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Extraído de «BGC», VIII- 86/87 AGO/SET 1932 p.187

NOTAS: I – José Pedro Braga nasceu em Hong Kong em 3-8-1871  e faleceu em Macau (como refugiado de guerra de Hong Kong,  vivia com o filho José Maria Braga) em 12-02-1944 Era o 8.º filho de Vicente Emílio Rosa Braga (Macau 2-12-1834- Kobe 1900) e  de Carolina Maria de Noronha. Em 1927 foi o primeiro membro da comunidade portuguesa de Hong Kong a ser eleito para o «Sanitary Board» (hoje «Urban Council») e em 1929 foi convidado pelo Governador, Sir Cecil Clementi, para membro do «Legislative Council». Era cavaleiro da Ordem de Cristo, por decreto de 16-03-1919. Era também membro da Ordem do Império Britânico (O.B.E.) (FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume III, 1996, p.325) + https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jack-m-braga-jose-maria-braga/

II – «A Voz de Macau», periódico republicano, impresso na tipografia do mesmo nome, e publicado às terças, quinta e sábados, começou a 1 de Setembro de 1931, do director Henrique Nolasco da Silva, proprietário e redactor principal Domingos Gregório da Rosa Duque, assumindo este em 18 de Dezembro de 1932 a direcção do jornal de que era fundador e director de facto. Em 1 de Outubro de 1931, passou «A Voz de Macau» a ser diário, que manteve durante 16 anos (o primeiro a manter um jornal tanto tempo em Macau) até à sua morte em 16 de Agosto de 1947. (TEIXEIRA, Pe. Manuel – Imprensa Periódica Portuguesa no Extremo Oriente, ICM, 1999, pp. 144-148)

Ver também em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/a-voz-de-macau/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/domingos-g-da-rosa-duque/   

III – Sobre a Companhia de Cimento da Ilha Verde ver em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fabrica-de-cimento-ilha-verde/ .

“O grande acontecimento social de Macau em 1933 foi a inauguração do Edifício da União Recreativa, à Areia Preta, junto do Hipódromo, a 25 de Março.

Temos a descrição do imóvel, relatado em “A Voz de Macau”: “O elegante edifício, de linhas sóbrias e bem lançadas, é bastante amplo. No terreno vasto que lhe pertence, onde, à direita, existe já um parque para estacionamento de automóveis, ficarão instalados os campos de Futebol, Ténis, Golf, Basket-Ball, Hockey, e ainda um Parque Infantil para diversão dos filhos dos sócios, estando a Direcção envidando os seus melhores esforços para conseguir a realização duma ampla piscina”.

A Sociedade da União Recreativa foi fundada em 1924 por um grupo de macaenses que se reuniam para tocar música. Eram uns vinte e, entre eles, destacamos, sem desdouro para outros, António Ferreira Batalha, Paulino A. da Silva, Pedro e Alberto Ângelo e António Galdino Dias. Do entusiamo destes vinte, nasceu a ideia de criar um Centro Musical. Pouco a pouco, pelo dinamismo dos fundadores, o número de sócios aumentou, chegando a duzentos, número importante em relação à exiguidade da população portuguesa no Território. Agora já não era apenas um centro musical, mas também um centro recreativo e desportivo. O grupo representativo da União Recreativa, no futebol, era importante nos fins dos anos 20 e só foi dispersado quando rivalidades internas levaram os seus componentes a agruparem-se no Argonauta e no Tenebroso. Não havia sede nem instalações adequadas para comportar tamanho número de sócios. As festas e outras iniciativas exigiam um novo prédio. Mais uma ideia brilhante nasceu: o plano duma espécie de country club, fora de portas, em sítio calmo e ameno, onde a Sociedade pudesse dar largas às suas actividades. A Areia Preta era então um local ideal, pelo seu sossego, pelo ar de praia que ainda possuía. É preciso lembrar que a cidade morria na orla da avenida Horta e Costa; e, dali para o mar e para a Porta do Cerco, havia apenas algumas casas, tipo vilas, o Canídromo, o Hipódromo, aldeamentos chineses e imensos terrenos baldios. A Sociedade teve o apoio incondicional do Governador Tamagnini Barbosa. O Governo subsidiou, também a Associação dos Proprietários do teatro D. Pedro V, e outros vieram da iniciativa privada.

Ficou-nos na memória a festa da inauguração. Ainda nos lembramos de ver muita gente e estarmos à frente duma mesa pejada de iguarias e guloseimas, dum riquíssimo “chá gordo”. Discursaram o Presidente da Sociedade, António Ferreira Batalha, o Encarregado do Governo, Rocha Santos, e o Dr. Américo Pacheco Jorge, como representante da mais antiga agremiação macaense, o Clube de Macau. “A Voz de Macau” remata o seu artigo de 26 de Abril, com as seguintes palavras:

“Seguiu-se a assinatura da acta da inauguração, após o que numerosas pessoas assistentes dispersaram pelo amplo edifício e campos adjacentes, formando aqui e além pequenos grupos de cavaqueira, enquanto outros, os apreciadores de danças, iniciando a série de fox-trots, steps, valsas, etc., enlaçavam as gentis senhoras e meninas, danças que se prolongaram até cerca das 21 horas, com muito pesar dos fervorosos que desejariam que elas se prolongassem pela noite adiante. Mas Roma e Pavia não se fizeram num dia; e, como outras interessantes e simpáticas festas decerto se hão-de seguir, tirarão então a desforra…”

Não nos lembramos de ter havido campos de futebol, hóquei, golfe e basquetebol. Nem a piscina projectada. O que houve e tivemos ocasião de presenciar, foram as grandes partidas de ténis nos seus courts arejados e de vista ampla. A vida da União Recreativa foi brilhante nos primeiros anos, com festas e outras actividades que ficaram notáveis. Decaiu nos anos de 30 para reviver com a Guerra do Pacífico, sob outro nome – o Clube Melco. Mas este assunto será tratado noutra ocasião.

FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-36) in Revista da Cultura, n.º 23 (II Série) Abril/Junho de 1995, pp.151-152. Edição do Instituto Cultural de Macau. Disponível para leitura em: ttp://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797

“Naquele maravilhoso Outono de 1931, nada parecia abalar a confiança no futuro de Macau. A vida era baratíssima. Por exemplo, a firma Beatriz Berta de Sousa, sita na Rua Horta da Companhia, n.º 10, (1) vendia um litro de azeite de oliveira a $1.30, e a “Macao Store“, loja fornecedora de géneros alimentícios, na Avenida Almeida Ribeiro, anunciava em “A Voz de Macau” que “o preço do gelo para este ano é de 1 avo por libra“.

A livraria “Oriente Comercial Limitada” dava a conhecer aos seus fregueses as novidades literárias: “Lourdes”, de Brito Camacho, “Hollywood, capital de imagens“, de António Ferro, e “O Homem que matou o Diabo“, de Aquilino. O Porto Exterior ainda não era completa desilusão. Navios nacionais, o “Chinde” e o “Gil Eanes“, fundeavam, trazendo tropa e deportados políticos. Na ponte-cais de madeira, onde se acha o Clube Náutico, acostava o “Sagres” da Macau-Timor Line e da Macau-Mozambique Line. Os funcionários, que vinham da metrópole ou partiam, finda a comissão ou de licença graciosa, viajavam no “Porthos” da Messageries Maritimes e no “Derfflinger” da Mala Alemã Loyd, desembarcando ou embarcando em Hong Kong.

Quem quisesse um suculento e retinto prato português ia à “Aurora Portuguesa” (2) ou ao “Fat Siu Lau“. (3) Para um bom copo de leite e variados refrescos, havia a “Leitaria Macaense” (4) junto ao “Capitol”. Para um saboroso “kai si fán” (arroz de galinha) estava o restaurante “United States”, no rés-do-chão do Hotel Central, (5) em frente ao “Vitória”. E se se queria dançar, subia-se ao 6.º andar do mesmo hotel, onde estava o clube Hou Heng.” (*)

(1) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/10/23/anuncios-de-casas-comerciais-do-ano-de-1941/ (2) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/aurora-portuguesa/ (3) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/restaurante-fat-siu-lau/ (4) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/leitaria-vacaria-macaense/ (5) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hotel-centralpresident-hotelgrand-central-hotel/

(*) FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau II, 1930-31  in Revista da Cultura, n.º 18 (II Série) Janeiro-Março de 1994, pp.183-216. Edição do Instituto Cultural de Macau.

Henrique de Senna Fernandes nas suas memórias: (1)
“Em princípios de Março (8 de Março de 1935), as atenções de Macau concentravam-se na visita do aviso “Gonçalves Zarco” que, em viagem de soberania, mostrava ao Oriente o que era a proclamada Renovação da Marinha de Guerra Portuguesa. Era um navio de guerra novo que trazia a estas paragens a bandeira das Quinas, preenchendo uma lacuna deixada pelo velho cruzador “Adamastor”, que regressara a Lisboa um ano e tal atrás, para ser abatido. A visita fora esperada com orgulho e nervosismo, pois todos queriam admirar essa “moderna unidade de guerra”. Em 8 de Março, Sexta-Feira, Macau engalanava-se para a receber. Diz “A Voz de Macau“, em termos líricos:
“Às 13:30 horas, avistou-se o ‘Gonçalves Zarco’, ao longe, todo cinzento e cuja elegante silhueta se desenhava altiva no horizonte, primeira unidade naval das que o ilustre Chefe do Governo, Dr. Olivera Salazar, mandou construir em Inglaterra e veio até nós, os portugueses do Extremo Oriente, que comovidamente a contemplávamos, como se contempla amorosamente o torrão da Mãe-Pátria”.
As unidades da Marinha Privativa da Colónia dirigiram-se ao largo para fazer a escolta. Comandava-as a lancha-canhoneira “Macau”, onde se encontrava o Capitão dos Portos, 1° tenente Samuel Vieira. Atrás seguiam com altivez as lanchas “Demétrio Cinatti”, “Talone” e “Coloane”, os rebocadores “Neptuno” e “Berta”, dois motores da Capitania dos Portos, as lanchas n° 5 e 6 e duas lanchas mandarinas. A incorporar no cortejo figuravam também a lancha “Luntsing” das Alfândegas Chinesas e outras lanchas e motores particulares. Nessa “esquadra” iam funcionários civis e militares; muitas senhoras; escoteiros de Macau; Banda Municipal; pessoal civil e militar das ilhas de Taipa e Coloane; representantes de “A Voz de Macau” e dos periódicos chineses; representantes do comércio e indústria desta cidade; Leal Senado, Clero, etc.
As boas vindas foram dadas por meio de apitos e queima de panchões das lanchas. Ao entrar no canal, o “Gonçalves Zarco” deu a salva da ordenança, sendo respondido pela bateria de artilharia da Fortaleza da Guia. Então os juncos de pesca que se encontravam no porto, embandeirados, salvaram também o aviso ‘Gonçalves Zarco’ com as suas peças de carregar pela boca e queimando inúmeros panchões”.
Nunca em Macau assistimos a tão grandiosa recepção, imponentíssima, majestosa”, diz o articulista do “A Voz de Macau“. No Porto Exterior e na encosta da Guia, havia lágrimas em muitas pessoas, o patriotismo a tocar-lhes na corda sensível.
“Gonçalves Zarco”, sob o comando do então capitão-de-fragata Manuel Cardoso Quintão Meireles, (2) teve um acolhimento inesquecível. A hospitalidade de Macau, sempre fidalga, não regateou esforços para obsequiar os 133 homens, entre os quais 120 oficiais. Para muitos, depois de uma tão longa viagem pelo Oriente, Macau foi uma autêntica Ilha dos Amores. Voltando ao cinema, a inauguração do Apolo constituiu um rival para o Capitol. Já não estava sozinho em campo e, por isso, os filmes passaram a ser melhores do que quando se achava o único em campo. Com o desaparecimento do Vitória, o Apollo ficou com o exclusivo das películas da MGM, da United Artists e da Paramount. O Capitol reteve os filmes da RKO e da FOX”
(1) FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-1936)
(2) Trata-se, se não me engano, de Manuel Carlos Quintão Meireles (1880 – 1962), oficial da Marinha que combateu na I Guerra Mundial e em 1926, participou no golpe militar, tornando-se ministro dos Negócios Estrangeiros no segundo Governo de José Vicente de Freitas. Em 1951, foi candidato da oposição moderada às eleições presidenciais desse ano, mas acabou por desistir. (LOFF, Sofia Ferreira Manuel in
http://resistencia.centenariorepublica.pt/expo/index.php/bibliografias/52-meireles-manuel-carlos-quintao
Anteriores referências ao Aviso «Gonçalves Zarco»
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/aviso-goncalves-zarco/

NOTA: Documentário de 1936 da Cinemateca Digital onde se vê um desfile naval na frente ribeirinha de Lisboa, de vários Avisos, entre eles, o aviso de 2ª classe Gonçalves Zarco
http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=8425&type=Video

O Carnaval em Macau no ano de 1935, na descrição de Henrique de Senna Fernandes (1)
“O Carnaval de 1935 foi animadíssimo e, segundo os coevos, tão divertido e brilhante como o do ano transacto. Houve vários “assaltos” em casas particulares, mas o que excedeu toda a expectativa foi o que se realizou em 16 de Fevereiro, na Sociedade da União Recreativa. Ouçamos o “A Voz de Macau”, de 18, Segunda-Feira:
Realizou-se no Sábado, 16 do corrente, nos salões da U. R., um dos característicos “assaltos” carnavalescos que decorreu com uma animação desusada, tendo uma assistência computada em 200 pessoas.
São de louvar estas festas numa quadra em que a crise económica deprime a alegria salutar da mocidade.
Felicitamos os promotores desta simpática festa, srs. Edmundo de Senna Fernandes; Dr. Adelino Barbosa da Conceição, José Choi Anok, Alberto Barros Pereira e José Tavares.
A tuna do grupo deu uma animação extraordinária à festa e a sua entrada nas salas da S. U. R., acompanhada dum grupo de mais de 60 mascarados, foi verdadeiramente triunfal.
Que estas festas se repitam a fim de quebrar a monotonia em que vivemos.
O Carnaval propriamente dito iniciou-se no Sábado-Gordo, 2 de Março, com o baile local a rigor no Clube de Macau, tão protocolar e chique que alguém, fugindo para outro mais popular, o Clube de Sargentos (Sociedade Recreativa 1° de Junho), apelidou de “baile de embaixada”. E até Terça-Feira seguinte foi um delírio. Nesse ano, para animar os clubes havia um enorme grupo de Hong-Kong e mais a oficialidade da canhoneira inglesa “Moth” e da americana “Izabel”, que se aproveitaram da visita ao nosso porto para gozarem o Carnaval de Macau, que tinha fama nestas paragens.
Sobre o baile de Terça-Feira do Clube de Macau, extraímos o seguinte artigo do mencionado periódico:
Para não fugir à tradição, a festa da Terça-Feira do Carnaval, no Clube de Macau, foi de todas a mais animada. Foi interessante a entrada dum grande grupo de simpáticas meninas trajando diversos costumes regionais das Províncias de Portugal. Dispostas estas meninas numa roda, surgiu, como por encanto, uma interessante cigana que exibiu uma dança fartamente aplaudida pela numerosa assistência.
Tivemos a seguir uma desilusão quando descobrimos que a linda cigana era o Eduardo Silva!
Por volta das onze horas e meia fez a sua entrada na sala a ‘Tuna Camélia’, acompanhada dum luzidio cortejo de mascarados. A festa atingiu então a sua maior animação, tendo durado até altas horas da madrugada.
E assim terminou um Carnaval excepcionalmente animado”.
FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau, III (1932-36)– RC.n.º 23, 1995

Extraído de «A Voz de Macau» de 5 de Julho de 1937

Fernando Nolasco da Silva nasceu na freguesia da Sé (Macau) a 15-06-1907 e faleceu em Paço de Arcos (Portugal) a 1-10-1993. Licenciado em medicina pela Universidade de Lisboa, especialista em oftalmologia. Exerceu medicina em Macau até 1939, ano em que se fixou residência definitiva em Lisboa. Filho de Luís Gonzaga Nolasco da Silva (1881-1954) (neto de Pedro Nolasco da Silva) e de Beatriz Emília Bontein da Rosa (1885-1959) (1)
No «Anuário de Macau» de 1938, está registado a actividade privada do Dr. Fernando Nolasco, no Largo de S. Domingos n.º 4, o mesmo endereço do consultório do Dr. Pedro Joaquim Peregrino da Costa, major médico, Director interino dos Serviços de Saúde e Higiene. Este médico, Dr. Pedro Peregrino da Costa tinha o consultório na Avenida Almeida Ribeiro, n.º 27, 1.º andar no ano de 1934 (Anuário de Macau, 1934).
No «Anuário de 1940/41» já não constava o registo do Dr. Fernando Nolasco e nessa morada (Largo de S. Domingos n.º 4) estava o consultório do Dr. António Alberto de Barros Lopes, médico de 1.ª Classe, chefe interino da Repartição Técnica dos Serviços de Saúde e Higiene e Director do Laboratório Bacteriológico.
(1) FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses , Volume II, 1996.

Certamente que os leitores do jornal, nesse dia longínquo de 22 de Janeiro de 1932, se riram das singularidades do Calito. Mas pouco havia que se rir nesse dia, pois no jornal também vinha a notícia dos graves acontecimentos em Xangai.
Em 28 de Janeiro de 1932, desencadeia-se um feroz bombardeamento que deixa Chapei, a cidade chinesa de Xangai, num mar de chamas. Imensas vidas se perdem no inferno das explosões e no desmoronamento dos edifícios.
No capítulo do cinema, ouvem-se pela primeira vez as vozes de Lon Chaney e Greta Garbo, respectivamente nos filmes “The Unholy Three” (1) e “Romance“, (2) ambos no Vitória. O Capitol distingue-se com uma película que é um vale de lágrimas: “East Lynne“. (3)  Janeiro também será o mês de “Huckleberry Finn”, com Mitzi Green e Jackie Coogan, (4) e de “King of Jazz”, (5) um dos melhores filmes musicais de todos os tempos, ambos apresentados no Capitol.
A vida continua tão despreocupada que “A Voz de Macau” se entretém, numa coluna, a falar de uma das figuras mais populares e características da nossa terra nos anos 30, o “Calito Maluco”, também conhecido por “Calito-Tâo-Kai” (Calito que furta galinha). Quem, das gerações mais velhas, não se recorda desse pobre homem, desdentado, calvo, sujo, tanta vez embriagado, falando um patois retinto, fazendo de moço de recados para não morrer de fome, ou simplesmente pedindo “emprestado” dez ou vinte avos às pessoas conhecidas?
Quem não se lembrará do seu pregão habitual: “Quim querê comprá Alua? Fiado cerzi mêa! Ginête cornesstach!”, pelas ruas da cidade pacata, batendo a várias portas. Lamuriava sempre, tratando toda a gente por “mano” ou “mana”. Sofria vexames e impaciências com resignação e só perdia a cabeça quando a criançada cruel gritava “Calito-Tâo-Kai”. Era um homem honrado que ganhava os seus dez ou vinte avos com lisura e não podia suportar que o chamassem de ladrão. Então enfurecia-se e da sua boca ouviam-se pragas e impropérios.
Era um homem original. “A Voz de Macau” relata em certa passagem:
Contam-se dele coisas interessantes como: empurrar um carro (riquexó) durante meia hora e, logo que recebe a paga do seu trabalho, meter-se no carro que empurrou e, de perna cruzada, andar a passear outra meia hora, entregando, por fim, ao cúli que o puxa, aquilo que recebera; pedir uma esmola, e não conseguindo obtê-la, pedir vinte avos emprestados. Por fim, são-lhe dados os vinte avos a título de empréstimo, e quando o credor já não se lembra do facto, aparece o ‘Calito’ a pagar-lhe dez avos, dizendo que o resto será pago para o mês que vem!
Das vendas que o incumbem de fazer, presta sempre contas certas, não se enganando nem desviando um avo sequer.
Pobre Calito! Pobre, mas honesto”.
FERNANDES, Henrique de Senna – Cinema em Macau III (1932-36)
http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30023/1797
(1) “The Unholy Three” é um melodrama norte-americano de 1930, sonoro, da Metro-Goldwyn-Mayer , com o célebre actor Lon Chaney (seu último filme e o único falado; Chaney morreu de cancro de garganta, dois meses após o lançamento do filme) e dirigido por Jack Conway. É uma nova versão do filme homônimo de 1925, com ambos os filmes baseados no romance “The Unholy Three”, de Clarence Aaron “Tod” Robbins.
Trailers do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=SZy6H4u1r18
https://www.dailymotion.com/video/x20nosn
(2) “Romance” é um filme norte-americano de 1930, do gênero drama, dirigido por Clarence Brown e protagonizado por Greta Garbo e Lewis Stone.
Trailers do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=O5IOLuqmIjM
https://www.youtube.com/watch?v=tHGmiMpxiRw
https://www.youtube.com/watch?v=5M-gqduRobc
(3) “East Lynne” é um filme norte-americano de 1931, do gênero drama, dirigido por Frank Lloyd e protagonizado por Ann Harding e Clive Brook.
“East Lynne” é baseado no romance homônimo da escritora Mrs. Henry Wood, publicado com enorme sucesso em 1861. A obra já foi filmada várias vezes,
“East Lynne” obteve uma indicação ao Oscar, de Melhor Filme, porém o vencedor naquela edição foi o musical “Cimarron”.
(4) “Huckleberry Finn” é um filme norte-american de 1931, do gênero comédia de aventuras, /Uma versão livre do romance clássico de Mark Twain) dirigido por Norman Taurog. É uma sequência do filme “Tom Sawyer” de 1930, do qual utilizou praticamente a mesma equipa técnica e os mesmos actores:  Jackie Coogan, Junior Durkin, Mitzi Green e Jackie Searl.

(5) “King of Jazz” é um filme norte-americano de 1930, musical, da “Universal Pictures” protagonizado por Paul Whiteman e sua orquestra. O filme contou também com o grupo “The Rhythm Boys” (trio formado por Bing Crosby, Al Rinker e Harry Barris entre 1927-1930). Dirigido por John Muray Anderson. “King of Jazz” foi filmado inteiramente no processo “Technicolor” de duas cores e foi produzido por Carl Laemmle Jr. para a Universal Pictures.
Trailers do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=KdCukticfmE
https://www.youtube.com/watch?v=Yib17tXwxj4
https://www.youtube.com/watch?v=p8OZiDucB3w

Anúncio da empresa “Macao Electric Lighting Co. Ltd.”, publicado no «A Voz de Macau» n.º 1792, de1937, publicitando os vários modelos de Geleiras Electricas, os modernos Ferros Electricos  e o aluguer mensal de ventoinhas.

 

Artigo do jornal “ A Voz de Macau” republicado no «Boletim Geral das Colónias», de Novembro de 1936, (1)
(1) Extraído de «Boletim Geral das Colónias» Ano XII, Novembro de 1936, n.º 137

Publicado no jornal “A Voz de Macau” de 5 de Julho de 1937.
Anteriores referências  a esta poetisa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-acciaioli-tamagnini/