Archives for posts with tag: 1858

Março de 1858 – o Brigue Mondego (1) que voltara a Macau sob o comando do primeiro-tenente José Severo Tavares, (2) travou combate com vários juncos de um pirata chinês que pouco tempo antes tinha apresado duas lorchas de guerra portuguesas. Em resultado desse combate, as duas lorchas foram recuperadas e foi tomado um dos juncos do pirata armado com 15 peças e guarnecido com 50 homens”.(3)
(1) “O brigue Mondego, de 20 peças, foi construído no Arsenal da Marinha pelo construtor Joaquim Jesuíno da Costa e lançado à água em 28 de Outubro de 1844. A quilha foi posta em 4 de Abril do mesmo ano. Também aparece como navio de 14 peças (a notícia do jornal americano, refere 10 peças ) (4). A lotação era de 130 homens…(…)
Chegou a Macau em Maio de 1952 tendo em Julho largado para Timor conduzindo o novo Governador Capitão D. Manuel de Saldanha da Gama… (…)
Desde 1855, passou a servir na Estação Naval de Macau. Em Outubro de 1856, largou para Hong-Kong com o Governador de Macau (Isidoro Francisco Guimarães). Em Julho do ano seguinte, saiu em cruzeiro para a costa da China e, em Maio, visitou vários portos da China. Em Janeiro de 1859, largou para Sião e conduziu o Governador de Macau. Em Dezembro do mesmo ano, partiu de Macau com destino a Lisboa. Reparou em Singapura, tendo o construtor naval assegurado que o navio podia empreender sem receio a sua viagem para a Europa. Partiu em 20 de Dezembro desse ano. Durante a travessia o navio sofreu graves avarias conservando-se à tona com grandes dificuldades. Tendo avistado a galera americana “Uriel”, de Boston, pediu socorro. Da galera prontificaram-se a recolher o pessoal, com extrema dificuldade, em consequência do grande mar. Durante a faina de salvamento, o Mondego afundou-se com os seus 40 tripulantes. O total de sobreviventes foi de 66 e o de falecidos 44. Os náufragos do Mondego chegaram a Lisboa em 26 de Abril de 1860.
https://arquivohistorico.marinha.pt/details?id=925
Há outra descrição do brigue Mondego, a propósito da biografia de José Feliciano de Castilho (1838 – 1864) que recebeu a mercê de cavaleiro da antiga Ordem de Torre e Espada (decreto de 26 de Abril de 1864, por proposta do ministro da Marinha, então José da Silva Mendes Leal) pelos feitos heróicos praticados no naufrágio do brigue Mondego.
http://www.arqnet.pt/dicionario/castilhojosef2.html
(2) Acção Naval de Março de 1858:
“Perto de Macau, o Brigue «Mondego» (1.º ten. José Severo Tavares), realizou uma importante operação contra os piratas, actuando naqueles mares, com óptimos resultados, como se pode
Portaria, publicada na Ordem da Armada n.º 386/1858:
«Havendo sido presente a Sua Magestade El-Rei o Officio datado de 27 de Março ultimo, em que o Primeiro Tenente da Armada José Severo Tavares, Commandante do Brigue Mondego, dando conta da maneira por que tem desempenhado a commissão de que se acha encarregado nos mares da China, participa ter retomado as Lorchas portuguezas n.os 52 e 77, e apprehendido um Tan-mau pirata, montando estas embarcações quinze bôcas de fogo de differentes calibres, e encontrando-se a seu bordo bastante mantimento e munições de guerra, e cincoenta individuos que ficaram presioneiros; e bem assim elogia os Officiaes e praças da guarnição do dito brigue pelo seu procedimento néssa occasião: Ordena Sua Magestade, que pela Majoria General da Armada sejam louvados em seu Real Nome o Commandante, Officiaes e mais tripulação do referido Brigue, pelos bons serviços que prestaram. O que, pela Secretaria dÉstado dos Negocios da Marinha e do Ultramar, se communica á mesma Majoria General para os devidos effeitos.
Paço, em 30 de Junho de 1858. –Sá da Bandeira.”
http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP159/PP1592079.HTM
http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP159/PP1592080.HTM
(3) MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vol VIII, p. 112
Sacramento Daily, 1850 - Brigue Mondego(4) Notícia publicada no jornal “Sacramento Daily Union, Volume 19, Number 2871, 8 June 1860″: as graves avarias sofridas pelo brigue, foram devidas a um ciclone ou violenta tempestade que durou de 18 a 24 de Janeiro de 1860. Segundo o mesmo relato Oficiais e 55 homens da tripulação foram desembarcados nas Maurícias a 30 de Janeiro.
http://cdnc.ucr.edu/cgi-bin/cdnc?a=d&d=SDU18600608.2.13
Referência anterior do brigue Mondego:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/brigue-mondego/

“30-10-1858 – Foram estabelecidas três companhias de cules em cada bairro , cada uma das quais com um chefe ou cabeça, responsável perante o Procurador da Cidade pela conduta extravios e roubos que foram cometidos por aqueles que eram obrigados a trazer um barrete ou chapéu de bambu numerado e de cores diferentes para cada companhia. Esses cules eram isentos de décimas, sendo obrigados a apresentar-se, no Largo do Senado, para o serviço de bombas, sempre que houvesse incêndio” (1)
“O «Regulamento para trez Companhias de Cules Chinas» (chins, chinas ou chineses, designações correntes no século XIX) foi publicado no Boletim n.º  de 6 de Novembro de 1858. Entre outros aspectos se preceituava que  «cada Cule trará um barrete ou chapeo de bambú com o seu número, e de côr differente da de outra companhia, para ser conhecida do Publico». Tratava-se de carregadores, ou cules de transporte, que deveriam concorrer, por obrigação geral, ao Largo do Senado, quando houvesse rebate de incêndio, para prestarem serviço nas bombas, pelo que as três companhias, em compensação deste serviço de utilidade pública estariam isentas de pagamento de décimas” (2)
Cule era um trabalhador chinês. carregador, estivador, puxador de riquexó, condutor de triciclo, etc. Várias hipóteses para a origem deste termo, desde  meados do século XVII: do hindi/urdu «qulī»que significa “trabalhador(diário)”; do tribo natural do Guzerate «kulī», com o mesmo significado;  palavra tâmil «kuli» ,salários. (3)
O termo cule ou coolie/cooly/kuli foi mais utilizado no século XIX e princípios do século XX, para se referir aos trabalhadores braçais oriundos especialmente da China e Índia.
Os próprios chineses usavam este termo (4) no memso sentido mas dado o valor pejorativo que se foi tomando (principalmente na chamada “emigração dos cules”), (5) caiu-se em desuso tanto entre os chineses como entre os portugueses ou os ingleses.
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) SILVA, Beatriz Basto da –  Cronologia da História de Macau Vol.3, 1995.
(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Coolie
(4) A palavra chinesa 苦力 (mandarim pinyin:  kǔlì; cantonense jyutping: fu2 lik6 )significa literalmente “(uso) amargamente severo (de) força“.
O termo chinês mais utilizado culturalmente é   (mandarim pinyin:   gū lí; cantonense jyutping: gu1 lei1 ).
(5) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/emigracao-dos-cules/

EXP. Plantas de Edifícios Históricos CARTAZContinuação da minha colecção de marcadores de livro referentes à Exposição de Plantas de Edifícios Históricos”, realizada entre 22 de Agosto e 22 de Outubro de 2005 organizado pelo Instituto Cultural do Governo da R. A. E. de Macau no Arquivo Histórico. (1)

EXP. Plantas de Edifícios Históricos Leal SenadoMarcador: Edifício do Leal Senado

“Construído originalmente em 1784, albergou a primeira câmara municipal de Macau. De estilo neoclássico, tem mantido ao longo do tempo todas as suas paredes-mestras e o seu traçado arquitectónico original, incluindo o jardim situado no pátio posterior.”

EXP. Plantas de Edifícios Históricos Leal Senado verso

NOTA: 1584 – O primitivo edifício parece datar de 1584, tinha anexo o tronco ou cadeia. Daí a denominação de Calçada do Tronco Velho e Rua da Cadeia às vias públicas junto ao mesmo. Foi reconstruído em 1874, pois o edifício ficou muito danificado pelo tufão de 1874.
30-12-1876 – B.O. desta data, p. 215 informava : «Acham-se concluídas as obras da reconstrução do edifício do Leal Senado da Câmara, para onde já se mudaram algumas das repartições públicas que antes o ocupavam». Nesta reconstrução notam-se «não só os melhoramentos materiais empregados, mas a simplicidade e o bom gosto da architectura moderna, que a fachada principal representa» Finalmente por ocasião do Duplo Centenário da Independência e da Restauração de Portugal foi o velho edifício completamente restaurado e inaugurado a 2 de Junho de 1940, data em que foi benzida a Capela da sua Padroeira, N. Sra. da Conceição; está, ainda nessa Capela, a estátua de S. João Baptista, que também é padroeiro da Cidade.” (2)

EXP. Plantas de Edifícios Históricos Teatro D. Pedro VMarcador: Teatro D. Pedro V

Construído em 1860, foi o primeiro teatro de estilo ocidental na China e um dos mais importantes pontos de referência no contexto da comunidade macaense.”

EXP. Plantas de Edifícios Históricos Teatro D. Pedro V verso

NOTA: Ler em (3), a «história» inicial do Teatro.
“Em Março de 1858, o edifício podia já dizer-se concluído no principal, graças especialmente à diligência do cirurgião-mor da província, António Luís Pereira Crespo, de Pedro Marques e de Francisco Justino de Sousa Alvim. Do cidadão macaense Pedro Marques é todo o risco e a direcção das obras, mas a actual fachada foi delineada pelo Barão do Cercal em 1873 e restaurada em 1918 por José Francisco da Silva.”(2)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/02/17/marcadores-de-livro-i-exposicao-de-plantas-de-edificios-historicos/
(2) TEIXEIRA; P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I,
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/07/noticias-de-7-de-marco-de-1857-teatro-d-pedro-v-i/

Reuniram-se em assembleia vários moradores de Macau que elegeram uma comissão, composta de João Damasceno Coelho dos Santos, coronel João Ferreira Mendes, José Bernardo Goularte, José Maria da Fonseca, Francisco Justiniano de Sousa Alvim, Pedro Marques e José Joaquim Rodrigues Ferreira, para organizar uma sociedade de subscritores para a construção de um teatro. Até então todos os espectáculos de realizavam em «vistosos teatrinhos» (1) que se armavam na encosta de Mato-Mofino, que deita  sobre a Rua da Praínha; na porção do terreno da Praia do Manduco, depois ocupada pelo jardim do Barão de S. José de Portalegre; na Assembleia Filarmónica, (2)  que existia no largo de Santo António; no edifício do Hospital da Misericórdia; na residência do Juiz de Direito Sequeira Pinto; no «retiro campestre» de Santa Sancha, etc. teatrinhos esses que eram desarmados, uma vez dissolvidos os grupos de amadores que os animavam. Pensou-se, primeiramente, em instalar o teatro no edifício do Hospital S. Rafael. Tal ideia foi logo abandonada, pedindo a comissão ao governo o terreno do campo de S. Francisco, junto da rampa que conduz à entrada do quartel, pretensão esta que foi indeferida, sendo oferecida a cerca do extinto convento de S. Domingos. A Comissão, não gostando do local, requereu e obteve a 2 de Abril, o terreno do largo de S.º Agostinho (3). Correndo imediatamente a subscrição, em Macau e Hong Kong, o edifício do Clube e do Teatro D. Pedro V ficou quase concluído em Março de 1858, devido aos esforços do Cirurgião-Mor da Província, António Luís Pereira Crespo, Pedro Marques e Francisco Justiniano de Sousa Alvim. O risco e a direcção das obras foram da autoria do macaense Pedro Germano Marques (4) (5).

Teatro D. Pedro V 1907Fachada do Teatro D. Pedro V em 1907  (Foto de Man Fook)

Ao edifício delineado por Pedro Marques foi dado o nome de Teatro D. Pedro V, soberano então reinante; mas a actual fachada foi delineada pelo Barão de Cercal em 1873  (6) e restaurada em 1918 por José Francisco da Silva.
Situado no Largo de Santo Agostinho, em Macau, é um dos primeiros teatros de estilo ocidental na China.
Os Estatutos da Sociedade do Teatro D. Pedro V, foram aprovados a 20 de Abril de 1859 pelo Governador Isidoro Francisco Guimarães (o projecto de Estatuto apresentado pelo Secretário da Comissão Directora, Francisco Justiniano de Sousa Alvim tinha já sido publicado no Boletim Oficial de 6 de Novembro de 1858 ) (7) 
Em 2005, o teatro tornou-se um dos locais do Centro Histórico de Macau a figurar na Lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO.

Teatro D. Pedro V 1999Teatro D. Pedro V (伯多祿五世劇院) em 1999 (8)

(1) Em 1839, foi construído o teatro luso-britânico pelo arquitecto macaense José Tomás de Aquino.
(2) A 30 de Junho de 1853, deu-se uma récita nas casas da Filarmónica, em favor dos Expostos deste cidade.
(3) “26-11-1860 – Por Portaria Régia desta  data foi confirmada a concessão feita pelo governo provincial do terreno onde se edificou o Teatro D. Pedro  V. ” (7)
(4) Nasceu em 1799, exerceu o cargo de escrivão da Câmara (não era arquitecto nem engenheiro, mas tinha engenho e arte) e faleceu viúvo, a 15 de Dezembro de 1874, com 75 anos. Está  sepultado na Igreja de S. Agostinho (7)
(5) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(6) “17-03-1865 – Incendiou-se, pela madrugada, o Teatro D. Pedro V, mas o fogo foi rapidamente extinto, tendo apenas ardido parte duma janela. ” (5)
30-09-1873 – Reabriu, restaurado, o Teatro D. Pedro V, com Estatutos aprovados por Portaria de 10 de Fevereiro deste ano”  (7)
(7) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)
(8) http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8d/Dom_Pedro_V_Theatre_in_Macau.jpg

Em 1858, grassou em Macau a cólera-morbus, que atacou 69 indivíduos dos quais faleceram 36, sendo destes últimos 14 militares, 7 indigentes e 15 particulares.
Achava-se em Macau uma religiosa do Instituto de S. Paulo de Chartres, a qual comunicou à sua superiora o que viu. A irmã Teodora, em 1858, havia presenciado, em tempo de epidemia, uma procissão pagã. Esta pobre gente, para aplacar os maus espíritos, levavam pela cidade ídolos monstruosos, acompanhados de pessoas vivas disfarçadas da maneira mais disforme.

“MACAU FROM PENHA HILL, 1854 BY WILLIAM HEINE” (2)

O monstro principal era um dragão fabricado de cartão ou não sei de quê, no qual estava um homem que lhe fazia abrir e fechar uma goela horrenda, pronta a devorar a população. Diante dele, marchava outro homem, armado dum forcado que ele movia fazendo toda a sorte de contorções em face da goela da besta como que para a impedir de devorar o género humano.
Entre aquela multidão imensa flutuavam inúmeros estandartes, magnificamente bordados, estalavam sem cessar os panchões, e  músicas inverosímeis faziam um barulho infernal.
Dias depois, para obter a protecção dos deuses para as gentes do mar, outra procissão durou toda a noite. Desta vez eram monstros marinhos fabricados de estofos oleados, transparentes, iluminados por dentro. O dragão principal contorcia-se mais ou menos como o outro, e eram as mesmas explosões e as mesmas músicas endiabradas.
Além disso, levavam também um altar. Umas pobres gentes esfarrapadas lançavam lá sapecas; em troca, recebiam um pequeno triângulo composto de papeis de diversas cores, envolvidos uns nos outros, que eles prendiam logo aos seus vestidos para serem preservados do flagelo.” (1)
 
(1) TEIXEIRA, P. Manuel – Macau através dos séculos. Macau, Imprensa Nacional, 1977, 87 p.
(2) Rise & Fall of the Canton Trade System Gallery: PLACES
http://ocw.mit.edu/ans7870/21f/21f.027/rise_fall_canton_04/cw_gal_01_thumb.html