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A “Revista Colonial” (1) apresentava no seu número de Junho de 1914, na sua primeira página, um artigo sobre a “Bravura de portuguez”. É relatado a acção de valentia de dois portugueses, guardas do barco “Tai On” que fazia a carreira de Hong Kong para a China e que foi assaltado no dia 27 de Abril de 1914, no Rio Oeste, por piratas. Os guardas foram o macaense Leocádio Jorge da Silva e o antigo soldado da campanha dos cuamatos (2), António Dias.
(1) «Revista Colonial» ano II, n.º 18, 25 de Junho de 1914.
(2) Capitão José A. Alves Roçadas (1865-1926) que foi Governador de Macau (1908-1909), tendo sido nomeado governador do distrito de Huíla no Sul de Angola (1905) iniciou as operações militares de ocupação das terras do povo cuamato (no sul do distrito) onde fundou o Forte Roçadas.

Possuo uma moeda pequena (gasta pelo uso, lembrança da minha avó), de 1,8 cm de diâmetro, da Província de Cantão/Guangdong, que circulou entre 1890 e 1908. Possivelmente circulava em Macau ou trazida por algum emigrante ou refugiado.

moeda-kwang-tung-province-iKWANG-TUNG PROVINCE
7.2 CANDAREENS
No centro um dragão manchu

As especificações da moeda:
País:    China – Província de Guangdong (Kwangtung)
Anos (circulação): 1890-1908
Valor: 10 Cents (0.1)
Metal: prata
Peso: 2.7 g
Diâmetro: 18.5 mm
Espessura: 5 mm
moeda-kwang-tung-province-iiNo Verso:
Em cima (leitura da direita para a esquerda): – nome da província de Guangdong.
No centro (leitura de cima para baixo): 光 緒 -Guangxù, nome do imperador (1875 to 1908).
No centro (leitura da esquerda para a direita): – “moeda” bao yuan.
Em baixo (leitura da direita para a esquerda)   – peso da moeda: 7 “candareens” () and 2 “mace ”(). (1)

O “site” (2) publicita um exemplar de uma mesma moeda mas em muito melhor estado de conservação:
moeda-kwang-tung-province-iiimoeda-kwang-tung-province-iv mandarim pīnyīn: zào shěng dōng guǎng; cantonense jyutping: cou3 saang2 dung1 gwong2
光 緒mandarim pīnyīn:   guāng xù; cantonense jyutping: gwong1 seoi5
–  mandarim pīnyīn:   bǎo yuán; cantonense jyutping: bou2 jyun4
mandarim pīnyīn: lí  èr fēn qī píng kù  ; cantonense jyutping: hei1 ji6 fan1 cat1 peng4 fu3
(1): 7.2 candareens = 0.72 mace = 2.69 gramas (1 mace = 3,73 gramas)
http://en.numista.com/catalogue/pieces7386.html
(2) http://www.ebay.com/itm/1890-1908-China-Kwang-Tung-Province-Silver-10-Cents-old-World-Silver-Coin-/121657271649
NOTA:The coin is a 7.2 Candareens (10 Cent) piece from Kwangtung province from the famous “Reversed Pattern” series. The story behind this coin begins in 1887 when the Viceroy of Kwangtung province, Chang Chi-tung, authorized the first modern mint in China to be built in his province. With equipment from the Birmingham Mint, China created the largest mint in the world at that time. The inaugural issue, known as the “Seven Three” series, contained a greater proportion of silver than the rival Mexican dollar. Most of these pieces were promptly melted down and became quite scarce. The next series saw a slightly reduced silver content, but were essentially identical to Alan Wyon’s original engraving designs but with a few modifications.”
http://old.stacksbowers.com/NewsMedia/PressReleases/TabId/744/ArtMID/2700/ArticleID/184/Kwangtung-72-Candareens-Reversed-Pattern.aspx

Recorte do jornal “Ultramar” (1), órgão oficial da I Exposição Colonial (Dir. Henrique Galvão), de 1934
ULTRAMAR 1934 n.º 6 -adamastor IO Cruzador “Adamastor” construído nos Estaleiros Navais de Livorno, lançado à água em 12 de Julho de 1896, comprado pelas receitas provenientes de uma subscrição pública organizada como resposta portuguesa ao ultimato britânico de 1890, entrou pela primeira vez a barra do Tejo em 7 de Agosto de 1897.

DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor IO “Diario Illustrado” de 7 de Agosto de 1897  dando a notícia da chegada do “Adamastor”, na sua primeira página (2)

DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor II Ferreira do AmaralO seu primeiro comandante foi o Conselheiro, capitão de mar-e-guerra Ferreira do Amaral. (3)
Com um comprimento (entre perpendiculares) de 73.81  metros  81 cm (comprimento de fora a fora) e velocidade máxima de 18 nós (uma propulsão de 4000 cv – 2 máquinas a vapor com 4 caldeiras alimentadas a carvão), o “Adamastor” tinha uma capacidade (inicial) composta de 215 elementos (16 oficiais, 36 sargentos e 163 praças (4). Em matéria de armamento (há várias versões) (5):
2 peças Krupp de 150mm/ 30 Calibres – Mod.1895 (Calibre: 150mm/Alcance: 14Km)
4  peças  Krupp 105mm/4.0GR Mod. 1895 (Calibre: 105mm/Alcance: 9Km)
4 peças Hotchkiss 65/46
2 peças Hotchkiss 37/42
2 metralhadoras Nordenfelt 6,5 mm e 3 tubos lança-torpedos
DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor IIIEm relação à estadia do “Adamastor” em Macau  e Extremo Oriente:
1.ª comissão ao Ultramar em Outubro de 1899 repartida pela Divisão Naval do Índico e pela Estação Naval de Macau. Regressa em Junho de 1901.
2.ª comissão, em Novembro de 1903 parte para o Extremo Oriente. Chega a Macau em Março de 1904. Desde Agosto desse ano até Março de 1905 permanece em Xangai a fim de proteger os interesses da colónia portuguesa residente, missão que se repetiria mais tarde. Em Agosto chega a Lisboa.
3.ª comissão, larga em Junho de 1907. Parte de Luanda em Maio de 1908 com destino a Timor, onde esteve de 6 de Julho a 24 de Agosto de 1908. Regressa a Lisboa em Julho de 1909.
No ano de 1910 foi montado no navio um aparelho T.S.F. e toma parte na implantação da República, marcando o seu início com 3 tiros como sinal. (6)
Em Outubro de 1912 inicia a sua 4.º comissão. Além de Macau escala Xangai e outros portos da China e chega a Lisboa em Outubro de 1913.
Foi durante esta comissão que o cruzador sofreu um acidente, no dia 11 de Maio de 1913, ao sair do porto de Hong Kong, tendo sido assistido pela canhoneira “Pátria” e o contra-torpedeiro inglês “Otter”. (7) Na sequência do acidente, o “Adamastor” deu entrada na doca de Whampoa, em Kowloon, para ser submetido a reparações. Daí seguiu para o Brasil (Rio de Janeiro e Santos) para participar no lançamento nas festividades da primeira pedra para a construção de um monumento em memória do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro Presidente da Primeira República Brasileira, terminando esta missão em Dezembro.
Em meados de 1913, o então capitão de fragata, João de Canto e Castro (1862 -1934) (futuro Presidente da República, que sucede a Sidónio Pais) recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor. (8)
De Agosto de 1919 a 18 de Julho de 1925 sofre grandes restauros, em Lisboa.
Em 1926 a 1928, nova comissão de serviço em Macau. Destacado para outras missões, em Julho de 1926 chega a Xangai  a fim de defender as concessões internacionais e render ao mesmo tempo o cruzador “República”, (9) tendo desembarcado uma força de 30 praças sob o comando de um 2.º tenente. Larga de Xangai em Março de 1928 e entra no Tejo em Abril.
Em Setembro de 1929 rumo novamente para o Extremo-Oriente, escala Macau e parte no dia 8 de Fevereiro de 1932, com destino a Xangai e dali parte em viagem diplomática para Japão. Volta a Xangai para protecção da comunidade portuguesa em virtude do início da guerra sino-nipónica.
Em 15 de Outubro de 1931, parte para Lisboa, em serviço, levando o  Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira (9)
Em 18 de Junho de 1932 está fundeado em Macau, reclassificado como aviso de 2,.ª classe, em péssimo estado geral nomeadamente do seu aparelho propulsor e da sua guarnição reduzida, pelo que é decidido que seja abatido em Lisboa. Larga de Macau em Março de 1933 chega a Lisboa em Julho (depois de uma atribulada viagem em que é obrigado a diversas paragens por sucessivas avarias).
Após 36 anos de serviço, foi o “Adamastor” abatido ao “Efectivo dos Navios da Armada” em 16 de Novembro de 1933.
Esta notícia do jornal de 15 de Abril de 1934, encerra a “vida” do “Adamastor” – foi arrematado o casco, vendido à Firma F. A. Ramos & Cª., pelo preço de 60.850$00 (10)
Cruzador ADAMASTOR(1) Ultramar n.º 6, 15 de Abril de 1934 , p. 8 .
(2) http://purl.pt/14328/1/j-1244-g_1897-08-07/j-1244-g_1897-08-07_item2/j-1244-g_1897-08-07_PDF/j-1244-g_1897-08-07_PDF_24-C-R0150/j-1244-g_1897-08-07_0000_1-4_t24-C-R0150.pdf
Francisco Joaquim Ferreira do Amaral(3) Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (1844 —1923), mais conhecido por Francisco Ferreira do Amaral ou apenas por Ferreira do Amaral, foi um militar (almirante) português, administrador colonial (Governador de S. Tomé e Príncipe, Governador-Geral de Angola, Governador da Índia Portuguesa)  e político da última fase da monarquia constitucional portuguesa (Presidente do Conselho de Ministros) Era o único filho de Maria Helena de Albuquerque (1.ª baronesa de Oliveira Lima)  e do governador de Macau João Maria Ferreira do Amaral.
Mais informações em
https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Ferreira_do_Amaral
(4) Em Macau tinha uma tripulação de 206  (14 oficiais, 23 sargentos e 169 praças.)
BARROS, Leonel – Memórias Náuticas, 2003, p. 67
(5) http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt/Documents/Cruzador%20Adamastor.pdf
(6) “Para além de Machado dos Santos ( comissário naval), a Marinha teve um papel destacado na revolução, através do “Adamastor” e do “S. Gabriel”, e dos oficiais, sargentos e marinheiros que participaram em acções no Quartel de Alcântara, na abordagem ao D. Carlos….” (VENTURA, António – A Marinha de Guerra Portuguesa e a Maçonaria, 2013, pp. 25.
(7) 11-05-1913 – O cruzador «Adamastor» foi de encontro a uma rocha perto de Hong Kong ( SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4)
Ver referência a este episódio em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cruzador-adamastor/
(8) “Em meados de 1913, recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor. Esta será uma viagem inesquecível. Além de conhecer outras paragens (passa pela Alemanha, Rússia e China), contacta duas figuras políticas com que se cruzará mais tarde e em circunstâncias bem diversas: Sidónio Pais, que encontra em Berlim quando ruma a Macau, e Bernardino Machado, que recebe, na qualidade de embaixador de Portugal no Rio de Janeiro, a bordo do cruzador na sua passagem pelo Brasil.”
http://www.museu.presidencia.pt/presidentes_bio.php?id=27
(9) 6-03-1927 – Ida do cruzador «República» para Xangai.
15-10-1931- Parte para Lisboa, em serviço, o Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira no Cruzador “Adamastor” que  sai da Ponte Nova do Porto Exterior (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4)
(10) https://pt.wikipedia.org/wiki/NRP_Adamastor.

Em 2 de Agosto de 1908, teve-se conhecimento que  os primeiros socorros pelas casas de beneficência  de Cantão aos sinistrado das cheias do Rio d´Oeste (1) não chegaram ao seu destino. Foram apresadas, em trânsito, por uma quadrilha de malfeitores chamados os «Gatunos do Rio». O afamado e terrível chefe da principal quadrilha de piratas da Província de Guangdong,(2)  por nome Lok-Lan-Cheng, ficou muito indignado com o procedimento da gatunagem! Receoso de que o roubo fosse imputado à sua gente e no intuito de dar testemunho público de que os piratas não são alheios ao infortúnio e à caridade, pois se é certo que roubam aos ricos nunca o fazem aos pobres, praticou actos de socorro de verdadeiro arrojo. Perseguiu os gatunos com a sua gente e conseguiu haver de volta grande parte dos géneros roubados, que ele próprio quis entregar aos desalojados. Apresentou-se ainda em pessoa em todas as casas dos principais lavradores de Cantão, intimandoos a reduzir o preço de arroz sob  pena de lançar fogo a todos os celeiros. A intimação foi «religiosamente acatada»” (3)
A Repartição do Expediente Sínico fez em 10 de Agosto de 1908, tardiamente, a tradução desta  notícia vinda a lume no início de Agosto, nos jornais de Cantão e Hong Kong. A notícia sobre uma catástrofe natural, desencadeou em Macau uma onde de solidariedade. Abordaremos primeiro   a notícia. O Rio d´Oeste há mais de 30 anos que não subia, como desta vez, a 40 e 45 pés (…). A fome apertou de tal forma esses desgraçados que as mães impossibilitadas de fornecer alimento aos seus filhinhos, viram-se na dura necessidade de os amarrar a taboinhas (sic)  ou baldes de madeira e de lançá-los ao rio à mercê da corrente. Estas infelizes criancinhas só por milagre poderiam salvar-se. Para se calcular o número delas, basta dizer que na cidade de Cantão – terminus do rio – apareceram mais de 30 crianças assim abandonadas à mercê da sorte! Entre estas, umas chegaram mortas e outras vivas  mas todas traziam atado ao pescoço um embrulho cujo conteúdo consistia em uma jóia de ouro ou prata e um pano do a seguinte súplica « Receba este meu filho. Se chegar vivo, adopte-o; se chegar morto, utilize o produto da jóia para o enterrar!». Casas de beneficência e particulares de Cantão cumpriram fielmente a vontade dos pais daquelas crianças, algumas das quais lograram chegar vivas depois de ter atravessado mais de 200 milhas. Também Macau  não quis «desmentir os seus créditos de cidade filantrópica» organizando um bazar para obter dinheiro que pôs à disposição dos infelizes, além de outras verbas doadas por particulares e entidades oficiais. O Hospital Kiang Wu convocou uma reunião magna, para organização do Bazar «quermesse». (4) É que, além dos bebés, havia que atender à fome dos inundados , ao abrigo dos desalojados. Logo nessa 1.ª reunião os donativos atingiram patacas $ 9 500,00. A quermesse  foi organizada pela comunidade chinesa, mas os bilhetes de entrada eram de 50 avos/pessoa, pelo que a população ali acorreu (3)

MAPA do Sul da Província de Guangdong 1950 (ANUÁRIO 50)MAPA DO MAR DA CHINA  – SUL DA PROVÍNCIA DE GUANGDONG /CANTÃO (1950)

(1) 西江 -Xi jiang (em cantonense: sai1 gong1) –  também conhecido por  Hsi Chiang, Si-Kiang, Siquião ou do Oeste.
(2) 廣東 -Guangdong / Kuangtung ou província de Cantão cuja capital é 廣州 – Guangzhou / Cantão / Kwangchow.
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4, 1997.
(4) A inauguração do Bazar a favor dos sinistrados das cheias do Rio d´Oeste, no Campo Coronel Mesquita foi a 16 de Agosto de 1908.  Presidiu à inauguração o Governador Interino, «Madame Sá» e o ajudante de Campo. O Hino Nacional foi executado pela Banda dos alunos chineses  da Escola Salesiana. O discurso inaugural foi feito por Chan-Chek-I. Na quermesse havia uma barraca de Auto China, sendo a primeira vez que em Macau se apresentaram em cena jornalistas e filhos de família abastadas, nas representações teatrais (Na China tradicional, os actores eram considerados gente de baixa categoria. (3)
Neste preciso dia em que se inaugurava em Macau a quermesse a favor dos inundados do Rio d´Oeste, o pirata Lok-Lan-Cheng apresentou-se no 1.º Hospital de Cantão, declarou o seu nome de guerra e em seguida entregou um donativo de patacas $ 10.000,00, retirando-se depois, calmamente, numa cadeirinha conduzida por oito chineses. As autoridades de Cantão só tiveram conhecimento do sucedido algumas horas depois a saída do «bom pirata» da cidade, provavelmente porque a população receosa (e também agradecida) não o denunciou. (3)
 José A. Alves Roçadas 1907NOTA: Logo à noite seguinte à tomada de posse (a 18 de Agosto de 1908) como novo Governador, José Augusto Alves Roçadas  (na foto, cerca de 1907) visitou a quermesse, com a esposa e filha. No certame havia «animatographo» que rendeu patacas $ 5 000,00 (3)

31 de Julho de 1918 —A Repartição dos Serviços de Saúde reclama contra a utilização, pelo público, da água da Fonte da Solidão” (1)

Fonte da Solidão década de 50FONTE DA SOLIDÃO – década de 50 – já nessa altura a fonte estava seca

O abastecimento regular da água potável à cidade de Macau foi sempre, no passado, um problema  de difícil resolução especialmente nos anos de maior seca, sendo a cidade muito pobre em águas potáveis e os veios que forneciam o caudal necessário para os poços, estavam quase todos ao nível do mar. (2)
Nessa data, a canalização existente para a cidade era de água salgada implementada pela primeira rede em 1912  (3)

Fonte da Solidão 2015 - IA fonte actualmente, 2015

Desde cedo,  a fonte de solidão está referenciada como de “água cristalina e boa”.
“Verificou-se em 1882, em grande parte, este importante melhoramento higiénico, devido à determinação do governo da província e à execução pronta e inteligente do actual director das obras públicas. Assim, uma poça lamacenta, que tinha por baixo a dois metros e meio uma veia de água, e de que se tirava em mais de um quarto de hora uma dada 283 porção de um líquido turvo, transformou-se numa fonte que fornece hoje em dois minutos a mesma quantidade de água cristalina e boa. Foi também aproveitada na estrada de Cacilhas outra nascente de água, que havia sido explorada no tempo do governo do conselheiro Coelho do Amaral e depois abandonada, a qual fica do lado oposto àquele em que brota a primeira fonte e a denominada da Flora que também foi melhorada.” (4)

Toponímia Estrada de CacilhasCom os trabalhos de aterro do Porto Exterior iniciados em 1921 (a Estrada da Solidão, hoje Estrada de Cacilhas era banhada pelo mar) e terminados em 1926, as águas que brotavam da Fonte da Solidão foram-se extinguindo (5) e depois com o traçado e as obras para o circuito da Grande Prémio de Macau iniciados em 1954, a fonte foi em parte enterrada e hoje, a parte superior da fonte está parcialmente escondida (permanentemente) pelas “barreiras de pneus” colocadas no circuito.

Fonte da Solidão 2015 - IIAs «barreiras», a fonte e o paiol antigo («de cima»)

Na verdade ,com a “construção” do paiol (princípios de 50) denominado «de baixo» (junto à Estrada, para diferenciar do Paiol «de cima» que estava num piso superior à fonte), descobriu-se outro veio no seu interior, de água límpida e bebível e que, nos anos de maior chuvas, corria abundantemente para fora sendo local de paragem de muita gente que com os garrafões iam aí buscar a água para beberem (décadas de 50 a 70).
Como a Estrada de Cacilhas até à década de 60 não tinha água canalizada, desde o meu nascimento até à minha saída de Macau, cresci bebendo  a água do Paiol.

Paiol de CimaO Paiol «de Cima»,  com a escada de acesso (infelizmente mal conservada) e a rampa feita muito mais tarde para acesso da carga e descarga de armas, munições e explosivos (por força de lei, as empresas que lidavam com  explosivos empregues em trabalhos particulares eram obrigadas a terem esse material depositados no Paiol). À direita, a Fonte da Solidão.
Paiol de baixoO Paiol «de baixo», actualmente em utilização, com o posto de vigia em cima do pequeno muro /forte de protecção da entrada (construído na década de 60)

(1) Arquivo Histórico de Macau, F.A.C. P. n.º 42 — S-A in SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol.4, 1997.
(2) 1883 — “É Macau excepcionalmente pobre em águas, sobretudo em águas potáveis, porque os numerosos poços que abastecem a população vão procurar uma veia quase ao nível do mar formada por águas de infiltração sempre mais ou menos salobras, carregadas de matérias orgânicas, e portanto impróprias para beber, vindo assim a pouca pureza da água juntar mais um elemento de insalubridade a tantas outras que são inevitáveis nas grandes aglomerações de indivíduos.” (4)
“O fornecimento de água às populações era feito através de inúmeros poços públicos e privados, cisternas e depósitos nas casas para recolha da água das chuvas, fontes e, em especial, durante a estiagem, por meio de barcaças portadoras de água proveniente da ilha da Lapa mas a falta de higiene nesses poços e cisternas  e as veias que fornecia llevava muitas vezes á perigosidade para a saúde pública(MACHADO, Álvaro de Melo – Coisas de Macau, 1913.

Fonte da Solidão 2015 - III

Os poços, numa cidade como Macau, onde o problema da água se põe, sempre com grande acuidade, eram um dos índices de estatuto social dos seus habitantes. A fonte que servia Macau era a Bica do Nilau ou Lilau, situada na colina da Barra (S. Lourenço) onde também havia, no século passado, um grande poço público fronteiro à Igreja (que Chinnery registou num belo desenho). Extramuros havia boas nascentes, na Flora, outra na Guia (Fonte da Solidão). Mais tarde foi construído um chafariz na Rua do Campo, próximo dum antigo veio de água, de que só alguns velhos documentos falam e que veio a desaparecer. (AMARO, Ana Maria — Das Cabanas de Palha às Torres de Betão, 1998, pág. 85.)
1908 — A partir do processo n.º 29 da Secretaria Geral do Governo da Província de Macau, de 1 de Outubro de 1908, relativo à análise das águas de Macau e Ilha da Taipa, elabora-se o seguinte quadro das fontes, poços particulares, poços públicos e de exploração, então existentes. Dada a dificuldade pela falta de nascentes, de abertura de fontes e poços, é provável que esta lista datada de 1908, coincidisse ou quase com os existentes nos finais do século XIX. Os valores quantificados quanto ao número de fontes e poços da presente lista de 1908, ficam muito aquém dos apontados no extracto anterior, só para as freguesias de Santo António, Sé e S. Lourenço, relativo ao ano de 1905; tal poderá ser talvez explicado pelo facto de, quase todas as casas possuírem “poço” embora quase todos, não sendo de nascente, se limitassem à simples recolha da água das chuvas e por isso mesmo, a sua designação mais precisa deveria ser a de cisternas. Fontes: Fonte da Avenida Vasco da Gama, Fonte da Inveja, Fonte da Flora Fonte das duas caras — chafariz da Flora, Fonte do Lilau, Fonte da Solidão e Fonte da Guia” (4)
Fonte da Solidão 2015 - IV(3) “1912 — (VII-30) — Termina o prazo de entrega das propostas para fornecimento e instalação de máquinas elevatórias de água, e canalização desde a praia da Vila Leitão aos reservatórios da Guia. A água era salgada e servia para rega das estradas e combate a incêndios. Foi a primeira rede de águas de Macau” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4, 1997)
Como política de higienização urbana, foi considerado na altura como solução radical a limpeza da cidade a partir duma rede de água salgada prevista desde 1909, mas só concretizada depois de 1912; diga-se que foram notáveis os efeitos desta solução na desratização urbana e no combate à peste.” (4)
(4) AFONSO, José da Conceição – Macau, contributos para a história do abastecimento de água potável. Administração, 75, vol XX, 2007, 1.º, 281-199.
http://www.safp.gov.mo/safppt/download/WCM_004505
(5) “Logo de começo ainda antes de elaborar o anteprojecto de Obras do Porto Exterior, foi, planeado por esta Direcção uma captação vulgar de aguas pluviais, na Colina Este da Guia, que na parte considerada podia produzir cêrca de 20.000 m3 por ano para o porto e bem assim o aproveitamento da Fonte da Solidão que tem sido praticamente desaproveitada, ficando a agua com bastante carga para ser distribuída em elevação e podendo a obra ser feita a expensas do Conselho de Administração das Obras dos Portos; mas com a resolução atraz dita, cabia esse trabalho á Direcção de Obras Publicas e esta intendeu por melhor estender ali o sistema que estava empregando na face Oeste da Guia, isto é de provocar maior infiltração por meio de canais horizontais permeáveis, e quanto ás aguas da Fonte de Solidão decidiu canalizá-las para a cidade pelo túnel que foi aberto; tendo então sido prometido que o volume de 20.000 m3 seria fornecido pelo grande manancial que fôra descoberto em camada profunda do subsolo na baixa de Monghá; mas vê-se agora que as esperanças neste manancial não eram tão bem fundadas pelo menos quanto ao processo de captação propriamente dito e o abastecimento de agua ao terreno do porto ficou assim de alguma forma prejudicado.” LACERDA, Hugo C. de –  Obras dos Portos de Macau/Memorias e Principais documentos desde 1924.
Outras referências anteriores  ao abastecimento de águas em Macau.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/06/12/noticia-de-12-de-junho-de-1915/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/s-a-a-m/
NOTA : Todas as fotografias coloridas, do arquivo pessoal, de Maio de 2015.

Roteiro do Ultramar Tempo Á -MáO templo da Deusa A-má

 “Parece ter sido construído nos princípios da dinastia Ming; a actual estrutura data do reinado de WanLi (萬曆 -1573-1621). Em 1828, os negociantes de Fuquiem (Fujian ou Hokkien 福建) e Taicho ofereceram mais de dez mil taéis de prata para a restauração do pagode da Barra. Este é o primeiro e principal pórtico que leva ao átrio e dali ao tempo dedicado a Neang-Má.” (1)
À entrada, dois leões de pedra, de fera expressão, terríficos e misteriosos, em esgares de ironia e crueldade como costumam ser estes leões mitológicos dos chineses, guardam, quais sentinelas, as portas do pagode (Jaime de Inso, em 1929)

 Roteiro do Ultramar Porta do CercoPorta do Cerco

 António Feliciano Marques Pereira, (2) informava que a primitiva Porta teria sido construída em 1573: «Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian Chan (Heung-Shan, hoje Chong-Shan). Este facto deu motivo, em 1573,à construção da muralha e barreira do istmo, a que os nossos ficavam chamando «Porta do Cerco» e os chinas «Kuan-Chap» (關閘mandarim pinyin: guan zhá; cantonense jyutping: gwaan1 zaap6).
O actual arco da Porta do Cerco foi levantado para honrar a memória de Governador Ferreira do Amaral, a 31 de Outubro de 1871, durante o governo de António Sérgio de Sousa (1868-1872).

 Roteiro do Ultramar PenhaResidência episcopal da Penha em Macau

A residência episcopal e a Ermida de N. Sra. Da Penha de França, ficam no topo da colina da Penha. Mais abaixo, a Gruta de N. Sra. de Lourdes. A gruta foi construída em 1908, por iniciativa do D. João Paulino de Azevedo e Castro, bispo de Macau (1903-1918), que ali foi sepultado.
Segundo se lê numa lápide, na parede da direita da Igreja da Penha, esta Igreja foi «Construída em 1934-1935 em substituição da primitiva capela edificada em 1622 e reedificada  em 1837».” (1)

Fotogravuras do livro de
GONÇALVES, Manuel Henriques – Roteiro do Ultramar. Lisboa, 1958, 131 p.
(1) TEIXEIRA,  P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM, 1997, 667 p.
(2) PEREIRA,  A. Marques – As Alfândegas Chinesas de Macau. Macau, 1870, 166 p.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres TÍTULO

Última parte, a “5.ª”, da leitura do artigo “Macau Cidade de Prazeres” (1) sem indicação de autor, publicado na “Ilustração Portugueza”, 1908, na página 808.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres Transporte de passageiro“O vapor que faz o serviço de transporte de passageiros e mercadorias entre Macau e Hong-Kong

 Após uma digressão pelas casas de jogo, d´amor, d´embriaguez, traz-se a impressão cançada do goso, mas olhando n´um dealbar verão a cidade onde as nhonhas de lindas pernas, com seus trajes de dó ou com seus vestidos leves, vão passar dentro em pouco, reparando n´esses bairros adormecidos, sob a luz doce do sol e comparando-a com essa China do luxo e da mizeria onde tantos milhões de homens luctam, sente-se bem que Macau foi feito para paraizo dos mandarins, dos ricos e dos piratas e logo nos vem á mente que com esse caminho de ferro de Cantão até ali, que já temos licença para fazer, a cidade seria definitivamente o logar de regalo de todo esse Extremo Oriente se dentro de gosos, que abafa ou se regela na sua atmosfera e que ali, em Macau, encontraria a sua estancia de prazeres, fazendo correr o ouro que seria applicado em torar mais deslumbrante a linda terra das nhonhas e das delicias.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres Saída da Igreja“À sahida da missa”

 A macaísta, que mettida nos seus trajos de dó tem alguma cousa das nossas antigas damas embiocadas, talvez então se desse mais à vida da rua, talvez mergulhasse n´esse banho de luxo e perdendo a característica do trajar iria docemente, sem dar por isso, deixando o recolhimento em que vive.

Macau é, pois, o logar onde se folga onde os piratas – que os há ainda – veem deixar o seu ouro, com os riscos de serem apanhados pela polícia vigilante. Mas é tal o prazer que todo o chinez tem em se demorar na cidade que eles, foragidos às leis, correm para o jogo, para o ópio e para as lindas chinesas, até que um dia lá vão amarrados pelos rabichos, levados por uma escolta para a fortaleza do Monte até serem entregues às suas auctoridades, até que as suas cabeças sejam degoladas em terras do Celeste Império e expostas nas ruas gotejando sangue.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres Pagode de Monh Há“Pagode de Mong há” (2)

 Apezar de tudo o pirata vem e na hora da morte não se lembra decerto das suas façanhas, mas sim dos olhos oblíquos de alguma linda chinesinha da rua da Felicidade, d´essa extranha cidade de prazeres.

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/01/leitura-macau-cidade-de-prazeres-i-anno-novo-china-1908/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/02/leitura-macau-cidade-de-prazeres-ii-o-jogo-do-fantan-1908/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/16/leitura-macau-cidade-de-prazeres-iii-
(2) Templo de Kun Iam (Kun Iam Tong) em Mong Há, construído em 1627 (sétimo ano do reinado do imperador Tian Qi / 天啓 (1620-1627), o templo mais antigo de Macau)- Ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/26/postais-macau-artistico-vi/