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D. Alexandre Pedrosa Guimarães (1) publica uma Pastoral contra o traje feminino usado em Macau desde 1557: “ … He a primeira que as mulheres de qualquer condição, e estado nunca mais tornem a entrar nos templos com condes, que são estes trapos sujos e porcos, que amarrão na testa …”

Senhora macaense (e outras figuras) com saraça e bioco (2) armado Pena sobre papel – Esboço de George Chinnery (1825-1852)

No dia 8 de Abril, o povo de Macau protesta contra esta Pastoral e a 30 de Junho de 1780, os pais e mães de família de Macau, apresentam apresenta ao vigário-geral do Bispado, uma exposição de mais de 100 páginas, cujo resumo, segundo Mons. Teixeira, é o seguinte: (3)

“I. Em Goa as mulheres usam o sari, que se envolve pela cabeça e é diferente do trajo português.

II. Idem, em Diu e Damão.

III. As mulheres usam também os seus trajos tradicionais em Bombaim, Ceilão S. Tomé, Costa de Coromandel e Bengala.

IV. Nos domínios portugueses da América as mulheres envolvem-se numas toalhas, cobrindo a cabeça com um pano.

V. Na Europa, incluindo Lamego, Coimbra e Porto, usam mantilhas. (4)

Este uso é legítimo e necessário:

1.º Por ser denominado conde (5) forrado de papel, fingindo um bró (6) de fronte agudo de altura de três dedos sobre que se amarra um pano branco de três pontas para segurar a tal forma de bró de fronte, e nele se possa segurar o pano ou saraça (7) com uma fita. 2.º Também porque este uso é imemorial de dois para três séculos sem contradição nem ter havido no dito uso escândalo nem ocasião de pecado.

3.º E sim porque o Exmo. Sr. D. Bartolomeu, Bispo (8) que foi desta cidade mais de dez anos e que nela teve geral aprovação por suas pias e virtuosas demonstrações de muita caridade; e com a mesma repartia as mulheres pobres os panos de segurar os denominados condes para que as mesmas pudessem ir às Igrejas gozar os ofícios e Santos Sacramentos.

4.º Logo, porque pela proibição feita por Sr. D. Alexandre, Bispo desta Cidade, se tem seguido escandalosas murmurações, procedimentos irregulares, descomposturas pelos adros das Igrejas, e muitas tem deixado de frequentar os Santos Sacramentos pelo pejo e vergonha de não irem compostas conforme a sua criação (…)” e seguia-se o protesto.

Apesar desta Pastoral, as mulheres continuaram com o seu vestido tradicional, que ainda usavam em meados do século XIX.”

Senhora de Macau com saraça, com o seu criado Pena sobre papel – Esboço de George Chinnery (1825-1852)

(1) D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães (1727-1799) foi eleito Bispo de Macau a 13 de Julho de 1772. Chegou a Macau a 23-08-1774, tomando posse a 04-09-1774. Tomou posse do cargo de Governador e capitão-Geral de Macau, interinamente, a 25-06-1777. Adepto incondicional da política pombalina, e acérrimo inimigo dos jesuítas, deixou de ser governador a 1 de Agosto de 1778, (3) com a queda do Marquês de Pombal, e falecimento do Rei D. José em 1777. https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/d-alexandre-da-silva-pedrosa-guimaraes/

(2) Bioco – Véu, rodeandoo rosto, em forma de coca (do castelhano, espécie de capuz). De tradição mourisca (9)

(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 2015, p. 303.

(4) Mantilha – espécie de manto de seda, ou de outro tecido, com que as mulheres cobrem a cabeça e parte do corpo geralmente até um pouco abaixo da cintura (9)

(5) Condê (do tâmul) – penteado que consiste em repuxar o cabelo e armá-lo em grande nó que se prende na nuca com ganchos geralmente de prata. Em Macau usou-se o termo para designar o pano branco com que se armava e prendia a saraça que servia de véu (9)

(6) Bró – palavra usada no Brasil para designar o penteado feminino constituído por um monte de cabelo repuxado e arrumado no alto da cabeça. (9)

(7) “Da análise do documento em estudo parece poder-se concluir que este nome era atribuído ao véu ou espécie de Mantilha com que as mulheres cobriam a cabeça e o busto. Supomos que, neste caso, se trate, apenas de ambiguidade no uso dos termos uma vez que as mulheres usariam além do baju ou do quimão, duas saraças ou panos-saraças: um para servir de saia e outro para mantilha – iguais, ou muito parecidos, nas dimensões e nos desenhos. Estes panos podiam ser de algodão estampado (provavelmente batik) ou em seda, por vezes bordada ou pintada, trazidas da Índia e, ao que parece, mais tarde também de Manila” (9)

Saraça (do malaio sarásah) – tecido de cor, geralmente de algodão, com que se enrolam da cintura para baixo as malaias e algumas índias cristãs (DALGADO, Sebastião R.  – Glossário Luso-Asiático , 1919, Vol. II, p. 293).

A saraça era um vestido fino de algodão que se usava por cima do baju ou quimão. Nos pés usavam chinelas, pouco dispendiosas, mas, com o manto, seria necessário calçar sapatos com as respectivas fivelas. (3) (9)

(8) D. Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis (1720 – 1799), doutorado em Teologia pela Universidade de Coimbra em 29 de Novembro de 1752, foi nomeado Bispo de Macau, em Dezembro de 1752 (confirmado em 29 de Janeiro de 1753), tendo chegado a Macau e tomado posse em 1754. Durante o seu episcopado, por causa da perseguição promovida pelo Marquês de Pombal e supressão da Companhia de Jesus, em Portugal, os jesuítas foram expulsos de Macau e sequestrados os bens, ficando a Diocese de Macau gravemente prejudicada. O bispo, desgostoso com a expulsão dos jesuítas, partiu para Portugal em 1765. (3)

(9) AMARO, Ana Maria – O Traje da Mulher Macaense, 1989, pp. 124, 181, 183 e 185)

Neste dia de 28 de Maio de 1799, morre em Macau, o capitão de mar-e-guerra Joaquim Carneiro Machado Castelo Branco. (1) A sua sepultura está na capela mor da igreja de S. Agostinho com um lápide em epitáfio latino:

MEMORIAE JOAKHIMI CARNERO MACHADO CASTELLO BRANCO,  DUCIS MARIS % BELLI REGALIUM ARMORUM GOENSIS, PROFESSI     IN  ORDINE  CHRISTI,  QUI,  NATUS  IN  CIVITATE  PORTUENSI, OBIIT   IN   MACAO   DIE   XXVIII   MAII   ANNO   DOMINI   MDCCXCVIII   HANC PETRAM D. C. O. D. R. C. B.                       ANNO MDCCCV

«No ano de 1805, D. R. Castelo Branco ofereceu, dedicou e consagrou esta lápide à memória de Joaquim Carneiro Machado Castelo Branco, capitão-de-mar-e-guerra das armadas reais de Goa, professo na Ordem de Cristo, que, nascido na cidade do Porto, faleceu em Macau no dia 28 de Maio do ano do Senhor de 1799»

O assento de óbito da freguesia de S. Lourenço diz: «Joaquim Carnrº Machado, cazado co D. Josefa Correa, faleceo com todos os Sacramentos, com (Testamtrº Manuel Vicente de Barros) aos 28 de Maio de 1799 annos, e foi sepultado no Convento de Stº Agostinho, e p.ª consto fiz este que assignei (ass.) P. Francisco Jozé António».

Joaquim Machado foi vereador do Senado em 1776; capitão de navios e proprietário do barco “N. Sra. Do Amparo e Almas Santas”, (1782) e da chalupa “Emulação” que faziam o comércio com a Costa de Coromandel, Costa do Malabar e Surrate em 1783. Sua esposa Josefa Correia (nascida da Costa), filha de António José da Costa (foi governador interino de Macau de 1780 até morrer em 1781) e de Antónia Correia (viúva de Nicolau de Fiúmes), faleceu a 25 de Janeiro de 1803. Eles tiveram uma filha: Ana Joaquina Carneiro Machado Castelo-Branco. (2) (3)

(1) p. 332 do «Archivo heraldico-genealogico: contendo notícias historico-heraldicas, genealogias e duas mil quatrocentas e cincoenta e duas cartas de brazão d´armas, das famílias que em Portugal as requereram e obtiveram» de Augusto Romano Sanches de Baena e Farinha de Almeida Sanches de Baena (Visconde de Sanches de Baena), 1872

(2) TEIXEIRA, P. Manuel – A Voz das Pedras de Macau, 1980 p. 62-63

(3) “Ana Joaquina Carneiro Machado Castelo-Branco, casou em S. Lourenço, a 17-12-1793 com António d´Eça d´Almada e Castro, natural de Lisboa. Seus descendentes família Almada e Almada e Castro foram os pioneiros na colónia de Hong Kong, onde deixaram até hoje bom nome” (SILVA, Beatriz Basto da- Cronologia da História de Macau, Volume 2, 1997)