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Título e artigo retirado duma rubrica que Luís Gonzaga Gomes manteve durante alguns números da revista «Mosaico» de 1952.
Kuó-Ká-Máu – 過家 – Gatas que atravessam as ruas
É termo que se emprega para se referir às mulheres que não param em casa, e, por isso, vivem quase que exclusivamente na rua, passando o dia a visitar a casa desta e daquela, em constante prática de bisbilhotice, conhecendo assim a vida particular de toda a gente.

Lêong-Fân –涼粉 – Farinha fresca
É uma geleia feita com farinha de coquinhos (castanhas aquáticas) e apresenta-se com cor negra e com o formato do alguidar que lhe serviu de forma. Esta geleia, vendida só no Verão, é servida em malgas, aos bocados ou ralada, com calda de açúcar e, apesar de por este facto ser muito doce, deixa, no entanto, um travo especial na boca.
Ora, na China (antiga) as criadas de servir costumavam andar vestidas de tch´áu preto e, por isso, se lhe referiam geralmente como membros da hák-i-tui (grupo de trajos negros). E, assim, a situação embaraçosa criada pelos patrões que mantiveram relações ilícitas com as suas servas é comparada à geleia lêong-fân, tão agradável ao paladar na ocasião em que é saboreada, mas cujo travo fina, isto é, as consequências, se não pode escapar.
mandarim pīnyīn: guō jiā māo; cantonense jyutping : gwo1 gaa1 maau1
涼粉mandarim pīnyīn: liáng fěn; cantonense jyutping : loeng4 fan2

Por postura do Leal Senado de 20 de Outubro de 1883, se torna proibido praticar os seguintes actos contrários à boa ordem e ao bem estar dos moradores de Macau:
Queimar fogo de artifício, foguetes e panchões «durante as horas mortas da noite»; fazer cantos e toques festivos ou fúnebres – hábito chinês – durante «noutes seguidas e a deshoras».
Consideram-se horas mortas, entre as 11 da noite e as 7 da manhã.
São excluídos da disposição os festejos executados nos seis templos chineses (Barra, Bazar, Patane, Sankiu, Mong Há, e Istmo da Porta do Cerco). Também constitui excepção e estão, portanto autorizados os festejos consecutivos por 3 noites sucessivas no Ano Novo Chinês e a noite de véspera do Ano Novo Cristão.
Em noites de teatro nos Bairros Chineses pode-se queimar fogo de artifício e panchões. Quando houver lugar, dentro da cidade, a «Auto de Pao» (bonifrates), a representação em determinada época do ano é aceite como manifestação cultural chinesa, mas deve cessar à meia-noite. (1)
(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3., 1995

Hoje, décimo quinto dia da oitava lua do calendário, comemora-se a festividade do bolo lunar, a mais importante e a mais típica das festividades que o calendário chinês dedica à Lua ou a qualquer divindade com ela relacionada.
“O povo chinês vive ainda agarrado a uma tradição de milénios e celebrar hoje, como o fazia há milhares de anos, todas as suas festas, subordinadas sempre ao calendário do Ano Lunar. Talvez por ser a rainha da noite, que desfaz com sua luz suave e romântica as trevas que envolvem o nosso planeta, a Lua é considerada pelos chineses o astro que maior influência exerce sobre os filhos da Terra e aquele que, pela sua configuração, proximidade do nosso planeta, brilho e grandeza relativos, foi feito para comandar toda a vida criadora do homem” (1)

As lojas da Avenida Almeida Ribeiro com os seus cartazes alegóricos, iluminados por lâmpadas de variadas cores.

E conhecida como a festa do «Bolo Lunar», o característico bolo que nesta ocasião se permuta entre os parentes, amigos e conhecidos. Antigamente (hoje, já se encontra à venda em avulso e de sabores que não os tradicionais) acondicionados, quatro a quatro, em caixa de papelão, cuja tampa representa sempre um motivo das várias lendas que se contam acerca da invenção deste bolo saíam das pastelarias tradicionais (hoje fabricam-se em grandes fábricas até na Europa) em grandes quantidades.
As pastelarias que confeccionavam os bolos da «Festividade do Outono» ornamentavam as suas fachadas com interessantes quadros alusivos às várias lendas, ligadas a esta festividade.

Aspecto de uma pastelaria das várias que existiam na Avenida Almeida Ribeiro que confeccinavam os bolos da «Festividade do Outono» ornamentada na sua fachada com interessante quadro alusivo às várias lendas, ligadas a esta festividade.

Festejavam-se em reuniões familiares, geralmente realizadas nas varandas voltadas para a Lua, iluminadas por lanternas cujas silhuetas, projectando-se nas paredes, produziam um efeito estranho e exótico, proporcionando a todos os membros da família momentos de alegre confraternização. Acendiam-se pivetes, queimavam-se papéis votivos, entoavam-se preces e faziam-se ofertas à Lua quando ela aparecia no horizonte a iluminar a noite. Em especial as mulheres e raparigas, punham todo o seu cuidado nas oferendas, pois sendo a Lua o símbolo do princípio feminino, dela dependia toda a sua felicidade. (1)

Outro aspecto de uma outra pastelaria na mesma Avenida

Entre as ofertas à Lua não podiam faltar as frutas de formas arredondadas e por isso, as toranjas, as carambolas, os dióspiros e as laranjas são (serão ainda ?) muito procurados apesar do elevado preço, inflacionados nesta época por não serem frutas de estação. Também figuravam (hoje já se vêem muito pouco) as castanhas de água que por causa da sua forma convencional de morcego chinês, é considerada um emblema de felicidade.  Viam-se no passado o trabalho artístico dos artífices com a castanha de água modelada ou em gravação nos objectos de arte, sobretudo jade.

Outro painel de uma outra pastelaria

A ornamentação nas moradias, recintos públicos e lojas comerciais, sobretudo as que vendiam o bolo lunar concentradas na Avenida Almeida Ribeiro, motivava a concorrência entre os empregados que “montavam” o painel dessas lojas e eram muito apreciados, comentados e “visitados” principalmente à noite quando estava tudo iluminado. (1) Na década de 60 (século XX) alguns destes painéis já apresentavam uma sofisticação que chamava a atenção do público (principalmente as crianças) – heróis lendários recortados que se moviam dum lado para o outro no painel.
(1) Fotos e artigos não assinados extraído de «Macau Bol. Inf.» IV-76, 1956.

Título e artigo retirado duma rubrica que Luís Gonzaga Gomes manteve durante alguns números da revista «Mosaico» de 1952.

Nó Mâi Kai – 糯米  – Arroz glutinoso com galinha.
Este petisco é extremamente gordurento além de ser apresentado em espessa massa.
É expressão usada para se referir a uma mulher muito obesa.

Nó Mâi PóK Tch´áng – 糯米 Fritura de arroz glutinoso
Estas frituras feitas com arroz glutinoso podem ser salgadas ou doces. Pelo facto de serem muito pegajosas são comparadas às visitas maçadoras que se demoram sem se importarem com o facto de os donos de casa se encontrarem já arreliados e aborrecidos som a sua presença.

糯米鷄mandarim pīnyīn: nuò mǐ jī; cantonense jyutping:  no6 mai5 gai1
糯米 博撐mandarim pīnyīn: nuò mǐ bó chēng; cantonense jyutping:  no6 mai5 (arroz glutinoso, conhecido em Macau pelo nome de arroz pulú)  bok3 (vasto; espaçoso) caang1 (estender), segundo Dicionário Chinês-Português, 1962.

O lodo amorteceu a pedalada
Da perna treinada
Para mover o mundo
E a prancha flutuando
Andou dois palmos

Um peixe e mais além
Num esforço, outro e outro
Até a cesta revelar o produto
Do salário retirado dos detritos

Era assim a vida sempre
A mesma faina no limitado
Horizonte do delta

No cerco
Renda de bilros lançados
Como estacas a maré
Mais peixe o esperava – seria para depois
Antes, porém, foi pedalando a prancha
No reflexo dos prédios da baía
Desenhando no lodo arabescos
Copo curvas sinuosas
Do seu rosto sombreado
Pelo sol
Junto à rede, atolado
O pequeno barco aguardava
O regresso da maré.

Com a tarde chegou a hora
De recolher o cerco
E a renda foi subindo
Na jangada
Vela não tinha
Só um par de remos
Na amurada

Rota não tinha
Só nos olhos havia

Vida não via
Só a prancha a sustinha

Casa não tinha
Só o barco o sabia

Corpo sim existia.

Alberto Estima de Oliveira

Poesia e foto publicados na revista «Macau» n. 17 de 1989.

Fotografia de um funeral chinês (Avenida Almeida Ribeiro ?) na década de 50 (Século XX).
Uma foto da Agência Geral do Ultramar

Constitui desgraça sem par para um chinês, porventura a maior com que a Providência o pode castigar, morrer sem ter um filho verdadeiro ou adoptivo que o chore, que lhe preste culto e lhe trate da sepultura, organizando o cortejo simbólico para que nada lhe falte no outro mundo. Para evitar tal transe, o chinês, favorecido pelos próprios costumes e tradições, quando não possuiu um filho verdadeiro e adquiriu a convicção de que a sua companheira não lhe dará tal alegria, estabelece negociações com outro das sua raça, nesse sentido mais afortunado, e compra um rapaz que possa mais tarde vir a ser o continuador da sua família. Essas compras recaem sobre garotos que ainda não possuem a noção de existência e são rodeadas de segredo para que o petiz, homem mais tarde, nem por sombras duvide da paternidade do indivíduo a quem tem chamado pai. As meninas chinesas, não podem ser utilizadas para tão importante finalidade; não perpetuando o agregado familiar onde nasceram, pelo facto de deixarem de pertencer aos seus, estando sujeitas à família do marido apenas casem, têm por isso, um valor muito relativo. Ainda hoje em que a mulher, mercê da influência dos povos ocidentais, já disputa de certo coeficiente de importância , alguns chineses omitem as filhas as enumerar a um europeu a prole que possuem . Em respeito aos costumes ancestrais, é tão natural ver-se um chinês procurando comprar um garoto não tem filho varão, como natural é encontrar.se um indivíduo que se prontifique a vender um dos seus filhos de sexo masculino, desde que não seja o primogénito. Morre, pois, tranquilo o chinês quando tem em casa quem possa executar o ritual das cerimónias fúnebres da sua raça. “
Um artigo não assinado de 1956, publicado no «Macau B. I.» III-66, 1956.

Mais dois ”slides” digitalizados da colecção “MACAU COLOR SLIDES – KODAK EASTMAN COLOR)”comprados na década de 60 (século XX), se não me engano, na Foto PRINCESA (1)

HIDROPLANADOR
VENDEDORES DE RUA

(1) Ver anteriores slides desta colecção em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/artes/