Huma senhora de qualidade, recolhendo-se do campo para a capital, perdeo a sua bolsa com huma quantia de dinheiro assás considerável, e quando no dia seguinte tratava de mandar anunciar nos jornaes esta perda, prometendo huma boa recompensa a quem lhe restituísse a sua bolsa soube que n´hum jornal se tinha achado. Mandou logo ao sítio indicado; e d´ahi a pouco se lhe apresentou huma pobre viúva mãi de quatro filhos menores, hum dos quaes tinha achado a bolsa na estrada. Como a senhora lhe quisesse dar a recompensa promettida, ella a recusou disendo, que so tinha feito o seu dever restituindo o que lhe não pertencia. Porem pouco depois de sahir da salla, tornou a entrar, e preguntou com voz tímida e envergonhada, se os tres francos, que tinha pago pelo annuncio do jornal, devia ficar à sua conta, ou se em consciência os podia receber. Esta sinceridade da virtude acabou de encher de admiração todas as pessoas presentes. Fizerão-lhe novas ofertas; porem a honrada mulher não quis aceitar mais que os tres francos, que havia desembolsado. (1)

(1) «O Procurador dos Macaistas», Vol I, n.º 43 de 2 de Janeiro de 1845 pp. 336-337