SOLEDADE

Deleita-me a solidão desta choupana …
Mas dói-me ao recordar vozes amigas.
Sim, geme o verdelhão (2), – mas em país de exílio.
Conturba-me a cor da relva o coração, que começa.

Desce o sol, em um poente de cirros amarelos,
Passam nuvens sobre o mar, – que é mais ferrete.
Segunda lua … (3). E, na algarvia dos grasnidos,
Oiço os gansos (4) darem o alarme p´ra o regresso. (1)

(1) Autor: Pien-Kung, também conhecido por T´ingh-Shih.
(2) Nas notas que acompanham a poesia, refere como sendo «drilus sinensis» – género de besouro pertencente à família Elaterídae. Mas «verdelhão» em Portugal é um passarinho da família dos fringilíneos, excelente cantor.
(3) A segunda lua, correspondendo, em média aproximada, ao mês de Março, é a segunda do ano e da Primavera. A nona, correspondendo a Outubro, é a última do Outono.
(4) Os gansos bravos (Anser segetum) que vêm hibernar aos rios do sul, na zona tropical
Desenho de John Gould
http://www.art.com/products/p29690389918-sa-i8720063/john-gould-anser-segetum-bean-goose.htm

Tradução e notas retiradas de:
PESSANHA, Camilo – China (Estudos e traduções). Agência Geral das Colónias. Lisboa, 1944, 133 p
Ver anterior elegia chinesa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/02/poesia-vi-elegia-chinesa-de-camilo-pessanha/