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Esboço Critico da Civilização Chineza” pelo Dr. J. António Filippe de Moraes Palha (1) publicado em Macau, em 1912 com 120 páginas em que 54 páginas são preenchidas pelo PREFÁCIO do “Exmo. Sr. Dr. CAMILLO PESSANHA”. Tem uma pequena introdução de 5 páginas, datado de “Macau, maio de 1912” e assinado por “Moraes Palha” e 64 páginas descritas pelo autor como folheto.

Encadernação com lombada e no frontispício uma bonita impressão de um junco e um pagode com lombada

Dessa “Introdução”, retiro:
O pequeno folheto, que venho submeter à apreciação do publico, não é senão um produto de circumstancias fortuitas. Não revela da minha parte nem o prurido de avolumar a literatura portugueza, nem a vaidade de contribuir com um trabalho original para o estudo da complexa civilização chineza. … (…)
Foi a primorosa conferencia do sr. Dr. Camillo Pessanha sobre “A Arte chineza” que me orientou o espirito, no mare magnum dos assumptos sobre coisas chinesas.
Era evidente, que, emquanto o formoso genio do poeta descobria na arte d´este povo as mais maravilhosas manifestações do bello, e desvendava nos symbolos, conceitos e máximas chinesas as mais sublimes concepções philosophicas, a mim, obreiro, embora modesto e obscuro, do positivismo, competia-me naturalmente a tarefa de patentear a realidade, na sua nudez singela e austera, pura ou impura, formosa ou hedionda, perfumada ou fétida…. (…)

Capa do livro, com algum uso, com manchas, marcas de fitas na lombada e reparação de partes superiores.

As folhas soltas, com a entrada de anno de 1911, fechava-se o cyclo das conferencias em Macau.
As folhas solta do manuscripto, não tendo já razão de existência, ficariam jazendo no derradeiro somno do esquecimento, se não fôra a amavel interferencia do Dr. C. Pessanha, que, com as suas encantadoras palestras, mais uma vez me incutia o gosto por assumptos chinezes.
Não se limitou a isto a valiosa intervenção do meu bom amigo. Accedendo ao meu tibio pedido, prontificou-se a apadrinhar o trabalho com o seu magistral prefacio, que, comquanto não exprima da sua parte para comigo mais do que mera deferência pessoal, generosa e captivante, de certo, a mim enche-me de profunda satisfação e intimo orgulho por ter conseguido assim arrancar á sua obstinada nacção uma das maiores glorias das letras nacionais… (…)

2.ª folha com assinatura de posse (não identificada), Macau, 1922.

José António Filipe de Morais Palha (1872 – faleceu em Macau em 1935), licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa, como alferes (desde 22-07-1898) chegou a Macau a 3-03-1900, sendo nomeado facultativo de 3.ª classe do quadro de saúde da província
Esteve em comissão de serviço em Timor (1902-1905; 1908; 1913-1914). Promovido a capitão-médico em 1915.
Foi professor de língua alemã do Liceu (1900-1901); professor interino do 6.º grupo do liceu (1912- 1914; 1918) professor do 7.º grupo 1917. Promovido a major-médico em 1918 e a tenente coronel em 1920 e coronel-médico em 1924. Chefe dos Serviços de Saúde de Macau, em 1922.
1922- Vogal do Conselho Consultivo 1923; 1926. Encarregado do Governo (na ausência do governador Maia Magalhães) em 1926. Reformou-se a 31-05-1926.
Dados recolhidos de TEIXEIRA, Padre Manuel – A Medicina em Macau, Volumes III-IV, 1998. Foto retirado de “Fundadores do Instituto (Macau)” em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/04/24/macau-e-a-gruta-de-camoes-xxi-instituto-macau-1920/
(1) PALLA, J. António Filippe de Moraes Palha – Esboço Crítico da Civilização Chinesa. Macau, Typ: Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, 1912, 120 p. 20 cm x 13 cm

O novo governador, José Maria da Ponte e Horta (1) que tomou posse a 26 de Outubro de 1866 substituindo o anterior, José Rodrigues Coelho do Amaral, visitou os estabelecimentos públicos do território, na semana de 5 a 9 de Novembro de 1866, conforme notícia publicada no Boletim do Governo de Macau (2)
Visitou no dia 5 de Novembro, o palácio episcopal e o “asylo” dos pobres; no dia 6, a Nova Escola Macaense, o Seminário Diocesano e o Colégio da Imaculada Conceição; no dia 8, a Repartição dos incêndios e os quartéis de polícia de mar e terra; e no dia 9, o Mosteiro de Santa Clara.
Em relação aos estabelecimentos visitados e durante o curto mandato deste governador foram emitidos os seguintes despachos: (3)
Nova Escola Macaense: o governador nomeou em 26 de Novembro de 1866, uma comissão composta por Francisco de Assis e Fernandes, presidente; cónego António Marai de Vasconcelos, secretário; João Eduardo Scarnichia, Gregório José Rodrigues e Francisco Joaquim Marques para elaborar um projecto de Regulamento para a Nova Escola Macaense. Infelizmente por falta de meios para a sustentar a Nova Escola Macaense foi encerrada a 21 de Outubro de 1867.
Seminário Diocesano: foi autorizada por Portaria Régia de 21 de Abril de 1868, a fundação duma escola de português para chineses, paga pelo cofre do Seminário Diocesano e superintendida pelo reitor do mesmo.
Colégio da Imaculada Conceição: pela Portaria Provincial n.º 1 de 7 de Janeiro de 1868, foi permitido ao Colégio da Imaculada Conceição continuar aberto enquanto os seus meios o viabilizarem, regendo-se, nesse caso, pelos estatutos que datava de 26 de Dezembro de 1863.
Repartição dos incêndios: em 18 de Março de 1867, foram aprovados provisoriamente, por Portaria Régia, algumas providências do governo de Macau sobre o serviço de incêndios.
Quartéis de polícia de mar e terra: o Batalhão de Macau tomou posse a 30 de Dezembro de 1866 do seu novo quartel construído no lugar do antigo Convento de S. Francisco (desenho e sob a direcção do antigo governador Coelho do Amaral); o Corpo de Polícia de Macau foi, por Portaria de 18 de Outubro de 1867, mandado instalar no Convento de S. Domingos.
(1) José Maria da Ponte e Horta (1824- 1892) foi nomeado governador de Macau em 17-07-1866 (Decreto Régio da mesma data em que é exonerado o governador Coelho do Amaral) e chega a Macau, vindo de Hong Kong a bordo da canhoneira «Camões» em 26 de Outubro de 1866. Acumulou o cargo de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto dos imperadores da China e Japão e rei do Sião sendo condecorado, a 16-12-1867, por este último com a insígnia do “Elefante Branco.” Por Decreto Régio de 16-05-1868, é exonerado, a seu pedido, e sido substituído pelo Vice-Almirante António Sérgio de Sousa que só chegou a Macau a 1-08-1868 e tomado posse a 3 de Agosto de 1868. Ponte e Horta partiu para Hong Kong a 6 de Agosto de 1868, no «White-Cloud» e dali para a Europa, a 7 no «Malaca».
Foi depois nomeado governador de Cabo Verde em Fevereiro de 1870 e governador de Angola entre 1870 e 1873.
(TEIXEIRA, Padre Manuel – Toponímia de Macau, Volume II, 1997)
Outras referências anteriores deste governador neste blogue:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-maria-da-ponte-e-horta/
(2) Do «Boletim do Governo de Macau» XII-46 de 12/Novembro /1866 p. 188.
Por Decreto de 26 de Novembro de 1866, a cidade de Macau e o território português da  Ilha de Timor passaram a constituir uma só província denominada de «Província de Macau e Timor». Os Boletins no entanto, só passaram a serem designados: «Boletim da Província de Macau e Timor» a partir do ano XIII, n.º 7 de 18 de Fevereiro de 1967.
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, 1995.
NOTA: O «Diário Illustrado» de 17 de Março de 1892, aquando do falecimento deste governador, a 9 de Março, vítima de uma “paralysia”, referia o seguinte:
O finado era cavalheiro muito conhecido em Lisboa pela sua vasta erudição de que falam bem alto os muitos trabalhos literários e scientíficos que deixou.
“Matemático distincto, regia na escola polytecnica de Lisboa a quarta cadeira d´esta sciencia.
Desde 1880 que tinha assento na camara dos pares, onde a sua voz, por vezes, se fez ouvir. Era actualmente vice-presidente da academia real das sciencias, onde fez varias conferencias, sendo umas das mais notáveis a que teve por titulo ”Conferência acerca dos infinitamente pequenos (publicado em livro em 1884). Era general de divisão reformado e condecorado com várias ordens militares …”
Em Macau, ficou a recordá-lo na toponímia, a Praça de Ponte e Horta – 柯邦迪前地 (nome oficial) mas mais conhecido em Macau por 司打口 –.“Si Tá Hau”, (4) situada entre as Rua das Lorchas, do Bocage e do Tesouro, (data de 1867, os últimos aterros que iam das Portas do Cerco até à Barra, nomeadamente o aterro dos canais que existiam nessa zona) local onde havia um Porto-cais de Colecta de Impostos a todos os produtos importados, alguns exclusivos para a importação do ópio (e onde estava a “Fábrica do Ópio”)
(4) 柯邦迪前地 – mandarim pīnyīn: kē bāng dí qián dì; cantonense jyutping: o1 bong1 dik6 cin4 deng6.
司打口mandarim pīnyīn: sī dá kǒu; cantonense jyutping: si1 daa2 hau2 – tradução literal: entrada/porta de controle/colecta.

No dia 29 de Setembro de 1725, desembarcou em Macau António de Albuquerque Coelho (1682-1745) (1) (2) vindo de Timor, por ter acabado o seu Governo. (3) Foi residir no Convento de S. Francisco, e mandou realizar, no dia 23 de novembro, um ofício solene pela alma da sua mulher, D. Maria de Moura, que desposara nesta cidade, na Igreja de Santo António, em 22 de Agosto de 1710 e aqui falecera, em 31 de Julho de 1714, das sequelas do parto (20 de Julho) (1) No fim do ofício, houve salva na Fortaleza do Monte e dobraram os sinos em todas as igrejas. (4) António de Albuquerque Coelho ficou ainda alguns meses em Macau, regressando a Goa no início de 1726. Chegou no mês de Abril e foi preso por causa do anterior conflito em Timor, com o bispo de Malaca, tendo depois sido solto após defender-se das acusações. António de Albuquerque Coelho ainda seria nomeado em capitão-Geral da ilha de Pate (ilha ao norte de Mombaça, na costa oriental de África) após um tratado celebrado em 24 de Agosto de 1728, entre o sultão da ilha e uma embaixada de Goa  no qual permitia a construção de uma fortaleza guarnecida com 150 homens. Viria a ser novamente preso em Setembro em 1729 (acusado de “deserção da fortaleza de Pate” pelo Vice-Rei D. João Saldanha da Gama) após desembarque em Goa mas viria a ser novamente absolvido da sentença.
Extraído de PEREIRA, A. Marques – Ephemerides Commemorativas da Historia de Macau …, 1868
(1) Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-de-moura/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/antonio-albuquerque-coelho/
(2) Foi governador de Macau de 1718 (tomou posse em Macau a 30 de Maio de 1718 embora nomeado em Maio de 1717) a 9 de Setembro de 1719. Segundo Jack M. Braga “ um anno, quatro mezes e 18 dias”.
(3) Nomeado em 1721 governador de Timor e Solor, partiu de Goa via Macau tendo chegado a Lifau (Timor) em 1722. A sua governação foi curta e com grandes problemas; conflito com o bispo de Malaca, D. Frei Manuel de Santo António (embarcado para Goa por ordem do governador) e revolta/rebelião de alguns povos de Timor. Em  1725 foi substituído por António Moniz de Macedo.
(4) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado, 1987.

(1) António José Teles de Meneses tomou posse do Governo de Macau em 30 de Agosto de 1747. Governou até 1749. Foi depois nomeado Governador de Timor e Solor entre 1768 e 1776. Em Timor , ficou conhecido o episódio de 11-08-1769: “As dificuldades de se conservar a capital de Timor Lifau, eram tais que o Governador António José Teles de Meneses, ali chegado em 1768, incendeia essa cidade e com o céu e o mar iluminados pelas chamas embarca, a 11 de Agosto em direcção a Dili onde fundeia a 10 de Outubro, ficando esta a capital de Timor. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 2, 1997.)
NOTAS:
POLÉ – antigo instrumento de tortura no qual se pendurava o punido pelas mãos com uma corda e se prendia pesos de ferro nos pés, deixando-o cair com violência.
CLAVINA – nome dado à carabina antiga – arma de fogo parecida com a espingarda de cano curto.
Ver anterior referência a este governador em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/06/21/noticias-de-21-de-junho-de-1748/

Conferência do Comandante Gabriel Teixeira ( governador de Macau de 5-10-1940 a 23-06-1947)  com os representantes da Imprensa em Lisboa,  realizada no dia 3 de Setembro de 1946, na antiga sala do Conselho do Império, do Ministério das Colónias. Primeira deslocação do Governador a Lisboa após os anos conturbados da Guerra do Pacífico.
Extraído de «BGC» XXII –, n.º 254/255, 1946.

Dois anúncios inseridos no jornal “Diário Popular” de 20 de Outubro de 1961, número especial dedicado ao Ultramar Português.
A  SOCIEDADE ORIENTAL DE FOMENTO LDA. com sede em Macau na Rua da Praia Grande n.º 63 tinha duas agências no exterior: em Dili (Timor) na Rua da Praya e em Hong Kong no “Mercantile Bank Building
 A “H. NOLASCO & CIA, LDA” tinha no exterior, agências em Lisboa (João Nolasco Lda. na Praça do Município n. 19-40), em Hong Kong (H. Nolasco & Co. Ltd. no “Ice House Street, n.º 10” e em Dili ( Sth Fl. Lif  Kin Joe, Ltd., Timor).

 

Retirado de «Boletim Geral das Colónias» 1932.

D Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis, bispo de Macau (1752-1772) (1) que sucedeu a D. Frei Hilário de Sta. Rosa, (2) dirigiu uma representação ao rei acerca das raparigas chinesas e timorenses. (3) O rei respondeu assim a 30 de Março de 1758.
«Juiz, Vereadores da Camara de Macáo. Eu El Rey vos envio muito saudar. O bispo dessa Diocesse me reprezentou o injusto cativeiro que padecião os chinas, e Timores; a o opozição, com que vos intentasteis sustentar a introdução das mulheres das mesmas Naçoens nessa cidade contra a prohibição de huma sua Pastoral: e as escandalosas vexaçõens, que algumas pessoas fazião às escravas impedindo-lhes o uzo livre dos Sacramentos da Igreja, permittindo-lhes somente em certos dias a seu arbitrio. E dezejando Eu evitar as perniciozas consequencias, que poderão rezultar desses procedimentos: sou servido ordenarvos que, sendo-vos requerido pelo Bispo dessa Cidade o meu Real auxilio, para castigar aos que obstinadamente impedirem às escravas a observancia dos preceitos Divinos, e Ecclesiasticos e o frequente uzo dos sacramentos da Igreja, lhe deis todo o auxilio, que as circunstancias dos cazos requerem. Quanto porem á escravidão, e introdução das Chinas, e Timores sou outro sim servido, que emquanto Eu não der a competente rezolução, se conservem no mesmo estado, em que se achavão antes da publicação da Pastoral do mesmo Bispo. Tende-o assim entendido, e cumpri-o exactamente. Escrito em Belem aos 30 de Março de 1758 – Rey.»
(1) D. Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis foi nomeado em 1752, Bispo de Macau, tendo chegado a esta terra e tomada posse em 1754. Durante o seu episcopado, por causa da perseguição promovida pelo Marquês de Pombal, os jesuítas forma expulsos de Macau e sequestrados os seus bens, ficando a Diocese de Macau gravemente prejudicada. O Bispo, desgostoso com a expulsão dos jesuítas partiu para Portugal em 1765. Foi transferido para a Diocese de Mariana, no Brasil, em 1772 mas resignou em 1779 e faleceu em Lisboa no ano de 1799.
(2) D. Frei Hilário de Sta. Rosa, bispo de Macau (1739-1752), também já havia enviado uma representação dirigida ao rei em 1747. Nessa representação o Bispo lamentava:
«Timores furtados enganados, comprados e trocados por fazendas, fazendo-os escravos e a seus descendentes por autoridade propria toda a vida, vendendo-os em praça publica contra leis e decretos sendo pessoas livres por natureza … (…). Quase da mesma sorte tem procedimento (sic) a gente de Macau com as chinas suas naturais, comprando-as em pequenas por limitado preço (dizem que para as fazer christãs), e depois de baptizadas e adultas as cativam e reputam suas escravas por 40 anos sem lei que permita, comprando-as, vendendo-as e dando-lhes ( ainda com ferros como as escravas), bárbaros castigos, precisando-as a fugir para o gentilismo ficando herejes.»
Frei Hilário de Santa Rosa foi nomeado Bispo de Macau em 1739, e chegou ao território  em 1742, tomando posse da Diocese. Durante o seu episcopado, mandou reparar a Sé Catedral e foi muito crítico do costume local da compra das crianças. Regressou a Portugal em 1750 tendo resignado ao bispado em 1752. Faleceu em 1764. Consta-se que não lhe encontraram nenhum tostão na sua posse, pois dava tudo aos pobres.
(3) Além das raparigas chinesas (as denominadas mui tsai) havia também as timorenses e indianas que eram compradas nas suas terra e trazidas para Macau e aqui empregues à prostituição.
Mui Tsai 妹仔mandarim pinyin: mèi zǎi ; cantonense jyutping: mui6 zai2 – tradução literal: irmã (mais nova) pequena.
Utilizava-se o termo para designar as crianças, vendidas pelas famílias chinesas pobres às famílias chinesas mais ricas para serem criadas (escravas) como domésticas. Muitas acabavam por serem vendidas para os bordéis.
TEIXEIRA, Pe. Manuel- Os Macaenses.

A 2 de Março de 1844, sendo Ministro dos Negócios da Marinha e do Ultramar Joaquim José Falcão, e reinando D. Maria II, é decretada por Carta de Lei desta data a criação de um governo provincial em Macau e a redução do Leal Senado a uma simples Câmara Municipal. (1)
Macau ficou a chamar-se «Província de Macau, Timor e Solor» e, quando ao seu governo, ficará independente do Estado da Índia. Junto do Governador «haverá um Conselho de Governo composto dos Chefes das Repartições Judicial, Militar, Fiscal e Eclesiástica e de mais dois conselheiros que serão o Presidente, e o Procurador da Cidade (…)» (2)
O Decreto-lei que institui a província independente do Estado da Índia (situação que se manteria até 1850), a «Província de Macau, Timor e Solor”, somente é publicada a 20 de Outubro de 1844 (2)
diarion-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-idiario-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-iidiario-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-iiidiario-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-ivCollecção Official da Legislação Portugueza 1943-1845, redigida pelo Desembargador António Delgado da Silva in
http://catalog.hathitrust.org/Record/010425335
(1) O Senado de Macau, que em 13 de Maio de 1810, recebera o honroso título de »Leal» viu fugir-lhe todo o seu antigo esplendor, deixando de ser «um Senado» que a tudo era superior, em 9 de Janeiro de 1834, pela «Nova Reforma Administrativa Colonial», que reduziu-a  a uma simples Câmara Municipal, sujeita ao Governador. O governador Bernardo José de Sousa Soares Andrea, dissolveu a Câmara a 22 de Fevereiro de 1835.
Posteriormente a 20 de Agosto de 1847, foi-lhe retirada a procuratura, sendo anexada à Secretaria do Governo e a 5 de Julho de 1865 determinou-se que a procuratura da cidade passasse a ser de nomeação régia, sob proposta do Governador
TEIXEIRA, P. Manuel – O Leal Senado.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.

A Revista «Universal Lisbonense» no seu n.º 22, do dia 9 de Dezembro de 1852, dava a notícia na coluna “NOTICIAS E COMMERCIO” da chegada no dia 2 de Dezembro desse ano, no paquete do norte, de dois chineses Francisco Leu e José Li, provenientes de Macau.
Francisco Leu (o mais idoso) natural e residente em Pequim (北京), era encarregado de representações dos cristãos chineses da diocese de Pequim e vinha a Lisboa para tratar das questões do padroado real, nomeadamente pedir o regresso do bispo eleito de Pequim D. João de França Castro e Moura, (1) (na altura em Timor) e também a ida dos padres portugueses para as missões na sua diocese.
José Li, natural de Macau, estudava para padre e acompanhava Francisco Leu como intérprete, “fazendo-se entender em latim”.
revista-universal-lisbonense-n-o-22-1852-dois-chins-em-lisboa-iA notícia chamava ainda a atenção para o livro de A. C. J. Caldeira, “Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China” (2 volumes) (2), onde o leitor poderia aprofundar os motivos desta deslocação dos prelados.
revista-universal-lisbonense-n-o-22-1852-dois-chins-em-lisboa-ii

(1) D. João de França Castro e Moura nunca foi eleito bispo de Pequim.
d-joao-de-franca-e-catro-e-moura-18904-1868D. João de França Castro e Moura (1804-1868) nasceu no Porto e em 1823 partiu de Lisboa para o Convento de Rilhafoles da Congregação da Missão, preparando-se para as Missões do Oriente. Em 10 de Abril de 1825 partiu para Macau, ordenando-se sacerdote nas Filipinas em 1829. Celebrou a sua primeira Missa em Macau no princípio do ano de 1830. Em Agosto desse ano parte para a China primeiro para Fukien (福建) e depois Nanquim (南京). Nomeado Vigário geral em Nanquim. Devido ao falecimento do Bispo de Pequim, D. Caetano Pereira Pires, em 2 de Novembro de 1838, foi nomeado administrador apostólico da Diocese de Pequim. Devido estarem interrompidas as relações diplomáticas entre Portugal e Santa Sé, D. João esteve dezassete anos na China, não chegando a assumir o posto de Bispo de Pequim, proposto por Portugal e não aceite pela Santa Sé (o mesmo acontecendo com a nomeação do Bispo de Claudiópolis para Pequim pela Santa Sé e não aceite por Portugal, e com isso, a perda ao direito do Padroado Português na diocese de Pequim). D. João regressou a Macau em 14 de Julho de 1847 e em 1850 vai para Timor. Regressa a Portugal em Abril de 1853 e é nomeado em 27 de Fevereiro de 1862, Bispo do Porto.
http://biblioteca.cm-gondomar.pt/Topon%C3%ADmia.aspx
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_de_Fran%C3%A7a_Castro_e_Moura
Aconselho ainda a leitura de:
LIU Ruomei – Missionários portugueses e russos em Pequim no Século XIX in Administração n.º 95, vol. XXV, 2012-1.º, 259-278, disponível em:
file:///C:/Users/ASUS/Downloads/10-Missionarios_Liu%20Ruomei(259-278).pdf
(2) Carlos José Caldeira era primo de D. Jerónimo José da Mata (Bispo de Macau de 1845 a 1862) e amigo de D. João de França Castro e Moura bem como de D. João Maria de Amaral e Pimentel (Bispo de Macau nomeado em 1865 pela Santa Sé, mas não aceite por Portugal).
Ver mais informações em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/carlos-jose-caldeira/