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Hoje dia 13 de Setembro de 2019, celebra-se o 15.º dia do 8.º mês – Dia do Festival do Outono, mais conhecido como a Festa do «Bate-Pau» ou das «lanternas»
Do “Ta-Ssi-Yang-Kuo – Arquivos e Anais do Extremo Oriente Português” (1) (pp. 392~393), a propósito dos “Costumes e crenças da China” de Francisco Pereira Marques, retiro o seguinte:
A lua corresponde ao mez de setembro é consagrada pelos chins à festa do bate-pau ou das lanternas a que eles chamam Chung – chau e os inglezes Mid Autumn festival, por coincidir com a quadra outomnal.

Caixa contendo quatro bolos bate-pau

Dá-se o nome de bate-pau a um bolo que os chins preparam n´esta ocasião, que é arredondado e parecido com um pastelinho com crosta de farinha, recheado de doces. Há varias espécies de bolos de bate-pau: uns que que só entra feijão; outros o mungo (2); outros a semente de trate (3); e outros o gergelim, amêndoa e toucinho.
Só durante esta lua ou pouco antes é que os chins preparam estes bolos para venda e exportação.
Tambem por este tempo os chins vendem caramelos em forma de castello, embarcação, jarro, etc.; pães de farinha figurando um porco de tamanho de trez e quatro polegadas, metido n´um cesto de bambú de feitio conico; bolos de massa de farinha muito dura coma configuração de um prato com pintura a côres, representando paisagens e figuras humanas, postos n´uma caixinha de papelão de forma circular, polygonal ou oblonga, segundo o feitio do bolo, com uma rede muito fina e transparente de cassa. Este bolo só é feito para ornato e presente às creanças.

Bolo Bate.pau embalado

O bolo de bate-pau é o symbolo da lua, e os chins chamam-n´o em dialecto mandarim Yué-ping 月餅 e em cantonense Yut—peang. Geralmente o seu peso nao atinge meia libra.
Os macaístas conhecem-n´o pelo nome de bate-pau, por ser preparado com um pau em forma de ferula, com um orifício no centro onde se mettem a massa de farinha e os recheios, carregando com a palma da mão para comprimil-o bem; e em seguida batem o pau com força, por duas ou tres vezes sobre a meza, para fazer expellir o bolo que é levado acto contínuo ao forno, a assar.
Todo este mez lunar é consagrado a esta festa, mas o decimo quinto dia da lua é o mais solemne.
As lojas, onde se fazem e vendem stes bolos, costumam ter nos seus terraços ou telhados um mastro com bandeiras e ou lanternas.”
(1) PEREIRA, J. F. Marques (“coligidos, coordenados e anotados” )- Ta-Ssi-Yang-Kuo, Archivos e annaes do Extremo-Oriente Português. 1899-1900. Série II, – Vols. III e IV. Edição S.E.C., !984.
(2) Mungo é uma espécie de feijãosinho que os chins do sul chamam Loc tau 綠豆(feijão verde) e, se não me engano, é o Phaseolus mungo, conhecido entre os ingleses pelo nome de “kidney beans”. Os chins cozem o mungo com jagra (melaço) fezes de assucar mascavado, a que chamam Wong-tong 黃糖 (assucar amarello) e vende-se em pães e se serve quente em chávenas como refrigerante, com o nome de Loc-tau-choc 綠豆粥(cozimento de mungo com jagra) e Loc-tau-sá  綠豆沙 (cozimento de mungo) , segundo o modo de o prepararem.
Quasi todos os navegantes que fazem viagens longas nas embarcações, costumam prover-se de mungo, e, quando a bordo há falta de hortaliça, os chinas borrifam agua sobre uma porção de mungo, que, ao cabo de dois ou três dias, gréla em espiga tenra.. Cozem-n´o como hervas e dão-lhe o nome de Teang-ká-choi 蛋家菜,, isto é, hortaliça dos barqueiros.
(3) Trate é uma planta aquática muito apreciada no Oriente. Os chins aproveitam toda esta planta, desde a flôr até a raiz, e denominam-na Lin-chi 蓮子… (…)
Os chins gostam muito da semente d´esta planta, que cosem com sopa e carne. Aproveitam esta semente para fazer doce e também preparam uma bebida, cosida com assucar e ovo de galinha e que servem ás chávenas, conhecida pelo nome de Lin-chi-kang 蓮子 羹 A sua raiz denominam Lin-ngan 蓮藕 e é apreciada para se cozer com carne de porco ou de vacca, e também fazem d´ella doce. Attribuem-lhe propriedades sedativas e anti-aphrosidíacas.
Anteriores referência a este festa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/bolo-lunar-bolo-de-bate-pau-%E6%9C%88%E9%A5%BC/

Festa Chineza do Outono

Do livro de  Chrétien-Louis-Joseph de Guignes (1759-1845),  “Voyages à Peking, Manille et l’Île de France, faits dans l’intervalle des années 1784 à 1801”. 8vo. 3 vol. Avec Atlas in folio. Paris 1808
https://www.chineancienne.fr/17e-18e-s/de-guignes-voyage-%C3%A0-peking/

TÁI NÂI TCHUN –大泥
Grande tijolo de barro

Na China fabricavam-se duas variedades de tijolos: a fó- tchun 火磚 (tijolo – fogo) (1) que é feito de barro amassado e depois cozido, sendo por isso bastante resistente, e o tâi-nâi-tchun 大泥(grande tijolo de barro) (2), que também é feito de barro, mas não cozido, sendo esta qualidade mais empregada nas construções.
Como se emprega muitas vezes os tijolos para tapar uma porta ou obstruir uma passagem, este termo é usado para designar um empecilho ou um indivíduo que nada faz e só serve para incomodar. (3)
(1) 火磚mandarim pīnyīn: huǒ zhuān ; cantonense jyutping: fó2 zyun1
(2) 大泥mandarim pīnyīn: dà ní zhuān;  cantonense jyutping: daai6 nai4 zyun1
(3) GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, Vol. V, n.º 25 e 26 de Setembro e Outubro de 1952, p. 40.

SÂN UÓK – KÂU UÓK 新鑊舊鑊 (1)
PANELA NOVA E PANELA VELHA

É termo que os antigos mendigos cegos empregavam na sua linguagem metafórica, para não darem a conhecer o que querem dizer.
Sân Uõk é usado para significar que não obteve nenhum óbulo e Kâu Uók, o contrário.
Assim, quando dois cegos se encontravam na rua e se preguntarem um ao outro:
kâm-iât-hou-lou-má?   今日好撈嗎 (2) – isto é, o dia foi-te hoje feliz?
um deles responderá talvez:
hou-tch´oi kâu-uók 好彩舊鑊 (3) (felizmente foi de panela velha) o que quererá dizer, felizmente, obter algumas esmolas. (4)
(1) 新鑊舊鑊 – mandarim pīnyīn: xīn huò jiù huò;  cantonense jyutping: san1 wok6 gau6 wok6
(2) 今日好撈嗎mandarim pīnyīn: jīn  rì hǎo lāo ma;  cantonense jyutping: gam1 jat6 hou2 lou1 maa1
(3) 好彩舊鑊mandarim pīnyīn: hǎo cǎi jiù huò;  cantonense jyutping: hou2 coi2 gau6 wok6
(4) GOMES, Luís G. – Tropos Usados na Gíria Chinesa, Vol. V, n.º 25 e 26 de Setembro e Outubro de 1952, p.

“22-08-1895 – Neste dia apareceu o benzedeiro Lai Chan Pac Choy a bordo da lancha de Ho Seng Ly que se achava doente. Depois do ajuste, deu princípio à cura, começando por bater cabeça aos ídolos de bordo e deu ao doente um pó para tomar, o que ele fez. Mas piorou e morreu pouco depois! O benzedeiro foi preso.
A 26-08-95, o Administrador Capitão Canavarro (1)  oficiava ao Delegado de Procurador da Coroa e fazenda:
1.º – O falecido andava doente à mais de 10 dias e era fumista d´opio.
2.º – Os simptomas que apresentava era ter muito calor no corpo.
3.º – Quando tomou os remedios a que se atribue a morte, foi depois de dez dias de doença, tendo antes tomado outros remedios cazeiros.
4.º – Depois de tomar o remedio, duas horas pouco mais ou menos, o falecido sentiu-se muito afflicto, fez esforços para vomitar, não teve dierrea e dizia que sentia muito calor no peito.
5.º – Não houve muitas convulsões.
6.º – O tempo decorrido depois de tomar os remedios e morte foi, como disse, duas horas pouco mais ou menos.
7.º – Não pode saber ao certo o nome do medicamento, aquelle a que se atribue a morte, segundo diz o marinheiro de bordo por nome Hung a Cao, foi levado pelo benzedeiro e por elle administrado ao doente.” (2)
Já em 1880, o tenente José Correia de Lemos, (3) Administrador do Concelho das Ilhas que bem conhecia os costumes e superstições do seu Concelho, define assim “os benzedeiros”, num relatório datado de 20 de Julho de 1880:
Os benzedeiros são com effeito uns embusteiros que se dizem com poder de descobrir remedios para enfermidades cridas incuráveis, segredos que se julgavam impenetráveis etc, chamando em seu auxílio os espíritos maus e as almas dos defundos, no que tudo creem os pobres pescadores. Mas tal crença está já tão enraizada no animo d´esta gente que absurdo seria fazer desaparecer da sociedade semelhantes especuladores.
Os benzedeiros habitam no mar e todos eles são pescadores.
A gente da terra, menos ignorante e mais sensata, não se deixa levar dos embustes dos benzedeiros, e não me consta que eles sejam chamados, mesmo para as doenças graves.
Os benzedeiros, somo disse, são pescadores, e dez lorchas sei eu que pagam aos mandarins, pelo exercício público da sua profissão, a quantia de vinte taeis de prata, cada um por anno.
O encarregado de receber este tributo é o cabeça de pescadores.
As autoridades chinesas, tão atiladas que são neste ponto chamadas para exemplo, prohibem pois em terra oque no mar permitem mediante um tributo elevado, do que lhes resulta um avultado interesse.” (2)
Comentário do Padre Teixeira: “ Os pobres pescadores metiam-se cegamente nas mãos destes curandeiros que, sem estudos nem conhecimentos médicos, diveriam antes ser chamados coveiros.
(1)  José de Sousa Carneiro Canavarro- administrador das Ilhas de 15/02/1890 a 1/11/1902.
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel- Taipa e Coloane, 1981, pp. 157-160
(3) José Correia de Lemos– administrado das Ilhas de 5/5/1879 a 13/01/1890.

Alguns vendedores das ruas de Macau.
4.11.1903 – Desenho de Filipe Emílio Paiva

Vendedor ambulante de chá e frutas. Arrematante do que faz crescer o arroz …! nas várzeas. Tangedor de horas durante a noite (sereno china). Negociante de agulhas, linhas e alfinetes. Vendedor ambulante de doces cristalizados. Vendedor ambulante de pato assado e miudezas de porco.

“Permanecendo um certo tempo em Macau, mais tarde ou mais cedo, tem que se ir aos tintins, ou lojas de bricabraque chinesas.
Aglomeram-se estas lojas por detrás da Igreja de Stº António.
Tudo o que há de mais esquisito e disparatado em mobílias, loiças, antigas e modernas, chinesas ou europeias, aparece no amontoamento destas lojas, de envolta com lixo, maus cheiros, a cozinha e o menage dos proprietários.
Quem tem paciência para andar de um para outro tintin, rebuscando, regateando, consegue às vezes, mas raramente, encontrar algum bordado antigo e raro, alguma porcelana, jarra ou chávena de algum valor, e que se adquire barato. Porém isto já está tão explorado, e como em Hong Kong o mercado é maior e mais rico, os tintins de Macau nada dão ao curioso, que recompense a maçada de regatear com os chineses, discutir, entrar e sair em recusas de oferecimentos cinco ou seis vezes na mesma loja.
Além disso é preciso saber avaliar, para saber tirar daqueles lugares bafientos, alguma chinesice curiosa, produto de espólio de um chinês, porque como já disse, o melhor vai tudo para Hong Kong para os grandes tintins de lá, ou vai figurar  montras do Queen´s Road, nas lojas de curiositiés.
No que os bricabraques do Bairro de St.º António são ainda hoje abundantes e nada caros é na compra e venda de mobílias.
Há esplêndidos móveis à americana e à moda inglesa, realmente muito baratos, assim como se vêem artigos de mobília curiosos pela sua forma antiga. Em mobílias à moda china também é abundante o mercado, especialmente os espelhos e as mobílias de Cantão. Faria bom negócio quanto mais não fosse para aproveitamento das ricas madeiras e embutidos de madrepérola, e mármores, quem as transportasse para Lisboa.
“Mas nestas lojas está tudo amontoado! São barracas que extravasam a rua, louças, botas e sapatos, ferragens, armas, pratos e estatuetas, oleografias, números dos jornais ilustrados, ingleses ou franceses, tudo isto abrigado do sol ou da chuva por toldos seguros por varas de bambu, ou ripados de tábuas negras ardidas pelo sol e pela chuva.
E ali vive também o dono da loja coma mulher e filhos, numa semi-escuridão, rodeado de lixo, de poeira amontoada de anos, respirando aquelas emanações fétidas, pútridas, dos detritos orgânicos que se evolam de toda aquela sujidade.
Operários ali também trabalham, por conta do dono da loja, consertando, lavando, ou envernizando, e acomodam-se, ali mesmo se arma uma mesa, onde o calor se sentam todos a comer os chaus-chaus, cozinhados também ali.
É isto o que se chama um tintin.
O chinês gosta e aprecia muito tudo o que é antigo, há porcelanas e nomeadamente as sanguinas que chegam a atingir preços fabulosos, uma jarra, uma simples jarra, quase sem feitio nenhum, só pela beleza dos vernizes, custa às vezes duas mil patacas.
Ao europeu, o chinês do tintin pede sempre uma quantia fantástica por qualquer cousa, é preciso estar de sobreaviso com tal sujeito, convence friamente  e nunca se zanga com o preço que lhe oferecem.
– Nõ pódi sehôlo! Tai-a-ti! Nõ pôdi!
É preciso ser tenaz, e muito regateador para fazer qualquer pequena compra, e sobretudo, ter muita paciência,
PAIVA, Filipe Emílio (1.º tenente de Marinha) – Um Marinheiro em Macau – 1903 – Álbum de Viagem. Museu Marítimo de Macau, 1997, 284 p.
NOTA: “Um olhar sobre os tintins”
http://bairrodooriente.blogspot.com/2009/10/um-olhar-sobre-os-tintins.html

SA TIN U – 沙甸  (1)
Sardinha
Esta expressão é de origem estrangeira e emprega-se com o mesmo significado da frase «estar apertado como sardinhas em lata»
GOMES, Luís Gonzaga in «Mosaico», V- 25/26, SET/OUT p. 466, 1952
(1) 沙甸mandarim pīnyīn: shā diàn yú ; cantonense jyutping: saa1 din1 jyu4

In «Bol do Governo da Província de Macau, Timor e Solor», Vol 6, 16 de Agosto de 1851, n.º 39
TIM-TIM
1- Ferro velho, homem que anda pelas ruas comprando objectos usados e que se faz anunciar batendo com um pequeno ferro numa chapa metálica.
2- Geralmente no plural tim-tins – Lojas e tendas onde se vendem objectos usados: louças, móveis, antiguidades, etc. Ir aos tim-tins é precorrer as ruas onde se concentram essas lojas e tendas, as ruas dos tim-tins. Havia antigamente ao Largo dos tin-tins (cf. T.S.Y.K.II Vol.)
´´Etimo – tin-tin, é apenas onomatopaico. O chinês popular tem a expressão teng-teng lou, em que lou (佬) é “homem”, e teng teng (não é palavra chinesa) é apenas uma forma onomatopaica. (BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.p.546) 
ADELLO (ADELO) (do árabe – corretor, leiloeiro, pregoeiro)
1- Pessoa que compra roupas e coisas usadas para revender. = ADELEIRO, FERRO-VELHO
2- Estabelecimento onde se vende roupa, livros ou outros objectos usados. (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)
NOTA: Sugiro visualização de “Um olhar sobre os tintins
http://bairrodooriente.blogspot.com/2009/10/um-olhar-sobre-os-tintins.html