O Bispo Governador de Macau, D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães (1) escrevia, neste dia de 8 de Agosto de 1777:
« É o terceiro, não podemos resistir com força a qualquer ordem, que se houver de não cumprir, porque os Chinas nesta Cidade são perto de 22 000 e todos os cristãos assim velhos como moços e criança de peito, pretos e brancos, dum e doutro sexo, não chegarão a 6 000 e muitos fracos. O Imperador num instante meterá nesta Cidade, de improviso, tantos Chinas, que lançando cada um neste rio um sapato, fariam entupir a barra» (2)
Foi a resposta dada pelo Bispo-Governador à consulta que o Senado lhe fez sobre a possibilidade da aplicação da ordem de expulsão dos estrangeiros (3) dizendo ser inexequível ou pelo menos inaconselhável, tanto mais que os fundamentos alegados para essa expulsão não correspondiam aos factos ou eram de insignificante importância.
Já a 5 de Agosto desse mesmo ano, D. Alexandre Guimarães emitira um parecer ao Senado sobre este assunto e onde refere, entre outros aspectos, que:
« Há mais de 10 anos  (isto é, em 1760), os estrangeiros foram para aqui mandados pelo Vice-Rei de Cantão e a cidade viu-se forçada a recebe-los.»
«Estamos aqui consentidos há 222 anos, vivendo em boa harmonia e com subjeção  nos delictos a justiça do Imperador havendo algum reo de morte feita em China, mas no mais aplica-se a justiça portuguesa» (4)
Mapa de Macau de Bellini 1764

Plan de la Ville et du port de Macao, publicado por Jacques Nicolas Bellin (Le Petit Atlas Maritime) 1764

(1) D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães, (1727-1799) foi eleito Bispo de Macau a 13 de Julho de 1772. Chegou a Macau a 23-08-1774, tomando posse a 04-09-1774. Tomou posse do cargo de Governador e capitão-Geral de Macau, interinamente, a 25-06-1777. Adepto incondicional da política pombalina, deixou de ser governador a 1 de Agosto de 1778, com a queda do Marquês de Pombal, e falecimento do Rei D. José em 1777.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5)
(2) TEIXEIRA, P.e Manuel – Os Macaenses. Centro de Informação e Turismo, 1965, 99 p.
(3) Foi um despacho do Supremo Tribunal de Goa, datada de 9-05-1773 e um posterior aditamento da carta do Governador e Capitão-Geral dos Estados da Índia, de 17-05-1776, com a  ordem para a expulsão de todos os estrangeiros residentes em Macau, sob o fundamento de arruinarem o comércio da cidade, em razão da carestia dos géneros e mantimentos provocada com a sua estadia e por perverterem os costumes dos naturais
O parágrafo 4.º do aditamento constava o seguinte:
« Em ordem a este fim não consinta V. Excia que de novo se admita qualquer estrangeiro a residir e morar nessa cidade, etc…»
Sobre esta ordem, o Bispo Pedrosa Guimarães comentava que as leis e as ordens sobre a proibição do comércio estrangeiro têm valor nas terras onde o rei tem domínio absoluto, mas que sobre Macau o Imperador da China tem toda a força e nós nenhuma e sugeria a reformulação a ordem de 1773, permitindo que os estrangeiros possam carregar o ópio «nos nossos navios a fretar para Macao e toda a fazenda que mais quiserem introduzir e transportar…»
« elle he senhor directo de Macao que lhe paga hum foro e nos apenas tempos o domínio útil; a terra não se obteve por conquista, e assim a nossa rezidencia não se firma ……………..»
«He verdade que depois que os estrangeiros particulares entrarão a concorrer com os seos navios a Cantão, principalmente os Arménios e os Ingleses, arruinarão o comercio da costa, e Macao tem sentido muito grave prejuízos»

Curiosamente, a 2 de Março de 1778, o Senado informava o Bispo-Governador que recebera uma carta do Conde da Ega, (seria o 2.º Conde de Ega, D. Aires José Maria de Saldanha Albuquerque Coutinho Matos e Noronha) onde mandava que se conservassem os arménios (talvez por serem ricos mercadores) nesta cidade por não serem propriamente estrangeiros, e nem terem Príncipe próprio a quem devam originária vassalagem. (1)
(4) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.