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Luís Gonzaga Gomes (1) apresenta a sua tradução dos 18 exemplos da Piedade Filial do “Clássico da Piedade Filial” (2) e dos “24 Exemplos da Piedade Filial” (3)
A cada exemplo o autor acrescentou a tradução de uma quadra pentâmetra de desconhecido autor e tal como aparece em certas edições chinesas.
PREFÁCIO
“Na China antiga, poucas eram as obras que podiam rivalizar em popularidade com o “Clássico da Piedade Filial” e, não gozava de menos estima dos leitores nativos, uma outra obra referente ao mesmo assunto, intitulada os “Vinte e Quatro Exemplos da Piedade Filial”.
Assim como se não é possível encontrar nas outras línguas têrmo que exprima o exacto significado da nossa palavra saudade também se não é possível abranger, em língua europeia, numa só palavra, a idea de todos os sentimentos e obrigações inerentes ao vocábulo háu (4) que os mais autorizados sinólogos convieram em traduzir por piedade filial.
Esta piedade não exprime nem dó, nem pena, nem tão pouco o amor às cousas religiosas, mas a devoção do filho para com os seus progenitores no sentido de veneração, à qual estão ligados os sentimentos de profundo respeito, de íntima dedicação, de acendrado afecto, de cega obediência, de completa submissão e de um amor capaz de o levar a sacrifícios dos mais estoicos como o de se oferecer para ser executado no lugar dum pai condenado à pena capital, ou o de talhar pedaços da carne do seu próprio corpo para, depois de cozinhados, serem ingeridos por um pai ou uma mai que se encontre doente e em perigo de vida.”

Exemplar que acusa algum uso, com rasgões (com fita-cola) e perda de papel  na capa

(1) GOMES, L. G. – A Piedade Filial. Macau 1944,39 p., 25,8 cm x 18,5 cm.
Sobre Luís G. Gomes há muita informação disponível na net. No meu blogue ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/luis-gonzaga-gomes/
(2) “Atribuído a Tchâng Tch´ám曾参 (505-437 A. C.) (5) um dos mais célebres discípulos de Confúcio. Julga-se também ter sido ele quem redigiu o Tái – Hók 大學 (O Grande Estudo), o segundo da mais importante obra da literatura chinesa conhecida por Si-Su 四書 (Os Quatro Livros). O texto do “Clássico da Piedade Filial” conseguiu chegar até aos nossos dias, graças ao imperador Mêng Uóng 明 皇 (685-762 A. D.) (6) que curou de o mandar gravar em lápides de pedra, na sua capital, em Tch´eong-On, 長 安 situada na actual província de Sán-Sâi 山西 (Shansi), (7) conjuntamente com um comentário da sua autoria, bem como mais onze escritos atribuídos a Confúcio. É desse valioso comentário que os parafrastes posteriores se têm socorrido para elaborarem os seus estudos sobre as passagens mais obscuras.
O preclaro imperador Hóng Hêi (1662-1723 A. D.) (8), dinastia Tch´êng, considerava tão importante a doutrina expendida no “Clássico da Piedade Filial” que fêz publicar um comentário seu à obra. (Prefácio do livro) (1)
(3) “Vinte e Quatro Exemplos da Piedade Filial”  é obra anónima, talvez escrita  durante a dinastia Mêng 明 (1368-1644 A. D.). (9) “Não é destituída de interesse, pois prende pela sua concisa exposição derivada da própria índole do terso estilo arcaico em que se encontra escrito e pela ingenuidade dos exemplos escolhidos. Esta obra é constituída por uma colecção de modelares actos de piedade filial praticados +pelas grandes celebridades que viveram nas remotas dinastias de Tch´âu, Tchân, Hón, T´õng e Sông.“ (Prefácio do livro) (1)
(4)  mandarim pīnyīn: xiào; cantonense jyutping: haau3
Zeng Shen , também conhecido como Zengzi, Mestre Zeng Tsang, Tsengtzu,, Tseng Tsu,

(5) Nascido Zeng Shen – 曾参 depois conhecido como Zengzi (Tsang) 曾子 (505-437 ou 436 A. C). Filósofo e um dos discípulos de Confúcio

 

 

Tang Xuanzong  – 唐玄宗 – Imperador da dinastia Tang

(6) Imperador Xuanzong de Tang (685- 762), também conhecido como Imperador Ming    明 皇. Reinado: Setembro de 713 – 756.
明 皇 – mandarim pīnyīn: míng huáng; cantonense jyutping: ming4 wong4
(7) Shanxi  – 山西; Hoje com a romanização em piyin Shānxī 陝西, 陕西
長 安 – mandarim pīnyīn: cháng ān; cantonense jyutping: coeng4 on1
Changan foi a capital de mais de dez dinastias na China, tendo sido uma das cidades mais populosas do mundo. Na dinastia Ming, o nome da cidade foi mudado para Xian, nome actual da cidad., capital da Província de Shaanxi/ Shānxī 陝西 – mandarim pīnyīn: shǎn xī; cantonense jyutping: sim2 sai1
(8) 康熙皇帝 Imperador Kangxi (1654 – 1722). Reinado: 1661 a 1722, 4.º imperador da dinastia Qing.
康熙皇帝 – mandarim pīnyīn: kāng xī huáng dì; cantonense jyutping: hong1 hei1 wong4 dai3
(9) 明朝, – Dinastia Mingmandarim pīnyīn: míng cháo; cantonense jyutping: ming4 ciu4
Sobre Luís Gonzaga Gomes e este seu trabalho, retiro do prefácio do trabalho académico de Maria Antónia Espadinha, o seguinte:
“Este é um dos mais importantes princípios de acordo com os quais os chineses orientam as suas vidas. Luís Gonzaga Gomes menciona pormenorizadamente a fundamentação destes preceitos no Lai Kei, código da pragmática chinesa, do qual cita: ‘há três mil faltas sobre as quais se podem aplicar as cinco penas capitais, porém, nenhuma excede em gravidade a da ausência do amor filial”. A prática destes deveres é também recomendada expressamente por Confúcio, e a leitura do Clássico da Piedade Filial9 é recorrente na formação dos jovens chineses. O culto dos antepassados, que os chineses prezam e observam, é também uma prática ligada à Piedade Filial. Luís Gonzaga Gomes cita, a propósito Mêncio, que dizia: ”se todos os homens estimassem os seus progenitores e respeitassem os seus superiores, o mundo viveria em sossego” e cita, do Lai Kei: “o nosso corpo foi-nos legado pelos nossos pais, atrever-se-á, portanto, alguém a ser irreverente no emprego de uma dádiva tão preciosa?”. Neste capítulo, Luís Gonzaga Gomes apresenta uma profunda reflexão sobre os vários aspectos da Piedade Filial.”
ESPADINHA, Maria Antónia – Tradições, mitos e costumes chineses na literatura de Macau em Língua portuguesa in DE Portugal a Macau – Filosofia e Literatura no Diálogo das Culturas. Universidade do Porto, 2017. ISBN: 978‐989‐99966‐9‐4
https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15990.pdf
NOTA. Sugiro visualização duma anterior postagem sobre este tema:
Amplificação do Santo Decreto do Imperador Yongzhzeng, edição fac-similada da versão portuguesa e organização de Pedro Nolasco da Silva. Prefácio de António Aresta, Fundação Macau, 1995, 145 p., 26,5 cm x 18,5 cm x 1 cm, ISBN: 972-8147-47-3
Imperador Yongzheng  雍正帝 (1678-1735) Reinado: 1723 a 1735 –  mandarim pinyin: yōngzhèngdì; cantonense jyutping: jung1 zeng3 dai3.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/02/19/leitura-amplifica-cao-do-santo-decreto/

MACAU – CHAPEL OF OUR LADY OF PENHA
Barro (infelizmente “rachado”), rectangular: 7 cm x 5 cm comprado em 2017
MACAU
events all year round
Plastificado, flexível de maior comprimento 10,5 cm x maior altura 4,5 cm, oferecido em 2017
A – Ma Temple
澳門媽租廟
Plastificado, flexível de maior comprimento 9,5 cm x maior altura 6 cm, comprado em 2017

澳門媽租廟mandarimpinyin: ào mén Māzǔ miào; cantonense jyutping: ou3 mun4 maa1 zou2 miu6
媽祖 – deusa Matsu ou Mazu – deusa do oceano da mitologia chinesa.

Continuação do artigo iniciado em 27-02-2017 (1) sobre esta festa, no ano de 1956
Quem percorrer as ruas de qualquer cidade, vila, ou aldeia chinesa notará a cada porta um pequeno altar, muitas vezes um simples nicho, onde se pode ver uma estátua que nunca tem mais de trinta a cinquenta centímetros de altura.
E a estátua de Tou Tei que, sentado no seu trono, tem, nalguns casos, à sua esquerda a sua mulher e, à direita, representada por uma estátua mais pequena, a sua concubina. Fora do pequeno templo, que se assemelha muitas vezes ao casinhoto dum cão de guarda, existe um receptáculo para queimar papéis votivos e depositar oferendas e um montículo de terra batida onde se espetam pivetes em dias de festa ou quando ao deus se agradece uma graça concedida ou se faz qualquer pedido, o que acontece quase diariamente.
Tou Tei é pessoa da família a quem tudo se confia.
Nas suas dores e aflições, contratempos e prejuízos, os chineses procuram lenitivo e consolação junto de Tou Tei a quem, muitas vezes, se queixam amargamente da sua infelicidade e pouca sorte. Mas também nas horas de alegria e abastança lhe vão agradecer, com generosas ofertas, a protecção concedida e os ventos favoráveis que sobre eles fez soprar. É ainda a esse quase ente familiar que eles confiam os seus anseios e esperanças, os seus negócios em perspectiva, consultando-o em todas as decisões a tomar. A ele se comunicam, em primeira mão, os nascimentos, as mortes e os casamentos, porque é ele que conforta na doença e na tristeza na dor e na angústia, que protege os recém-nascidos para que cresçam sem qualquer mazela, e favorece os lares novos para que sempre lá reine a paz, a harmonia e a felicidade.

Templo de Tou Tei do Patane (2017)

Tou Tei é amigo, patrono e conselheiro da família e para ele se voltam todos os corações, quer nas horas de alegria quer as horas de aflição. A ele se confiam os mais íntimos desejos e se dizem os segredos mais reservados.
(1)Ver referências anteriores em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/27/noticia-de-27-de-fevereiro-de-2017-tou-tei-o-deus-da-familia/

Amanhã dia 18 de Março de 2018, festeja-se o dia do deus da família TOU TEI – 土地 (1)  É uma divindade tutelar (espírito ou divindade que tem a função de guardião, patrono ou padroeiro de um determinado local)
Em 1869,  os festejos decorreram nas noites de 17 e 19 de Março, com fogos de artifício, conhecidos por balsas, (2) na Praia do Manduco. Do Boletim da Província de Macau e Timor do ano de 1869, extraí esta notícia em que o autor nomeia dois deuses tutelares chineses: Tuti e Fu-Shui. Creio tratar – se dos deuses Tou Tei ou Tou Dei Gung (土地公) e Fu Shi (伏羲) (3)


Templo de Tou Tei no Largo do Pagode do Patane

Este templo está classificado como Monumento e localiza-se entre as Ruas da Palmeira, da Pedra e da Ribeira do Patane, no Porto Interior. Está encostado ao Jardim de Camões, no sopé do outeiro, com os seus pavilhões construídos entre as pedras da Colina.
NOTA: fotos pessoais do Templo Tou Tei do Patane de Maio de 2017
(1) Ver anteriores referências a “Tou Tei, o deus da família” em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/27/noticia-de-27-de-fevereiro-de-2017-tou-tei-o-deus-da-familia/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/templo-tou-tei-patane-%E5%9C%9F%E5%9C%B0%E5%BB%9F/
(2) BALSA – fogo de artifício chinês, muito comum em Macau até à década de 20 (séc. XX) depois caiu em desuso. Ver explicação em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/02/27/noticias-de-25-e-26-de-fevereiro-de-1868-fogos-de-artificio-na-fonte-de-lilau/
(3) Fu Xi (Fuxi) ou Fushi ou Fu Hsi (伏羲), também conhecido como Paoxi ou Pao-hsi (庖犧). É um personagem da mitologia chinesa e é tido como um imperador que reinou durante os meados do século 29 aC. Ele foi o primeiro dos Três Augustos (三皇 Sānhuáng). Na antiga China ele era considerado um herói mitológico da cultura, atribuindo-se-lhe a invenção da escrita, pescaria e caça. Ele é considerado o fundador na nação chinesa.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fu_Xi

Junto à entrada está o deus-porteiro
Que não deixa entrar diabos e ladrões,
E àquela que abra e saia dos portões
Assegura que volte são e inteiro

Na sala está o buda folgazão
Enchendo a casa de luz da alegria
E p´ra que nunca falte arroz do dia
Na cozinha está o deus do fogão.

Fotografia tirada na Rua do Matapau em Maio de 2017

Trabalha o patrão numa grande mesa
E entre ábacos e livros aos montões,
Majestoso se ergue o deus da riqueza.

Na alcova está a deusa das paixões
Para dar ao casal toda a certeza
De dar ao seu lar novas gerações.

Leonel Alves (1) (2)

(1) In “Antologia de Poetas de Macau”, selecção e organização de Jorge Arrimar e Yao Jingming, 1999, p.81.
(2) Ver anterior referencia a este poeta em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/leonel-alves/

Numa das casas existentes neste Jardim (1), uma varanda de “ferro” com o formato de dragão
(1) Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/09/macau-no-exterior-macau-e-o-jardim-oriental-em-lisboa-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/12/macau-no-exterior-macau-e-o-jardim-oriental-em-lisboa-ii-o-busto-de-camoes/

Amor, guerra, vício, sexo, ópio, religião, etnias, costumes e famílias atravessam as páginas de O Rio das Pérolas (Bertrand), de Isabel Valadão. (1) A autora decidiu escrever sobre a cidade onde viveu entre 1983 e 1986 -narrativa sobre “o papel subalternizado da mulher” na sociedade chinesa, O Rio das Pérolas segue os destinos de Mei Lin e Luísa, duas raparigas que farão percursos muito diferentes numa cidade atravessada pelos resquícios da II Guerra Mundial. À distância de muitos anos e quilómetros, Isabel Valadão conta que foram as leituras acumuladas a ajudar na construção da Macau que encontramos no livro, cidade à qual nunca regressou mas que nunca esqueceu.”
Ver a reportagem do jornal Ponto final suplemento literário “Parágrafo” de 28 de Julho de 2017de com a escritora em file:///C:/Users/ASUS/Downloads/PFL%2320%20final%20(1).pdf
e entrevista a CASTRO, Isabel no jornal «hojeMacau» 11 de Julho de 2017
https://hojemacau.com.mo/2017/07/11/isabel-valadao-autora-de-o-rio-das-perolas-as-palavras-sao-o-que-restara-de-nos/
Maria e Mei Lin podiam ser duas pessoas diferentes. Na verdade, são duas facetas da mesma mulher. Quando Mei Lin, uma menina irreverente, com grandes sonhos, foge do convento e das freiras que a criaram para não se ver condenada a uma vida sem fulgor, predestinada por outros, estava longe de imaginar que a sua escolha a precipitaria para o submundo das casas de ópio e de prostituição de Macau. Mas o destino prega-lhe uma partida e Mei Lin acaba por ser vendida como pei-pa-chai — no fundo, uma escrava sexual. É então que conhece Manuel, filho de uma das famílias portuguesas mais importantes do Território, alguém que lhe pode dar outra vida.
Mas será a nova família capaz de a aceitar? E será que o passado ficou verdadeiramente para trás? Uma viagem por Macau nas décadas de 40, 50 e 60 e pelas contradições da vida num território português às portas da China, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial e da guerra sino-japonesa.”
https://www.bertrandeditora.pt/produtos/ficha/o-rio-das-perolas/19085592
(1) VALADÃO, Isabel – O Livro das Pérolas. Bertrand Editora, 2017, 248 p. ISBN: 978-972-25-3378-2