Archives for category: Usos e Costumes

A Dra. Beatriz Basto da Silva chama a atenção (1) para um artigo “Anatomy of a small foot” publicado no mês de Abril de 1835 no «The Chinese Repository» (2) sobre os pés enfaixados e pequeninos das mulheres chinesas. (3)

A Chinese Golden Lily Foot, Lai Afong, c. 1870s (4)

Refere um estudo de Jean Baptiste Du Halde (5) que dá como início deste costume a Última Imperatriz da Dinastia Shang que pereceu cerca 1.123 A.C.. como tinha os pés realmente muito pequenos, resolveu enfaixá-los e atá-los, fazendo crer que se tratava de uma moda, quando era, afinal, uma deformação congénita.
Robert Morrison, na sua «View of China» (6) diz que Howchoo (por volta das Cinco Dinastias, cerca de 925 A. D.) pediu à concubina Yaou para atar os pés com faixas de seda para se manterem pequenos, com a beleza do quarto de lua crescente. As outras mulheres imitariam a ideia.
Enfim, hipóteses incertas, mas que trouxeram o costume dos «Golden Lilies» ou «Kin leen» (7) quase até finais do século XX. (1)

18th-century illustration showing Yaoniang (窅娘) binding her own feet, Qing Dynasty woodblock print from Hundred Poems of Beautiful Women(Bai Mei Xin Yong Tu Zhuan 百美新詠圖傳) (8)

NOTA 1 – Na década de 60 (séc. XX), em Macau, ainda conheci uma senhora amiga da minha avó, que tinha os “pés atados”. Lembro-me dela sempre bem vestida (muito possivelmente de famílias aristocráticas chinesas) que saída à rua sempre acompanhada por uma criada que a ajudava a andar e sempre protegida por uma “sombrinha” (guarda- sol) (6)
NOTA 2 – Aconselho visualização das fotografias da britânica Jo Farrell que passou oito anos a registar a vida das últimas mulheres idosas chinesas com os “pés deformados”. Estas fotos estiveram em exposição de 18 a 31 de Março de 2018 no «Hong Kong Museum of Medical Science».
http://www.dailymail.co.uk/news/article-5425801/Last-foot-binding-survivors-captured-beautiful-photos.html
Pode ver uma reportagem sobre estas mulheres em:
https://www.youtube.com/watch?v=gmGZGa0Ze58
(1) SILVA, Beatriz Basto da Sila – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995
(2) Anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/the-chinese-repository/
(3) Pés atados ou Pés-de-lótus (em inglês footbinding) foi um antigo costume chinês em que os pés de meninas jovens mantinham reduzidos em tamanho no máximo 10 cm de comprimento. Para isso, os pés das meninas jovens eram rigorosamente atados e mantidos em pequenos sapatos a fim de evitar o máximo o seu crescimento . O objetivo era ter o menor pé possível, que significava sensualidade muito apreciado pelos homens na altura.
(4) https://en.wikipedia.org/wiki/Foot_binding#/media/File:A_Chinese_Golden_Lily_Foot,_Lai_Afong,_c1870s.jpg
(5) Jean-Baptiste Du Halde (1674-1743), jesuíta francês, historiador com especial interesse na história chinesa, embora nunca tivesse estado na China nem dominar a língua chinesa mas coleccionava os relatórios dos missionários jesuítas e a partir deles fez uma enciclopédia da história, cultura e sociedade chinesa.

 

 

(6) MORRISON, Robert – A view of China for philological purposes : containing a sketch of Chinese chronology, geography, government, religion & customs, designed for the use of persons who study the Chinese language, 1817
Anteriores referências a Robert Morrison em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/robert-morrison/
(7) –  mandarin pīnyīn: jīn lì; cantonense jyutping: gam1lei6
(8) https://en.wikipedia.org/wiki/Foot_binding#/media/File:Yaoniang_binding_feet.jpg
(9) Sombrinha – termo utilizado em Macau para designar o sombreiro ou guarda-sol ou guarda-chuva. Segundo Prof Graciete Batalha, o termo sombreiro, com este sentido foi corrente no ásio-port., mas a forma macaense parece revelar influência espanhola talvez através das Filipinas. Glossáro do Dialecto Macaense, 1977, p. 534.

Continuação do artigo iniciado em 27-02-2017 (1) sobre esta festa, no ano de 1956
Quem percorrer as ruas de qualquer cidade, vila, ou aldeia chinesa notará a cada porta um pequeno altar, muitas vezes um simples nicho, onde se pode ver uma estátua que nunca tem mais de trinta a cinquenta centímetros de altura.
E a estátua de Tou Tei que, sentado no seu trono, tem, nalguns casos, à sua esquerda a sua mulher e, à direita, representada por uma estátua mais pequena, a sua concubina. Fora do pequeno templo, que se assemelha muitas vezes ao casinhoto dum cão de guarda, existe um receptáculo para queimar papéis votivos e depositar oferendas e um montículo de terra batida onde se espetam pivetes em dias de festa ou quando ao deus se agradece uma graça concedida ou se faz qualquer pedido, o que acontece quase diariamente.
Tou Tei é pessoa da família a quem tudo se confia.
Nas suas dores e aflições, contratempos e prejuízos, os chineses procuram lenitivo e consolação junto de Tou Tei a quem, muitas vezes, se queixam amargamente da sua infelicidade e pouca sorte. Mas também nas horas de alegria e abastança lhe vão agradecer, com generosas ofertas, a protecção concedida e os ventos favoráveis que sobre eles fez soprar. É ainda a esse quase ente familiar que eles confiam os seus anseios e esperanças, os seus negócios em perspectiva, consultando-o em todas as decisões a tomar. A ele se comunicam, em primeira mão, os nascimentos, as mortes e os casamentos, porque é ele que conforta na doença e na tristeza na dor e na angústia, que protege os recém-nascidos para que cresçam sem qualquer mazela, e favorece os lares novos para que sempre lá reine a paz, a harmonia e a felicidade.

Templo de Tou Tei do Patane (2017)

Tou Tei é amigo, patrono e conselheiro da família e para ele se voltam todos os corações, quer nas horas de alegria quer as horas de aflição. A ele se confiam os mais íntimos desejos e se dizem os segredos mais reservados.
(1)Ver referências anteriores em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/27/noticia-de-27-de-fevereiro-de-2017-tou-tei-o-deus-da-familia/

Amanhã dia 18 de Março de 2018, festeja-se o dia do deus da família TOU TEI – 土地 (1)  É uma divindade tutelar (espírito ou divindade que tem a função de guardião, patrono ou padroeiro de um determinado local)
Em 1869,  os festejos decorreram nas noites de 17 e 19 de Março, com fogos de artifício, conhecidos por balsas, (2) na Praia do Manduco. Do Boletim da Província de Macau e Timor do ano de 1869, extraí esta notícia em que o autor nomeia dois deuses tutelares chineses: Tuti e Fu-Shui. Creio tratar – se dos deuses Tou Tei ou Tou Dei Gung (土地公) e Fu Shi (伏羲) (3)


Templo de Tou Tei no Largo do Pagode do Patane

Este templo está classificado como Monumento e localiza-se entre as Ruas da Palmeira, da Pedra e da Ribeira do Patane, no Porto Interior. Está encostado ao Jardim de Camões, no sopé do outeiro, com os seus pavilhões construídos entre as pedras da Colina.
NOTA: fotos pessoais do Templo Tou Tei do Patane de Maio de 2017
(1) Ver anteriores referências a “Tou Tei, o deus da família” em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/27/noticia-de-27-de-fevereiro-de-2017-tou-tei-o-deus-da-familia/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/templo-tou-tei-patane-%E5%9C%9F%E5%9C%B0%E5%BB%9F/
(2) BALSA – fogo de artifício chinês, muito comum em Macau até à década de 20 (séc. XX) depois caiu em desuso. Ver explicação em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/02/27/noticias-de-25-e-26-de-fevereiro-de-1868-fogos-de-artificio-na-fonte-de-lilau/
(3) Fu Xi (Fuxi) ou Fushi ou Fu Hsi (伏羲), também conhecido como Paoxi ou Pao-hsi (庖犧). É um personagem da mitologia chinesa e é tido como um imperador que reinou durante os meados do século 29 aC. Ele foi o primeiro dos Três Augustos (三皇 Sānhuáng). Na antiga China ele era considerado um herói mitológico da cultura, atribuindo-se-lhe a invenção da escrita, pescaria e caça. Ele é considerado o fundador na nação chinesa.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fu_Xi

Mais uma velha naná ou canção de embalar do folclore macaísta citado pela Dra. Graciete Batalha. (1)

Já pagá candia
Já nom tê azeite;
Tomá quiança-quiança
Fazê ramalhête
 
Ramalhête feito
Na ponta do lenço
Quê càsá com preto
Tê grande sentimento
 
Más qui seja preto,
Sã nossa naçãm
Panhá vento suzo
Ficá cor de jambolam 

Possível “tradução”:

Apagou-se a candeia
Já não tem azeite
Pegar nas crianças
Que fazem ramalhete (birra)

Ramalhete feito
Na ponta do lenço
Quem casar com preto
Tem grande sentimento

Embora seja preto
É da nossa nação
Apanhar “vento sujo” (doença)
Ficar com cor de jambolão

Note-se a referência à superstição do “vento suzo” (vento sujo, «mau ar»). Por apanhar vento sujo, a pessoa ficou com a cor de jambolão, isto é, com a pele escura.
Jambolão – fruto semelhante a um grande bago de uva preta e «doce como a uva ferral» segundo Dalgado, Gloss. I, s. v. Há porém, quem o descreva como uma azeitona preta, com caroço semelhante, mas muito doce. (2)
(1) BATALHA, Graciete – Aspectos do Folclore de Macau, 1968.
(2) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.

Extraído do «Boletim do Governo de Macau e Timor» n.º 9 de 2 de Março de 1868, p. 49.
NOTAS:
FONTE DE LILAU – originariamente denominada Bica do Nilau (nome primitivo da colina que depois é conhecida como Colina da Penha por ter sido lá construída  a Ermida de Nossa Senhora da Penha da França). Foi destruída.

Hoje no Largo do Lilau existe uma fonte que tenta memorizar a bica original.
BALSA – fogo de artifício chinês, muito comum em Macau até à década de 20 (séc. XX) depois caiu em desuso. Este fogo de artifício era chamado porque os foguetes eram colocados em balsas ou baldes Construía-se uma armação em bambu, espécie de torre de dois ou três andares, e em cada andar punha-se uma balsa de foguetes. Acendia-se a primeira, esta ao explodir pegava fogo à segunda e assim sucessivamente. (1)
Referência à «balsa» na «Carta de Siára Pancha a Nhim Miquéla» escrita em «3 de janero de 1865» (2)
Outro dia Voluntario inglez (3) d´Hong Kong já vem Macáo ! Qui lai di bonito ! eu já vai olá também. Macáo parece França, tudo gente fallá. Tem tifin (4), revista di tropa, salva de vinte un há tiro, balsa à note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancias três mil fóra pataca.
“TUTI”TOU TEI – 土地 – Deus da Família – nos mitos antigos, Tou Tei é um deus que governa a terra, por isso esta festividade se denomina “Festa do Deus da Terra”. Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/27/noticia-de-27-de-fevereiro-de-2017-tou-tei-o-deus-da-familia/
(1) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do DIalecto Macaense. Coimbra, 1977.
(2) Ta-Ssi-Yang-Kuo , Tomo I, 1899, p. 324.
(3) Refere-se à visita dos soldados voluntários da colónia inglesa de Hong Kong a Macau no dia 19 de Novembro de 1864, armados e com artilharia, com exercícios no campo de S. Francisco. Estiveram em Macau até o dia 21. Ver anterior referência a esta visita em postagem já publicada em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/19/noticias-de-19-a-21-de-novembro-de-1864-visita-do-corpo-de-voluntarios-de-hong-kong-a-macau/
(4) “TIFIN” É o mesmo que “lunch” (almoço)

Continuação do artigo de Davide Barrote (1) acerca das festas do novo ano lunar realizadas em Macau no ano de 1957.
(1) Ver anterior artigo em:
«BGU» XXXIII – 381, Março de 1957.

Hoje é o 1.º dia do Novo Ano Lunar – ANO DO CÃO –TERRA e recordo um artigo de David Barrote, publicado no «BGU», (1) do ano de 1957, acerca das festas então realizadas no novo ano lunar – GALO / FOGO  que nesse ano foi a 31 de Janeiro de 1957.
(1) «BGU» XXXIII – 381, Março de 1957.