Os dois maiores flagelos que vitimavam as povoações da Taipa e Coloane eram a pirataria e os incêndios.
O Comandante do Posto da Taipa, tenente João Severino da Silva Reis, (1) em ofício de 21-02-1877, comunicava o seguinte à Secretaria do Governo de Macau:
“No dia 18 do corrente (2) pelas 6 horas e 30 minutos da tarde, estando uma tancareira da Vila da Taipa, a queimar papeis debaixo d´uma barraca d´ola do estaleiro do chinês Achio, estes incendiaram a dita barraca, e como rajasse muito o vento N., rapidamente se comunicou o incendio a outro estaleiro próximo, continuando com grande intensidade, reduzindo a cinzas sessenta e uma lojas de differentes géneros, e muitas barracas pequenas, entrando n´estes numero treze, onde habitavam muitos mendigos.
Estão calculadas pelos chineses negociantes d´esta villa, em trinta e duas mil, quatrocentas e quarenta patacas, os prejuízos causados pelo fogo, e muito mais seriam se não fossem os prontos socorros vindo de Macau, pelo motivo da grande falta de meios indispensaveis, havendo apenas uma bomba em mau estado com alguns baldes e os chineses não se prestarem a trabalhar pa. debellarem o incendio , a ponto de me abandonarem nas deligencias que fiz para o extinguir, deixando-me cercado de fortes línguas de fogo, sem poder retirar a bomba, sendo unicamente coadjugado n´este serviço e em derrubar barracas pelos soldados n.º 8 da 2.ª João, 8 da 3.ª Domingos Pereira da Sa. , e os soldados n.º 40 da 1.ª J. M. Vilela, 2.ª 84 José Baptista, 4.ª 27 José Joaquim, e 64 Miguel da Espirito Santo , e o chinês logista Chau – si Sio que trabalhou com muita dedicação e coragem.
Às 7 horas vi com desgosto correr grande risco de perder a povoação, por isso fui à fortaleza repetir os signais, e voltei immediatamente chegando n´essa ocasião o alferes conductor Antonio da Cunha Junior com a companhia de limpeza e seu fiscal, baldes e suas bombas; logo depois desembarcou o alferes Oliveira com um piquete de 15 praças, que foi dividido em patrulhas, e só retiraram no dia seguinte.
Compareceu o Fr. Delegado ajudante de campo de S. Exa, alferes Freitas, Capitão dos Portos com uma força do mar, e marinhagem 1.º sargento Cardozo, e ordenanças do Quartel General mais tarde veio a lancha a vapor trazendo a seu bordo, o capitão com um reforço que não chegou a desembarcar….”
O Governador era então Carlos Eugénio Coreia da Silva, Visconde de Paço d´Arcos (1876-1879)
(1) Tenente João Severino da Silva Reis (comandante do posto militar da Taipa e Coloane de 15-05-1876 a 4-5-1879.
(2) Beatriz Basto da Silva aponta a data de 17-02-1877.
17 -02-1877 – Violento incêndio na Taipa, a partir de uma barraca de ola onde uma tancareira inadvertidamente pegou fogo. O vento Norte fez o resto. Apesar dos sinais lançados da Fortaleza para Macau, por duas vezes, houve demora, falta de ajuda local, nível de chineses, pelo que os prejuízos foram elevados, ardendo 60 lojas, e muitas barracas pequenas, incluindo habitações de mendigos. A bomba de incêndio, uma só e em mau estado, os baldes manuseados por um grupo de soldados extenuados até chegarem mais socorros, tudo contribuiu para o desastre ser tão alastrado”. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995).
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – Taipa e Coloane, 1981.