A propósito do temporal / ciclone que se abateu sobre Macau no dia 12 de Julho de 1883, (1) mais três relatórios datados de 14 de Julho de 1883, publicados no «Boletim da Província de Macau e Timor», no suplemento n.º 28 (Vol. XXIX), de 19-07-1883, respectivamente do Administrador (substituto) do Concelho de Macau, F. C. Lobo, do Director das Obras Públicas, Constantino José de Brito, (2)  do administrador do Concelho da Taipa e Colovane, tenente José Correa de Lemos, (3) bem como uma tabela de “Observações meteorológicas feitas no porto interior a bordo da canhoneira Tâmega” durante o cyclone” assinada pelo comandante A. J. Pinto Basto. (4)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/07/12/noticia-de-12-de-julho-de-1883-temporal-ciclone-sobre-macau-i/
(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/constantino-jose-de-brito/
(3)  https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-correia-de-lemos/
(4) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/08/06/leitura-cruzador-s-gabriel-viagem-de-circumna-vegacao/

Passeio à chuva em Coloane

Passeio longamente na colina verde e nas praias de areia
As cortinas de chuva abrem-se e fecham-se de vez em quando
Para apreciar as nuvens brancas refletidas no espelho da água
Desafio a chuva e o vento a atravessar o rio.

 Versos de Liang Beiyun (1907 – 2001) de 1968
Tradução de Wei Ling / Luís Rebelo in (1)

Praia de Hac Sá – Coloane em finais da década de 80 (século XX)

(1) ABREU, António Graça de; JOSÉ, Carlos Morais (coordenadores) – Quinhentos Poemas Chineses. Nova Veja, 2014, 390 p.
Ver anterior referência a este poeta:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/liang-beiyun-
E6%A2%81%E5%8C%97%E4%BA%91/

Mais uma vez se comemorou a passagem duma data inesquecível que revive um dos acontecimentos mais marcantes da história de Macau. (1) No dia 13 de Julho de 1955, na Ilha de Coloane, reuniram—se dezenas de portugueses para relembrarem a façanha daqueles portugueses que, em 1920. Haviam exercido heroica acção contra atrevidos piratas.
A cerimónia nesse dia, feriado no Concelho das Ilhas, foi presidido, em representação do governador, Almirante Joaquim Marques Esparteiro, o Administrador do Concelho das Ilhas e Presidente da Junta Local, Alberto Maria da Conceição.
Pelas 10.30 horas foi celebrada na capela de S. Francisco Xavier uma missa em sufrágio das almas dos heróis que tombaram no campo das operações contra os piratas.
Finda a missa, o Administrador perante as forças vivas ali representadas, depôs um ramalhete de flores junto ao obelisco erigido frente à referida capela, comemorativo das operações de 1910.A guarda de honra ao obelisco foi prestada por uma pequena força policial.
Terminadas as cerimónias oficiais, o Administrador de Concelho das Ilhas obsequiou as individualidades presentes com um delicado «copo de água».
Notícia extraída do artigo, não assinado « Comemoração duma data inesquecível » no «MBI»II-47,1955.
(1) Ver anteriores referências deste acontecimento em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/09/07/leitura-os-piratas-em-coloane-em-1910/ 

Formou-se no Pacífico, no dia 7 de Julho de 1883, atravessou as Filipinas, passando sobre Manila e entrou no Continente perto de Macau, no dia 12 para 13 de Julho de 1883. O temporal por ter levado muito tempo a passar, produziu consideráveis estragos, perderam-se vidas, embarcações, desmoronaram-se casas e os jardins de S. Francisco e Chunambeiro ficaram completamente destruídos. (1) (2)
Velocidade do vento máxima: 110 Km/h
Pressão mínima: 737, 00 mm.
O «Boletim da Província de Macau e Timor», no suplemento n.º 28 (Vol. XXIX), de 19-07-1883, traz vários relatórios dos diversos serviços do território. Hoje apresento o da Capitania do Porto de Macau de 17 de Julho assinado pelo 2.º tenente, Demétrio Cinatti (3).(1) NATÁRIO, Agostinho Pereira – Tufões que assolaram Macau, 1957.
(2) “12-07-1883 – Grande tufão assolou a cidade de Macau. O tufão desta data danificou muito o edifício que tem servido de quartel ao destacamento da Taipa” (SILVA, Beatriz Basto da Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.)
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/demetrio-cinatti/

Em princípios de 1854, andava na costa da China nas imediações da cidade de Neng-Pó (Ningbo-寧波) (1) onde tinha a sua base, um pirata chamado Apak, que gozava de impunidade absoluta pois os mandarins nada podiam (ou não queriam pois toleravam a situação mediante a irresistível peita) fazer perante uma esquadra constituída por um junco Haipó (barco caranguejo) de grandes dimensões, armado com 32 peças (2) e por outras seis velozes taumões (T´au mang – cabeça violenta – barco com 3 mastros para transporte de carga) mais pequenos e tripulados por aguerridos piratas. A esquadra surpreendia desprevenidamente no alto mar e longe da terra os juncos mercantes cumulados de valiosas fazendas ou aqueles como as lorchas mercantes portuguesas de Macau que transportavam carregamentos mais preciosos.
Para evitar os constantes ataques e pilhagens com prejuízos à navegação e ao comércio de Macau, o Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães mandou a corveta D. João I, (3) partir de Macau, em 14 de Maio de 1854, com destino ao porto de Neng Pó, fazendo escala por Hong Kong e Amoy. Entrou em Hong Kong no dia seguinte e largou a 17 para Amoy.
Fundeou diante da cidade de Neng Pó a 22 de Junho. Dois dias depois da chegada, o comandante e os restantes oficiais envergando uniforme de gala apresentaram cumprimentos ao Tau-tai (mandarim de Neng Pó), visita que foi retribuída, no dia 28 sendo, nessa ocasião, a autoridade chinesa saudada, tanto à entrada como a saída da corveta, com uma salva de três tiros, de conformidade com a pragmática do país.
E quatro dias mais tarde, tiveram início as negociações com as autoridades locais (acompanhava a delegação macaense, o sinólogo macaense João Rodrigues Gonçalves) pois a missão do comandante Craveiro Lopes era exigir das autoridades competentes uma satisfação oficial e se possível uma adequada indemnização pecuniária pelos danos causados ao comércio português, negociações essas que falharam quanto à indemnização pedida.
A 6 de Julho, a corveta fundeou na boca de um afluente do rio Iông (4), entre Neng Pó e Com-Po, onde estavam os barcos dos piratas, alinhados junto à terra. Juntou-se à corveta, dezanove lorchas de Macau que já se encontravam em Neng Po.
Ao amanhecer do dia 10 um taumão tentou evadir-se saindo do rio sendo impedido. Pelas 9.00 hora tendo recebido um oficio do vice-cônsul inglês, que foi informado pelo da decisão portuguesa de responder a qualquer represália,  o comandante da corveta capitão-de-fragata Carlos Craveiro Lopes (5) reuniu o conselho de oficiais, ficando resolvido fazer-se fogo contra os barcos piratas, no caso deles continuarem a não obedecer às suas intimações. Pelas 11 horas silvou uma bala por entre os mastros da corveta, tendo Craveiro Lopes içado a bandeira nacional no tope do mastro da gata da corveta – sinal combinado com as 19 lorchas para romper o fogo – e consequentemente lançaram ferro e fogo sobre os taumões estabelecendo o pânico entre os piratas que abandonaram precipitamente os seus barcos, deixando além dos estragos, os mortos e feridos. As equipagens da corveta e das lorchas devidamente armadas, não perderam tempo em se meterem nos seus escaleres, para se lançarem à abordagem dos taumões que se encontravam sem viva alma mas atestados de riquíssimo despojos – uma enorme quantidade e variedade de armas brancas e de fogo, caixas de bolas de ópio, riquíssimas cabaias de delicadíssimo brocado, muito delas bordadas a primor, figuras de marfim, barro e madeira, charões, vasos, porcelana, (“sendo tudo escaqueirado”, segundo Padre Teixeira). A artilharia foi recolhida a bordo da corveta, excepto aquela que era demasiado grande e pesada, que foi lançado ao mar.
Seis dos juncos dos piratas encontravam-se em mau estado pelo que Craveiro Lopes resolveu mandá-los afundar no próprio local depois de terem sido inutilizadas as peças A este combate puseram os marinheiros portugueses o nome de «combate das cabaias»
As negociações com as autoridades chinesas continuaram até finais de Julho, acabando aquela por satisfazer toas as exigências incluindo o pagamento de uma indeminização de 3 000 pesos. No dia 11 de Agosto foram afixados editais por parte do Governo da China e do Cônsul Português em Neng Po, Francisco Marques, com as declarações que a questão com os portugueses se achava terminada e que entre as duas Nações continuavam a existir as antigas relações de comércio e amizade.
Todos os membros da guarnição na corveta tiveram direito ao seguinte averbamento nas suas notas de assentamento «Ataque e aprisionamento pela corveta D. João I das forças navais do pirata Apak, no rio Yung-Kiong, em 10 de Julho de 1854»
(1) Neng Pó ou Ning Pó actual Ningbo (寧波) (Meng-Tchau como era conhecida na dinastia Meng) e o Porto de Neng Po, (Port of Ningbo-Zhoushan 宁波舟山港) ficam na Província de Zhejiang (Chekiam / Tchit-Kóng), no norte da China. Para o norte, a baía de Hangzhou separa Ningbo de Xangai; a leste fica Zhoushan no Mar da China Oriental; no oeste e no sul, Ningbo faz fronteira com Shaoxing e Taizhou, respectivamente.
A cidade de Ningpo foi identificada, erradamente, como a famosa Liampó citada por Fernão Mendes Pinto e João de Barros No entanto, hoje, segundo investigadores, identifica Liampó com a actual Zhenhai (鎮海 – Tchân-Hói), na embocadura do rio Iông (Yung) – um distrito municipal em Ningpo.
Ver:
https://en.wikipedia.org/wiki/Ningbo
https://en.wikipedia.org/wiki/Zhenhai_District
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/11/04/noticia-de-4-de-novembro-de-1843-conferencia-luso-chinesa-em-cantao/
(2) Algumas das peças faziam parte do armamento da malograda fragata D. Maria II, que no dia 19 de Outubro de 1850, teve uma explosão na Ilha da Taipa.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fragata-d-maria-ii/
(3) A corveta D. João I largou de Lisboa a 6 de Outubro de 1853 sob o comando do capitão-de-fragata Carlos Craveiro Lopes para a segunda comissão na estação naval de Macau, fazendo escala pelo Cabo de Boa Esperança e Timor. Veio como imediato do navio o 1.º tenente Joaquim de Fraga Pery de Linde e faziam quartos os tenentes Zeferino Teixeira, João António da Silva Costa, José Maria da Fonseca e João Eduardo Scarnichia. O médico era Faustino José Cabral.
Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/04/20/leitura-a-corveta-d-joao-i-e-o-ultramar-portugues/
4) Rio Yong – 甬江, um dos principais rios da China localizado em Ningbo. Formado pela convergência de dois rios rio Fenghua e rio Yao.
(5) Carlos Craveiro Lopes (1807 – 1865) militar português.. Ver biografia em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Craveiro_Lopes
Informações recolhidas de
GOMES, Luís Gonzaga – Páginas da História de Macau, 2010.
MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vol VIII (1808-1975), 1997, pp 109-110.
TEIXEIRA, Mons. Manuel – Marinheiros Ilustres Relacionados com Macau, 1988, p.91.

Mais dois postais de calendários publicitários antigos de Cantão, Hong Kong e Macau, série “ANOS DE OURO” (10 postais), editados pela Câmara Municipal das Ilhas Provisória de Macau. (1)
Calendários possivelmente dos anos 30 do século XX, com publicidade a um medicamento chinês que apareceu em 1938 e que continua à venda actualmente. (2)
O medicamento 鹧鸪菜 (3) conforme o rótulo actual é indicado como “Dietary Herbal Supplement”, que pode ser dado às crianças.
(1) Ver anteriores postais desta colecção:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/12/postal-de-calendario-publicitario-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/05/postal-de-calendarios-publicitarios-ii/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/07/02/postal-de-calendarios-publicitarios-iii/
(2) Ver vendas on line por exemplo em:
http://www.ppshk.net/a/shops/2015/0331/261.html
https://item.jd.hk/1974688891.html
鹧 鸪 菜mandarin pīnyīn: zhè gū cài; cantonense jyutping: ze3 gu1 coi3.
鹧 鸪 zhè gū  – Perdiz (Francolinus chinensis); cài – prato, comida — comida de perdiz?

A paróquia de São Lázaro celebra hoje, a Festa de São Roque, com missa solene às 9 horas e 30, seguindo-se a procissão em devoção do “Santo Padroeiro contra a Peste”.(1)  O cortejo religioso vai percorrer algumas artérias do bairro de São Lázaro, tais como a Rua do Volong, Rua de São Miguel, Rua de São Roque e Rua Nova de São Lázaro. (2) (3)
A Festa e procissão de São Roque é tradicionalmente celebrada a 17 de Agosto, mas em Macau é sempre realizada no segundo Domingo de Julho, por causa de uma “epidemia” ocorrida em finais do século XIX. (4) Na altura, a população solicitou intervenção divina para o fim da “epidemia”, e como as doenças desapareceram, cumprindo a promessa a S. Roque, a população passou a realizar a sua festa em Julho.
(1) São Roque é o protector dos leprosos e padroeiro dos inválidos e de profissões ligadas à medicina.
(2) http://www.oclarim.com.mo/local/sao-roque-celebrado-a-8-de-julho/#more-13061
(3) A procissão em honra deste Santo só foi retomada na paróquia de S. Lázaro em 2008 (a última tinha sido em 1966), devido ao surto nesse ano, em Macau, da Síndrome Respiratória Aguda.
(4) A data é incerta, o mesmo jornal “O Clarim” (2) refere a data de 1889 mas consultando as várias fontes sobre efemérides relacionadas com Macau, não encontrei qualquer referência a enfermidades com relevância no ano de 1889.
Provavelmente estará mais relacionada com o ano de 1882 em que faz referência à preocupação das entidades oficiais face ao aumento progressivo dos “leprosos” e à dificuldade em alojá-los, (5) (6) bem como dos muitos focos de infecção nos depósitos de lixo, e valetas nas hortas do “Volong” e da «Mitra» (7), na freguesia de S. Lázaro.
(5) “6-07-1882 – Relatório do Administrador do Concelho das Ilhas, tenente José Correia de Lemos revela que o número de leprosos em Pac Sa Lan, na Ilha de D. João, é de 40 homens solteiros e 7 casados (sem as mulheres). As mulheres leprosas são 18 e foram admitidas já com a doença; 2 são casadas mas não estão com os maridos, 11 são solteiras, 5 são viúvas e 4 destas entraram já viúvas, trazendo consigo duas filhas menores. É-lhes proibida coabitação, mas é «impossível evitar que tenham correspondência». Os lázaros cultivam uma várzea para sua ocupação e sobrevivência. (8) (9)
10-07-1882O Administrador pede licença para mandar fazer 64 mudas de roupa de verão para os lázaros.É evidente o zelo, e a frequência dos contactos de acompanhamento. (8)
28-07-1882É regulada a admissão de lázaros no depósito de Pac Sa Lan, e determinadas medidas com respeito aos encontrados nas ruas. Determinado que o depósito destinado a indivíduo do sexo masculino seja completamente separado dos das mulheres. (8)
Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII-30 de 29 de Julho de 1882, pp. 254-255.
(6) “06-03-1884Ofício do Administrador ao Governo sugerindo Ká Hó para instalação da leprosaria e não a Ilha da Taipa. (8)
20-01-1885O Hospício para Lázaros, em Ka- Hó, depois de muita resistência e de alterações várias quanto à escolha do local, quer em Macau (D. Maria, Porta do Cerco) quer na Taipa e depois em Coloane, foi entregue pronto nesta data, com guarda e zona circundante delimitada. O apetrechamento só ficará completo em Maio deste ano.” (7)
(7) O secretário geral do Governo em 15 de Julho de 1882 (na ausência do Governador) J. A. Corte Real chamava a atenção do Presidente da Camara e administrador do concelho dos administradores de concelho e director das obras públicas para os focos de infecção por muitos e antigos depósitos de lixo, para a necessidade de limpeza e desobstrução de canos e valetas nas hortas do “Volong” e da «Mitra» e outros pontos de forma que se vão melhorando consideravelmente as condições hygienicas da cidade» e «reclamando por isso medidas extraordinárias, que colocando-os em condições materiaes regulares, possam remover-se os casebres , monturos e permanentes fôcos de infecção, que d´outra fôrma será impossível evitar»
(Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII- 28 de 15 de Julho de 1882, p. 238/239)
(7) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3.
(8) TEIXEIRA, P. Manuel – Taipa e Coloane, 1981, p.117 e 119.
Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII-30 de 29 de Julho de 1882, pp. 254-255