezembro de 1910, na sequência da queda do regime monárquico em Portugal. Foi quem assinou a Proclamação da República em Macau no Leal Senado (2.º supl. Ao B.O.o n.º 41) de 11 de Outubro e anuncia a cerimónia a terá lugar neste mesmo dia, pelas 12:00, no Leal Senado. Tinha apenas 27 anos e foi o mais novo de sempre a ocupar o cargo (interino nos dois primeiros anos) onde se manteve até 1912, sendo exonerado a seu pedido. Álvaro de Melo Machado governou Macau até ao dia 14 de Julho de 1912 (data da posse de Aníbal Augusto Sanches de Miranda). Ver biografia mais pormenorizada em ARESTA, António in «Jornal Tribuna de Macau», 23 de Janeiro de 2020. https://jtm.com.mo/opiniao/alvaro-de-melo-machado/

Ver anteriores referências deste autor: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alvaro-de-melo-machado/

(2) Mais recente, houve segunda edição em fac-símile, lançada em Macau pela editora Kazumbi, de Rui de Carvalho, em 1997.

(3)  Muito possivelmente , o Capitão reformado do quadro privativo das forças coloniais, José Vieira Branco, que em 25 de Agosto de 1919 tomou posse dos cargos de Procurador Administrativo e Administrador do Concelho de Macau  e em 6 de Janeiro de 1922, exonerado, a seu pedido, do cargo de administrador do conselho.

BOGPM XIX- 35, de 30 de Agosto de 1919, p. 626
BOGPM XXII-1, de 7 de janeiro de 1922, p. 4

Natural de Faro, José Vieira Branco nasceu em 1874 e faleceu em 28-01-1938. Iniciou a sua -aprendizagem tipográfica no Progresso do Algarve, em 1882, onde procurou descobrir qual a Tipografia mais antiga em Faro. Passados onze anos, abandonou a Tipografia e seguiu a vida militar. Passou por Angola, Macau, Moçambique e pelo Continente, onde teve que lutar para sobreviver. A vida militar durou até 1928. Depois, regressou definitivamente a sua cidade.” http://teoriadojornalismo.ufp.edu.pt/inventarios/branco-c-1938?tmpl=%2Fsystem%2Fapp%2Ftemplates%2Fprint%2F&showPrintDialog=1

Outros artigos de interesse , relacionados, disponíveis na net:GONÇALVES, Arnaldo – O Debate de 1911-1912 sobre o Modelo Politico de Macau. Revista de Cultura n.º 40, 2011, pp. 55 – 72. https://arnaldo-goncalves.com/pdf/portuguese/debate_1911-2.pdf

GUEDES, João – 150 anos de Sun Yat-sen | Os grandes amigos de Macau in Revista de Macau, 5 de Outubro, 2016. https://www.revistamacau.com/2016/10/05/150-anos-de-sun-yat-sen-os-grandes-amigos-de-macau/

Alfredo Pinto Lelo, (1864 (?) – ?) – advogado e tabelião público de notas, advogado privativo da Filial do Banco Nacional Ultramarino, foi Secretário-geral em Macau e Encarregado da Legação.(1) Foi eleito, em 25-09-1918 deputado pelo círculo de Macau (2)

(1) Apesar da sugestão e insistência de Artur Tamagnini de Abreu da Mota Barbosa, nada foi feito e o Boletim Oficial continuou a ser impresso na Mercantil, até que uma desavença entre o Dr. Alfredo Pinto Lelo (Secretário Geral em Macau e Encarregado da Legação) e Jorge Fernandes levou avante a ideia de Artur Tamagnini de Abreu da Mota Barbosa.

– Uma das suas últimas providências legislativas do governador Álvaro de Melo Machado até ao dia 14 de Julho de 1912- foi a Portaria de 21 de Fevereiro de 1912, que nomeia uma comissão composta por Alfredo Pinto Lelo, Carlos Melo Leitão, Manuel da Silva Mendes, José Maria de Carvalho e Rêgo e Luís Gonzaga Nolasco da Silva para estudar e dar parecer sobre a possível adaptação do decreto acerca da liberdade de imprensa e, ainda, saber se convirá que “o editor de qualquer periódico possa ser indivíduo de nacionalidade estrangeira”. A República precisava de saber com quem tinha de lidar. (Anuário de Macau 1921, p. 100)

(2) “25-09 -1918 – O Dr. Alfredo Pinto Lelo é eleito deputado pelo círculo de Macau. Viaja para Lisboa. É feita a entrega do cartório de tabelionato ao ajudante, Damião Rodrigues, nomeado por Decreto de 13-07-1918. (A. H. M. – F- A. C. P. n.º 552 –S-P)  (SILVA , Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p. 112)

João Mariano Gracias (1861-1942 (faleceu na sua casa na Rua Central n.º 1), proprietário e advogado provisionário. Gomes da Costa nas sua Memórias, diz que brincou com ele e que ele era «um verdadeiro diabo». Casou em 1889, com Carolina Ana Pereira Colaço

Filho de Vicente Miguel José Gracias (1819-1887), proprietário e vereador do Leal Senado e de Eufrosina Esmeralda dos Reis  (? – 1900) e pai de Vicente José Gracias (1893-1954),  interprete tradutor da Repartição do Expediente Sínico. FERRAZ, Jorge – Famílias Macaenses, II Volume, p. 135

Anuário de Macau 1921, pp II –III- IV

Mais dois “slides” digitalizados da colecção “MACAU COLOR SLIDES – KODAK EASTMAN COLOR” (1) comprados na década de 70 (século XX), se não me engano, na Foto PRINCESA.
Monumento (2) que se erguia nos aterros das Praia Grande, em homenagem ao Governador João Maria Ferreira do Amaral foi inaugurado em 24 de Junho de 1940, por ocasião das festas comemorativas do duplo centenário e por oferta do Leal Senado., A Estátua é de autoria do escultor Maximiliano Alves e, na sua base quadrangular, existia em faces opostas, dois baixos-relevos das armas reais e duas lápides com inscrições.
Este monumento (3) com o busto do grande e intrépido navegador e descobridor do caminho marítimo para a Índia, encontra-se erguido no centro da Alameda Vasco da Gama.
Foi projectado em 1890, como homenagem da cidade de Macau ao grande navegador, para comemorar o 4.º Centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, mas só se iniciou a sua construção em 1907 e, em 31 de Janeiro de 1911, foi inaugurado pela Direcção das Obras Públicas. (4)
O busto teve como escultor, Tomás Costa, servindo-lhe de modelo um retrato existente no Museu Nacional de Arte Antiga… (…)
O monumento é formado por um busto de bronze assente num forte pedestral de granito. Na face anterior do plinto está embutido um baixo-relevo em mármore, representando o episódio do Adamastor, conforme ´e descrito nos Lusíadas.“ (5)
(1) Ver anteriores “slides” desta colecção:
https://www.google.com/search?sxsrf=ACYBGNSn7Rmv6jkuR-8RXyab3nyp4y78NQ:1567866434430&q=nenotavaiconta+slides+coloridos+de+Macau+tur%C3%ADstico&tbm=isch&source=univ&sxsrf=ACYBGNSn7Rmv6jkuR-8RXyab3nyp4y78NQ:1567866434430&sa=X&ved=2ahUKEwiSmYTP9b7kAhUVHcAKHZdNCtkQsAR6BAgJEAE&biw=1093&bih=500&dpr=1.25
(2) Ver anteriores referências ao Governador Ferreira do Amaral e ao monumento em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/joao-m-ferreira-do-amaral/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/estatua-ferreira-do-amaral/
(3) Ver anteriores referências a este busto em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jardim-de-vasco-da-gama/
(4) Inaugurado pelo Governador interino o segundo-tenente da Armada Álvaro Cardoso de Melo Machado.
(5) HENRIQUES, Major Acácio Cabreira – Monumentos Nacionais Existentes na Província de Macau. Círculo Cultural de Macau, 1956, 58 p.

29-07-1912 – Conflito com a China – Uma força chinesa de 20 ou 30 praças desembarca em 23 de Julho na Ilha de Tai Vong Cam, (ilha da Montanha) demorando-se pouco tempo. Dias depois, em 8 de Agosto uma força de 300 soldados chineses desembarca e efectua prisões na Ilha de D. João, (Siu Vong Cam) sob o pretexto de perseguição de piratas – Intervenção «enérgica do comandante militar da Taipa e Coloane e protesto do Governo de Macau perante o Governo de Cantão pela violação do tratado cometido por aqueles soldados chineses”.

(GOMES, Luís G. – Catálogo dos Manuscritos de Macau, 1965 n.º 105)
O Governador interino de Macar era o oficial de Artilharia, Aníbal Augusto Sanches de Miranda (até 16 de Abril de 1914 tendo tomado posse a 15-07-1912, por exoneração de Álvaro Cardoso de Mello Machado) e o Comandante Militar e Administrador do Concelho da Taipa e Coloane era o capitão Artur Taborda de Azevedo e Costa (até Setembro de 1912.
Relacionados com este tema, ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/21/noticia-de-21-de-agosto-de-1912-batida-a-ilha-de-tai-vong-cam/

Como referi em anterior “post”, (1) o “semanário de propaganda e defeza das colonias” «Gazeta das Colonias», nos anos de 1924 e 1925, apresentou vários artigos sobre a educação e o ensino em Macau.
GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO IEste artigo “MACAU – INTERESSES DA COLÓNIA. O problema da instrução ” apareceu no n.º 15 de 15 de Dezembro de 1924. Foi escrito por Raul Boaventura Real, engenheiro, 1.º Tenente maquinista naval (em Macau 2.º tenente) que foi o 2.º Director das Oficinas Navais de Macau (1918-1919), director da Escola «República» e autor de vários livros sobre marinhagem (2)
… No decurso dos últimos catorze anos, período a que me estou reportando , foi Álvaro de Melo Machado, um dos mais distintos oficiais da nossa marinha, infelizmente hoje afastado dos serviços dessa corporação e do convívio dos seus camaradas que muito o estimavam e apreciavam, o primeiro governador que aos assuntos da instrução dedicou assinalado interesse.
Por sua iniciativa foi criada a primeira escola «República», comemorando o advento do actual regime, escola essa que ele manteve pelo seu bolso particular e pelo de alguns amigos dedicados. Enormes foram as dificuldades a vencer para se conseguir manter essa escola, sobretudo depois de Álvaro Machado ter deixado a Colónia em 1912.
A falta de recursos poderá ser avaliada – sabendo-se que, ao tomar o signatário desta carta a direcção da Escola, em Outubro de 1913, recebeu do seu antecessor um saldo de quatro escudos e sessenta e dois centavos em cofre, e uma quotisação mensal de trinta escudos e vinte e cinco centavos… 
… Não pode o governador que a Álvaro Machado se seguiu e que foi o ilustre oficial de artilharia Anibal Sanches de Miranda, deixar uma obra notável em Matéria de instrução...(…)

GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO IIConvivas ao almoço em honra do Comandante Mendes Norton (X), no dia 08-07-1928, em Lisboa. Assinalado com o n.º 13 , o primeiro-tenente e engenheiro de máquinas Raul Boaventura Real
http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=1207963

… Em 1914 tomou o Governo da colónia José Carlos da Maia, esse grande e desventurado amigo, cuja perda ainda hoje sentimos com irreprimível revolta e cuja obra em Macau hade ser sempre  recordada com saudade… (…) 
E de facto nesse sentido foram as suas primeiras diligencias; tendo tomado posse do Governo em 10 de Junho de 1914, logo em 6 de Julho, pela Portaria Provincial numero 160, nomeava uma comissão a quem entregava a elaboração das bases em que deveria assentar a reforma da instrução.
Sob a presidência do actual deputado por Macau, sr. Manuel Ferreira da Rocha, ao tempo Secretário Geral do Governo da Provincia e consequentemente Inspector da Instrução Publica, constituiram a comissão com vogais os srs:
Francisco Xavier Anacleto da Silva, nessa data vice-Presidente do Leal Senado e, em 1924,  senador por Macau;
Francisco Gonçalves Velhinho Correia, deputado da Nação e então professor do liceu;
Dr. Carlos de Melo Leitão, Presidente do Leal Senado;
Mateus António de Lima, engenheiro e Reitor do liceu;
Artur da Silva Bastos, Director das Escolas Luso-Chinesas;
Patrício da Luz , Director da Escola Comercial dos Macaenses;
Francisco Xavier Gomes, Director das Escolas Primarias
Como secretário da comissão: Raul Boaventura Real.

GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO III… No seu trabalho reconheceu a comissão que o liceu, então com cinco classes, tinha uma frequência diminuta, havendo apenas dois ou três macaenses que as tivessem aproveitado para seguirem cursos superiores: havia, é  certo, que ter em consideração a frequencia por parte dos filhos dos funcionarios que da metropole iam desempenhar as suas comissões em Macau…
… Assim resolveu a comissão propor que o ensino liceal fôsse reduzido às três primeiras classes e que o ensino comercial fôsse instituído  com o desenvolvimento conveniente para pôr os macaenses em condições de concorrerem com os chineses e outros estrangeiros…
… na hipótese de qualquer macaense desejar seguir qualquer curso superior, admitir em principio o subsídio para quem o merecesse, propôr a utilização da magnífica Universidade de Hong Kong, a quatro horas de Macau, onde qualquer se poderia especializar na engenharia, na advocacia, na medicina, nas artes, etc…
… Enviadas para a Metrópole as bases e o relatório elaborados pela comissão, nenhuma resolução, nos consta, foi tomada sobre eles, sendo de prever que se encontrem sepultados no arquivo do Ministério…
GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO IV...Voltando nós a Macau, em 1918, fomos encontrar o liceu com sete classes, em vez das Três que tinham sido propostas; os professores já não são interinos, eram efectivos; quanto à frequência são elucidativos os elementos que possuímos e pelos quais vemos que em 1919 teve o liceu nas sete classe, 37 alunos matriculados, sendo apenas 25 macaenses e os restantes filhos de metropolitanos… (…)
GAZETA COLÓNIAS I-15 15-12-1924 - O PROBLEMA DA INSTRUÇÃO VInteressante esta fotografia inserida no artigo: Escola Municipal na Ilha da Taipa

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/08/24/macau-na-imprensa-portuguesa-de-1925-fomento-colonial-e-a-questao-do-ensino-em-macau/
(2) Encontro no Arquivo Histórico de Macau, uma entrada intitulada:
Diferença de £12.00 proveniente de passagens debitado ao 2.º tenente maqinista, Raul Boaventura Real, no seu regresso à Metrópole (1917/01/30 – 1917/08/27)” sobre um pedido do 2.º tenente maquinista, Raul Boaventura Real, para não ser obrigado a repor a quantia de doze libras, referente à diferença de passagens entre os preços da viagem Hong Kong-Lourenço Marques e Hong Kong-Cabo da Boa Esperança.
http://www.archives.gov.mo/webas/ArchiveDetail2013.aspx?id=25553

31 de Julho de 1918 —A Repartição dos Serviços de Saúde reclama contra a utilização, pelo público, da água da Fonte da Solidão” (1)

Fonte da Solidão década de 50FONTE DA SOLIDÃO – década de 50 – já nessa altura a fonte estava seca

O abastecimento regular da água potável à cidade de Macau foi sempre, no passado, um problema  de difícil resolução especialmente nos anos de maior seca, sendo a cidade muito pobre em águas potáveis e os veios que forneciam o caudal necessário para os poços, estavam quase todos ao nível do mar. (2)
Nessa data, a canalização existente para a cidade era de água salgada implementada pela primeira rede em 1912  (3)

Fonte da Solidão 2015 - IA fonte actualmente, 2015

Desde cedo,  a fonte de solidão está referenciada como de “água cristalina e boa”.
“Verificou-se em 1882, em grande parte, este importante melhoramento higiénico, devido à determinação do governo da província e à execução pronta e inteligente do actual director das obras públicas. Assim, uma poça lamacenta, que tinha por baixo a dois metros e meio uma veia de água, e de que se tirava em mais de um quarto de hora uma dada 283 porção de um líquido turvo, transformou-se numa fonte que fornece hoje em dois minutos a mesma quantidade de água cristalina e boa. Foi também aproveitada na estrada de Cacilhas outra nascente de água, que havia sido explorada no tempo do governo do conselheiro Coelho do Amaral e depois abandonada, a qual fica do lado oposto àquele em que brota a primeira fonte e a denominada da Flora que também foi melhorada.” (4)

Toponímia Estrada de CacilhasCom os trabalhos de aterro do Porto Exterior iniciados em 1921 (a Estrada da Solidão, hoje Estrada de Cacilhas era banhada pelo mar) e terminados em 1926, as águas que brotavam da Fonte da Solidão foram-se extinguindo (5) e depois com o traçado e as obras para o circuito da Grande Prémio de Macau iniciados em 1954, a fonte foi em parte enterrada e hoje, a parte superior da fonte está parcialmente escondida (permanentemente) pelas “barreiras de pneus” colocadas no circuito.

Fonte da Solidão 2015 - IIAs «barreiras», a fonte e o paiol antigo («de cima»)

Na verdade ,com a “construção” do paiol (princípios de 50) denominado «de baixo» (junto à Estrada, para diferenciar do Paiol «de cima» que estava num piso superior à fonte), descobriu-se outro veio no seu interior, de água límpida e bebível e que, nos anos de maior chuvas, corria abundantemente para fora sendo local de paragem de muita gente que com os garrafões iam aí buscar a água para beberem (décadas de 50 a 70).
Como a Estrada de Cacilhas até à década de 60 não tinha água canalizada, desde o meu nascimento até à minha saída de Macau, cresci bebendo  a água do Paiol.

Paiol de CimaO Paiol «de Cima»,  com a escada de acesso (infelizmente mal conservada) e a rampa feita muito mais tarde para acesso da carga e descarga de armas, munições e explosivos (por força de lei, as empresas que lidavam com  explosivos empregues em trabalhos particulares eram obrigadas a terem esse material depositados no Paiol). À direita, a Fonte da Solidão.
Paiol de baixoO Paiol «de baixo», actualmente em utilização, com o posto de vigia em cima do pequeno muro /forte de protecção da entrada (construído na década de 60)

(1) Arquivo Histórico de Macau, F.A.C. P. n.º 42 — S-A in SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol.4, 1997.
(2) 1883 — “É Macau excepcionalmente pobre em águas, sobretudo em águas potáveis, porque os numerosos poços que abastecem a população vão procurar uma veia quase ao nível do mar formada por águas de infiltração sempre mais ou menos salobras, carregadas de matérias orgânicas, e portanto impróprias para beber, vindo assim a pouca pureza da água juntar mais um elemento de insalubridade a tantas outras que são inevitáveis nas grandes aglomerações de indivíduos.” (4)
“O fornecimento de água às populações era feito através de inúmeros poços públicos e privados, cisternas e depósitos nas casas para recolha da água das chuvas, fontes e, em especial, durante a estiagem, por meio de barcaças portadoras de água proveniente da ilha da Lapa mas a falta de higiene nesses poços e cisternas  e as veias que fornecia llevava muitas vezes á perigosidade para a saúde pública(MACHADO, Álvaro de Melo – Coisas de Macau, 1913.

Fonte da Solidão 2015 - III

Os poços, numa cidade como Macau, onde o problema da água se põe, sempre com grande acuidade, eram um dos índices de estatuto social dos seus habitantes. A fonte que servia Macau era a Bica do Nilau ou Lilau, situada na colina da Barra (S. Lourenço) onde também havia, no século passado, um grande poço público fronteiro à Igreja (que Chinnery registou num belo desenho). Extramuros havia boas nascentes, na Flora, outra na Guia (Fonte da Solidão). Mais tarde foi construído um chafariz na Rua do Campo, próximo dum antigo veio de água, de que só alguns velhos documentos falam e que veio a desaparecer. (AMARO, Ana Maria — Das Cabanas de Palha às Torres de Betão, 1998, pág. 85.)
1908 — A partir do processo n.º 29 da Secretaria Geral do Governo da Província de Macau, de 1 de Outubro de 1908, relativo à análise das águas de Macau e Ilha da Taipa, elabora-se o seguinte quadro das fontes, poços particulares, poços públicos e de exploração, então existentes. Dada a dificuldade pela falta de nascentes, de abertura de fontes e poços, é provável que esta lista datada de 1908, coincidisse ou quase com os existentes nos finais do século XIX. Os valores quantificados quanto ao número de fontes e poços da presente lista de 1908, ficam muito aquém dos apontados no extracto anterior, só para as freguesias de Santo António, Sé e S. Lourenço, relativo ao ano de 1905; tal poderá ser talvez explicado pelo facto de, quase todas as casas possuírem “poço” embora quase todos, não sendo de nascente, se limitassem à simples recolha da água das chuvas e por isso mesmo, a sua designação mais precisa deveria ser a de cisternas. Fontes: Fonte da Avenida Vasco da Gama, Fonte da Inveja, Fonte da Flora Fonte das duas caras — chafariz da Flora, Fonte do Lilau, Fonte da Solidão e Fonte da Guia” (4)
Fonte da Solidão 2015 - IV(3) “1912 — (VII-30) — Termina o prazo de entrega das propostas para fornecimento e instalação de máquinas elevatórias de água, e canalização desde a praia da Vila Leitão aos reservatórios da Guia. A água era salgada e servia para rega das estradas e combate a incêndios. Foi a primeira rede de águas de Macau” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4, 1997)
Como política de higienização urbana, foi considerado na altura como solução radical a limpeza da cidade a partir duma rede de água salgada prevista desde 1909, mas só concretizada depois de 1912; diga-se que foram notáveis os efeitos desta solução na desratização urbana e no combate à peste.” (4)
(4) AFONSO, José da Conceição – Macau, contributos para a história do abastecimento de água potável. Administração, 75, vol XX, 2007, 1.º, 281-199.
http://www.safp.gov.mo/safppt/download/WCM_004505
(5) “Logo de começo ainda antes de elaborar o anteprojecto de Obras do Porto Exterior, foi, planeado por esta Direcção uma captação vulgar de aguas pluviais, na Colina Este da Guia, que na parte considerada podia produzir cêrca de 20.000 m3 por ano para o porto e bem assim o aproveitamento da Fonte da Solidão que tem sido praticamente desaproveitada, ficando a agua com bastante carga para ser distribuída em elevação e podendo a obra ser feita a expensas do Conselho de Administração das Obras dos Portos; mas com a resolução atraz dita, cabia esse trabalho á Direcção de Obras Publicas e esta intendeu por melhor estender ali o sistema que estava empregando na face Oeste da Guia, isto é de provocar maior infiltração por meio de canais horizontais permeáveis, e quanto ás aguas da Fonte de Solidão decidiu canalizá-las para a cidade pelo túnel que foi aberto; tendo então sido prometido que o volume de 20.000 m3 seria fornecido pelo grande manancial que fôra descoberto em camada profunda do subsolo na baixa de Monghá; mas vê-se agora que as esperanças neste manancial não eram tão bem fundadas pelo menos quanto ao processo de captação propriamente dito e o abastecimento de agua ao terreno do porto ficou assim de alguma forma prejudicado.” LACERDA, Hugo C. de –  Obras dos Portos de Macau/Memorias e Principais documentos desde 1924.
Outras referências anteriores  ao abastecimento de águas em Macau.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/06/12/noticia-de-12-de-junho-de-1915/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/s-a-a-m/
NOTA : Todas as fotografias coloridas, do arquivo pessoal, de Maio de 2015.

Em 10 de Outubro de 1911 dá-se a revolução do «Duplo Dez» na China com o fim do Império. Sun Iat-Sen implanta a República na China, após a revolta dos chefes militares em Han Kow (China Central) (1). Mas somente 1 de Janeiro de 1912 é proclamada a República Chinesa com a capital em Nanquim, ficando o Dr. Sun Yat-Sen como presidente provisório. A 12 de fevereiro de 1912 o Imperador Hsuan Tung (mais tarde Henry Pu Yi) da China uma criança, de 6 anos, foi forçado a abdicar, na sequência da revolta republicana (é o fim de 2 500 anos de governo dinástico na China) ”. (2)

A propósito do Dr. Sun Yat-Sen (3), Salinas de Moura deu no dia 10 de Outubro de 1947, em Macau, uma “conferência política a comemorar o Duplo Dez Chinês” que ficou registada numa publicação com 29 páginas, impresso pela Imprensa Nacional de Macau. (4)
Estiveram presentes nessa conferência, além do público em geral, o Governador da Colónia, Albano Rodrigues de Oliveira (5), o Sr. Lei Peng Seak, presidente do Kuomintang, (6) o Dr. Kuok Tze Fan, representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, e o Cônsul da Inglaterra.
Sun Iat Sen Salinas de Moura CAPA

“Comemora-se hoje a implantação da República Chinesa, que se deve à luta titânica e votiva, ao espírito esclarecido e patriótico de um Homem que se chamou Sun Yat-Sen.
Ele viveu em Macau parte da sua vida. Aqui exerceu a sua actividade política, sem tropeços e dificuldades diplomáticas. Ao clima acolhedor de Macau e à sombra tradicionalmente benévola para todas as raças da bandeira portuguesa, o ilustre homem de Estado estudou, meditou e traçou parte dos seus planos, talvez mesmo – quem sabe? – tivesse escrito muitas páginas da sua vida.”… (…)

Sun Iat Sen Salinas de Moura 1.ª Pág.

… (…) Sun Yat-Sen foi um chinês cultivado pelo pensamento ocidental, sem poder abstrair-se do “tónus” asiático da sua formação bioquímica perfeitamente diferenciada, sem poder isentar-se da formação psicológica da própria raça – cristalizada milhares de anos entre os conceitos morais de Mêncio e Confúcio, as abstracções místicas da lenda budista e a passividade resignada de quem sofreu tanto tempo o domínio dos Tártaros, Mongóis e Manchus. Mesmo em épocas de independência, a China vivia até há bem pouco tempo um atrazo social-político de idade feudal.” (4)

Sun Iat Sen 1912 Macau    Recepção dada pelo fundador da República Chinesa, Sun Yat-sen, em 1912, em Macau.
Foto tirada no Pavilhão Iong Sam Tóng da residência de Lou Cheok Chin/Lou Kao e seu filho Lou Lim Ioc (hoje Jardim Lou Lim Ioc).Participaram nessa recepção republicanos e alguns maçons conhecidos, entre eles, Francisco Hermenegildo Fernandes (grande apoiante de Sun Yat-sen, tendo protegído-o na sua fuga para o Japão em 1891).
Na primeira fila, sentado, à esquerda, Camilo Pessanha e ao centro da foto, ao lado do Dr. Sun Yat-sen, a esposa do Governador, e o Governador (7)

Sun Iat Sen Salinas de Moura O autorNa primeira página, um desenho do artista Neves e Sousa retratando o autor desta conferência, Salinas de Moura.
(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4.
(2) Han Kow, romanização de Hankou .   (“Han –chineses da etnia Han, junto ao rio Han) +  (“boca”), Em cantonense jyutping: hon3 hau2.

 

 

 

Sun Iat Sen(3) Sun Yat-sen 孫逸仙 (mandarim pinyin: sun yi xian; cantonense jyutping: syun1 jat6 sin1) nasceu em 12 de Novembro de 1866 e morreu no dia 12 de Março de 1925 em Pequim. Aos treze anos foi para Honolulu (Hawai) onde permaneceu até aos dezassete anos completando aí os estudos do curso secundário. Foi admitido no “Queen College “, em Hong Kong, onde se formou em medicina aos vinte anos de idade e fez estágio no Colégio Médico de Hong Kong, em 1892. Papel fundamental no derrube da Dinastia Qing, em Outubro de 1911. Primeiro Presidente da República da China, em 1912. Sun Yat-sen passou por Macau no ano 1878 quando tinha 12 anos, a caminho do Hawai e depois, fixou residência, já médico quando foi impedido de exercer medicina em Hong Kong, no ano de 1892. Trabalhou no Hospital Kiang Wu cerca de dois anos, regressando a Cantão.
Sobre Sun Yat-sen, aconselho leitura do artigo de Ricardo Pinto, no jornal “Ponto Final” de 13-01-2012, intitulado “Sun Yat-sen, herói e vilão”, disponível em:
http://pontofinalmacau.wordpress.com/2012/01/13/sun-yat-sen-heroi-e-vilao/
(4) MOURA, Salinas de – Sun-Yat-Sen, o fundador da República Chinesa. Imprensa Nacional, Macau, 1947, 29 p.
(5) O comandante Albano Rodrigues de Oliveira foi empossado Governador de Macau, nesse ano, a 1 de Setembro. Substituiu o comandante Gabriel Maurício Teixeira que tina exercido o cargo desde 1940 (período da II Guerra Mundial). O comandante Albano Oliveira tinha exercido anteriormente, em, Macau o cargo de Presidente do Leal Senado de 2 de Janeiro de 1935 a 3 de Janeiro de 1938 – embora substituído desde 13 de Outubro de 1937 por Luciano Botelho Costa Martins, sem explicação segundo Beatriz Basto da Silva (2).
(6) Kuomintang, Guomingdang ou Kuo-Min-Tang, 國國民黨 (mandarim pinyin: Zhōngguó Guómíndǎng; cantonense jyutping: zung1 gwok3 gwok3 man4 dong2 – tradução literal: Partido Nacionalista Chinês)  foi fundado após a Revolução de 1910, por Sun Yat-sen. O partido que governou a China 1928 (Chan Kai-shek liderou o partido após a morte de Sun Yat Sen, em 1925) até à tomada do poder pelos comunistas em 1949. Desde então, o partido governa  Taiwan onde era até 1986, partido único.
(7) Sun Yat-sen passou por Macau em 1912 (renunciaria ao cargo de Presidente, em 14-02-1912). Terá sido hóspede de Lou Lim Ieoc, apoiante de longa data do Dr. Sun Yat-sen. Era Governador de Macau,  Álvaro de Melo Machado (1910 até 14 de Julho de 1912). Primeiro governador republicano de Macau.
Referências anteriores a este Governador, em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/alvaro-de-melo-machado/  

Em consequência da falta de selos postais das taxas de 1, 2 e 5 avos, que se fazia sentir em Macau, o governador interino Álvaro de Melo Machado, emitiu uma portaria (n.º 168 de 5 de Agosto de 1911, publicada no B. O. n.º 31) do seguinte teor: (1)

«O Governador interino da província de Macau,
Desejando providenciar de forma a atenuar os convenientes que resultam da actual falta de selos postais das taxas de 1 e 2 avos; tendo a experiência demonstrado que é inútil lançar novas sobrecargas em selos de outras taxas porque constituindo-se por essa forma novas especialidades filatélicas, será esgotada a quantidade existente por maior que ela seja, ficando da mesma forma o público inibido de franquear a sua correspondência;
Não podendo criar selos especiais na província;
Sendo o caso de natureza tão urgente que exige providências imediatas;
Com o voto unânime do Conselho do Governo;
Determino que, enquanto da metrópole não for recebida nova remessa de selos postais se proceda da seguinte forma:1.º – O Correio de Macau deixa de vender selos postais.
2.º – O Correio de Macau receberá em mão todas as correspondências que serão franqueadas pelos empregados do Correio, na presença do portador.
3.º – O Correio de Macau reservará os selos postais ainda existentes para a correspondência não destinada a Macau, Hong Kong, Cantão e portos da China.
4.º – A correspondência para Macau, Hong Kong, Cantão e portos da China não será franqueada por meio de selos postais mas sim pela aplicação do carimbo da Direcção dos Correios de Macau.
5.º – A cobrança das taxas postais para a remessa de correspondências para Macau, Hong Kong, Cantão e portos da China será feita por meio de senhas de recibo impressas na Imprensa Nacional, numeradas seguidamente pela Repartição Superior da fazenda e assinadas pelo Director dos Correios de Macau. As senhas de recibo serão afixadas na correspondência a enviar.
6.º – O Director dos Correios prestará contas perante a repartição Superior de Fazenda das cadernetas de senha de recibo que lhes forem entregues.
Cumpra-se
Palácio do Governo de Macau, 2 de Agosto de 1911.
O Governador interino, Álvaro de Melo Machado.»

SELOS D. LUÍS I - 1911Selos ainda da Monarquia – série D. Luís I – emitidos em 02-04-1911 de 1, 2 e  5 avos, com a sobrecarga a vermelho “REPÚBLICA”. Creio que a série tinha 11 selos de diversas franquias.

NOTA. Álvaro Cardoso de Melo Machado (1883-1970) , oficial da Marinha de Guerra, foi oficial do cruzador D. Amélia, no Extremo Oriente (1906-1909), e como segundo tenente, em 1909, foi  ajudante de campo do governador Eduardo Marques. Como Secretário-Geral interino, proclamou a República em Macau no dia 11-10-1910. Foi posteriormente nomeado Governador em 17-12-1910. Governou até 14 de Julho de 1912. É autor do livro “Coisas de Macau“, publicado em 1913.
(1) Esta portaria foi revogada em 29 de Novembro do mesmo ano quando finalmente os selos de Lisboa chegaram a Macau.
Informação recolhida da  revista “NAM VAN” n.º 11, 1985, p. 53. (artigo não assinado, possivelmente de José António Duarte Martins.)

1 – Pratica de tiro     2 – Um acidente curado pelas «girls scouts»     3 – Uma parada de «scouts»

O scouting tem provocado em todos os paises as atençoes do publico e dos poderes officiaes.
Em toda a parte se compreende o alto valor d´esta verdadeira escola de coragem, de d´isciplina e de destreza.
Em Inglaterra, na América, na Suécia, etc, os corpos de boys-scouts são organizações modelares, de onde saem mais tarde o exército os mais intrepidos oficiaes e soldados e, o que é importantíssimo, com a melhor e mais adequada preparação.

1 – Patrulha de «girls scouts» em observação     2 e 4 – Equitação de «scouts»     3 – Exercícios de alpinismo     5 – Um posto de sinaes

Em Portugal nada ha feito n´este sentido e o nosso publico ignora certamente como o que não se fez ainda na metropole se conseguiu já brilhantemente n´uma das colonias.
Por iniciativa do governador de Macau, 2.º tenente d´armada,  sr.  Alvaro de Melo Machado, organizou-se ali um corpo de boys e girls scouts, que tem causado grande entusiasmo n´aquela nossa possessão.

1 – Ginastica sueca dos «scouts»     2- Uma patrulha acampada     3 – Transmitindo um despacho     4 – Patrulha de «scouts» preparando o acampamento

Damos hoje várias fotografias tiradas recentemente em Macau, pelas quaes os nossos leitores apreciarão o alto valor da iniciativa do 2.º tenente Melo Machado.
É para desejar que se siga no continente o alto exemplo que nos dá a nossa longíqua colónia.” (1)

NOTA : “O Escotismo chegou a Macau em 1911, pela mão de Álvaro Cardoso de Melo Machado, à data Governador interino daquele território, com apoio do Mr Nightingale, o qual dirigia os boys-scouts em Hong Kong e de Miss Cambell, responsável na antiga colónia Britânica pelas girls-scouts. Foi pois, na cidade de Macau “ cidade do nome de Deus de Macau”, que se deram os primeiros passos do Escotismo Português. (2)
Álvaro Cardoso de Melo (1883-1970), em 1909 como 2.º tenente, é ajudante de campo do Governador Eduardo Marques, (3) sendo depois secretário interino em 1910, até  ao momento em que é nomeado governador interino de Macau, em 17 de Dezembro de 1910, (tinha na altura, 27 anos de idade), na sequência da queda do regime monárquico em Portugal, cargo que irá ocupar até 14 de Julho de 1912. Foi Chefe do Governo de Moçambique quando seu pai foi Governador da província (General Joaquim José Machado) entre 27 de abril de 1914 e 20 de Maio de 1915 (2)
No Boletim Oficial de Macau, 3º Suplemento, de 31 de Dezembro de 1986, podemos constatar a atribuição de uma rua com o nome de Álvaro de Melo Machado.

(1) Artigo não assinado in Ilustração Portugueza (edição semanal do jornal O SECULO), n,º 339, Lisboa, 19 de Agosto de 1912, pp. 235 – 237.
(2)  Retirado do blogue , trabalho de pesquisa de António Jorge Barros Cardoso, do Grupo 230 de Caxias da Associação dos Escoteiros de Portugal
http://escoteiros230caxias.blogspot.pt/2010/02/alvaro-cardoso-de-melo-machado-fundador.html
(3) “O Governador Eduardo Marques pediu a exoneração, dada a mudança de regime, mas não lha concederam , mantendo-se, portanto, em funções, a pedido do Governo metropolitano. A cerimónia oficial de proclamação do novo regime, no dia 10, contou ainda com a sua direcção.”
REIS, Célia – O Padroado Português no Extremo Oriente na Primeira República. Livros Horizonte,2007,222 p., ISBN 978-972-24-1511-8