O diário britânico The Guardian publica uma notícia que revela que as autoridades portuguesas mantiveram sigilo sobre o macabro achado de quatro corpos decapitados, aparentemente de agentes sul-coreanos em Agosto de 1986, na Ilha de Coloane. Segundo o diário londrino, as autoridades portuguesas acreditam que se trata de um ajuste de contas entre agentes dos serviços de informações das duas Coreias e que quem avisou as autoridades policiais portuguesas da ocorrência do incidente foram agentes dos serviços de informações da Correia do Norte.”
FERNANDES, Moisés Silva – Sinopse de Macau nas Relações Luso-Chinesas 1945-1995 Cronologia e Documentos, 2000. (p. 430)
NOTA: Como responsável do Serviço de Medicina Legal do Hospital Central Conde de S, Januário, para onde eram transferidos todos os corpos não identificados ou aqueles que resultaram de homicídio, suicídio ou acidente (autos da Polícia Judiciária), posso afirmar que no mês de Abril de 1987, não deu entrada no serviço “corpos decapitados” pelo que oficialmente não houve processo legal aberto. Somente constou-se na altura o “boato” do aparecimento de corpos mutilados na praia de Coloane. Aliás, esses boatos eram frequentes em Macau desde o período da Revolução Cultural na China, quando eram frequentes encontrarem-se corpos de chineses, nas águas de Macau nomeadamente na ilha de Coloane. Constava-se que muitos deles eram enterrados pertos das praias sem mais formalidades. Penso que neste caso, a ser verdade, terão as entidades oficiais “desembaraçados” dos corpos por razões diplomáticas.

 

No dia 14 de Abril de 1979, foi inaugurado no átrio da Escola Comercial «Pedro Nolasco», a primeira galeria de pintura dos artistas macaenses António José Júlio César Guerreiro, José Armando Lau do Rosário, Luís Ribeiro Coutinho, Rafael Augusto César Guerreiro e Gaspar dos Remédios.

No acto da inauguração

A exposição que reuniu ceca de uma centena de óleos e aguarelas, foi inaugurada pelo Director do Centro de Informação e Turismo, substituto, A. Mendes Liz.
Foi muito concorrida e esteve patente ao público até às 22 horas do dia 17 de Abril.

Pormenor da visita à galeria

Extraído de «M. B. I. T.»  XIV-3-4, 1979..

A 13 de Abril de 1987, na presença de Deng Xiaoping e Li Xiannian, reuniam-se no salão nobre do Palácio do Povo, em Pequim, os primeiros- ministros Aníbal Cavaco Silva e Zhao Ziyang para a assinatura da Declaração Conjunta Luso- Chinesa que ditaria os termos da transferência da soberania de Macau entre Portugal e a China. Os responsáveis pelos governos da República Portuguesa e da República Popular da China terminavam, deste modo, quase um ano de negociações entre Pequim e Lisboa.
Entre as 50 personalidades de Macau e Hong Kong convidadas pelo governo chinês para estarem presentes na cerimónia, apenas duas são macaenses_ Carlos d´Assumpção, presidente da Assembleia Legislativa e Henrique de Senna e Fernandes, advogado e escritor

Assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, no salão nobre do Palácio do Povo, em Pequim.

Com início a 18 de Março de 1987 e terminando a 23, teve lugar em Pequim, a quarta e última reunião plenária luso-chinesa sobre Macau, sendo as delegações chefiadas por Zho Nan e Rui Medina e no dia 26 de Março é rubricado o texto da Declaração, em Pequim, pelo vice-ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Zhou Nan, e pelo chefe da delegação portuguesa às negociações, Rui Medina.
Na mesma data, a agência noticiosa Nova China, Xinhua She divulgava o texto do documento. Salientava os seguintes:
– Até 1999, Macau manterá o seu estatuto de Território chinês sob Administração Portuguesa.
– Em 20 de Dezembro de 1999, nascerá a Região Administrativa Especial de Macau, da República Popular da China. Será regida por uma Lei Básica que cobrirá todas as políticas e garantias fundamentais consagradas na Declaração Conjunta Luso-Chinesa, e que serão mantidas inalteráveis por um período de cinquenta anos.
De 11 a 17 de Abril, o primeiro-ministro português Cavaco Silva visita oficialmente a China, fazendo-se acompanhar pelo ministro dos Negócios estrangeiros, Pires de Miranda. No dia 12 teve um encontro com Zhao Ziyang. Em Pequim visita o Cemitério de Chala. De 15 a 17 Cavaco Silva e comitiva, acompanhados por Zheng Toubin, ministro chinês das Relações Económicas e Comerciais Externas, realizaram uma digressão pelas cidades de Xian, Shanghai, Fuzhou, Guangzhou e Zhuhai.
Após esta visita, o primeiro-ministro Cavaco Silva realizou uma visita oficial a Macau de 17 a 20 de Abril, a primeira de um chefe de Governo em exercício de funções.
Informações recolhidas de FERNANDES, Moisés Silva – Sinopse de Macau nas Relações Luso-Chinesas 1945-1995 Cronologia e Documentos, 2000. (pp. 429 e 430)

Luís Gonzaga Gomes (1) apresenta a sua tradução dos 18 exemplos da Piedade Filial do “Clássico da Piedade Filial” (2) e dos “24 Exemplos da Piedade Filial” (3)
A cada exemplo o autor acrescentou a tradução de uma quadra pentâmetra de desconhecido autor e tal como aparece em certas edições chinesas.
PREFÁCIO
“Na China antiga, poucas eram as obras que podiam rivalizar em popularidade com o “Clássico da Piedade Filial” e, não gozava de menos estima dos leitores nativos, uma outra obra referente ao mesmo assunto, intitulada os “Vinte e Quatro Exemplos da Piedade Filial”.
Assim como se não é possível encontrar nas outras línguas têrmo que exprima o exacto significado da nossa palavra saudade também se não é possível abranger, em língua europeia, numa só palavra, a idea de todos os sentimentos e obrigações inerentes ao vocábulo háu (4) que os mais autorizados sinólogos convieram em traduzir por piedade filial.
Esta piedade não exprime nem dó, nem pena, nem tão pouco o amor às cousas religiosas, mas a devoção do filho para com os seus progenitores no sentido de veneração, à qual estão ligados os sentimentos de profundo respeito, de íntima dedicação, de acendrado afecto, de cega obediência, de completa submissão e de um amor capaz de o levar a sacrifícios dos mais estoicos como o de se oferecer para ser executado no lugar dum pai condenado à pena capital, ou o de talhar pedaços da carne do seu próprio corpo para, depois de cozinhados, serem ingeridos por um pai ou uma mai que se encontre doente e em perigo de vida.”

Exemplar que acusa algum uso, com rasgões (com fita-cola) e perda de papel  na capa

(1) GOMES, L. G. – A Piedade Filial. Macau 1944,39 p., 25,8 cm x 18,5 cm.
Sobre Luís G. Gomes há muita informação disponível na net. No meu blogue ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/luis-gonzaga-gomes/
(2) “Atribuído a Tchâng Tch´ám曾参 (505-437 A. C.) (5) um dos mais célebres discípulos de Confúcio. Julga-se também ter sido ele quem redigiu o Tái – Hók 大學 (O Grande Estudo), o segundo da mais importante obra da literatura chinesa conhecida por Si-Su 四書 (Os Quatro Livros). O texto do “Clássico da Piedade Filial” conseguiu chegar até aos nossos dias, graças ao imperador Mêng Uóng 明 皇 (685-762 A. D.) (6) que curou de o mandar gravar em lápides de pedra, na sua capital, em Tch´eong-On, 長 安 situada na actual província de Sán-Sâi 山西 (Shansi), (7) conjuntamente com um comentário da sua autoria, bem como mais onze escritos atribuídos a Confúcio. É desse valioso comentário que os parafrastes posteriores se têm socorrido para elaborarem os seus estudos sobre as passagens mais obscuras.
O preclaro imperador Hóng Hêi (1662-1723 A. D.) (8), dinastia Tch´êng, considerava tão importante a doutrina expendida no “Clássico da Piedade Filial” que fêz publicar um comentário seu à obra. (Prefácio do livro) (1)
(3) “Vinte e Quatro Exemplos da Piedade Filial”  é obra anónima, talvez escrita  durante a dinastia Mêng 明 (1368-1644 A. D.). (9) “Não é destituída de interesse, pois prende pela sua concisa exposição derivada da própria índole do terso estilo arcaico em que se encontra escrito e pela ingenuidade dos exemplos escolhidos. Esta obra é constituída por uma colecção de modelares actos de piedade filial praticados +pelas grandes celebridades que viveram nas remotas dinastias de Tch´âu, Tchân, Hón, T´õng e Sông.“ (Prefácio do livro) (1)
(4)  mandarim pīnyīn: xiào; cantonense jyutping: haau3
Zeng Shen , também conhecido como Zengzi, Mestre Zeng Tsang, Tsengtzu,, Tseng Tsu,

(5) Nascido Zeng Shen – 曾参 depois conhecido como Zengzi (Tsang) 曾子 (505-437 ou 436 A. C). Filósofo e um dos discípulos de Confúcio

 

 

Tang Xuanzong  – 唐玄宗 – Imperador da dinastia Tang

(6) Imperador Xuanzong de Tang (685- 762), também conhecido como Imperador Ming    明 皇. Reinado: Setembro de 713 – 756.
明 皇 – mandarim pīnyīn: míng huáng; cantonense jyutping: ming4 wong4
(7) Shanxi  – 山西; Hoje com a romanização em piyin Shānxī 陝西, 陕西
長 安 – mandarim pīnyīn: cháng ān; cantonense jyutping: coeng4 on1
Changan foi a capital de mais de dez dinastias na China, tendo sido uma das cidades mais populosas do mundo. Na dinastia Ming, o nome da cidade foi mudado para Xian, nome actual da cidad., capital da Província de Shaanxi/ Shānxī 陝西 – mandarim pīnyīn: shǎn xī; cantonense jyutping: sim2 sai1
(8) 康熙皇帝 Imperador Kangxi (1654 – 1722). Reinado: 1661 a 1722, 4.º imperador da dinastia Qing.
康熙皇帝 – mandarim pīnyīn: kāng xī huáng dì; cantonense jyutping: hong1 hei1 wong4 dai3
(9) 明朝, – Dinastia Mingmandarim pīnyīn: míng cháo; cantonense jyutping: ming4 ciu4
Sobre Luís Gonzaga Gomes e este seu trabalho, retiro do prefácio do trabalho académico de Maria Antónia Espadinha, o seguinte:
“Este é um dos mais importantes princípios de acordo com os quais os chineses orientam as suas vidas. Luís Gonzaga Gomes menciona pormenorizadamente a fundamentação destes preceitos no Lai Kei, código da pragmática chinesa, do qual cita: ‘há três mil faltas sobre as quais se podem aplicar as cinco penas capitais, porém, nenhuma excede em gravidade a da ausência do amor filial”. A prática destes deveres é também recomendada expressamente por Confúcio, e a leitura do Clássico da Piedade Filial9 é recorrente na formação dos jovens chineses. O culto dos antepassados, que os chineses prezam e observam, é também uma prática ligada à Piedade Filial. Luís Gonzaga Gomes cita, a propósito Mêncio, que dizia: ”se todos os homens estimassem os seus progenitores e respeitassem os seus superiores, o mundo viveria em sossego” e cita, do Lai Kei: “o nosso corpo foi-nos legado pelos nossos pais, atrever-se-á, portanto, alguém a ser irreverente no emprego de uma dádiva tão preciosa?”. Neste capítulo, Luís Gonzaga Gomes apresenta uma profunda reflexão sobre os vários aspectos da Piedade Filial.”
ESPADINHA, Maria Antónia – Tradições, mitos e costumes chineses na literatura de Macau em Língua portuguesa in DE Portugal a Macau – Filosofia e Literatura no Diálogo das Culturas. Universidade do Porto, 2017. ISBN: 978‐989‐99966‐9‐4
https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15990.pdf
NOTA. Sugiro visualização duma anterior postagem sobre este tema:
Amplificação do Santo Decreto do Imperador Yongzhzeng, edição fac-similada da versão portuguesa e organização de Pedro Nolasco da Silva. Prefácio de António Aresta, Fundação Macau, 1995, 145 p., 26,5 cm x 18,5 cm x 1 cm, ISBN: 972-8147-47-3
Imperador Yongzheng  雍正帝 (1678-1735) Reinado: 1723 a 1735 –  mandarim pinyin: yōngzhèngdì; cantonense jyutping: jung1 zeng3 dai3.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/02/19/leitura-amplifica-cao-do-santo-decreto/

«A vida da comunidade estrangeira de Macau passava-se entre danças, saraus, jantares, chás e passeios.
– Hoje tu, amanhã eu e a roda ia rolando …
Desta vez coube a vez à família Low e Harriet não se poupou a esforços para que tudo corresse bem.
11 de Abril de 1831 – Ocupada como uma abelha todo o dia, fazendo preparativos para o nosso sarau. Tirei tudo do meu quarto para o transformar numa sala de jantar, pois dá para sala de visitas e é magnífico. Dispus tudo com elegância e boa ordem, mas estava bastante cansada antes de chegarem os convidados.
Não importa; pois, apesar de tudo, devo dançar toda a noite.
*As 8 horas estávamos todas ataviadas e prontas. A tia Low vestia gaze da China sobre cetim branco, com um fino crepe cor de rosa sobre branco e a minha crepe azul cetim branco.
Adornámos o cabelo com flores naturais que alguns jovens nos enviaram para este fim.
Ibar foi o mestre de cerimónias. (1) Ele disse que se não sentia bem, mas que, para honra da Espanha, ele faria o melhor possível, e realmente ele conseguiu que tudo saísse muito agradavelmente. Tivemos ao piano Mrs. Daniell e Mr & Mrs P. (2) tocaram e cantaram lindamente aos intervalos. Houve também guitarrada e quatro músicos portugueses e nós dançámos ao som das suas rabecas.
Eu dancei em cada um das danças e quando o sarau terminou à 1.30, eu poderia ter dançado ainda muito mais. Estava justamente bastante excitada para me lembrar da fadiga.
Tivemos um belo jantar e tudo com estilo, asseguro-te eu. Reuniram-se cerca de quarenta e quatro pessoas americanas, inglesas, espanholas, portugueses, franceses, suecas, escocesas e não sei que mais.
Harriet Low em 1833. Pintura de George ChinneryConseguimos que o escocês dançasse “ à escocesa” e eu tomei parte nesta dança”… »

Harriet Low em 1833. Pintura de George Chinnery

(1) Ibar era o professor de espanhol de Harriet Low.
(2) Segundo Padre Teixeira, Mr & Mrs P que tocavam e cantavam muito bem seriam Sr. e Sra Pereira, uma das poucas famílias portuguesa com quem Harriett Low mantinha relações.
Extraído de TEIXEIRA, Padre Manuel – Macau no Séc. XIX visto por uma jovem americana. D.S.E.C., 1981.
Anteriores referências de Harriet Low em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/harriet-low/

No dia 10 de Abril de 1988, organizado pelo Instituto Cultural de Macau, no Teatro D. Pedro V, foi exibido o filme português “O Bobo”, do realizador José Álvaro Morais. Um argumento com base na obra homónima de Alexandre Herculano, que já participara em diversos festivais internacionais e, dias antes, fora exibido no International Film Festival, em Hong Kong. A projecção seguiu-se um debate entre o cineasta e os espectadores. (1)O filme “O Bobo” que se estreou em 1987, mas que por dificuldade de produção, se prolongou por uma década para o terminar, é dirigido por José Álvaro Morais (falecido em 2004), (2) com argumento de Rafael Godinho, baseado na obra de Alexandre Herculano.
Actores:: Fernando Heitor, Paula Guedes, Luís Lucas.
Foi o primeiro filme português a arrecadar o prémio principal de um festival internacional de lista A (Locarno International Film Festival), arrecadando o Prémio do Júri em Locarno., em 1987.
O projecto inicial deste filme, uma adaptação de O Bobo de Alexandre Herculano, tornou-se, com o tempo, uma reflexão sobre a obra literária e a sua representação contemporânea. O filme é fascinante, porque reflecte, na sua construção, a passagem do tempo (acossado por inúmeras dificuldades de produção, o processo de feitura do filme foi longuíssimo) e as transformações da sociedade portuguesa nos anos a seguir ao 25 de Abril de 1974. Um filme fundamental na cinematografia portuguesa dos últimos 30 anos” (Texto: Cinemateca Portuguesa)
(1) Informação de «Revista de Cultura» N.º5 – Abril/Maio/Junho 1988, Instituto Cultural de Macau
(2) Biografia disponível em:
http://www.cineclubejoane.org/infofilmes/Todo%20o%20Jose%20ALVARO%20MORAIS.pdf

Henrique de Senna Fernandes nas suas memórias de Macau de 1934 descritas nos artigos “Cinema em Macau” , recordava:
A Primavera de 1934 foi assinalada por um acontecimento de máximo relevo para a vida desportiva de Macau – a vinda do famoso team de hóquei da Malaia, considerado o melhor do Extremo Oriente e, na sua modalidade, um dos melhores do mundo. A notícia foi acolhida com natural alvoroço e enorme expectativa e, durante semanas, não se falou doutra coisa. Era nos clubes, na rua, nos adros das igrejas, ao Domingo, e na mesa, quando a família se reunia para as sacramentais refeições.
A estadia dos malaios em Hong-Kong nos primeiros dias de Abril foi coroada de duas vitórias para a equipa visitante. Um grupo civil foi vencido por 3-2 e a selecção de Hong-Kong sofrera uma pesada derrota por 4-2. Como se ia portar o Macau Hóquei Clube, perante a incontestável força dos malaios, era pergunta que pairava em todas as bocas. Em 9 de Abril, realizou-se o grande jogo Macau-Malaia, no campo de Tap Seac, perante cinco mil espectadores, número que julgamos nunca mais ter sido excedido. A população portuguesa de Macau concentrou-se em peso, para apoiar os seus rapazes, vendo-se no campo pessoas que normalmente mal saíam das suas casas. Antes do jogo, reparou-se que os membros da equipa macaense não tinham a constituição física dos malaios, mas marcavam pela sua juventude e confiança.
Logo no início do jogo, se notou que as equipas se igualavam, embora os malaios se mostrassem mais experientes. Foi um certame inesquecível para todos quantos o presenciaram. Se alguma vez o hóquei atingiu as alturas de verdadeira arte foi naquele dia, num jogo intenso de vibração de alma, uma mistura de elegância e de virilidade, em todos, de parte a parte, havendo a determinação de vencer.
Macau perdeu por uma bola a zero, mas a vitória da Malaia não foi líquida, deixando dúvidas. É que o árbitro malaio anulou dois goals nossos, o último dos quais, segundo a maioria esmagadora dos espectadores e o consenso dos nossos jogadores, fora absolutamente limpo. Não foi de admirar a reacção hostil de um sector dos espectadores no fim do jogo contra o árbitro. Um empate teria sido mais justo, pela forma como ambas as equipas jogaram.
Do desafio, transcrevemos parte do artigo de Adelino da Conceição, em “A Voz de Macau” de 10 de Abril:
“Como jogo e como espectáculo não encontro positivamente termos nem adjectivos para o classificar.
Inventem os leitores os adjectivos que quiserem, compulsem livros e dicionários, que todos os termos encomiásticos podem ser justamente aplicados àquele espectáculo inolvidável.
Jamais Macau registou, nos anais da sua vida desportiva, um triunfo semelhante. É o triunfo do desporto, da mocidade, da vida, do movimento e da cultura do corpo. Fosse Macau uma terra maior, eu faria uma descrição o mais possivelmente circunstanciada do jogo. Mas julgo desnecessário. Todo o Macau hoquista esteve no campo, todos viram e vibraram inteiramente com o espectáculo que não hesito em classificar o mais belo que tenho visto.
A impressão de beleza inesquecível ficou gravada no espírito do público e dos jogadores. Esta é, igualmente, a que está gravada no meu”.
O team de Macau, o que classificamos de “linha de ouro” do hóquei de Macau, isto sem desdouro para outros grandes hoquistas que mais tarde surgiram, era constituído pelos seguintes componentes que enumeramos do guarda-redes ao ponta esquerda:
César Capitulé (Almada); Jacinto Rodrigues e Manuel Pinto Cardoso; Lino Ferreira, João dos Santos Ferreira e Alexandre Airosa (Chane); Frederico Nolasco da Silva, Fernando Ramalho, Pedro Ângelo, Rui Hugo do Rosário, Amílcar Ângelo.
O desporto local viveu uma das horas mais brilhantes da sua existência com este desafio ímpar.
FERNANDES, Henrique de Senna  – Cinema em Macau (1932-1936). Revista de Cultura N.º 23 (II Série) Abril/ Junho 1995. Instituto Cultural de Macau, pp. 133-170.