Archives for category: Usos e Costumes

Macau e o milagre das sete colinas», conferência dada por Manuel Pimentel Bastos (1), no dia 30 de Abril de 1952, no Instituto Superior do Ultramar, sob a presidência do seu Director, o Professor António Mendes Correia, e posteriormente publicada na revista «Mosaico» (2)

Um dos trechos desta conferência (p. 449) :

“Qualquer observador que se proponha estudar os chineses, mesmo que procure andar com os olhos abertos o mais possível e os sentidos todos no máximo de acuidade pode, facilmente cair nos erros mais grosseiros, quando julgue estar na pista de uma brilhante descoberta. Assim, um dia em que eu entrei numa associação chinesa de Macau, onde se realizava um comício público, vi um chinês, arengando do alto do tablado um discurso, certamente empolgante, mas de que nada percebi. Notei, porém que, ao contrário do que geralmente se observava, ele gesticulava exuberantemente enquanto dava largas à sua verbosidade. Tendo feito notar o facto a um amigo chinês que me acompanhava, insinuei que, afinal, não eram só os ocidentais que tinham o hábito de falar com as mãos, como se dizia. Obtive, porém, a explicação do fenómeno, não sem ter visto deslisar pelos lábios do meu companheiro um sorriso malicioso.

É que o orador era do Norte da China (talvez Pequim) e o seu dialecto era (suponho que o “mandarim”) totalmente diferente do dialecto do chinês de Macau, que é o “cantonense”. Assim, ele, que falava com dificuldade o dialecto local, quando não sabia dizer uma palavra em cantonense, não se detinha, e “escrevia-a” no ar, desenhando o símbolo gráfico que a representava, posta que a grafia é igual para todos os dialectos da China. Era que se pode dizer, um discurso mais para ser visto do que para ser ouvido. …”

(2) «Mosaico», IV-21 e 22 de Maio e Junho de 1952, pp.443-462

LÓK SÔI TCHU LÔNG落水猪籠GAIOLA DE PORCOS POR ONDE ENTRA A ÁGUA DA CHUVA

“Na China antiga, os porcos eram enviados dum sítio para outro em gaiolas tecidas com fibras de bambu e do tamanho aproximadamente exacto dos porcos que ficam dentro delas e quase sem podem fazer nenhum movimento. Quando chove os porcos ficam completamente encharcados porque a chuva enta por todas as malhas que são bastantes grandes.

Ora este termo emprega-se par se referir aos felizardos que exercem vários empregos e que por terem várias entradas recebem dinheiro por todos os lados.”(1)

Macao, Pig Market”, postal da série “MACAU POST CARD” (2)

落水猪籠mandarim pīnyīn: luò shuǐ zhū lóng; cantonense jyutping: lok6 seoi2 zyu1 lung4

(1) GOMES, Luís Gonzaga in «Mosaico», IV- 21/22,MAI/JUN p. 470, 1952.

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/19/postal-antigo-macau-do-seculo-xix-iii-mercado-do-porco/

 TCHI-MÁ-U – 芝蔴糊 (1) – Papa de gergelim


Os chineses (e também os macaenses) são grandes apreciadores desta papa adocicada de côr negra. O termo é empregado para se referir a uma rapariga morena mas bonita

TCHI-KU-LÁT-PU-TIN 朱古力布甸  (3) – Pudim de chocolate

Os chineses já se encontram hoje habituados à culinária e aos doces europeus, que lhes são servidos em todos os restaurantes. O termo em questão é empregado para se referir às raparigas morenas que untam a cara com muito pó.

https://fr.fanpop.com/clubs/chocolate/images/40825707/title/chocolate-pudding-wallpaper

TCH´I PÈANG杮餅 (4) – Dióspiro (5) passado

É usado para a confecção de vários petiscos chineses sendo costume cozinhá-lo com o arroz que se dá às crianças que principiam a comer, na convicção de que o dióspiro passado possui propriedades tónicas de efeitos seguros. O dióspiro seco é achatado como uma bolacha daí ao juntar-se à palavra tch´i (dióspiro) o termo pèang (bolo ou bolacha). Portanto quando se refere a qualquer objecto mole ou pastoso que tivesse ficado achatado, costuma dizer-se que se parece com um i-keng-kuó- tch´i-pèang 二亰菓杮餅 (6)

https://piggy911.pixnet.net/blog/post/36445352

(1) 芝蔴糊mandarim pīnyīn: zhī má hú ; cantonense jyutping: zi1 maa4 wu4

(2) Retirado de GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, in «Mosaico», V-27/28 de Novembro e Dezembro de 1952, p. 141.

 (3) 朱古力布甸mandarim pīnyīn: zhū gǔ lì bù diàn; cantonense jyutping: zyu1 gu2 lik6 bou3 din1

(4) 杮餅 mandarim pīnyīn: fèi bǐng ; cantonense jyutping: ci3 beng2

(5) O dióspiro, na língu maquista é conhecido pela designação de «figo cáqui»

(6) 二亰菓杮餅 mandarim pīnyīn: èr jīng guǒ fèi bǐng;  cantonense jyutping: ji6 ging1 gwo2 ci3 beng2

TCHÔI MÁU醉貓 (1) – Gato embriagado

É o termo comunmente empregado para designar um ébrio

TCHÔI TCHÜ災豬 (2) – Porco calamitoso

É o nome dum petisco feito com toucinho de porco sendo este termo empregado para se referir aos dorminhocos.

TCH´ÔI SIU吹簫 (3) Soprar a flauta

É o termo que, na gíria, se empregar se referir a um indivíduo que está entretido a mastigar uma vara da cana de açúcar.

(1) 醉貓mandarim pīnyīn: zuì māo; cantonense jyutping: zeoi3 maau1

(2)災豬 mandarim pīnyīn: zāi zhū ; cantonense jyutping: zoi1 zyu1

(3) 吹簫 mandarim pīnyīn: chuī xiāo; cantonense jyutping: ceoi1 siu1 – Flauta de bambu vertical

Retirado de GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, in «Mosaico», V-27/28 de Novembro e Dezembro de 1952, p. 144.

Livro de Joaquim Heliodoro Callado Crespo, (1) “Cousas da China, Costumes e Crenças” (2), integrado nas comemorações do quarto centenário do descobrimento da Índia, 1898.

Exemplar, na capa e contracapa, com manchas próprias do papel, com pequenos rasgões e perda de papel (mais na parte inferior da contracapa). Lombada com grande defeito. Páginas interiores em bom estado geral de conservação. Na capa, canto superior esquerdo, uma etiqueta (muito provável de uma biblioteca) com a seguinte indicação: “n.º 18 / I / 169”

Na página 3, ao lado do logo do “Quarto Centenário do Descobrimento da Índia”, (3) um carimbo “Quinta do Salgueiral A. G. Guimarães”. (4)

Livro muito curioso, um repositório sobre a sociedade chinesa, de usos e costumes da China do ponto de vista do seu autor (juízo extremamente negativo da China e dos chineses). Fundamentando-se “no estudo que temos feito do que lemos e observado e colhido”, o autor abordou muitas temáticas, como se pode observar pelo índice (pp. 281-283) tão variado:

As últimas páginas do livro, (pp. 261-280) são constituídas por um trabalho alheio, intitulado “O animismo entre os chineses”, da autoria do fundador dos estudos de sânscrito em Portugal, Guilherme de Vasconcelos Abreu (1842 – 1907; orientalista, militar, geógrafo, literato e escritor português). Na parte dedicada à “Linguagem chinesa, caracteres e imprensa” (pp. 40 -48), Callado Crespo refere o sinólogo Pedro Nolasco da Silva:

«A língua escrita, diz um synólogo nosso, o Sr. P. Nolasco da Silva, nas suas lições progressivas para o estudo da língua sínica, é lacónica e diffícil de entender; as letras são perfeitos camaleões que mudam de accepção, conforme são as outras letras com que vem ligadas, o seu valor grammatical é regulado quasi unicamente pela sua posição na oração, às vezes uma oração contém só as ideias principaes, e a imaginação do leitor tem de supprir as idéas acessorias

(1) Joaquim Heliodoro Callado Crespo (1860? 1961? – 1921) Tenente de infantaria, (oficial da marinha, segundo outras fontes), Cônsul Geral de 1ª classe em Cantão, Cavaleiro de S. Thiago, Commendador da Estrella Brilhante de Zanzibar e S. S. G. L. Além do presente livro, tem outro publicado “A China em 1900”, Lisboa: Manuel Gomes ed”  e um artigo “A Questão do Extremo-Oriente – o papel de Portugal no «desconcerto» europeu, publicado no “Ta Ssi Yang Kuo”, Vols I, pp. 587-603 e Vol II, pp. 639-654. .

(2) CRESPO, Joaquim Heliodoro Callado – Cousas da China, Costumes e Crenças.Contribuições da Sociedade de Geographia de Lisboa. Quarto Centenário do Descobrimento da Índia. Acabou de imprimir-se aos 31 dias do mez de Maio do anno M DCCC XCVIII nos prelos da Imprensa Nacional de Lisboa. 1898, 283 p., 25 cm x 17 cm. Disponível para leitura em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k375439b/f13.image

(3) Em 1898, há 120 anos, neste dia, um grande evento cultural tinha destaque na edição do DN: “a grande corrida de toiros” no Campo Pequeno. “Na corrida de comemoração do IV Centenário do Descobrimento da Índia, no reinado de D. Carlos I e com a presença do monarca e da corte num Campo Pequeno …” https://paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/comemoracao-do-iv-centenario-da-109759 .

Em Macau, foi publicado “JORNAL ÚNICO: Celebração do Quarto Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama. Macau: N.T. Fernandes e Filhos e Noronha & Ca, 1898.” https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jornal-unico/

(4) A quinta/casa do Salgueiral fica na Rua do Salgueiral, n.º 29, uma das antigas casas senhoriais existentes em Guimarães. Segundo informações, hoje é um lar.

GOMES, José Maria Gomes – Apontamentos para a História do Concelho de Guimarães. Manuscritos do Abade de Tagilde. Notas e Comentários, In “Revista de Guimarães (Publicação da Sociedade Martins Sarmento”, 1983, n.º 93 p. 44. https://www.csarmento.uminho.pt/site/files/original/4155e04aa4d176a37b078df255b8176cab4fbf18.pdf

MORAES, Maria Adelaide Pereira de – Velhas Casas de Guimarães, Volume I. Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica e História da Família da Univ. Moderna do Porto, 2001

TCHÉONG AP醬 鴨  (1) – Pato feito com uma pasta de feijão

Este termo é empregado para se referir ao indivíduo que apanhou um trambolhão e ficou todo enlameado

TCH´EONG  SÁM長 杉 (2) Cabaia comprida

A cabaia comprida é o traje de cerimónia dos chineses que vestem por cima dela um colete chamado má-kuá, 馬褂 (3) quando pretendem apresentar-se a rigor.

(1)    mandarim pīnyīn: jiàng yā; cantonense jyutping: zoeng3aap3

(2) mandarim pīnyīn: cháng shān, ; cantonense jyutping: coeng4 caam3

(3) mandarim pīnyīn: mǎ guà ; cantonense jyutping: maa5gwaa3

Retirado de GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, in «Mosaico», V-27/28 de Novembro e Dezembro de 1952, p. 141.

A Direcção dos Serviços de Correios, (1) pôs em circulação, a partir do dia 1 de Março de 2004, cumulativamente com as que estavam em vigor, uma emissão extraordinária de selos designada «I Ching, Pa Kua IV» (2) constituída por 8 selos (formato hexagonal) , todos com a taxa de 2 patacas e um bloco filatélico com a legenda “Vigor e Vitalidade) com selo de 8,00 patacas. (2)           

Folha Miniatura série de 8 selos com o n.º 212834
Bloco Filatélico, contendo 1 selo de 8 patacas, com o n.º 031017.

Dados Técnicos

(1) Despacho do Chefe de Executivo n.º 300/2003 de 23 de Dezembro de 2003, publicado no n.º 52 de 29-12-2003, Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau, Iª série-suplemento.

Despacho do Chefe do Executivo n.º 300/2003

(2) Álbum Selos de Macau: Carteira Anual 2004, p. 2.

NOTA: Os Correios de Macau lançaram, entre 2001 e 2010, sete emissões da série temática “I Ching, Pa Kua”. A oitava e última emissão desta colecção, é composta por oito selos representando os hexagramas Pi, Cui, Jin, Yu, Guan, Bi, Bo e Kun, e foi lançada em 1 de Março de 2012. Os Correios de Macau ainda lançaram no dia 9 de Outubro de 2014, uma elegante filatélica que reúniu numa colecção os produtos filatélicos da série “I Ching, Pa Kua”, da autoria do designer Chan Chi Wai.

Tcheng Tch´ói – 正菜 (1) – Brassica campestris, hortaliça genuína

É uma espécie de hortaliça salmourada e seca que entra frequentemente na preparação de caldos e na confeção de picados e recheios de bolos salgados. A palavra tcheng 正significa direito ou recto, portanto, este termo é aplicado a um indivíduo sério, isto é, que não é brejeiro. (2)

Mais conhecida como repolho chinês (brassica rapa, subespécie: pekinensis) muito utilizado na cozinha chinesa. (3)

Tcheng  Uân T´ân – 淨雲吞- (4) – Raviois simples

Os uân-t`ân 雲吞são picados de camarões envolvidos em delgada folha de massa, sendo geralmente servidos com o min 麵 (Macarrão), para se fazerem conhecidas e afamadas sopas de fitas. Dizem que o segredo da confecção dos uân-t´ân e do min foram revelados aos europeus, por Marco Polo, quando regressou da sua afamada viagem à China, transformando-se os min nos célebres macarrone e os uân-t´ân nos saborosos ravioli.(2)

淨雲吞 (5)

(1) – mandarim pīnyīn: zhēng  cài; cantonense jyutping: zeng3 coi3

(2)Retirado de GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, in «Mosaico», V-27/28 de Novembro e Dezembro de 1952, p. 141.

(3) https://en.wikipedia.org/wiki/Chinese_cabbage

(4) 淨雲吞 mandarim pīnyīn: jìng yún tūn;  cantonense jyutping: zeng6 wan4 tan1

(5) Retirado de:  https://learning.hku.hk/ccch9051/group-21/items/show/25

Tcheng Leng U蒸鯪鱼 (1) – Sável cozido a banho-maria

O sável é um dos peixes mais apreciados que se encontram nas águas dos rios chineses. Embora a sua carne seja saborosíssima, quando se come este peixe, é preciso ter o máximo cuidado coma extrema abundância das suas espinhas. Por este motivo, tal termo é empregado, para dizer que as criadas de servir, que se tornaram amantes dos seus patrões, dão-lhes tantos trabalhos como as espinhas do peixe sável, sendo, portanto, necessário o máximo cuidado para evitar as complicações que elas lhes poderão causar. (2)

Tcheng Pèang蒸餅 (3) – Bolinho Cozido

É uma espécie de bolinho que servem nas casas de chá, sendo feito com arroz glutinoso. Este termo é empregado para se referir aos parasitas, pois o arroz glutinoso é extremamente aderente. (2)

(1) 蒸鯪mandarim pīnyīn: zhēng líng yú : cantonense jyutping: zing1 leng4 jyu4

(2) GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, in «Mosaico»,V-27/28 de Novembro e Dezembro de 1952, p. 141

(3) 蒸餅 mandarim pīnyīn: zhēng bǐng: cantonense jyutping: zing1 bing2

Extraído de «O Oriente»,  I-5 de 15 de Fevereiro de 1872, p. 3

NOTA: O ano novo chinês de 1872, iniciado a 9 de Fevereiro e com termino a 29 de Janeiro de 1873, foi o ano do Macaco/Água.