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“Pelas oito horas da manhã do dia 12 de Junho, véspera da Festa de S. António saíram da casa da Câmara do Senado o Vereador mais velho Joaquim Carneiro Machado, o escrivão da Câmara Jacinto da Fonseca e Silva, e o tesoureiro Manuel P. da Fonseca todos em cadeiras levando o tesoureiro dentro, na sua bolsa de cetim carmesim com suas borlas, e cordões doirados, e a mesma bolsa com um letreiro o seguinte:

«Soldo de Capitaõ da Cidade q. tem vencido athe o dia treze deste mez, o Glorioso Sr. Santo António o qual lhe remete o N.e Senado

Chegados à porta da Igreja de Santo António, já se achava o Porteiro desta Câmara com uma salva de prata na mão onde o tesoureiro pôs o referido soldo e o entregou ao mesmo Porteiro para a conduzir ao cruzeiro da Igreja onde se achava o mesmo Santo em uma cardencia com oito velas acesas; aí pegou o Tesoureiro de cima da salva o referido soldo, e o pôs aos pés do mesmo santo tendo ele já nas suas mãos o recibo que fica registado. Ao tempo de pôr o Tesoureiro aos pés do Santo, repicaram os sinos da igreja por um espaço de tempo. Depois do Vereador, Escrivão, e Tesoureiro fazerem as orações ao Santo e o Tesoureiro receber o recibo, levantaram-se para se vir embora vindo sempre na sua companhia tanto à entrada da porta como à saída da mesma, o Vigário da Igreja.

A esta mesma hora, achava-se uma Companhia Militar à porta da Igreja, com as armas ensarilho, e não houve obstáculo algum para passar em cadeiras, os mesmo condutores até se apearem à porta ; e essa é a forma com que se fez este serio acto”

Recebi eu P.e Francisco Esteves vigário da Freguesia de Santo António, do N.e Senado por maons do Prezidente do mesmo, Escrivão, e o feo Thezoureiro actuaes a quantia de cento quarente, e dous taeis oyto mazes cinco conderins, e quatro caixas por dachem a saber noventa e três taeis sete mazes, e sinco conderins soldos que venceo o Glorioso Santo Antonio de foldado, em três anos hum mez, e meyo, q. se lhe devia: e quarenta e nove taeis nhum maz e quatro caixas soldos vencidos de Capitão da Cidade, em 7 mezes e 26 dias athe o dia de fua Festa, q. tudo faz a referida quantia afsima, de q reduzidos a patacas a 76 condr.s, dão 187 patacas 73,4 caixas e por verd.e de como o receby passey este para consto, e clareza.” Macao, 12 de Junho de 1784, – Francisco Esteves”

Extraído de GOMES. Artur Levy – Esboço da História de Macau 1511-1849, 1957, p. 290-291

No dia 13 de Dezembro de 1784, o Senado protestou para Goa (1) contra a ordem para o governador presidir a todos os actos do Senado com ingerência em todas os assuntos da fazenda real (2) até agora administrados pelo Senado (3) (4) e pediu para Goa instruções sobre a forma como deveria proceder, no caso de qualquer agitação chinesa, em consequência das alterações introduzidas, como seja a criação da nova alfandega e o envio de mais tropas de Goa para Macau (5) (6)
(1) “13-12-1784 – O Senado não podendo suportar a sua subordinação ao governador escreve ao Governo da Índia:
«Recebemos carta em que V. Exa. Nos ordena que o governador desta Cidade presida neste Senado e nele tenha intendência em tudo quanto respeita a Fazenda real que ate agora administramos, sem embargo do Alvara Regio que V. Exa. Há por declarar que dispõe e determina o contrario.
Há 226 anos que os moradores desta Cidade estabeleceram e conservaram esta terra d Sua Magestade e sem dependência dos governadores dela este Senado a tem governado ainda em ocasiões das maiores controvérsias que se ofereceram entre os chinas e holandeses. Os mesmos moradores a resgataram e remiram por varias vezes das dividas que a necessidade contraiu em diferentes tempos com os Reis de Sião, Camboja e Batavia.
Eles a sua custa fizeram ir embaixadores a presença do Imperador da China, em que gastaram grossas quantias para efeito da conservação deste Estabelecimento.
Eles a defenderam no ano de 1622 contra o poder dos holandeses que nesta cidade desembarcaram com tropas regulares.
Eles socorreram em artilharia de bronze e dinheiro o Rei D. João IV, de feliz memoria, no ano de 1641.
Eles tem sofrido os maiores trabalhos e perseguições de China pela conservação da Cristandade neste Imperio.
Enfim, eles tem com o seu zelo aumentado os cabedais que hoje se conservam nesta terra pertencentes a Sua Magestade; e tudo sem dependência dos governadores dela, nem protecção alguma, mais do que o seu negócio, apesar das Nações Estrangeiras que opor muitas vezes tem intentado contrastar-lhe. (…)
Roga este Senado a V. Exa. Lhe declare a jurisdição que presentemente pertence a este Senado, porque o Governador actual em tudo se tem intrometido e não sabemos o que nos é concedido enquanto Sua Magestade não nos deferir a nossa representação que lhe fazemos para conservação dos nossos privilégios» (6)
(2) Acerca da Fazenda Real – extraído de (7)
(3) “28-07-1784 – São aplicados em Macau as célebres Providências em que o Ministro das Colónias, Martinho de Melo e Castro, por instigação do ex-Governador das Índias, Salema e Saldanha, reformou o poder dos governadores. Entre outros poderes, o Capitão-Geral, ou melhor o Governador, tinha o direito de intervir em todos os negócios concernentes ao bem estar da Colónia, e o de impor o veto sobre qualquer moção senatorial, só com o seu voto. A Guarda Municipal foi então substituída por uma guarnição de cipaios composta de 100 mosqueteiros e 50 artilheiros.
Foi Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o primeiro Governador com estes novos poderes.
O Bispo D. Alexandre de Gouveia, que chegou a Macau nesta data, vinha incumbido duma dupla missão, segundo as «Providências» que D. Maria I enviara a Macau em 4-04-1783, a saber:

  1. Pôr termo às dissenções ocasionadas pela sagração em 1780 do italiano João Damasceno Salusti como Bispo de Pequim e sustentar os direitos do Padroado.
  2. Pôr termo às extorsões e vexações dos mandarins contra Macau e às medidas por eles adoptadas contra a soberania portuguesa e contra a Religião Católica, expressos num arrazoado de 12 articulados, gravados numa pedra do Senado e noutra em Mong Há.

Naturalmente o Senado «que a tudo era superior», (4) ressentiu-se ao ver-se apeado da peanha onde se instalara dois séculos antes e ao receber o epíteto de ignorante. Toda esta bilis extravasava num «memorial da Câmara Municipal» de 5-02-1847, que dizia:
«Em 1784, por efeito de falsas informações, apareceram as funestas Providencias da Corte, datadas de 1783, que introduziram o governador no Senado com voto de tal peso, que empatava o de todo o Senado». (8)
(4) Acerca do poder da Câmara de Macau: Extraído de (7)
(5) Chegou a Macau a 28-07-1784, um batalhão de 150 cipaios que veio da Índia para substituir a guarnição e a polícia de Macau. Passaram a efectuar patrulhamentos e tarefas de protecção da cidade, tomando sobre si a defesa da mesma.
Os cipaios ou sipaios também designados lascarins eram os naturais da Índia recrutados para as forças regulares do exército português,
Sipai, cipai – Soldado indígena disciplinado e fardado quási à europeia, na Índia e África Portuguesa; fâmulo fardado, que acompanha ou faz recados. Do persa sipahi (soldado). O termo aparece registrado a partir de 1728, equivalendo aos mais antigos lascarim e peão. DALGADO, Sebastião Rodolfo. Glossário luso-asiático. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1919-1921.
(6) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau 1954.
(7) “Revista litteraria: periódico de litteratura, philosophia, viagens, sciencias, e bellas-artes” Volume 4, 1839.
(8) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 2. 1997.