Archives for category: Usos e Costumes

Título e artigo retirado duma rubrica que Luís Gonzaga Gomes manteve durante alguns números da revista «Mosaico» de 1952.

Nó Mâi Kai – 糯米  – Arroz glutinoso com galinha.
Este petisco é extremamente gordurento além de ser apresentado em espessa massa.
É expressão usada para se referir a uma mulher muito obesa.

Nó Mâi PóK Tch´áng – 糯米 Fritura de arroz glutinoso
Estas frituras feitas com arroz glutinoso podem ser salgadas ou doces. Pelo facto de serem muito pegajosas são comparadas às visitas maçadoras que se demoram sem se importarem com o facto de os donos de casa se encontrarem já arreliados e aborrecidos som a sua presença.

糯米鷄mandarim pīnyīn: nuò mǐ jī; cantonense jyutping:  no6 mai5 gai1
糯米 博撐mandarim pīnyīn: nuò mǐ bó chēng; cantonense jyutping:  no6 mai5 (arroz glutinoso, conhecido em Macau pelo nome de arroz pulú)  bok3 (vasto; espaçoso) caang1 (estender), segundo Dicionário Chinês-Português, 1962.

O lodo amorteceu a pedalada
Da perna treinada
Para mover o mundo
E a prancha flutuando
Andou dois palmos

Um peixe e mais além
Num esforço, outro e outro
Até a cesta revelar o produto
Do salário retirado dos detritos

Era assim a vida sempre
A mesma faina no limitado
Horizonte do delta

No cerco
Renda de bilros lançados
Como estacas a maré
Mais peixe o esperava – seria para depois
Antes, porém, foi pedalando a prancha
No reflexo dos prédios da baía
Desenhando no lodo arabescos
Copo curvas sinuosas
Do seu rosto sombreado
Pelo sol
Junto à rede, atolado
O pequeno barco aguardava
O regresso da maré.

Com a tarde chegou a hora
De recolher o cerco
E a renda foi subindo
Na jangada
Vela não tinha
Só um par de remos
Na amurada

Rota não tinha
Só nos olhos havia

Vida não via
Só a prancha a sustinha

Casa não tinha
Só o barco o sabia

Corpo sim existia.

Alberto Estima de Oliveira

Poesia e foto publicados na revista «Macau» n. 17 de 1989.

Fotografia de um funeral chinês (Avenida Almeida Ribeiro ?) na década de 50 (Século XX).
Uma foto da Agência Geral do Ultramar

Constitui desgraça sem par para um chinês, porventura a maior com que a Providência o pode castigar, morrer sem ter um filho verdadeiro ou adoptivo que o chore, que lhe preste culto e lhe trate da sepultura, organizando o cortejo simbólico para que nada lhe falte no outro mundo. Para evitar tal transe, o chinês, favorecido pelos próprios costumes e tradições, quando não possuiu um filho verdadeiro e adquiriu a convicção de que a sua companheira não lhe dará tal alegria, estabelece negociações com outro das sua raça, nesse sentido mais afortunado, e compra um rapaz que possa mais tarde vir a ser o continuador da sua família. Essas compras recaem sobre garotos que ainda não possuem a noção de existência e são rodeadas de segredo para que o petiz, homem mais tarde, nem por sombras duvide da paternidade do indivíduo a quem tem chamado pai. As meninas chinesas, não podem ser utilizadas para tão importante finalidade; não perpetuando o agregado familiar onde nasceram, pelo facto de deixarem de pertencer aos seus, estando sujeitas à família do marido apenas casem, têm por isso, um valor muito relativo. Ainda hoje em que a mulher, mercê da influência dos povos ocidentais, já disputa de certo coeficiente de importância , alguns chineses omitem as filhas as enumerar a um europeu a prole que possuem . Em respeito aos costumes ancestrais, é tão natural ver-se um chinês procurando comprar um garoto não tem filho varão, como natural é encontrar.se um indivíduo que se prontifique a vender um dos seus filhos de sexo masculino, desde que não seja o primogénito. Morre, pois, tranquilo o chinês quando tem em casa quem possa executar o ritual das cerimónias fúnebres da sua raça. “
Um artigo não assinado de 1956, publicado no «Macau B. I.» III-66, 1956.

Mais dois ”slides” digitalizados da colecção “MACAU COLOR SLIDES – KODAK EASTMAN COLOR)”comprados na década de 60 (século XX), se não me engano, na Foto PRINCESA (1)

HIDROPLANADOR
VENDEDORES DE RUA

(1) Ver anteriores slides desta colecção em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/artes/

Desenho publicado em 1859 no “The Illustrated London News” (1) acompanhado duma nota do “Artista Especial e Correspondente” (“our Special Artist and Correspondent in China) desse jornal na China.
(1) «The Illustrated London News», 12 de Maio de 1859, p. 265.
Ver anterior referência deste jornal em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/06/21/vista-de-macau-em-1842/

Neste dia, 29 de Maio de 1987, o Correio de Macau / CTT pôs em circulação o sobrescrito, obliteração de 1.º dia de circulação e dois selos com o motivo “Festividade do Barco Dragão”
Os selos têm o valor de 50 avos e 5 patacas.
O desenho é de Ng Wai Kin.
FESTIVIDADE DO BARCO-DRAGÃO
A Festividade do Barco-Dragão é uma das mais populares festas chinesas, celebrando-se todos os anos no dia cinco da quinta Lua. (1)
Esta tradição tem a sua origem num facto ocorrido numa época agitada da vida política chinesa, entre os anos de 402 a 201 A.C.. Por esta altura, os conselheiros do imperador Uái (2) queriam convencê-lo a fazer guerra, para assim adquirir mais riquezas e poder. Esta atitude dos conselheiros tinha, porem, a desaprovação do ministro Uat Hun que, em vão, tentou dissuadir o imperador daquela ideia. Uat Hun (3) admitiu, então, a hipótese de pôr fim à sua própria vida, em sinal de protesto. Permeável à nefasta influência dos seus conselheiros e inamovível na sua intenção de fazer a guerra, o imperador continuava a preparar a ofensiva, procedimento que desgostou profundamente a Uat Hun que, perante tal atitude, se lançou ao rio Mek Lo.
Sensibilizado com o sucedido, o imperador caiu em si e apercebeu-se que acabara de perder o seu mais competente ministro. Ordenou, então, que todos os barcos procurassem o cadáver de Uat Hun, para que fosse recolhido e levado para o palácio Imperial. No entanto, as longas buscas levadas a cabo pelos barcos revelaram-se infrutíferas, pois o corpo do ministro sumiu-se nas águas agitadas do grande rio.
Durante a noite, encontrando-se o imperador amarguradamente triste, recebeu a visita do espírito de Uat Hun, lamentando-se que andava com fome. Logo o monarca deu ordem para que os barcos lançassem arroz cozido nas águas do rio. No entanto, o espírito do seu ministro voltou a procurá-lo para lhe dizer que um mostro aquático devorara toda a comida do rio e que brevemente iria também engolir o seu corpo. Pediu, então, ao rei que mandasse embrulhar a comida num tecido de seda atado com fios de cinco cores visto ser esta a única forma de a preservar contra a voracidade do monstro. E foi assim que sobreviveu, até hoje, o costume de lançar todos os anos, na época da Festividade, às águas dos rios, arroz glutinoso, cozinhado com vários recheios, envolvido em folhas de bambu, aos quais se dá o nome de tchông.(4)
Em Macau, durante as celebrações da Festividade do Barco-Dragão, vêem-se em quase todas as lojas compridas canas de bambu, tendo pendentes estes tchông que são saboreados por todos os chineses.
Actualmente, o mito de Uat Hun dá lugar ao desporto. As regatas de barcos em forma de dragões são organizadas com o fim de simular a procura do cadáver do estadista deificado. Assim, têm-se realizado em Macau, coma presença de equipas da Austrália, Hong Kong, Japão, Malásia, Singapura, China e Macau, as Regatas Internacionais de Barcos-Dragão, integradas nas Festividades do dia cinco da quinta Lua.
O tambor usado nos barcos das regatas, será para coordenar os movimentos dos remadores, mas também para assustar o monstro e evitar assim que devore o cadáver de Uat Hun!”
                   Dr. Jorge Cavalheiro (Instituto Cultural de Macau)
(Retirado da Brochura/lembrança distribuído aquando do lançamento do envelope com bloco de selos.)
(1) Festival do Barco Dragão, ou Festa de Duan Wu (端午节/端午節). Este ano, 2017, a festividade é celebrada a 30 de Maio.
(2) Rei Huai (楚懷王- Chǔ Huái Wáng) do estado de Chu de 328 a 299 aC., no período dos Estados Guerreiros.
(3)

Pintura de Qu Yuan
https://pt.wikipedia.org/wiki/Qu_Yuan

Qu Yuan (屈原- Qū Yuán) vivia no reino de Chu (c. 340 -278 a.C.) no Período dos Estados Guerreiros (476 A.C. – 221 A.C.) estadista, poeta, diplomata, ideólogo e reformador. A sua obra está principalmente compilada numa antologia poética denominada «Elegias de Chu». Considerado o primeiro poeta chinês importante na história da literatura da China.
(4) Zongzi (粽子) ou zong (粽) – tradicional bolo chinês feito com arroz glutinoso (com recheio variado) embrulhado por uma folha de bambu, cozinhado a vapor.

Há- Kau – 蝦餃
(Chilicotes de camarões) 

Expressão que já não é muito usada.
Dá-se em Macau o nome de “chilicotes” (1) a uma massa assada ou cozida de variado recheio e que são apresentados com o formato de meia lua.
Nas casas de chá chinesas, os “chilicotes” de camarões, feitos com uma massa branca e cozida constituem uma iguaria imprescindível.
Na China, raro é nativo que possa dar-se ao luxo de ostentar no seu beiço superior um farto e bem aparado bigode, pois, nisso foi a natureza bastante avara para com este povo.
O bigode chinês, resume-se, pois, a uns poucos de fios rígidos, sempre caídos que, nas raras vezes, em que aparecem no rosto dos nativos, fazem lembrar os chilicotes de camarões, por o formato destes ser semi-circular, como as duas pontas de uma meia-lua.
Daí o chamar-se a um indivíduo que traz bigode, há-káu.

mandarim pīnyīn: xiā jiao; cantonense jyutping: haa1 gaau2
GOMES, Luís G. in MOSAICO, 1952.
(1) Ver anterior citação de “chilicote” em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/05/02/postais-de-gastrono-mia-macaense-o-sabor-e-aroma-de-macau-viii/