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Com uma assistência relativamente, diminuta, calculada em pouco mais de 200 pessoas, realizou-se na tarde de sábado findo, 16 do corrente, no Teatro Apollo, gentilmente cedido, a anunciada Exibição de Ginástica, promovida pelo Sr. Veríssimo do Rosário Jr. (1) em benefício do Natal das Crianças Pobres de Macau, benemérita organização do Sr. Comissário da Polícia.
Factores vários, alheios à vontade dos organizadores contribuíram infelizmente para que o festival não tivesse alcançado o sucesso que se esperava, o que porém não estranhamos num meio tacanho como o nosso onde as melhores intenções e as mais belas iniciativas costumam ser apoucadas, quando não de todo destruídas, pela baixa intriga e politiquice bairrista.
Assim com a colaboração sincera e desinteressada dum brioso núcleo de atletas locais e de algumas agremiações de cultura física existentes nesta cidade, conseguiu entreter o público durante duas horas, com um programa ameno e variado, de números curtos e agradáveis de seguir.
A Escola de Educação Física «Rosário» (2) apresentou uma exibição de pirâmides e no levantamento olímpico de pesos e alteres, em que os Srs. José Victor do Rosário, Francisco Hagatong Jr. e Reinaldo Ângelo se revelaram atletas de primeira categoria…(…); o conhecido mestre de “Sá Kong Fu” Chu Chuo Kai e os seus jovens discípulos patentearam um conjunto harmónico de equilíbrio, destreza, desembaraço e agilidade, na exibição das mais curiosas modalidades da exótica ginástica oriental, tendo uma interessante luta de tracção simulada entre uma mulher e um homem provocado, pelo seu “pitoresco”, e hilaridade geral; o quarteto constituído pelos srs. Francisco Noronha, João da Silva, Cham Pen In e Chan Kai Tong ofereceram ginástica de argolas por sinal ainda pouco desenvolvida entre nós… (…); o sr Abel Chun, representando o novel, Associação dos Jovens de Macau, mostrou-se com agrado geral um exímio ginasta das barras paralelas, e o Sr. Artur da Silva, um compatriota nosso de Hong Kong com 60 anos de idade, na exibição de contracção de músculos, parece que convenceu os presentes de que a ginástica metódica e perseverante dá mocidade e vigor à própria velhice.
Por especial deferência do seu presidente, Sr. Estanislau Alberto Carlos, abrilhantou a sessão, animando os intervalos, o simpático grupo “Euterpe” que executou com equilíbrio e correcção vários trechos populares da música ligeira americana.” (3)
(1) Sobre Veríssimo do Rosário Jr. Ver anterior referência em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/verissimo-do-rosario/
(2) O Ginásio da Escola de Educação Física “Rosário” estava na Estrada da Vitória. A escola fechou quando o Prof. Veríssimo ingressou no ensino oficial.
(3) Artigo de José Carvalho e Rêgo publicado no jornal «A Voz de Macau» de 17.06.1944 e retirado de RÊGO, José de Carvalho e – Figuras Desportivas do Passado, 1996.

O Dicionário Corográfico de Portugal Contemporâneo (abrangendo o continente, ilhas adjacentes e colónias) da autoria de António Sampaio de Andrade, publicado no ano de 1944 foi “um trabalho que foi submetido a douta apreciação do Ministério do Interior, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Patriarcado
dicionario-corografico-1944-capaCom referência a Macau tem nas páginas 73 e 74. Sete entradas de «Macau» (uma referente a Moçambique):
1 – Macau (Colónia Portuguesa) – Colónia na costa da China Meridional (província de Cantão ou Cuang-Tung)
2 – Diocese de sufragânea da Metrópole Eclesiástica de Goa-e-Damão. Sede: Macau. Abrange o Território da Colónia.
3 – Península na costa S. da China (parte meridional da ilha Hião-Chão ou Chung-Shan)
4 – Concelho da colónia de Macau: 9 freguesias, com 144.240 habitantes. Superfície: 5,247 Kmsq.
5 – Santa Nome de Deus de Macau – cidade, episcopal, com «pôrto livre», sede de concelho.
6 – Ilha de Macau na Colónia de Moçambique, junto da costa oriental e da foz do rio Save, e a S. S. E., e a cêrca de 90 Kms da Baía de Sofala
7 – Ilha de Macau ou ilha de Hião-Chão – ilha na costa meridional da China e a N. da Colónia e Macau, à qual pertence a extremidade S.
dicionario-corografico-1944-macauTaipa com 3 entradas na página 125
1 – Ilha da Colónia de Macau (Arquid. De Goa e Damão) entre a península de Macau e a Ilha de Coloane e a N. N. E. da Ilha tai-Vong-Cam. Compreende a vila da Taipa e as povoações de Semg-Sa e Tcheok-Ka-Tchin coma sup. Total de 4,431 Kmsq. Pop: 7,882 hab.
2 – Vila da Ilha da Taipa e sede de concelho das «Ilhas de Taipa e Coloane» de Macau
3 – Canal do mar da China e entre a Ilha Macarira (D. João) e a Ilha de Taipa
dicionario-corografico-1944-macau-p-74Coloane (ou Colovane) na página 42 – ilha de Macau; a S. da Ilha da Taipa e a E. da Ilha da Montanha (Tai-Vong-Cam). Compreende a vila de Coloane e as aldeias de Hac-Sá, Ka Ho, Seak-Pai e Lui-Tchi-Van com a  sup. Total de 5,832 Kmsq. Pop: 5.053.
Os dados oficiais apresentados neste Dicionário, relativos a Macau, foram retirados da Agência Geral das Colónias.
ANDRADE, António Sampaio de – Dicionário Corográfico de Portugal Contemporâneo. Livraria Figueirinhas, 1944, 218 p.

MILAGRE
EM CUMPRIMENTO DA ORDEM DA
Mesa da confraria da Nossa Senhora dos Remedios do dia 12 de Abril do anno de 1829, Eu, José Maria Marim presidente da mesma fiz copiar fielmente “de verbo ad verbum” o milagre que se acha escripto no livro do archivo da mesma abaixo se ve

Memoriai do milagre, que a favor d´esta cidade do Nome de Deos de   Macau obrou a veneravel e santa imagem de Nossa Senhora   dos Remedios na occasião de caristia de mantimentos, que   experimentaram os seus moradores, pela falta de chuvas.

Das memorias antigas, que alguns curiosos deixaram escriptas, e tambem das tradicções de varias pessoas, que foram testemunhas de vista, consta, que no anno de 1703, sendo Bispo d´esta cidade o Exmo. Sr. D. Joaõ do Cazal, houve uma grande carestia de arrôs causada pela falta de chuva, por cujo motivo mandou o mesmo Exmo. Sr Bispo  se fizessem nas Igrejas Preces Publicas para impetrar de Deos o remedio a tão grande necessidade. Na noite de 28 de Abril houve huma Procissão de Penitencia, que sahio da Igreja de Sm Francisco, e visitando as Igrejas da Sé, de S. Paulo, de S. Domingos, e Sto. Agostinho, se recolheo no sobredito Convento: no dia 30 houve outra, que sahioda Igreja de Sto. Agostinho para a Cathedral levando-se a Imagem do mesmo Santo e como continuasse ainda o flagello da Divina Justiça até 3 de Maio, determinou ultimamente o Sr. Bispo, que se recorresse ao Soberano Patrocínio da Mai Santíssima dos Remedios: tirou-se no mesmo dia de tarde da sua Capella sitta na Igreja de Sm. Lourenço a Veneravel Imagem e collocada reverentemente em Andôr foi levada em Procissão pelos Conegos da Sé, com assistencia do Exmo. Sr. Bispo, de todo o Corpo Ecclesiastico, e Povo desta Cidade até à Cathedral, onde ficou depositada; logo no dia immediato, que foi sexta-feira, se deo princípio à sua Novena, e nesse mesmo dia com geral consolação de toda a cidade, principiou a chover ainda que pouco, mas no dia seguinte choveu com maior abundancia, continuando deste modo por todos os mais dias até o ultimo da Novena, em que devia tornar para Sm. Lourenço a Santa e Veneravel Imagem.

SMIRNOFF - Vista lateral Igreja S. Lourenço 1944Fachada Lateral da Igreja de S. Lourenço (1944)
George Smirnoff

Ella foi reconduzida na tarde desse dia com toda a pompa e solemnidade para a dita Igreja, e collocada ultimamente com a devida veneração na sua Capella; alli se renderam a Deos solemnemente as graças pelo altissimo benefício,
que pela sua bondade infinita, recebeo esta Cidade pela intercessão da Mai Senhora dos Remedios. Este grande milagre assim como cauzou nos gentios a maior admiração e espanto, infundio tambem nos Christãos hum intimo reconhecimento ao benefíco de Deos e de sua S.S. Mai. Permitta o mesmo Sr. que se perpetue nos nossos corações este reconhecimento para sermos gratos ao Deos das Mizericordias, e à Mai N. S. dos Remedios.
Esta he a fiel rellação do sobredito Milagre, que se julgou muito importante conservar no Archivo desta Confraria para brazão da mesma, e de todos os Confrades, e por esta cauza mandou o Prezidente actual o Rmo. Chantre Joaquim Soares a mim Secretário, da dita Confraria, que o transcrevesse neste Livro ad perpetuam rei memoriam. Eu José Maria Marim Secretário que o escrevi.. Eu Secretario actual da mesma, que o fiz escrever, sobscrevi e assignei
                   ANTONIO DE SENNA                          J. MARIA MARIM

Eu Braz de Mello Secretario da Confraria de N. S. dos Remedios fiz extrahir a copia deste Milagre, para o imprimir, sem acrescentar, nem diminuir coisa alguma, que duvida taça; e em que se assignarão comigo o Irmão Presidente Manuel Duarte Bernardino, o Irmão Thesoureiro Carlos Vicente da Rocha, o Irmão Procurador Jozé Maria da Fonseca, e mais Irmãos Conselheiros
Macau, 17 de Abril de 1841.

O altar de N. Sra. dos Remédios na Igreja de S. Lourenço foi erecto em 1618 (o segundo mais antigo desta Igreja; o mais antigo é o altar de S. Lourenço, orago da Igreja que foi erecto, com a mesma), data em que foi também ali colocada a estátua da mesma Senhora A actual estátua de N. Sra. dos Remédios foi benzida e inaugurada no dia 10 de Abril de 1931.(1)
NOTA: sobre este “milagre”, de uma outra fonte de informação, ver anterior referência em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/05/03/noticia-de-3-de-maio-de-1703-procissao-de-penitencia/
(1) TEIXEIRA, Pe. Manuel – Paróquia de S. Lourenço, 1936, p. 4;  pp.10-11

Na sua passagem por Hong Kong, vindo de Taipé, o célebre pugilista do Estados Unidos, Joe Louis, (1) concedeu uma entrevista ao representante do “Notícias de Macau”, sr. Veríssimo do Rosário, (2) professor de educação física das Escolas Primárias Oficiais, declarando ser grande admirador de Portugal e da sua gloriosa história.” (3)

MOSAICO III-17-18 1952 - Joe Louis em HK IO ex-campeão de pesados apertando a mão ao representante do “Notícias de Macau”

MOSAICO III-17-18 1952 - Joe Louis em HK IIJoe Louis à direita de vários professores de educação física de Hong Kong e Macau.

Joe Louis em 1941
(1) Joe LouisJoseph Louis Barrow (1914 –1981) foi um pugilista norte-americano. É considerado um dos maiores pugilistas de todos os tempos, Louis manteve o título dos pesos pesados durante doze anos (1937-1948), defendendo-o em 26 lutas.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Joe_Louis
(2) Veríssimo Francisco Xavier do Rosário Jr (1921 – ? ) filho de Veríssimo Francisco Xavier do Rosário que foi durante mais de duas décadas (50 e 60 do século XX), Chefe de Secretaria do Leal Senado, foi um conhecidíssimo professor de ginástica e fundador da Escola de Educação Física «Rosário», com o seu irmão José Victor do Rosário, também este um excelente atleta de ginástica e exímio no hóquei em campo. Foi depois “convidado para professor das escolas Primárias realizando um trabalho muito apreciável e durante vários anos apresentou, nos festivais realizados no Campo da Caixa Escolar, os seus pupilos com enormes enchentes por parte do público que não se cansava de aplaudir os executantes das suas lições.  Mais tarde foi para a Escola Comercial, onde realizou trabalho de relevo pois nunca deixou de apresentar as suas classe de ginástica nos festivais da comemoração da data da fundação da Escola – de cuja Associação de Instrução dos Macaenses o seu pai fazia parte. Mais tarde o Prof. Veríssimo concorreu a uma vaga de professor de Educação Física do Ultramar, sendo colocado em Lobito (Angola)(4)
A Escola de Educação Física “Rosário” que funcionava na Estrada da Vitória fechou quando o Prof. Veríssimo ingressou no ensino oficial. Numa exibição de ginástica, realizada no Teatro Apollo, em 16 de Junho de 1944, em benefício do Natal das Crianças Pobres de Macau, “a Escola do Professor Veríssimo apresentou uma exibição de pirâmides e no levantamento olímpico de pesos e alteres, em que os srs José Victor do Rosário , Francisco Hagatong Jr. e Reinaldo Ângelo se revelaram atletas de primeira categoria…(…); o quarteto constituído pelos srs. Francisco Noronha, João da Silva, Cham Pen In e Chan Kai Tong ofereceram ginástica de argolas por sinal ainda pouco desenvolvida entre nós… (…); o sr Abel Chun mostrou-se com agrado geral um exímio ginasta das barras paralelas… (4)
(3) Informação retirada da revista «Mosaico», 1952
(4) RÊGO, José de Carvalho e – Figuras Desportivas do Passado, 1996.
NOTA: No Blogue «Crónicas Macaenses» de Rogério P. D. Luz,  do arquivo de Rigoberto Rogério do Rosário (irmão de Veríssimo e José Victor) apresenta um fotografia do Grupo Juvenil Juniores de Hóquei em Campo de 1934 onde está  Veríssimo do Rosário representando o  Externato do Seminário de São José.
http://www.memoriamacaense.org/id229.html.

Tendo sido transferido para o Convento de Sta. Clara a escola de meninas que funcionava no convento de Sto. Agostinho, desde 10-08-1846 (1), em 6 de Julho de 1857, foi este transformado em Hospital Militar até 1874, (2) ano em que foi construído o Hospital Conde de S. Januário (inaugurado a 6 de Janeiro de 1874). Depois “velho e desactivado“, o convento é convertido em Liceu Nacional de Macau (inaugurado em 18-09-1894) (3) e depois comprado por Artur Basto que o transformou em sua residência. Com a morte foi adquirido pela Companhia de Jesus e, sob o nome de Residência de Nossa Senhora de Fátima dos jesuítas ou “Vila Flor” (serve de casa de repouso aos jesuítas), junto à Igreja de Sto. Agostinho. (GOMES, Luís Gonzaga- Efemérides da História de Macau, 1954).

Chinnery Escadas de Sto Agostinho 1829Escadas que conduziam ao antigo Convento de Santo Agostinho
George Chinnery – 1829 (4)

(1) “O convento de Santo Agostinho foi fundado em fins de 1586 ou princípios de 1587, pelo agostinho espanhol Fr. Francisco Manrique, (os padres espanhóis pertenciam à Província Filipina) e foi entregue aos agostinhos portugueses em 22 de Agosto de 1589. (5) Encadeados nas múltiplas hipóteses da sua transferência, total ou parcial, para o sítio onde hoje existe, há manuscritos que nos afirmam ter-se mudado o local do convento para a Colina do Mato Mofino (onde hoje se encontra a residência de Nossa Senhora de Fátima dos jesuítas) em 1591. Outros dizem que só foram mudadas algumas portas e não todo o corpo do convento, por não se encontrar notícia nem vestígios do que se pretende dar por mais antigo.
Esta transferência, e até à fundação dos agostinhos em Macau, atribui-a Casimiro Cristóvão de Nazaré em «Mitras Lusitanas no Oriente», ao agostinho português Fr. Miguel dos Santos.
Em 1711, o Convento de s. Agostinho foi retirado aos seus frades por ordem do Vice – Rei D. Rodrigo da Costa, sob a acusação de serem afectos ao Cardeal de Tournon. Mas foi-lhes restituído em 1721.
Em 1834, com a expulsão e extinção de todas as ordens religiosas no Império Português, esta igreja foi confiscada pelo Governo de Macau e serviu-se de quartel militar (Batalhão de Primeira LInha), escola de meninas desde 10-08-1846   e hospital. No final do séc. XIX,, em 1873, o Governador de Macau devolveu a administração desta igreja à Confraria de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos.
O engenheiro Jerónimo Luna no relatório «Hospital Militar – no extinto convento de Santo Agostinho» refere as obras realizadas neste edifício:
«Neste hospital se fizeram primeiramente diferentes obras, de consertos, reparos e pinturas, e, ultimamente, fizeram-se as obras necessárias para o isolamento completo dos doentes, em relação à parte do edifício arruinado, pelo desmoronamento de parte da igreja. …» (6)
«…Este edifício, por ser velho e ter geralmente má construção, precisa constantemente de reparos.»” (7)
(2) A instalação do Hospital Militar que foi autorizada por portaria de 21 de Novembro de 1855, implicou alterações/adulterações da estrutura do edifício. O Hospital Militar ocupou as alas que conformavam o claustro e dispunha de sessenta e oito camas. Mesmo após 1874 após a transferência dos doentes para o Hospital Sam Januário, a tropa continuou no convento até 1893 (aquando da instalação do Liceu de Macau).( GOMES, L.G.- Efemérides da História de Macau, 1954).
3) “28-09-1894 – Foi inaugurado o Liceu Nacional de Macau, instalado no velho e desactivado Convento de Santo Agostinho (que acabou de ruir, sem causar danos pessoais) com uma simples visita do Governador Horta e Costa. Não se realizou nenhuma solenidade por a família real se encontrar de luto. .(GOMES, L.G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

SMIRNOFF Igreja Sto Agostinho 1944Fachada principal da Igreja de Santo Agostinho
George Smirnoff, 1944
O Convento ficava à direita (na foto) da Igreja

(4) Este desenho de Chinnery vem mencionado com este título nos catálogos das exposições, ambas em 1995 “Macau Uma Viagem Sentimental” e “Imagens de Macau Oitocentista“. Mas tem uma referência ao “Convento de S. Francisco”, embora interrogado, no catálogo da exposição em 1985 “George Chinnery – Macau“.
(5) “22-08-1589 – Tomarão posse os Religiosos de Stº Agostinho desta Cidade do Convento de N. S. da Graça que hoje possuem o qual foi fundado pelos Religiosos desta Ordem vindos de Filipinas …” (BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado, 1964).
(6) “Isto escrevia-se depois do grande incêndio de 1872, que destruiu a capela‐mor, a sacristia e várias outras dependências e que nos faz crer que essa parte do convento, já não alinhava com o bloco da igreja, pois era considerada dependência militar, e , posteriormente, passou a pertencer a particulares.” (7)
(7) ” A Colina de Santo Agostinho e o seu Convento”, sem indicação de autor in . MACAU, Boletim Informativo, 1956.
Anteriores referências ao Convento de Santo Agostinho:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/convento-de-s-agostinho/
Ver ainda «NOTÍCIAS – QUEDA DO TECTO DA IGREJA DE SANTO AGOSTINHO» em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/27/noticias-queda-do-tecto-da-igreja-de-santo-agostinho/

“Queremos ir a Macau.
Previnem-nos, porém, de que não poderemos fazer sem nos vacinarmos contra a cólera e quedarmos seis dias em Hong Kong, à espera dos resultados. O director geral da Sanidade, médico inglês, isenta-nos, amavelmente, do segundo dever. Êle próprio nos dá a injecção.

A VOLTA AO MUNDO - Vista parcial de MacauMACAU – Outra vista parcial desta colónia portuguesa no Extremo-Oriente

E, enquanto pica o nosso braço, vai contanto:
– A maioria dos chineses não gosta de tomar injecções. Por isso, quando se criou a vacina obrigatória, aqueles que tinham dinheiro pagavam aos mais pobres para se vacinar por eles e tirarem, em seu nome, um certificado. Na sua ignorância, alguns chegaram a tomar vinte e trinta injecções contra a cólera em menos de um mês e, naturalmente, morreram por esta nova e rendosa profissão. A morte acabava com os profissionais, mas deixava os amadores, que tomavam apenas duas ou três injecções, a trôco de outros tantos dólares. Entretanto, muitos dos que pagavam adquiriam a cólera e propagavam-na. Foi, por isso, que tornamos obrigatória uma fotografia em cada atestado …
O médico passa algodão com álcool sobre o nosso braço e pregunta:
– Gosta de saladas, dessas sas saladas frescas, que neste calor de inferno em que vivemos agradam tanto aos olhos  e ao paladar? Não as coma! Gosta de frutos, desses belos frutos que vêm da Califórnia e da própria China e que, comidos aqui, parecem mais saborosos do que em qualquer outra parte do Mundo? Não os coma também! Não coma nada cru enquanto andar no Oriente. Nessas atraentes formas e côres vegetais oculta-se a Morte. Faça como eu. Deixo tudo isso quando voltar à Europa … se conseguir voltar!
O médico introduz o certificado num sobrescrito de «His Majesty´Service» e entrega-no-lo:
– E o senhor não imagina como eu gosto de saladas e de frutas! (1)

(1) CASTRO, Ferreira de – A Volta ao Mundo. Emprêsa Nacional de Publicidade, 1944, 678 p.
Referência a este livro e ao escritor que esteve em Macau na sua viagem à volta ao mundo, em 1940, durante a Guerra do Pacífico.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-ferreira-de-castro/

Livro com várias edições (1), este que apresento é do Instituto Cultural de Macau e Leal Senado, sem indicação da data (mas de 1986), 217 p., 22 cm x 14,5 cm.

Chinesices LGG CAPA

ÍNDICE:
Casas de Penhor.
A desautoração dum “tchóng-un”.
A seda e os bordados chineses.
A luta chinesa.
Os cavalos chineses.
Frutas que se comem em Macau.
A urna do Templo dos Cinco Génios.
A Piedade Filial.
A arte de Esculápio na velha China.
Como se cultiva a arte de Tespis na China.
A Geomancia.
Burlando por meio de jornais.
Duas vezes casado com a mesma mulher.
O barbeiro ambicioso.
Os vendilhões ambulantes.
Superstições.
Jogos chineses.
O soníloquo.

Chinesices LGG CAPA + CONTRACAPA

(1)   Creio que com este título “Chinesices”, foi publicado pela primeira vez em 1944 como uma separata do “Renascimento”. A 1.ª edição da  Colecção Notícias de Macau, n.º 7, é de 1952, com 323 p, (19 cm.)
Conheço outra edição (3.ª edição) do mesmo livro, editado pelo Instituto Cultural, em 1994, 177 p., colecção Rua Central n.º 8, 24 cm., com prefácio de Joaquim Morais Alves
Sobre Luís Gonzaga Gomes, livros e referências em anteriores “posts”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/10/25/leitura-curiosida-des-de-macau-antiga/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/luis-gonzaga-gomes/

Neste dia, Camilo Pessanha proferiu no Grémio Militar (actualmente, Clube Militar) uma conferência sobre «Literatura Chinesa» (1)

Esta conferência intitulada «Sôbre a Literatura Chinesa» (2) foi posteriormente publicada no livro “China (Estudos e traduções)”, Capítulo VII (pp. 1103 a 112). (3)

CHINA de Camilo Pessanha 1944

“Exemplificando, desenhou o conferente, no quadro preto, três desses caracteres, traduzindo ideias abstractas em cuja composição entra o elemento ideográficoi, ou radical, , significando cavalo. O primeiro – – significa dirigir, governar, regrar, moderar; o segundo – ts´ân – significa espontâneo, maleável, fluente (v. g., o estilo de um escritor); o terceiro – p´eng – significa companheiros, parceiros, camaradas. Mostrou como essas ideias, quando transmitidas ao espírito por esses caracteres (de outros muito dispõe a escrita chinesa para representá-klos, em diversíssimas modalidades), surgem ali concretizadas em imagens – melhor, em grupos plásticos – de que um ou mais cavalos são a principal componente: – um auriga segura na mão as longas rédeas de uma fila de cavalos fogosos, cujo ímpeto selvagem e dispersivo coordena sem esforço, para fazer voar, ao longo da pista, o seu veículo ligeiro; o estilista, senhor da língua em que escreve, e que, a seu talante, a faz curvetear, como o bom cavaleiro ao cavalo fino; finalmente, os dois camaradas, arrastando pela vida fora um destino comum, como duas azêmolas atreladas à mesma carroça.”

O livro reúne algumas obras de Camilo Pessanha que tinham sido anteriormente publicadas em jornais e revistas, nomeadamente:
I –«Introdução a um estudo sôbre a civilização chinesa»,  que serviu de prefácio a um livro do médico, José António Filipe de Morais Palha, “Esbôço Crítico da Civilização Chinesa”, publicado em Macau,  em Maio de 1912.
II – «Macau e a Gruta de Camões», publicado no semanário “A Pátria”, em 7 de Junho de 1924.
III -« Literatura Chinesa (Prefácio à tradução das Elegias)». Publicada no jornal “O Progresso”, em Macau, de 13 de Setembro de 1914.
IV –  «Oito Elegias Chinesas (tradução e notas)», publicadas, pela primeira vez, no semanário “O Progresso”, de Macau, de 13  e 20 de Setembro e 4 e 18 de Outubro de 1914  e depois republicadas (com notas explicativas e eruditas)  no n.º 1 da revista “Descobrimentos” (1931 – Director: João de Castro Osório).
V – «Vozes de Outono (tradução do chinês – Dinastia Tang)», publicada ne revista “Atlântida” (ano III, n.º 27, de 15 de Janeiro de 1918.
VI – Legenda Budista (tradução do chinês).
VIII – «Sôbre Estética Chines ( Conferência) », publicada no jornal “A Verdade” de 2 de Junho de 1910.

Este livro traz ainda no Capítulo IX – «Catálogo da colecção de arte chinesa de Camilo Pessanha, hoje no Museu de «Machado de Castro», de Coimbra.» Este catálogo da autoria do próprio Camilo Pessanha,  “ficará aqui indicando ao estudioso onde e como, tendo por guia a mesma superior sensibilidade que como escritor a descreveu e criticou, pode conhecer e sentir a velha civilização chinesa (da Nota explicativa). (3)

NOTA: tenho outra edição da “China  – Estudos e Traduções”, com prefácio de Daniel Pires, que foi publicada, em 1993 (2.ª edição), (Colecção Mnésis – Clássicos da Literatura Portuguesa) pela Vega , 126 p. (ISBN 972-699-387-3).

CHINA de Camilo Pessanha 1993 I

Neste livro que, o leitor ora tem nas mãos, China – Estudos e Traduções , todo esse devotamento a um país estranho se exprime, surpreendendo-nos de página para página. Embora sob outros ritmos, outros tons e outros brilhos, o certo é que os deparamos com o exímio autor de Clepsidra – e nos sentimos trambém irmanados, através do rigor de Pessanha de dizer só o que é, com outros mundos que existem para além da nossa casa, da nossa rua, do número da nossa porta ...” (na contracapa).

CHINA de Camilo Pessanha 1993 II

(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7).
(2) Publicada no semanário “O Progresso”, de 21 de Março de 1915.
(3) PESSANHA, Camilo – China (Estudos e traduções). Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1944, 31 p.

“Macau é o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente nesses tempos gloriosos. Note-se que digo padrão, padrão vivo: não digo relíquia. Há com efeito, padrões mortos. São essas inscrições obliteradas em pedra, delidas pela intempérie e de há muito esquecidas ou soterradas, que os arqueólogos vão pacientemente exumando como penivelmente decifrando, tão lamentavelmente melancólicas como as ressequidas múmias dos faraós.

A fatalidade do determinismo histórico fez a colonização portuguesa quase exclusivamente se desenvolvesse adentro dos trópicos, com exclusão de Macau, todas as colónias portuguesa ou ex-portuguesas de clima relativamente temperado são situadas no hemisférico austral.

MACAU Jaime do Inso Praia Grande 1929A Praia Grande, Avenida da República e o Hotel Bela Vista na década de 20  (século XX) (2)

Assim é Macau a única terra do Ultramar Português em que as estações são as mesmas da Metrópole e sincrónicas com estas. É a única em que a Missa do Galo é celebrada em uma noite frígida de Inverno; em que a exultação da aleluia nas almas religiosas coincide como o alvoroço da Primavera – Páscoa florida com a alegria das aves novas ensaiando os seus primeiros voos: em que a comemoração dos mortos queridos tem lugar no Outono. Mais ainda: em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia em alguma nesga de pinhal, menos frequentado pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas, destacando a cada canto, em rectângulos de papel vermelho, das águas amarelas do rio e da rada, onde deslizam as lentas embarcações chinesas de forma extravagante, com as suas velas de esteira fantástica, e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa.

MACAU Jaime do Inso Colina da Guia 1929A Colina da Guia na década de 20 (século de XX) (2)

Quem estas linhas escreve teve, por várias vezes (há quantos anos isso vai!), deambulando pelo passeio da Solidão, a ilusão, bem vivida apesar de pouco mais duradoira que um relâmpago, de caminhar ao longo de uma certa colina da Beira Alta, muito familiar à sua adolescência. (1)

NOTA: Este texto serviu de base ao “Exercício de Língua e História Pátria” referido em (3)

(1)   PESSANHA, Camilo – China. Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1944, 33 p.
(2)  As duas fotos pertencem ao livro “MACAU” de Jaime do Inso, 1929
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/10/02/leitura-texto-de-camilo-pessanha/
Outras referências de Camilo Pessanha no meu “blog”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/camilo-pessanha/

Pequeno trecho de Ferreira de Castro (1), retirado do livro “A Volta ao Mundo” (2), e inserido no livro de leitura do 2.º ano dos liceus: “Selecta de Língua e História Pátria” (3), pp. 140-141.

Para a História de Macau Ferreira de Castro IO passado de Macau, é, todo ele, uma fantasia histórica de piratas.
Um dia, há mais de quatrocentos anos, andavam os juncos pescando como hoje, surgiram, entre as ilhas, umas embarcações que também erguiam castelo à popa e ostentavam a cruz de Cristo sobre o velame enfunado. Elas deviam, como esses barcos que têm pintados, na proa, olhos de peixe, navegar cautelosamente, olhando a um lado e outro o mar e a terra desconhecidos. Eram os primeiros europeus que atingiam a China depois de Marco Pólo. Os piratas tomaram as naus por juncos de outros piratas, vindos de muito longe. E, por solidariedade de profissão ou por temerem  luta com quem se fazia acompanhar de bombardas, deixaram-nos transitar. Os portugueses instalaram-se perto daqui, na ilha de San- Choan, onde devia morrer, mais tarde, S. Francisco Xavier. Com o tempo, outros lusitanos foram chegando, descobrindo as redondezas e remontando o próximo rio Pérola até Cantão. Os lusos vinham pelas riquezas da China e por espírito de revelação; e os piratas, esmoendo o caso, mudaram de atitude e desataram a guerreá-los, considerando-os rivais. Os homens dos juncos, hábeis em todas as abordagens, não se lançavam apenas contra os portuguese, mas também contra os próprios mandarins de Cantão. Dominando inteiramente estes sítios, eles eram senhores de todos os acessos à China do Sul. Então os ricos magnates chinos pediram aos portugueses auxílio para exterminar o inimigo comum. Tumba, tumba, três anos durou a luta, até que os juncos largaram à procura de abrigo em ilhas mais seguras. Por gratidão ao auxílio recebido, o imperador da China decidiu, nesse momento, brindar aos portugueses posse e vida livre duma minúscula península, onde, durante muito tempo, se haviam acoitado os salteadores marítimos. E foi assim que a Cidade do Nome de Deus de Macau veio a ser de Portugal”

Para a História de Macau Ferreira de Castro IIFoto inserido na p. 141 do livro com a legenda “Uma rua de Macau. Foto do S.N.I.”

 Trata-se da  Avenida Almeida Ribeiro

(1) José Maria Ferreira de Castro (1898 —1974) foi um escritor português, que aos doze anos de idade emigrou para o Brasil, onde viria a publicar o seu primeiro romance “Criminoso por ambição“, em 1916. Durante quatro anos viveu no seringal Paraíso, em plena selva amazónica, junto à margem do rio Madeira. Depois de partir do seringal Paraíso, viveu em precárias condições, tendo de recorrer a trabalhos como, colar cartazes, embarcadiço em navios do Amazonas etc.
Mais tarde, em Portugal, foi redactor do jornal O Século e director do jornal O Diabo. Publicado pela primeira vez em 1930, A Selva talvez seja a obra mais importante do autor.
Emigrante, homem do jornalismo, mas sobretudo ficcionista, é hoje em dia, ainda, um dos autores com maior obra traduzida em todo o mundo, podendo-se incluir a sua obra na categoria de literatura universal moderna, precursora do neo-realismo, de escrita caracteristicamente identificada com a intervenção social e ideológica.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ferreira_de_Castro 
(2) “A Volta ao Mundo” foi escrita entre 1940 a 1944 e relata as viagens (iniciada em 1939) que realizou, na companhia de sua mulher.
(3) PAULA, Beatriz Mendes; GOUVEIA, Maria Alice – Meu Portugal, Minha Terra. Empresa Literária Fluminense, Lda, Lisboa, sem data (na contra-capa tem a indicação de «Aprovado oficialmente como livro único – Diário do Governo, n.º 46 – 2.ª série, de 24 de Fevereiro de 1963»)