Estando a preparar um texto para a postagem (1), encontrei este termo maquista “gavartá” num dos parágrafos da “Carta di Siára Pancha a Nhim Miquéla” (2)
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá un-há buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra que vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista , por isso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita injterá, eu achá graça; pôde crê? Padri que cusa pôde tem? coitado! Eu sinti sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di têra? Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, que cusa fazê di lugar pra esconde?” (3) (4)

“Gavartá” é um termo maquista que nunca ouvi; mas está referenciado em (5)

Gavartâ – esgaravatar, revolver
Gavartâ armário – revolver o armário.
“Gavartâ ôsso di bur-bur” – esmiuçar, pesquisar ou investigar em todos os pormenores.

Ouvia-se e falava-se muitas vezes, o termo “gafinhâ”, talvez com o mesmo sentido – esgravatar, procurar – (6) (7)

Gafinhâ – Procurar, esgaravatar, descobrir uma coisa difícil de achar
Úndi vôs já vai gafinhâ estung´a pintura?” – Onde foi que descobriu este quadro?
“Gafinhâ ôsso di bur-bur” – diz-se da pessoa que é muito bisbilhoteira, que faz muitas perguntas indiscretas. (bur-bur é uma variedade de peixe do mar, sem espinhas)

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/11/19/noticia-de-19-de-novembro-de-1864-visita-dos-voluntarios-artilheiros-de-hong-kong/
(2) «Carta di Siára Pancha a Nhim Miquéla» in «Ta Ssi Yang Kuo», Volume I, p. 324. (3)
(3) «Siára Pancha» relata as investigações que se fizeram em 1864 para achar a comunicação subterrânea que se dizia existir entre a fortaleza do Monte e a igreja dos jesuítas (S. Paulo).
(4) “Agora estão a escavar em São Paulo: acharam um buraco no Monte e outro no frontispício da igreja e as pessoas mais velhas dizem que é um caminho subterrâneo que ia da igreja para a fortaleza no tempo dos paulistas; por isso estão agora a escavar todo aquele mato, para descobrir o caminho. Toda a gente diz que há ali muito dinheiro que os jesuítas enterraram. Eu acho graça: consegues crer? O que é que os padres podem ter? Coitados. Acho que são histórias. Até mesmo o caminho, quem sabe? O que é que eles fariam com um caminho subterrâneo? Eles não eram hereges como os maçons, o que fariam do esconderijo”.
CARDOSO, Hugo C., HAGEMEIJER, Tjerk, ALEXANDRE, Nélia – Crioulos de Base Lexical Portuguesa in pp. 666-687.
http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/30870/1/Cardoso_Hagemeijer_Alexandre2015-Antologias_crioulos.pdf
(5) FERNANDES, Miguel Senna ; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2001
(6) Esgravatar (ou esgaravatar) – remexer com as unhas (a terra) (FIGUEIREDO, Cândido – Dicionário da Língua Portuguesa, Volume I, 1939)
(7) A professora Graciete Batalha refere também “gafinhar” com o sentido: “ fazer comichão ou cócegas com as unhas: « …lembrá que são algum animal que tá gafinhá com pê na sua mão ?» (Glossário do Dialecto Macaense)